Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017
LIDO COM INTERESSE – 17

 

 

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Título: Contra o Fanatismo

Autor: Amos Oz

Tradutor: Henrique Tavares e Castro

Editores: ASA Editores; PÚBLICO, Comunicação Social

Edição: 1ª, Abril de 2007

 

 

Pequeno livro para meter num bolso sem deformar a vestimenta, consta de três conferências proferidas pelo Autor em 2002, tudo em 95 páginas de leitura muito fácil e agradável.

 

Nunca tinha ouvido falar deste escritor israelita mas uma coisa tenho desde já por certa: não me vão escapar os próximos livros dele com que me cruze.

 

Se me ponho a dissertar sobre o livro, corro o risco de produzir um texto mais longo que o original e com a diferença de que serei enfadonho onde o Autor é interessante, vago onde ele é preciso. Portanto, opto por algumas transcrições que me parecem elucidativas da qualidade do escritor.

 

Da contracapa extraio que Amos Oz nasceu em Jerusalém numa época em que a cidade estaria dilacerada pela guerra e que por isso mesmo observou em primeira mão as consequências nefastas do fanatismo. Neste livro oferece-nos uma visão única sobre a verdadeira natureza do fanatismo e propõe uma abordagem racional que permita resolver o conflito israelo-palestiniano.

 

Da natureza do fanatismo – conferência proferida em 23 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) Conheço bastantes não-fumadores que o queimariam vivo por acender um cigarro ao pé deles! Conheço muitos vegetarianos que o comeriam vivo por comer carne! Conheço pacifistas (…) desejosos de dispararem directamente à minha cabeça só por eu defender uma estratégia ligeiramente diferente da sua para conseguir a paz com os Palestinianos. (…) a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos. (…) o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, a adoração de indivíduos sedutores, podem muito bem constituir (…) formas disseminadas de fanatismo. (…) A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. (…) O poeta israelita Yehuda Amijai (…) afirma: «Onde temos razão não podem crescer flores.» (…) julgo ter inventado o remédio contra o fanatismo. O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi (…) um fanático com sentido de humor (…) Ter sentido de humor implica a capacidade de se rir de si próprio. (…) Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha (…) e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. (…)

 

Da necessidade de chegar a um compromisso e da sua natureza – conferência proferida em data e local não identificados

 

(…) O conflito israelo-palestiniano não é um filme do Faroeste selvagem. Não é uma luta entre o Bem e o Mal, mas antes (…) um choque entre quem tem razão e quem tem razão (…) (…) luto como um demónio pela vida e pela liberdade. Por nada mais. (…) isto me distingue do pacifista europeu normal que insiste em que o Mal supremo do mundo é a guerra. (…) a guerra é terrível se bem que o Mal supremo não seja a guerra mas a agressão. (…) quando percebemos a agressão, temos de lutar contra ela, venha de onde vier. Mas só pela vida e pela liberdade, não por territórios extra ou recursos extra. (…) Não acredito que o amor seja a virtude com a qual se resolvem os problemas internacionais. Precisamos de outras virtudes. (…) sentido de justiça, (…) senso comum, (…) imaginar o outro (…).

 

Do prazer de escrever e do compromisso – conferência proferida em 17 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) se eu sou de um país em que toda a gente discute sobre tudo, porque não poderei eu fazê-lo também? (…) (…) Israel não é um país nem uma nação. É uma feroz e vociferante colecção de discussões, um eterno seminário na via pública. (…) Existe um impulso anárquico, não só em Israel, mas julgo que também na herança cultural judaica. Por alguma razão os judeus nunca tiveram Papa (…) esta veia anárquica de discussão é a cruz da nossa civilização (…) (…) O contrário de comprometer-me a chegar a um acordo é fanatismo e morte. (…) E quando digo acordo não quero dizer capitulação (…) quero dizer procurar encontrar-se com o outro em algum ponto a metade do caminho. (…) Se há uma mensagem metapolítica nos meus romances (…) é a necessidade de optar pela vida rejeitando a morte, pela imperfeição da vida rejeitando as perfeições da morte gloriosa.

 

Lisboa, Maio de 2007

 

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 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:35
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Sábado, 28 de Janeiro de 2017
(IR)RACIONALIDADE TRUMPISTA

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O francês Nicolas Chauvin serviu ardorosamente nas campanhas napoleónicas e, depois da derrota final dos seu ídolo, em Waterloo, regressou a França graduado em sargento e inaugurou o culto do chauvinismo, ou seja, "França primeiro", "França é o melhor do mundo", fenómeno psicossocial semelhante ao sebastianismo português pós Alcácer Quibir. Todos conhecemos movimentos do mesmo cariz que ocorreram na Alemanha, Itália e Rússia, após derrotas catastróficas. Os chauvinismos são pois movimentos populistas compensatórios dos grandes traumas políticos que um qualquer país sofreu. Servem para manter ou reforçar o amor próprio patriótico, ingrediente essencial da nação: O que aconteceria a uma nação que deixasse de se amar a si própria? Lamentável é que para um povo se amar a si próprio seja necessário que "desame" os outros e desacredite a suas próprias elites. Todos estes populismos tem uma característica comum: o propósito de desmontar a elite estabelecida.


O surpreendente no trumpismo -
America great again; America first - é que se impôs sem derrota prévia. Os EUA não terão já a superioridade que detinham no final da II Guerra Mundial, não serão omnipotentes nem invulneráveis, mas continuam hegemónicos. Talvez isto tenha acontecido porque na América o populismo existe em latência desde a Fundação da União. Poderemos até admitir que a Revolução Americana foi um processo de apropriação por parte de uma elite de um impulso caótico genuinamente popular. Ao longo da História americana, os dois partidos souberam sequestrar as sucessivas explosões de sentimentos populares; desta feita porém foi uma pessoa isolada que captou o sentimento e sequestrou um Partido.


O populismo-trumpista actual resultaria da adição de uma frustração de cariz marcadamente socioeconómico. O Povo deu-se conta que as elites o ignorava e começou a organizar-se. Mas Trump não é povo, Está muito longe de ser outro Nicolas Chauvin ou outro Bandarra. Será talvez outro elitista a tentar domesticar um forte impulso popular que poderia gerar o caos.

 

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Luís Soares de Oliveira



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:31
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017
DONALD TRUMP – 3

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Islão como factor de risco

 

A eleição de Trump alerta também para o facto do preço da abertura da Europa ter sido proveitoso para as elites que participam do poder e prejudicial para a camada social desprotegida, com mais concorrência e mais negação da própria cultura em favor da árabe: esta dá-nos petróleo e imigrantes em troca da expansão da sua religião. Trump tocou também este ponto sensível ao considerar o Islão como “potencial de risco” sem diferenciar entre Islão como ordem social e muitos muçulmanos que a nível individual distinguem entre poder religioso e poder secular.

 

Temos uma classe política europeia cúmplice, crítica em relação ao cristianismo, fraudulenta no que toca ao futuro da juventude e implementadora do Islão por razões económicas e estratégicas. Enigmático na política da UE, que se preocupa tanto com a defesa dos valores ocidentais permanece o facto de nunca um governo ocidental ter defendido os perseguidos cristãos nos países islâmicos e por outro lado os políticos virem para a praça pública dizer que o Islão pertence à nação e que o sistema dos países islâmicos e o terrorismo islâmico não têm nada a ver com o Islão. Em vez de se procurarem medidas para resolver os problemas de maneira equilibrada e bilateral, assiste-se também aqui a uma política semelhante à seguida nas dívidas soberanas que apenas se juntam e aumentam à custa da insegurança das gerações futuras. Nos USA há 5 milhões de muçulmanos, na Alemanha vivem 4,02 milhões.

 

Na hora dos mal comportados

 

Trump, tal como Costa em Portugal, conseguiu assumir ao governo embora o partido adversário tenha reunido mais votos (Clinton 61 milhões e Trump 60).

 

Nestas eleições reúnem-se os mal comportados: Trump que não respeita a classe dominante nem as minorias; Obama que vai contra a tradição fazendo um discurso de despedida contra o da tomada de posse de Trump e dirigido ao eleitorado dos democratas; na rua, vencidos revoltam-se contra vencedores como se não tivesse havido eleições; tudo isto parece dar vida à democracia que não quer ver todos os cidadãos reunidos debaixo das suas saias: ela vive da disputa de valores e interesses. Trump poder-se-ia vingar em parte do “estabelecimento político” que, há cinco anos, através de Obama, o humilhou publicamente. Tal atitude prejudicaria o restabelecimento da unidade nacional. Naturalmente Trump não governa sozinho; ele tem a seu lado instituições democráticas que o não deixam isolar-se.

 

Penso que o que está aqui em jogo é a volta dos nacionalismos e correspondentes proteccionismos dado também a política europeia das portas abertas ter falhado e ser um perigo para um continente dividido que não tem os mesmos pressupostos históricos nem a independência política que podem ter os EUA. Penso que a situação da esquerda e da direita é tão novelada em torno de um polo e do outro que, de momento, domina demasiadamente o medo e um espírito político carnavalesco.

 

Trump quer governar o mundo como se este pudesse ser governado tal como se gere uma empresa; neste sentido parece equacionar o mundo em termos de cálculo de custo e de utilidade (lucro). Por outro lado personaliza e privatiza a política conotando-a mais de povo. A um extremo seguido até agora segue-se talvez um outro, num movimento pendular de épocas, ideologias e tempos.

 

No reino das projecções e das sombras

 

A indignação exagerada ou uma fixação na crítica contra Trump ou contra outra personalidade pode ser indício de carácter fraco e correr o perigo de procurar e combater inconscientemente fora de si os defeitos que traz dentro de si e consequentemente vê-os (projecta-os) como sombras em Trump ou em alguém que odeia. Muitas das pessoas que odeiam deixam-se reduzir a meras portadoras de sombras. Exigem que os outros sejam exemplos de luz, portadores da luz que corresponde à sombra que não reconhecem em si mesmos. A América sempre serviu de espaço da sombra para a esquerda europeia e para os nacionalistas.

 

Este é um conceito de C.G. Jung que tudo o que não aceitamos (vícios) em nós, o oprimimos e banimos para as sombras que são o nosso inconsciente. Então inquieta-nos o que não queremos admitir em nós para o combatermos nos outros. Quando nos irritamos muito com algum defeito nos outros isso é um sinal de que esse defeito é algo que faz parte da nossa sombra invisível (combatemos fora os próprios defeitos oprimidos!).

 

No sentido do pensar positivo americano

 

Uma vantagem da América e da Rússia sobre a Europa na qualidade de povo e nação vem do facto de darem importância à religião cristã como factor de substrato nacional e de identificação. Trump é um aviso à esquerda materialista dominante na sociedade para que se torne mais humilde e não tão determinante e poder-se-ia tornar também num apelo aos americanos de cima para que se comportem de modo responsável para com os de baixo.

 

Concedamos-lhe 100 dias para governar e então saberemos mais! De resto, até agora, pelo que pude observar, Trump tem a vantagem de ser um homem igual a si mesmo! Quanto ao resto, os factos o dirão.

 

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 António da Cunha Duarte Justo

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:15
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017
DONALD TRUMP - 2

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Trump quer poupar na Nato para investir nas infraestruturas

 

Trump quer restringir a política externa e o planeamento militar e para isso reduzir os lugares de inserção  e operações militares. Os EUA gastam com a defesa 600 mil milhões de dólares por ano (tanto como a China, a Rússia, o Reino Unido e a França juntos) e têm um exército com 1,5 milhões de empregados. A tesoura entre ricos e pobres é maior que noutros países industriais. O topo da população americana (0,1%) ganha em média seis milhões de euros por ano, enquanto 90% da população ganha em média apenas 33.000 dólares por ano. A expectativa de vida dos norte-americanos desceu há dois anos de 78,9 anos para 78,8. Vinte e nove milhões de norte-americanos não têm seguro de saúde; as infraestruturas do estado, estradas e electricidade, são piores que as europeias.

 

Enquanto os gastos com a NATO em 2016 corresponderam a 3,61% do PIB dos EUA, na Alemanha corresponderam a 1,19%, na França a 1,78% e no Reino Unido a 2,21%. O objectivo da NATO combinado em 2002 para os seus membros tinha sido 2%.

 

Só a aragem de Trump talvez obrigue a Europa a unir-se e a estender a mão à Rússia, seu natural e vocacionado vizinho, se não quiser perder-se em gastos imensos de armamento.

 

Uma elite do poder renitente

 

O medo do terror dependurado no pescoço americano (desde11.11.2001) legitima o governo a tornar-se mais autoritário. Na Turquia que, se encontra perto e dentro da Europa, o fascismo e a ditadura afirmam-se sem manifestações públicas nem medidas da UE que considerem isso perigoso embora 60% dos turcos na Alemanha apoiem Erdogan.

 

O poder estabelecido treme já só em ouvir o soar da trompeta de Trump. Há muito a perder de um lado e talvez algo a ganhar do outro. Em democracia os interesses revezam-se no poder e, como a sociedade está dividida, reveza-se também na dor. Muitos cidadãos não se se dão bem com a bipolaridade da realidade colocando a verdade num só polo esquecendo que partido é parte e, como tal, representa apenas uma parte da verdade e dos interesses populacionais.

 

Independentemente dos Erros de Trump, é triste o facto de uma Europa com uma consciência política semelhante à das elites do partido democrático americano não se aproveitar da lição da eleição de Trump para se virar para o povo e analisar o que realmente faz de mal.

 

Do nosso lado temos a soberana dívida, o Brexit que questiona a UE e a que se soma uma taxa de desmprego nos paíse europeus horrenda de desemprego (de 23,1% a 7,6%: média europeia 9,8%),  um capitalismo feroz que tomou conta da política e a crise dos refugiados.

 

Uma Europa aberta mas de patriotismo envergonhado e pródiga em relação ao esbanjamento de interesses económicos arma-se em tribunal da sociedade americana dividida que agora vê ganhar a parte instável em Trump. Em vez de análise da situação ouve-se por todo o lado uma indignação arrogante de uma opinião pública massificada que se arroga o direito do monopólio da interpretação, como se em democracia só tivesse uma facção razão e a verdade fosse determinada pelo barulho da rua ou dos Média. Trump não gosta dos jornalistas e os jornalistas não gostam dele. O poeta e dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956) alertava para a cegueira do quotidiano e da opinião pública publicada dizendo: ”Não aceitem o habitual como coisa natural, pois em tempos de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar”.

 

Talvez o exagero de Trump ajude a Europa a mais realismo e, com o tempo, a menos ideologia política de modo a poder voltar à Europa a política económica social de mercado e o respeito pelos interesses da sua população desprotegida ou mantida à mão da esmola do Estado. Esta, estruturalmente desdignificada e desonrada, cada vez se sente mais como peso morto num Estado sem sol para ela e que lhe não oferece perspectivas.

 

(continua)

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:41
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DONALD TRUMP - 1

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UM INCÓMODO PARA A ESQUERDA E

UMA INSEGURANÇA PARA A DIREITA

 

Trump mete medo às elites do poder favorecidas pela unidade de opinião

 

São mais as vozes que as nozes! O discurso de Trump abriu-nos uma panorâmica a preto e branco! Assistimos ao irromper de uma era histórica da privatização e emocionalização da política e ao bulevardismo do poder mediático.

 

O que está em jogo?

 

Trump manifestou-se contra as elites que vivem encostadas ao Estado, quer iniciar o proteccionismo económico e assim opor-se principalmente à concorrência chinesa, não pretende a guerra fria com a Rússia, quer responsabilizar mais os membros da Nato, quer destruir as bases do “Estado Islâmico „na Síria e no Iraque, põe em questão a causa das alterações climáticas, é contra a imigração ilegal, considera o Islão como “potencial de risco” querendo proibir a imigração de muçulmanos, é também contra o aborto e contra o casamento homossexual que hoje são legais nos EUA.

 

De momento encontram-se dois poderes em luta na opinião pública: a dos que defendem os interesses do estabelecimento político e a dos que alegam a defesa do povo mais precário ou em derrocada: num extremo os que vivem melhor da ideologia e no outro os que vivem pior do trabalho.

 

Contra uma cultura da abertura que favorece as culturas fechadas

 

Os EUA são de todos: de republicanos e de democratas; a Europa é de todos: de conservadores e de progressistas, de religiosos e ateus; neste contexto é óbvia a moderação e o equilíbrio e o reconhecimento da intercultura provocada pela imigração que vai mudando o rosto americano.

 

O trunfo Trump assusta principalmente as elites que vivem em torno do poder estabelecido habituado à unidade de opinião pública de timbre vermelho e numa política do continue-se assim! Uma grande parte da população na América e na Europa não têm nada a perder, pelo que, qualquer experimentação no palco da política não a levará a pior.

 

Os apoiantes de Trump, tal como parte do povo europeu, contesta a prática política de uma cultura aberta desenfreada que tem beneficiado a afirmação das culturas fechadas (privilegiando mesmo a formação de guetos com mais força de organização e afirmação do que o povo precário nativo) e consequentemente o ressurgir do proteccionismo e do nacionalismo. A Europa tem fomentado a abertura da própria cultura e a formação de guetos cerrados no seu meio: uma contradição!

 

Esta onda irrita de sobremaneira uma certa elite do poder europeu que tinha apostado na desestabilização económica da classe média e da própria cultura em favor da globalização e do rejuvenescimento social através da imigração e da afirmação do islão, mais adequado à execução da sua ideologia e interesses.

 

Compromisso: Primeiro América e os americanos

 

O aparecimento súbito de um homem representante de valores machistas a dizer “Primeiro América e os americanosdesperta esperanças naquela parte da população que se sente há muito como alma penada da nação e como tal a sapata de um regime político que a leva a julgar-se estrangeira no próprio país. Segundo a revista Forbes nos últimos quarenta anos os salários dos gestores cresceu mil por cento e o dos trabalhadores onze por cento.

 

A vitalidade das nações pode medir-se pelo crescimento sustentável do seu pib (produto interno bruto). O crescimento do pib previsto para este ano nos USA é de 1,5% e na China é de 6,6 %. Isto mete medo a Trum que quer manter de maneira sustentável a economia norte-americana à frente do mundo sem pensar que os outros países também trabalham no seu sentido. Em 2016 o pib americano foi de 17,9 biliões de dólares e o PIB da China foi de 10,9 biliões.

 

Nesta perspectiva a América não é Europa e a Nato também não; esta mensagem de Trump, aliada à intenção de proteccionismo económico, mete medo a uma UE habituada a viver encostada aos EUA e que se abriu tanto em nome do capitalismo e do socialismo liberal que se encontra mergulhada em problemas sem fim.

 

O proteccionismo da economia nacional e a introdução de direitos comerciais aduaneiros significaria  o fim da globalização e prejudicaria sobretudo nações exportadoras como a Alemanha que são beneficiadas pela globalização.

 

(continua)

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:25
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2016
2017 – O ANO DE TODOS OS RISCOS

 

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Em 2017, imperando a demagogia, a incerteza, temores reais ou infundados, resultados de referendos vários, eleições nos membros fundadores da euro-zona (e da UE), uma América em redefinição, um Médio Oriente instável e um vento árduo que sopra nas planícies de Leste, o que é que ainda sobra?

 

Em suma, 2017 vai ser, muito provavelmente, um ano para esquecer, em termos de êxitos ou, quiçá, pelo contrário, para recordar, passe o paradoxo, em termos de insucessos. Por um lado, a demagogia e o populismo, no sentido latino-americano do termo, crescem um pouco por toda a parte como se viu, recentemente, nas eleições austríacas e no referendo italiano, a meu ver e salvo melhor opinião, dos dois lados da barricada. Por outro, com eleições, por ora incertas, nos 4 Estados da Eurozona e fundadores da UE (França, Itália, Holanda e Alemanha), em que tudo pode acontecer, com um Brexit, ainda mal delineado, o destino da Europa pode estar traçado, ou, talvez, mesmo, riscado. Por outro, ainda, com a imprevisibilidade real do futuro rumo político norte-americano, com um Magrebe e Médio Oriente instáveis, em que os refugiados pesam cada vez mais nas sociedades europeias, para já não falar nos ventos temíveis que sopram de Leste, vamos entrar num ano de mil ameaças.

 

Via referendária, via suicidária?   

 

A via referendária, exemplo tido por perfeito da democracia directa fazendo jus ao estafado lema: “o Povo é quem mais ordena,” foi a opção (suicidária, acrescentaria eu) escolhida pelo Reino Unido e pela Itália para resolver problemas bicudos que o Povão não tem, à partida, capacidade para compreender e menos ainda de solucionar. Não, não estamos a passar um atestado de menoridade ao eleitorado, mas são questões de tal forma complexas, que não se desfazem com um simples “sim” ou “não”. São verdadeiros nós górdios à espera da espada de Alexandre Magno. Todavia foi tudo posto em jogo por Cameron e por Renzi, com demagogia q.b.  (sim, com demagogia, sublinho o termo). Vou simplificar de modo grosseiro: existem estrangeiros oriundos da UE a mais no RU, pois sai-se da UE e corre-se com eles – problema resolvido; o comércio com o continente logo se vê. É o capítulo seguinte. Em Itália, o Senado e as regiões têm demasiado poder dêem-se mais poderes à Câmara baixa e ao Governo central e acaba-se com essa história. Fazer compreender ao eleitorado, apesar de algo rudes e incompletas, estas subtilezas políticas, cuja complexidade é manifesta, obrigam-no ou a abster-se ou a votar, não no que está realmente em causa, mas num voto-sanção ou num voto-apoio em quem está, quer estar ou se aproxima do Poder.

 

Eleições: o establishment, o anti-establishment e a possível implosão

 

Depois temos um calendário eleitoral que juntamente com a via referendária terá a capacidade real de fazer implodir a UE, eleições em 4 estados-membros fundadores da União, com resultados muito incertos: Alemanha, França, Holanda e Itália (aqui em função do referendo perdido por Renzi).

 

Mas vamos lá por partes, interessa analisar um pouco o porquê das coisas:

Antes do mais, as elites europeias, à semelhança, aliás, das norte-americanas, não escutaram (nem escutam) as mensagens dos respectivos eleitorados, o mesmo se aplica aos media convencionais de consumo corrente (TV, jornais, rádio) que se dessintonizaram do povo comum, das suas aspirações e anseios e se identificaram com as elites, à esquerda e à direita, ou se se quiser ao centro-direita e ao centro esquerda – os chamados “centrões”. Todavia, o homem da rua não se sente representado nas elites, nem nos “mass media”. Donald Trump parece ter sido o balde de água fria que fez acordar alguns, por ora, nem todos, nos EUA. O recurso preferencial às redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, You Tube, blogs, jornais digitais, etc.) com notícias verdadeiras ou falsas, reais ou inventadas, começam a ser os meios preferidos de comunicação de massas que envolvem riscos, mas em que se chuta para a frente e os objectivos são atingidos. Desde há muito que o Estado Islâmico se apercebeu disso. O Ocidente, como é hábito, nestas coisas, acorda tarde e a más horas.  

 

Ninguém se apercebeu que a globalização nunca foi uma situação “win-win”, como nos quiseram sempre vender. Com efeito, abriu mercados e trouxe benefícios a alguns países do 3º Mundo e a outros do 1º, mas, sobretudo, às elites, ao tal 1% de ricos. Rezam as estatísticas que, por exemplo, nos EUA, houve quebras salariais nas camadas mais pobres da ordem dos 90%. As deslocalizações são um facto indesmentível e, hoje, irreversível. Quando a indústria automóvel abandona Flint, Michigan para se instalar no México; ou os computadores concebidos em Silicon Valley mas “made in China” invadem os mercados; quando os pequenos agricultores se sentem ameaçados pelas produções mexicanas, há algo que está mal. Argumenta-se, optimisticamente, com o baixo nível de desemprego. Certo. Mas uma coisa era um trabalhador da indústria siderúrgica da Pennsylvania ganhar USD 60.000/ano e, depois da empresa fechar, ir trabalhar como caixa no supermercado “Walmart” e levar para casa 20.000, se é que lá chega.

 

Nesta matéria, a velha Europa corre o risco de colapsar a não ser que a riqueza seja distribuída mais equitativamente (vejam-se as desigualdades de rendimento per capita, por exemplo, no RU, em Espanha e em Portugal) e que os trabalhadores beneficiem de algum tipo de salvaguarda que os proteja dos efeitos colaterais da globalização. Caso contrário, toda a classe política começa, de uma forma ou de outra, a reivindicar o proteccionismo.   

 

Se o sistema é isto, se o “establishment” político-partidário nos conduz a estas situações como não ser anti-sistema, como não ser anti-establishment? 

 

A Itália como exemplo, mas não só

 

A situação em Itália merece um momento de atenção. Por um lado, trata-se de uma revolta contra a UE, máxime contra a Alemanha, em que Roma quer uma devolução de poderes por parte de Bruxelas e diz claramente não ao “diktat” financeiro de Berlim. Por outro lado, ao seguir presumivelmente para eleições, a Itália pode ver-se num imbróglio monumental com as formações anti-sistema a puxarem cada uma para o seu lado (o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo, a Forza Itália, a Lega Nord, etc.). Uma coisa é certa: o sentimento nacionalista ou ultra-nacionalista veio para ficar. Se chegará ou não ao Poder é o que vamos ver.

 

Na Áustria, o candidato da ultra-direita (FPÖ), Norbert Hofer, atinge os 46,4% contra 53,6% do vencedor, Alexander van der Bellen. O sinal é claro. Quase metade do eleitorado vota nas forças anti-sistema e contra as políticas do centrão local.

 

Os países do grupo de Visegrado (Chéquia, Eslováquia, Hungria e Polónia) situam-se todos eles à direita do espectro político, reivindicando invariavelmente posições nacionalistas, quando não claramente anti-UE, desde Viktor Órban na Hungria ao Partido Lei e Justiça na Polónia.

 

E a França, quase sem mácula, a quem, entre outras coisas, se perdoam os défices e as múltiplas transigências aos exageros dos extremistas islâmicos que residem no hexágono? Penderá para o lado de Fillon, de Marine Le Pen, de Manuel Valls ou de quem quer que represente a esquerda? O medo do salto no desconhecido vai fazê-la de novo apostar num qualquer centrão? Quem sabe?

 

E a Alemanha? Estará com Merkel e recomenda-se? Com as portas abertas a todo o tipo de refugiados, quer se quadrem nas definições legais, quer fora delas, ou seja meros imigrantes económicos que se acolhem de braços abertos, sem hesitações, nem perguntas? E será que os recém-chegados se adaptam ou será que a Alemanha e os alemães têm de se adaptar a quem chega? Desgermaniza-se? A tanto se obriga Berlim ao multiculturalismo e ao “politicamente correcto”?

 

Do Médio Oriente instável à Rússia imprevisível

 

 2017, verá, presumivelmente, o fim do Estado Islâmico, cuja queda não será tão rápida como previam os optimistas, mas já anunciada e, para todos os efeitos, consistente. Resta saber se a erradicação dos núcleos cancerosos, no Médio Oriente e no Norte de África, extirparão de vez a doença? Que ninguém se iluda, o problema são as metásteses e estas já chegam a toda a parte.

 

         Temos, porém, de estar atentos a outros desenvolvimentos. Com a morte de Bouteflika (mais próxima do que parece), a implosão da Argélia é dada como quase certa (excepto se os militares intervierem activamente no processo como no Egipto) e a implantação do jihadismo mais extremista pode tornar-se uma realidade tangível. A consequente guerra civil e os milhões (repito, milhões) de refugiados que a Europa irá acolher, consistirá num verdadeiro tsunami de que a versão síria mais não terá sido senão uma mera turbulência ou agitação marítima de equinócio.

 

         Entretanto, a Rússia está no jogo do “esperar para ver” e, se tem alguns interesses no Médio Oriente, tem outros muito mais relevantes no quadro europeu, sobretudo no Leste e no Báltico. Para já, aguarda sinais da nova administração estadunidense e, igualmente, dos europeus, sobretudo das novas situações criadas ou a criar. O que é que vai fazer? Por ora, é cedo para dizer, mas que vai flectir alguns músculos, pois com certeza que vai.

 

         Apesar de tudo, defendamos princípios

 

O “establishment” esquerdista e liberal (no sentido norte-americano do termo), preconizando a abertura de fronteiras, a imigração irrestrita e a abolição gradual dos estados-nações, apesar da sua popularidade ter-se vindo a desvanecer ao longo dos anos e, hoje, mais do que nunca na mó de baixo, tem vindo a dominar o mundo ocidental durante décadas, designadamente através dos média que lhe são afectos e da tentativa de universalização do “politicamente correcto”, o “newspeak” de que falava Orwell em “1984”, que aí está a demonstrar-nos que o marxismo tem também uma tradução cultural e que pode impor, com subtileza, uma ditadura pela palavra, escrita e falada – leia-se: uma ameaça clara à liberdade. Mas, não, neste caso, não passarão!  

 

 

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Francisco Henriques da Silva



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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016
RETIRADA A TUTELA AMERICANA SOBRE A EUROPA

 

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A eleição de Trump marca o fim da época pós-guerra

 

O antigo embaixador dos USA na Alemanha, John Kornblum, confessou na imprensa alemã: “A tutela americana sobre a Europa foi retirada para sempre … A eleição de Trump marca o fim do mundo pós-guerra". “Agora os europeus talvez encontrem uma vontade reforçada para assumir responsabilidade”. Nesta perspectiva, o compromisso social europeu com a sua população correrá grande risco e o radicalismo aumentará.

 

As responsabilidades das potências estratégias mundiais em relação ao globo serão redistribuídas. A Europa terá de assumir a sua defesa e de se preocupar mais com a África enquanto os USA se preocuparão mais com eles e com a Ásia. Talvez a Europa central, na perspectiva económica e estratégica, tenha de olhar mais para a Rússia e menos para a Turquia. Naturalmente não agradaria nada aos americanos se a tecnologia alemã e as matérias-primas russas cooperassem, porque deste modo se fortaleceriam mutuamente. A Alemanha tem de ter países para onde exportar, doutro modo, uma Alemanha instável tornaria a Europa ainda mais insegura.

 

Na sequência da eleição de Trump, Estados e empresas multinacionais vêem-se obrigados a reunir-se. A 14.11, os Ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiro da EU reuniram-se e declararam terem de assumir novas responsabilidades. Determinaram para já a criação de um Centro para a Liderança das operações civis e militares na UE a efectuar em 2017. Doutro modo os USA continuarão a ter como parceiros os diferentes países europeus não se sentindo motivados a sobrecarregar o próprio orçamento militar para defender a Europa. A Nato foi abusada e instrumentalizada pela Turquia na sua guerra contra os curdos, dando apoio clandestino a grupos sunitas terroristas e afirma-se cada vez mais como um estado fascista mas a Europa é demasiado fraca para poder reagir adequadamente.

 

As consequências da nova política americana já se fazem sentir numa Europa tradicionalmente instável (com excepção do período que foi do fim da segunda guerra mundial até à queda da União Soviética). Na sequência da nova onda, os países membros da UE passarão a não permitir tanta intromissão de Bruxelas nos assuntos nacionais mas também não podem permitir que um só governo, o de Ângela Merkel queira impor a todos os membros da UE a sua política de boas-vindas aos refugiados. A UE, que deveria ser unida, encontra-se em contradição ao ser condicionada pela Alemanha e por outro lado, também os políticos dos países membros terem de fazer vista grossa ao que se passa em Bruxelas, para poderem sobreviver. Os políticos portugueses poderão permitir-se ainda por algum tempo manter a sua intensa solidariedade com Bruxelas porque nas elites governantes portuguesas há uma forte convicção europeia e em Portugal o povo não ter tanto a dizer em política como noutros países. Um outro factor de desestabilização de Bruxelas será também as relações especiais dos USA com o Reino Unido, Polónia, Roménia, Grécia e em parte com Portugal.

 

A crise dos refugiados na UE levou ao Reino Unido a enveredar caminhos mais nacionalistas. A União Europeia cada vez se torna mais fraca como se vê na sua dependência em relação à Turquia. Sintoma da fraqueza da UE está no facto de se atrever a chamar a atenção dos USA para o respeito dos direitos humanos e deixar o fascismo crescer na Turquia. Tal como aconteceu com o Brexit torna-se difícil para muitos aceitar a realidade dos factos. A pseudo-religião do politicamente correcto da nossa era tem dificuldade em aceitar o contratempo que a faz sofrer e, por isso, não deixa ser objectiva.

 

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António da Cunha Duarte Justo



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Domingo, 13 de Novembro de 2016
O DESCONTENTAMENTO BRADA AOS CÉUS NUM FIRMAMENTO NUBLADO

 

VIA DOLOROSA.JPG

 

A IDADE DIGITAL INICIA A ERA PÓS-FÁTICA

 

O SENTIMENTO É QUEM MAIS ORDENA

 

Coisas da Democracia: Trump ganha e Democratas queixam-se da Democracia

 

O dia das eleições é aquele em que todos os cidadãos são iguais. No dia seguinte volta-se à divisão dos grupos de interesses do costume, na disputa do terreno público: os que ganharam e os que se sentem com direito a ganhar. Por vezes é custoso aceitar que em democracia quem ganha tem razão, embora nela a verdade seja sistémica, encontrando-se repartida e disseminada por diferentes grupos de interesse.

 

Uma sociedade de franco-atiradores abandonada a si mesma

 

O estado da nossa democracia é cada vez mais amedrontador numa sociedade provocada que provoca também; as pessoas cada vez se sentem mais desamparadas e sem fala não se sentindo em casa na própria terra. A desilusão é tanta que, como na América, as pessoas, sem alternativas válidas, já chegam a agir segundo o mote: “mal por mal Marquês de Pombal”. Nos EUA o povo elegeu Donald Trump, não por causa das suas expressões sexistas e xenófobas mas porque o sofrimento e a falta de esperança que sente é tal que os levou a elegê-lo apesar disso..

 

Não chega rejeitar o discurso do medo, do ódio, da intolerância e da cisão; é preciso iniciar-se uma cultura que não se fique pelo discutir das causas que deram razão a Trump mas que provoque a mudança de atitude e de agir da classe política dominante.

 

Elites arrogantes incapazes de notar os sinais dos tempos

 

Os comentadores do mundo já não entendem o que se passa; por isso preferem ficar-se pela coutada que os favorece. No discurso público é comum a arrogância dos que, na falta de argumentos, explicam os fenómenos declarando de estúpidos e populistas quem representa interesses que não os seus. Os eleitores de Trump são declarados bobos e parvos como se não soubessem o que fazem e o que querem nem tivessem direito a defender os seus interesses e a Democracia também não lhes pertencesse. Trump mobilizou os sentimentos dos que geralmente se calam porque não têm oportunidade perante os grupos de interesses da arena política; os Mídias usaram a mesma técnica de Trump ao apelarem aos sentimentos negativos das populações contra Trump em vez de analisarem o que estava por trás da sua posição em relação ao globalismo e à responsabilidade mundial a assumir pela Europa. Não souberam ver que Trump é o símbolo de uma nova época que se anuncia e como tal trará consequências positivas e negativas decisivas para a Europa e para um mundo mais complicado e difícil. Assistimos à sabotagem da opinião pública e, de repente, o povo espectador sente-se desenganado por uma realidade não propagada e como tal não esperada.

 

Chega-se a ter a impressão que os usuários do sistema político e económico europeu, habituados a viver reconfortados, sem grandes perturbações sob o mandato do pensar politicamente correcto da esquerda, se aproveitam de Trump para fomentar os seus preconceitos contra os americanos ou para indirectamente atacarem uma democracia não forjada à sua imagem e semelhança. O mesmo já se viu na discussão sobre o Brexit! Em vez de analisarem as causas do terremoto americano de que enfermam também, as elites europeias, optam por criticar e difamar o eleito e quem o elegeu e com a sua falta de discernimento serrotam o próprio galho em que se encontram. A própria presunção leva-os a difamar, como inimigos da democracia, outros grupos de interesse surgentes que se organizam, como eles, democraticamente. Preferem falar da maléfica atitude de demagogos do que da própria má vida e da corrupção que é o húmus da demagogia. Esquecem que quando apontam um dedo para os outros têm pelo menos três a apontar para si.

 

Na era digital o sentimento popular é quem mais ordena

 

O maculado Trump inicia a derrocada do sistema estabelecido e é um aviso à corrupção das elites dos países da União Europeia que nadam em ideologias e em dinheiro e cada vez deixam mais população a nadar no charco.

 

Trump é realmente um fenómeno, até qui inédito em democracias consideradas adultas, dado ele ser expressão da nova idade digital que inicia a era pós-fática. Nesta era, como podemos verificar nos resultados das eleições e na opinião pública europeia, o sentimento é quem mais ordena! O sinal de que há uma desfasamento e até contradição entre os interesses ideológicos e económicos estabelecidos e os do sentir do tempo popular, deduz-se também do facto das empresas das novas tecnologias terem apoiado a campanha de Clinton com 35 milhões de Dólares e a de Trump com 300 mil Dólares!... A mesma contradição parece haver numa política até aqui considerada racional afirmada contra as razões de uma política também sentimental.

 

A discussão pública parece querer ignorar que vivemos numa sociedade em luta e repartida entre os diferentes grupos de interesses, vivemos numa sociedade formada de grupos de interesse a viver uns dos outros e de uns contra os outros; até agora temos vivido em democracias de pensamento bem penteado mas bem divididas entre os que vivem ao sol e os que vivem na sombra: os lá de cima e os cá de baixo. No meio de tanta poeira no ar os beneficiados do sistema nem notam que a democracia já legitima as barbaridades (ordenados horrendos de banqueiros, futebolistas, benefícios vitalícios de políticos, etc., se comparados com os salários mínimos e depois vêm falar ao povo de moral, de justiça e de decência) que condena em regimes autocráticos e antidemocráticos. Desta vez o povo perdedor do sistema, ao ir às urnas, demonstrou que o que se sente também faz parte da realidade. Os sentimentos criaram um facto: Trump como presidente, um homem que pensa através do corpo e da nação e como tal não tão puro como o quereriam formatadores elitistas que só conhecem a realidade filtrada pelos interesses do seu pensamento, que não parece comportar o conhecimento da dinâmica de causas e efeitos; querem tudo menos reformar o próprio sistema; tocar nele significaria autenticidade e a própria renúncia a privilégios, que se tornaram em verdadeiros atentados à democracia e ao bem-comum (em nada inferiores aos das elites do passado e que têm a descaramento de criticar).

 

Actores sem remorsos produzidos por uma elite sem vergonha

 

Trump ergueu-se, da parte sombria, num horizonte dominado por raios e coriscos, e confessou querer defender os interesses dos USA, os interesses dos conservadores, os interesses individuais, os interesses de grupos a viver na precaridade. Usou de uma retórica agressiva e discriminadora mostrou, sobretudo a sua face narcisista imprevisível e deste modo dividiu emocionalmente uma nação politicamente já dividida. Trump não sentia remorsos de consciência ao revelar-se como discriminador de grupos porque se sabe num regime que discrimina mas se branqueia e legitima atrás da maioria. Como pessoa entendida em questões de poder afirmou querer defender os interesses da América e nesse sentido querer domar a globalização e analisar os acordos internacionais para ver em que medida servem a América. Conseguiu juntar a si o grupo dos perdedores de uma globalização que não respeita a pessoa, a cultura nem a nação. Tocou o nervo da maioria da população insatisfeita do mundo ocidental. Tem duas coisas que o não ajudarão: o seu caracter impetuoso e o partido republicano dividido em dois. (Se não se acautela ainda o matam antes de tomar posse como presidente. Tanto é o medo de ideologias e economias que se sentem ameaçadas com o pouco que disse de relevância política.

 

O descontentamento brada aos céus num firmamento nublado

 

Os mantedores do sistema dominante encontram-se desapontados. Parecem ignorar que na luta não se limpam armas e menos ainda na era digital e que depois da luta tudo vai ao duche e se apresenta asseado. Trump usou na sua retórica os princípio que parecem orientar grande parte da política estabelecida: os fins justificam os meios; na luta vale tudo, só depois vêm os argumentos! Desta vez a maioria silenciosa teve uma efusão de alegria perturbadora das minorias detentoras do sistema. No dicionário da classe estabelecida só parece haver lugar para a linguagem erudita, sem lugar para a linguagem sentimental do calão ou da linguagem considerada populista. Trump, soube verbalizar o descontentamento de muitos que com a globalização se sentem expropriados embora na América só haja cinco milhões de desempregados, o que não é nada em comparação com o desemprego na Europa.

 

Independentemente dos defeitos de Trump, ele tornou-se no contestador da corrupção do regime político que nos governa. Depois de uma campanha dolorosa fez-se sentir a voz da maioria silenciosa e daquela parte da população que também na Europa não se atreve a manifestar a opinião para não se expor e não ser tachada de populista ou para não ser prejudicada na carreira. A arrogância do pensamento das elites europeias parece não deixar espaço para poder compreender o aviso americano ao quererem reduzi-lo a uma questão de populismo, a uma onda de emoções que passam e se expressam num homem desvairado. Esta arrogância cega de representantes do sistema não deixa sentir os novos ventos que correm e, por isso, persistem em querer manter o espírito na sua garrafa, e também o monopólio da interpretação que não ouve o clamor interno nem o medo dos pequenos cidadãos; estão mais preocupados nos deslizes de Trump do que nos motivos dos suspensos do sistema que o elegeram. Corrijam-se os erros do sistema para pessoas como Trump se tornarem supérfluas. Em Trump, um homem que vem das elites, assistimos a uma verdadeira revolução contra o rígido Estabelecimento das elites e as ideologias que representam. O desespero ganhou largas: todos falam dele mas dizem que não o conhecem. Depois das elicoes Trump já disse: “Agiremos de forma justa com todos”; a justiça depende porém da mão dos mais fortes.

 

Porque é que a Europa tem medo de Donald Trump

 

A Europa encontra-se preocupada com a Eleição de Trump porque este não é fruto dos quadros da política; porque terá fraquezas de caracter usando palavras sexistas, xenófobas e reage à crítica com agressividade; porque quer travar o globalismo no sentido do nacionalismo, quer permitir métodos de tortura contra terroristas e querer expulsar 11 milhões de imigrantes ilegais, e não reconhecer os problemas das mudanças do clima. O anunciado proteccionismo da economia americana é uma questionação radical ao globalismo. A sua intenção de rever no sentido dos EUA os acordos de livre comércio implica para já um não às negociações TTIP. Não quer continuar a exportar democracia. Não quer pagar os soldados americanos que defendem a Europa. Quer apoiar o presidente Sírio como o legítimo detentor do poder; é contra o aborto. A China confia na nova administração apesar de Trump ter dito que quer uma política comercial menos liberal. O melhorar as relações com Putin embaraça a política da UE que tinha adoptado alguns caminhos impróprios. Com Trump a Nato será reestruturada e a UE obrigada a organizar e assumir a defesa dos próprios interesses estratégicos o que implicará para a UE o assumir de relações amistáveis com a Rússia e responsabilizar-se pela organização caríssima do aparelho militar. A maior regulamentação e intervenção nacional no processo da globalização terá consequências muito graves para a economia alemã. Numa altura em que a UE se preocupa por unir e responsabilizar mais os seus membros, o facto de Trump e com ele a América querer mais patriotismo e menos globalismo obriga a um novo baralhar das cartas da política. Com a nova América Putin ganhou e a esquerda perdeu.

 

Quando a América espirra a Europa vai para a cama

 

Tudo isto não será tão mau como parece. Os USA têm sistemas constitucionais que se controlam mutuamente e o Congresso tem muitos representantes republicanos que não seguem a linha de Trump (partido dividido em duas facções) e o aparelho do governo tem milhares de cargos e estes têm muito a dizer. A Europa já ridicularizou Ronald Reagan, por ser um actor e ele conseguiu um acordo de desarmamento com a União Soviética, exultou Obama como um messias e na sua administração houve mais guerras no mundo do que noutras anteriores. Trump provoca uma mudança no ideário internacional mas terá de seguir a perícia e a inteligência da administração.

 

Ângela Merkel já puxou as orelhas a Trump dizendo que quer colaborar com quem respeite os tradicionais valores ocidentais. A europa quer ver na Nato uma comunidade de valores mas isso não é tao lineal como parece porque, em política e economia, na base dos valores estão os interesses. Na Europa há muitos Estados que têm uma relação estreita com os USA e isso implicará um contrapeso a Bruxelas: Trump está para o mundo como o Reino Unido para a UE. A Europa terá de organizar uma estratégica própria em colaboração com a Rússia e não na confrontação se não se quiser esgotar economicamente na militarização da sociedade, além do mais tem de reconhecer os erros que obrigaram o Reino Unido ao Brexit.

 

Moral da história: a classe política europeia deveria reconhecer a base dos seus valores na sua cultura e não ir vivendo do improviso de valores abstractos fabricados ao sabor de ideologias ou dos tempos. Quem quer a globalização deve ter os pés na terra e reconhecer os interesses da própria cultura, aquela que lhe dará sustentabilidade. O progresso e a inovação são muito necessários mas não poderá ir além do comprimento das pernas que temos.

 

O povo é que paga as favas: paga-as quando alimenta as classes privilegiadas demasiado gordas e paga-as quando estas se queixam de que ele é estúpido. A democracia não se adequa a ter donos, sejam eles partidos ou autocratas. Com a tecnologia digital iniciou-se a era pós-fática em que o sentimento é quem mais ordena!

 

Resta-nos ficar com a atitude de esperança do Vaticano em relação a Trump: a promessa de rezar por ele e a jaculatória “Que Deus o ilumine”!

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:05
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

Ocidentalismo

Ou de como o Ocidente é usado contra ele próprio

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Ocidentalismo, de Adel El Siwi

 

Existe um fio condutor cada vez mais evidente a ligar o burkini de Verão aos massacres de Aleppo, o contragolpe de Erdogan à Primavera Árabe falhada, a desconfiança para com os refugiados ao véu islâmico. Foi identificado num pequeno livro de 2004 de Avishai Margalit e Ian Burma chamado Ocidentalismo.

 

O Ocidente teve uma revolução científica e uma revolução industrial que o enriqueceu materialmente, ligando o crescimento económico à ruptura com a sociedade tradicional e com a religião. Esta imagem de modernização foi a rampa de lançamento do Ocidentalismo. Os líderes de países não-ocidentais quiseram reconstruir as suas sociedades com base num modelo científico que deitaria fora a tradição.

 

Já em 1700, Pedro o Grande da Rússia mandara os nobres cortar as barbas e os sacerdotes pregar as virtudes da razão. Desde então, muitas guerras foram declaradas ao Ocidente em nome da alma russa, da raça germânica, do Xintuísmo japonês, do comunismo soviético. De todas as revoluções do Terceiro Mundo, o presidente Mao foi o grande ocidentalista e destruidor de tradições.

 

Mas deixando de lado Mao Zedong, Estaline e Hitler que pertencem a outra constelação totalitária, concentremo-nos no ocidentalismo de Kemal Ataturk, na Turquia ou de Reza Pahlevi no Irão, de Nasser no Egipto e dos príncipes sauditas.

 

Chegado ao poder em 1923, Ataturk transformou a vida social da Turquia. Aboliu o vestuário oriental: véu, turbante, fez. Estabeleceu um sistema de educação secular. Tornou o secularismo uma religião política. E contra ele agora se revolta o partido de Erdogan, como aliás em Marrocos.

 

Quando Reza Shah Pahlavi tomou o poder no Irão com um golpe de Estado em 1921, trouxe a emancipação feminina e a destruição de privilégios tribais. Como outros modernizadores, atacou as formas tradicionais de vestuário. Soldados mandavam as mulheres retirar os véus, e os clérigos os turbantes. Os crentes foram proibidos de ir a Meca; os seminaristas que protestassem eram mortos a tiro.

 

O seu descendente, Mohammad Reza Pahlavi casado com Farah Diba, uma princesa que piscava os olhos ao Ocidente, tinha igual apreço pelo ocidentalismo e desprezo pela religião. Mas aos olhos dos revolucionários do Alcorão, era um idólatra e foi deposto em 1979 pela revolução islâmica. Taleqani (1910-1979) promoveu essa noção da idolatria dos ocidentalistas e moldou a ideologia da revolução islâmica no Irão e fundou o Fada’iane-e Islam, donde emergiram os Ayahtollas.

 

Sayyd Qutb, o ideólogo egípcio da Irmandade Muçulmana no séc. XX, inspirador da Al-Qaeda de al-Zawahiri e Bin Laden, via a idolatria em tudo. Desde o Cairo decadente aos bairros de Nova Iorque, o mundo vivia na luxúria, ganância e egoísmo. Para terminar isto, o mundo deveria ser governado pelas leis de Deus. O estado islâmico traria a guerra santa e permitiria aos homens superar ambições egoístas e opressores corruptos. Os alvos imediatos eram os governantes ocidentalizados das nações muçulmanas. A seu tempo viria a guerra contra os judeus e os países ocidentais.

 

Na Arábia, a aliança entre a dinastia saudita e o credo Wahhabita, pregadores e guerreiros, permitiu a conquista das cidades santas do Islão com o apoio dos britânicos na Primeira Guerra Mundial. O Wahhabismo tornou-se a ideologia oficial de uma sociedade muçulmana puritana nos anos 20.

 

Entretanto, jorrou muito petróleo dos poços e as riquezas sauditas mudaram as regras do jogo. Milhares de príncipes sauditas são milionários. Mantêm uma aparência de wahhabismo mas desfrutam de tudo o que o Ocidente pode oferecer. E o que Riade não fornece, Londres tem em abundância. Contra esta hipocrisia sem limites revoltou-se Bin Laden e lavra a guerra no Iémen de que pouco se fala.

 

Os islâmicos radicais culpam judeus e cristãos por sucumbir às novas idolatrias do dinheiro e da luxúria mas tentam saldar as contas com os ocidentalistas dos seus países, antes de se virarem contra os países ocidentais. Por vias guerreiras como o ISIS na Síria, ou com manobras eleitorais, como no Egipto.

 

O Ocidente, definido pelos inimigos, é uma ameaça porque as promessas de conforto material, liberdade individual e dignidade de vida deitam abaixo as pretensões de vida heróica. Escreveu Werner Sombart em Mercadores e Heróis, de 1915, que a guerra cultural entre a Inglaterra e França, era um confronto entre os oportunistas da Europa Ocidental e a Alemanha que é a nação de heróis capazes de sacrificar-se por ideais. Um ocidental que usa o Ocidente contra si próprio, como muitos outros desde Ernst Juenger até aos movimentos de extrema-direita na Europa actual.

 

Esta noção de que falta sacrifício e heroísmo no Ocidente democrático, leva jovens a inscreverem-se no Daesh; leva os ocidentalistas a considerar o Ocidente como decadente no pensamento e nos costumes; e traz aos ocidentais atarantados a cegueira de que tudo se perdeu: a flauta mágica; a religião; o romantismo dos heróis.

 

Aos olhos dos ocidentalistas, a mente do Ocidente é sórdida, boa para escolher meios, mas inútil para encontrar o caminho certo. E os norte-americanos colocam-se a jeito para esta leitura, ao contrário dos esforços feitos pela Sociedade decente, o outro grande livro de Avishai Margalit onde se indica como ultrapassar o Ocidentalismo.

 

18 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:32
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Sábado, 15 de Outubro de 2016
QUE CAMINHOS SEGUIR PARA TORNAR O MUNDO MELHOR?

 

 

Mário Vargas Llosa

 

     No passado domingo à tarde, assisti num canal televisivo a uma entrevista do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Questionado, afirmou que o mundo em que vivemos é hoje bem melhor do que o foi no passado, apesar das nossas queixas e lamentações. Pode ser verdade, mas o padrão de avaliação envolve parâmetros de vária natureza e depende do quadrante geográfico de quem o faça. A opinião de um europeu ou americano não será seguramente a mesma de um africano ou asiático.

 

Alvin Toffler.jpg

 

     Ponto assente, isso obriga-nos a revisitar Alvin Toffler, escritor e jornalista americano (Outubro de 1928 - Junho de 2016), autor do best seller “A Terceira Vaga”, quando afirma que a História da humanidade é feita de sucessivas vagas de mudança operadas pelo processo civilizacional. A primeira vaga foi a Revolução Agrícola, a segunda a Revolução Industrial e a terceira a presente era da informação, da cibernética e da robótica, de que somos hoje beneficiários. Em Abril deste ano, Toffler proferiria uma conferência na Reitoria da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu a sua teoria sobre aquilo que designou por Quarta Vaga – Bioeconomia, defendendo que a economia não pode mais desligar-se de práticas que ignorem a sua sustentabilidade numa equilibrada relação com o meio ambiente. Terá sido das últimas intervenções públicas do escritor, que faleceria dois meses depois, em 27 de Junho, aos 87 anos.

 

     O bem-estar que o homem almeja depende, inapelavelmente, da forma como vive e explora os recursos do planeta, como se organiza e como resolve os seus conflitos. As mudanças civilizacionais foram moldando a percepção do homem sobre os modelos de organização política e social e as formas de exercício do poder político. Na Primeira Vaga, o poder era personificado e exercido autocraticamente ou quanto muito assistido por um conselho. A noção de território e o sentimento de consciência nacional progressivamente foram tomando forma e consolidando-se. Na Segunda Vaga, com a Revolução Industrial e o Iluminismo, surge o Estado-Nação e desde logo o poder ganha formas de maior sofisticação, mediante estruturas jurídicas que orientam e regulam o exercício da soberania e a defesa dos interesses nacionais em confronto com outros povos.

 

     Hoje, as mudanças determinadas pela Terceira Vaga e a iminência da Quarta Vaga vieram pôr em cheque o modelo das instituições que nos governam desde há séculos tornando-as obsoletas e questionando a sua validade operativa. Embora permaneça o mito das soberanias nacionais, é cada vez mais difícil para um governo tomar decisões com a independência de outrora, sem ter de levar em conta factores exteriores que ganham relevo crescente com o processo de globalização proporcionado pela Terceira Vaga. Talvez seja a razão por que hoje há dificuldade em descortinar líderes de perfis que desejaríamos idênticos aos de um Churchill, de um De Gaulle, de um Roosevelt ou de um Adenauer. Mas estes líderes, transpostos para a nossa época, provavelmente iriam evidenciar as mesmas debilidades e insuficiências que a opinião pública aponta a par e passo aos governantes de hoje. Com efeito, a complexidade dos problemas sociais da actualidade não tem paralelo com o passado. O líder dos estados de direito democráticos não consegue exercer a sua autoridade pessoal sem ser contido pelas constituições ou expedientes jurídicos como as providências cautelares ou pressionado pela opinião pública através dos mais variados meios de comunicação.

 

     O que é verdade na esfera interna dos estados é particularmente reflexivo nas relações entre os estados e no plano em que se concertam com maior ou menor eficácia as políticas e as estratégias nacionais ou comunitárias. Dentro da União Europeia é cada vez mais nítida a percepção de que as soberanias nacionais se esbatem face às instituições comunitárias e aos desafios da globalização, e isso levanta interrogações, sobretudo nos sectores políticos mais à esquerda. O controlo dos orçamentos e a formatação das principais políticas nacionais obedecem às directrizes e imposições comunitárias. Mas o pensamento futurista de Alvin Toffler leva-nos ainda mais longe fazendo-nos ver que sem uma política mundial devidamente concertada o planeta compromete os seus equilíbrios e pode soçobrar.

 

 https://www.youtube.com/watch?v=E2sDnfoC3Hk

 (falhada a ligação directa, copie-se a URL acima para o browser e veja-se o vídeo de apresentação de "A Quarta Revolução")

 

     Então, os desafios são inumeráveis sem que as respostas se perfilem por enquanto com a urgência e a clareza desejadas. No seu livro “A Quarta Revolução − A Corrida Global para Reinventar o Estado”, Adrian Wooldridge e John Micklethwait denunciam a crise da governação do mundo actual e a ineficácia do Estado no Mundo Ocidente, afirmando que é necessário revolucionar o sistema político e apontando caminhos para melhorar o futuro da sociedade humana. É verdade que a globalização trouxe benefícios óbvios ao mundo não obstante reger-se por um viés neoliberal, com os defeitos vários que lhe têm sido apontados, dos quais o mais preocupante é o impacto ecológico negativo em consequência do consumismo desenfreado e da devastação dos recursos naturais. Mas o processo da globalização é imparável e as sociedades humanas têm de se ajustar aos seus impulsos.

 

     Assim, se os problemas planetários atingem uma dimensão de tal ordem preocupante que não se compadecem mais com a inoperância de Estados soberanos fechados em si, incapazes de gerar os melhores consensos no plano internacional, não haverá outra solução senão repensar o seu modelo. Ora, se a economia depende cada vez mais da dinâmica global, é natural que as soberanias tenham de encontrar pontos de convergência em espaços supranacionais onde as decisões políticas se sirvam dos mesmos instrumentos que lograram a agilização e a expansão da economia. A democracia não deixará de ser válida, importante e insubstituível como sistema de governo, mas ela terá de ser transposta eficazmente para as relações internacionais, de par com a diplomacia, aperfeiçoando os seus mecanismos de representatividade, auscultação e sondagem de opiniões, em ordem à melhor concertação de vontades para a melhor solução dos problemas globais.

 

     Neste processo, a Europa e os Estados Unidos não podem continuar a dar sinais de perderem o pé ante o ressurgimento da Rússia e a emergência das potências asiáticas. Caso contrário, deixará de fazer sentido a opinião de Mario Vargas Llosa quando, ao afirmar que o mundo está melhor, tomava como padrão de referência o Mundo Ocidental.

 

Tomar, 10 de Outubro de 2016

 

Adriano Miranda Lima (2016).jpg

Adriano Miranda Lima



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:17
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