Sábado, 7 de Janeiro de 2017
PERGUNTAS PROIBIDAS

 

QUERO UM 2017 DECENTE

Há 20 anos, Avishai Margalit publicou um livro inspirador: A sociedade decente. Começou logo por uma definição: sociedades decentes são aquelas cujas instituições não humilham as pessoas

 

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 Human Sensations, Gyuri Lohmuller

 

Querer uma sociedade decente é diferente de desejar uma sociedade civilizada ou uma sociedade justa. Nem tão pouco, nem tanto, nem assim-assim.

 

Ser civilizado é não humilhar o outro, não o rebaixar, nem violentar, nem matar, como fazem talibãs e terroristas. Ter uma sociedade justa é não só eliminar a crueldade física e a humilhação pessoal, mas ter uma redistribuição adequada dos bens, recursos e direitos a exigir intervenção do Estado.

 

Eu quero uma sociedade decente. Quero condições para deixarmos de ser pisados pelas instituições. Estas – sejam públicas e privadas – canais de televisão, bancos, hospitais, escolas, segurança social, governo – humilham-nos muito; quando defraudam as expectativas dos cidadãos; quando ignoram, abusam ou excluem; quando não abrem canais de participação para tornar exequíveis as necessidades de convivência e segurança; quando não contribuem para a auto-estima pessoal, reconhecendo e promovendo a autonomia e a dignidade.

 

Lamentavelmente, em Portugal há muitos exemplos de indecências. A começar pelas instituições estatais onde muitos vivem à sombra da corrupção, do servilismo, da cumplicidade e da impunidade. A degradação moral e política nunca é só responsabilidade dos poderes públicos; mas estes têm nas mãos a capacidade de legislar e fazer cumprir as leis, gerir recursos estatais e garantir a coesão social. Num ano de eleições autárquicas como 2017, temos aqui muita decência a instaurar.

 

A humilhação implica uma ameaça existencial e a instituição que a pratica tem poder sobre a vítima. Esta sente-se desamparada. E este sentimento de impotência começa logo pelo medo em proteger os seus próprios interesses. A sociedade portuguesa está cheia destas patologias.

 

A perda de mobilidade intergeracional cria baixas expectativas para a melhoria da situação dos jovens. A desvantagem revela-se nos sintomas habituais de cerveja, jogos de azar e contravenções. Depois chegam a ansiedade e stress, para não mencionar a doença e suicídio. Os desempregados e precários perdem competências adquiridas e tornam-se supérfluos para a economia e sociedade. É indecente.

 

O aumento da desconfiança mútua e a falta de cooperação leva a exclusões. Um exemplo. Num ano de 2017 que é centenário de Fátima e de Lutero, temos os ingredientes para, de duas, uma: ou prevalece a habitual iliteracia religiosa dos portugueses com doutrinas que eram fantásticas no tempo do Padre Amaro mas que estão desfasadas do Papa Francisco que enche de enxaquecas os cardeais conservadores; ou, pelo contrário, se alcança um convívio decente entre crentes e descrentes de Fátima, e do Cristianismo nas suas várias confissões e as demais religiões. Onde as instituições forem capazes de partilhar uma visão, a sociedade ganha. Obrigar uma minoria a ceder contra vontade é como semear ventos. É indecente.

 

A ruptura de redes de segurança social, com a consequente corrosividade social é indecente. A prestação de serviços que custaram muito dinheiro aos contribuintes tem tido rupturas dramáticas desde a Troika. A crise de desemprego e precariado tem sido atenuada pelas redes familiares e também por instituições como as IPSS, Misericórdias, Caritas, Banco Alimentar, Comunidade Vida e Paz, quase todas de raízes cristãs.

 

Contudo, estas solidariedades escondem uma grande indecência: a mentalidade portuguesa parece boa para apoiar quem sofre mas não cria redes equivalentes para quem quer prosperar; não temos que ficar condenados ao síndrome do coitadinho, típico das sociedades mediterrânicas; afinal somos um país atlântico de descobridores; é preciso combater a deterioração social sem precedentes que cria amargura e ressentimento com instituições que criem emprego, serviço, e que combatam a desigualdade é corrosiva. Senão, é indecente.

 

Uma coisa é saber que há desigualdade e patologias; outra coisa é chafurdar nelas como as empresas de televisão com a adulação idiota de personalidades e o elogio da riqueza frívola. As televisões descem ao nível da corrupção de sentimentos, ao deixarem no esquecimento os esforços de país e avós e ao inculcarem uma espécie de cultura de conforto, esforço mínimo, e sedução informativa. A pornografia arrisca-se a ser a coisa mais decente das televisões generalistas. A tendência cretina para admirar a riqueza e as celebridades – o estilo de vida dos ricos e famosos – é assustadora. E quem senão Adam Smith afirmaria que “essa disposição para admirar os ricos e poderosos, e desprezar ou pelo menos ignorar as pessoas pobres é a causa mais comum de corrupção”?

 

No meio de tantos legítimos desejos e votos para o ano novo, deixo aqui o meu: que 2017 seja um ano de uma sociedade mais decente, em que diminuam as indecências que vemos estampadas nos rostos e nos gestos dos excluídos, desempregados, precários e todos os não reconhecidos.

 

3 Janeiro, 2017

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:32
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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

NÃO HÁ NATAL EM ALEPPO

Este será o Natal da nossa vergonha em Aleppo. Ninguém sai ileso. A começar pela mínima culpa do silêncio de quem escreve estas linhas

 

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Natal é a festividade cristã em que um menino vem trazer a paz. Os meninos da Síria que conhecemos são Aylan Kurdi morto na praia, fugido de Kobani, cidade mártir das batalhas entre terroristas muçulmanos e forças curdas; e Omra Daqneesh numa cadeira de ambulância, coberto de sangue e poeira após um ataque aéreo russo…

 

Este será o Natal da nossa vergonha em Aleppo. Ninguém sai ileso. A começar pela mínima culpa do silêncio de quem escreve estas linhas, mas que há muito conhece o hino da resistência de Niemoeller. “Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei…” Sabemos como termina esta ladainha.

 

Falar sobre Allepo não exige ser especialista em geopolítica nem economia; exige compaixão. E essa escasseia entre quem presume saber o que passa com a massa de informações da net e wikileaks. Informação não substitui discernimento, e contagia e intoxica a massa de pessoas que quer encontrar um culpado… quando o grande culpado é a falta de solidariedade em tempos de chumbo, a falta de ética em sociedades doentes que deixam à solta o terrorismo, o vencedor da competição entre poderes brutais.

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Um dia saberemos a verdade sobre Aleppo. Mas desde já sabemos que tudo começou há quase seis anos com a Primavera árabe, em Março de 2011. Durante um ano, as pessoas saíam das mesquitas e protestavam contra Assad. Em resposta, o regime matou dezenas de manifestantes. Nas semanas seguintes, esses mortos eram usados ​​como mártires para inspirar novos protestos, e assim até à guerra civil.

 

A Primavera Árabe foi uma criação das populações árabes. Há muito racismo por detrás do argumento que foram os EUA e a Europa a conspirar: como se os tunisianos, líbios e egípcios fossem massas de gente ignara e prontos a serem manipulados pelos ocidentais. Foi genuína a revolta do estudante que se imolou pelo fogo na Tunísia; a dos tripolitanos que já não suportavam o jugo de Kadaffi; a dos egípcios que detestavam Mubarak, o carrasco e bom aliado dos norte-americanos. Claro que não houve Primavera Árabe na Árabia Saudita; e a do Iémen é esmagada noutra guerra remota.

 

O movimento de massas árabes ameaçou americanos e europeus. Mas os governos ocidentais alinharam com as novas forças emergentes e seu desejo de liberdade, entretanto muito frustrados. No Norte de África, alcançaram-se equilíbrios instáveis. Sobrou a Síria, sem petróleo nem gás e com um mosaico de religiões e etnias coladas pelo regime de excepção do regime Baath desde 1963.

 

Queremos culpados pela deterioração da situação da Síria em guerra civil? Um deles foi o próprio Assad, cujo regime começou a matar quem exigia um novo governo.

 

Queremos culpados? O Exército Sírio Livre com desertores do exército e civis guerrilheiros que iniciaram represálias contra o regime. É uma força sunita mas inclui Alauitas, uma corrente xiita a que pertence o próprio Assad.

 

Queremos culpados? Os jihadistas e outras forças islâmicas juntaram-se à luta contra Assad: a Frente de Nusra, controlada pela Al-Qaeda, apoiada com dinheiro e armas pela Turquia e Arábia Saudita, E muitos outros grupos menores com alianças mutantes. E por cima de todos, o califado terrorista DAESH ou IS.

 

Queremos culpados? Os EUA e a UE que, uma vez iniciada a guerra civil, ajudaram a “oposição moderada” do Exército Sírio Livre com armas e apoios aéreos.

 

Queremos culpados? A nova Rússia de Vladimir Putin que envia os Spetnaz a preparar o terreno e os aviões em bombardeamentos indiscriminados.

 

Queremos culpados? O islamo-fascista Erdogan que colocou a Turquia a ganhar com a espoliação das riquezas da Síria, e controlou o tráfico de refugiados para a Europa.

 

A lista de responsáveis é grande. Hillary Clinton recomendou as operações norte-americanas; os mercenários da Arábia Saudita e do Qatar na Jihad de Aleppo. A Arábia Saudita e Turquia, potências sunitas. O Irão, o poder xiita rival que controla o Hezbollah.

 

Quando os distúrbios da Primavera Árabe se desencadearam no início de 2011, a CIA e a frente anti-iraniana de Israel, Arábia Saudita e Turquia viram uma oportunidade de ganhar uma vitória geopolítica. Regime change, no jargão neoliberal de Washington. O embaixador americano Stevens, foi morto em Benghazi enquanto dirigia uma operação da CIA para enviar armas da Líbia para a Síria.

 

O califado do DAESH, ou ISIS é até agora o único vencedor da guerra civil síria. Mas é pouco provável que contra ele se consiga reconstruir um grande acordo dos culpados da guerra da Síria.

 

Até à queda de Aleppo, a regra era: a mudança de regime em primeiro lugar, o cessar-fogo depois.

 

Após a queda da Aleppo dos resistentes, a regra mudou. A política ocidental sofreu uma derrota. Assad cantou vitória com o apoio da Rússia e do Irão. Os mercenários enviados para derrubar Assad são jihadistas radicais com suas próprias agendas, agora derrotados em Aleppo mas há uma semana reconquistaram Palmira.

 

A manipulação da comunicação social é grande. Até parece que ninguém sabia, que uma boa parte da Síria já estava destruída; que muitas das centenas de milhares de mortos já tinham morrido; que os oito milhões de refugiados já se estavam a refugiar.

 

Ninguém sabia? Alguns denunciaram. A Amnistia Internacional avisou desde o início da repressão pelo regime de Assad em Março de 2011. O Vaticano avisou sempre desde 2011. Os médicos e capacetes brancos avisaram. A Organização para os Refugiados avisou. Ninguém ligou.

 

Não vai haver Natal na Síria para ninguém. Um dia saberemos o que se passou na Síria, sobre quem inventou o DAESH, sobre o que a humanidade tem de pior ao destruir um país que era viável. Mas que haja Natal em nós, ao pensarmos ou rezarmos pelo quase meio milhão de mortos que a guerra já levou, dizendo Nunca mais, Aleppo!

 

20 de Dezembro, 2016

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:44
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

CHEGOU A BANCA SOCIAL

Há mais de um século que a banca social se tem afirmado em vários países europeus, através de um propósito que ultrapassa em muito a noção redutora de lucro...

 

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… – visa acrescentar as dimensões ambientais, culturais e sociais à análise de aplicação de recursos próprios, sejam eles provenientes de capitais ou de depósitos.

 

Agora, a 26 de Novembro, a Banca Social chegou a Portugal através da criação da FESCOOP, uma cooperativa com finalidades parabancária e que resulta da consolidação de um sonho de várias entidades e pessoas agrupadas na Associação CELTUS e em que se destacam João Gil Pedreira, Fabrice Génot e Emídio Ferra.

 

A FESCOOP deve muito a esse sonho da CELTUS, uma entidade sem fins lucrativos com vista à criação e ao desenvolvimento de respostas nas áreas dos serviços financeiros, das moedas complementares e alternativas e das relações económico-produtivas solidárias e sustentáveis.

 

O dinheiro está nas mãos da banca. Dos bancos ditos resgatados. Dos bancos ditos bons e dos bancos ditos maus. Dos bancos alimentados pelo Banco Central Europeu e que se comportam como zombies na conjuntura. O sistema bancário e financeiro em Portugal contribuiu com mais de 20,6 mil milhões de euros em dívida soberana e com mais de 12,6 mil milhões de euros de deficit nos orçamentos de Estado entre 2007 e 2015.

 

Por tudo isso, Portugal carece de um exemplo de uma banca que, através do compromisso e da transparência, possa vir a ser a vaga do futuro. A banca social poderá vir a desempenhar um papel fundamental de retorno à confiança. É como o carro com motor eléctrico: ainda não está massificado, mas já sabemos que é o futuro.

 

A confiança criada pela banca social resulta da transparência com que funciona, face às aplicações ou créditos concedidos; qualquer accionista ou depositante tem acesso ao destino das suas aplicações e depósitos; sabe como é utilizado o seu dinheiro. Que não vai para offshores, nem alimenta fábricas de armas, nem tráfico de órgãos. O accionista ou depositante pode comprovar se o propósito social e ético está a ser cumprido, e pode intervir através de modelos de governança participativos, que garantem uma ponte entre accionistas, depositantes e o banco social.

 

O exemplo trazido a Portugal pela FESCOOP tem antecedentes próximos na segunda assembleia da área Fiare e Banca Popolare Etica, em Março de 2014 em Barcelona, duas entidades das mais significativas respostas bancárias e parabancárias ao nível social e ético do sul da Europa.

 

A questão central da banca ética ou social é a economia a criar, acelerar e desenvolver com o nosso dinheiro. A transparência é o princípio de base, para que a comunidade envolvida possa visualizar como a sua vontade, o seu querer e o seu propósito se materializam nesta nova forma de pensar os serviços financeiros.

 

O dinheiro faz girar o mundo? Sim, até eu começar a perguntar como o aplico. Ao perguntar por que compro, ganho consciência sobre quem sou e o que pretendo fazer. Ao perguntar o que compro, começo a interrogar-me sobre o que se passa no planeta. Ao perguntar a quem compro, ganho informação sobre a sociedade. Em tudo isto, ganhamos consciência de que, além de consumidores, participamos na dimensão cultural, social, política, económica e ambiental da sociedade.

 

Com o dinheiro depositado nos bancos, o questionamento é semelhante Ao interrogar-me o que o banco faz com o dinheiro que nele deposito, estou a interrogar-me se as aplicações do banco têm um cariz social e ético; se o banco tem propósitos transparentes; assim inicio a mudança social, mudando os meus comportamentos.

 

A Banca social ainda será estatisticamente insignificante na Europa, mas é já o sinal de que existem alternativas: algumas com capitais na casa dos muitos milhões de euros como o Triodos. E apresenta resultados mais sustentáveis do que os dos bancos convencionais. A sua taxa de incumprimento é muito baixa.

 

O Grameen Bank, a primeira instituição financeira do mundo em microcrédito, surgiu em 1976 em Jobra, no Bangladesh, fundado por Muhammad Yunus. Em 1983, o Grameen Bank adquiriu o estatuto formal de banco. Hoje, o Grameen Bank recebe de volta cerca de 98,85% dos empréstimos que concede como empresa privada lucrativa e que ajuda os mais carenciados e desfavorecidos. O contra exemplo ideal face aos “bancos resgatados” da Europa.

 

Por tudo isto, devemos saudar a edificação em Portugal no passado dia 26 de Novembro de uma entidade para bancária com propósitos adequados aos desafios sociais e económicos, como seja o resgate de famílias e empresas sobre endividadas e o financiamento do terceiro sector associativo, cooperativo e comunitário.

 

A FESCOOP propõe-se estar ao lado da agricultura biológica e biodinâmica, da permacultura, das energias limpas e renováveis, das comunidades auto-sustentáveis, das entidades de comércio justo, entre outras representativas de um novo paradigma.

 

Agora resta desejar a melhor sorte do mundo aos seus fundadores. Eles estão do lado do futuro saudável, numa Europa farta de soluções bancárias doentias.

 

13 Dezembro, 2016

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:11
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

 

A tirania das boas intenções

O Rendimento de Cidadania

O Rendimento de Cidadania (RC) é uma medida que visa atribuir a grupos cada vez mais alargados de cidadãos uma prestação monetária por serviços que prestam à sociedade.

 

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Quando alguém se debruça sobre as propostas de Rendimento Básico Universal, como me sucedeu em 2012, salta à vista que há um mundo de diferenças entre assegurar a dignidade a quem merece, sem ferir quem já a tem, e querer salvar o mundo com medidas económicas, esquecendo a liberdade humana.

 

O Rendimento Básico Incondicional (RBI) quer garantir a todos os cidadãos um rendimento mínimo de subsistência. É um sonho magnífico – assim pensou Tom Paine na Revolução Francesa – mas traz consigo a tirania das boas intenções pois não se afigura exequível sem violência.

Rendimento de Cidadania

Começou com os subsídios para ajudar os pobres propostas por Tomas Morus e Luís Vives no séc XVI e que deram as Poor Laws na Inglaterra. Não era para todos, mas ajudou a sociedade a subir de nível.

 

Se o argumento do Rendimento Básico for o de que todos têm direito a uma renda de sobrevivência, começam a ouvir-se gritos básicos de protesto. Primeiro os que afirmam «quem não trabalha, não come», o que era verdade quando não havia automação. Depois, os gritos «vai trabalhar malandro», típico de épocas em que não havia desemprego estrutural. Ou ainda o grito economês «não há dinheiro», afirmação desmentida numa época em que os helicópteros despejam notas nos bancos como as poderiam despejar nas contas bancárias das pessoas.

 

É bom haver defensores do RBI para responder a estas críticas boçais. Mas existem outras mais exigentes; todas elas vão dar ao mesmo ponto: trabalhar é dignidade humana e tudo o que possa ser feito para recompensar um trabalho deve ser feito, E de preferência bem executado. Em vez das boas intenções do RBI que redundam numa mão cheia de nada, é preciso apostar no RC que abre caminho para um novo paradigma social

 

Porque é muito possível, é cada vez mais possível que muitos dos trabalhos que a sociedade precise não se enquadram num emprego, embora estejam próximos do que se chamava vocação e carreira.

 

Identifiquemos quem está a trabalhar na sociedade, mesmo sem receber rendimento. Os estudantes? Sim, enquanto não reprovam. Os cuidadores de crianças e idosos estão a trabalhar? Que pergunta! Os voluntários do ambiente, dos animais, da arte, da informação? Sem dúvida! Quem presta serviço em colectividades e ONG’s, trabalha? Sim. Estas são populações alvo do RC.

 

Então que falta? Como sempre sucede com comportamentos humanos, não existe nenhuma lei genérica por perfeita que pareça que não tenha de contar com a liberdade humana.

E o que já se fez quanto a iniciativas?

Exemplos. Na Europa, uma petição foi lançada em 2013 para que a União Europeia (UE) realize projectos-piloto de RBI. A petição não passou das 250.000 assinaturas, não alcançando o milhão necessário para ser apreciada. Estratégia errada.

 

Petições semelhantes foram lançadas a nível nacional. Em Portugal, um partido lançou uma e teve a escassa soma de 4.408 assinaturas, o que lhe permite ser apreciada em plenário. Resultado estulto, pois bastaria que o partido a inscrevesse na ordem do dia para o mesmo suceder. Estratégia errada.

 

Neste Verão de 2016, a Suíça foi o primeiro país a votar a criação de um RBI, após serem recolhidas mais de 100.000 assinaturas para um referendo. O resultado de Junho foi uma derrota. 76,5% dos suíços votaram contra, embora o montante requerido fosse muito elevado, cerca de 2220 euros por mês.

 

No extremo oposto das experiências, a cidade holandesa de Utrecht vai lançar em 2017 um programa piloto. O RC vai ser pago a quem já beneficia de prestações sociais com obrigações. A experiência é avaliar de que forma a inexistência de condições para receber o pagamento mensal afecta o comportamento das pessoas.

 

Na Finlândia, a coligação de centro-direita eleita em Maio de 2015 anunciou a atribuição de um rendimento básico incondicional. É uma alternativa ao complexo sistema de segurança social. Tem a potencial desvantagem de poder levar os jovens a perder a motivação a buscar emprego se já recebem uns 700 euros por mês; e pode ainda perturbar o mercado laboral. Mas pior do que está, é difícil.

 

O RC tem que aprender com estas tentativas goradas e comunicar que não se trata mais de exigir ao estado-patrão que pague directamente às pessoas aquilo que já dá aos bancos. A atitude e o paradigma do séc. XXI tem que ser diferente.

 

O RC é um novo direito de cidadania, centrado na condição individual. Não deverá ser um instrumento ao serviço do mercado, nem uma panaceia contra as disfunções. É uma afirmação social contra a violência causada pelo desemprego e a precariedade e um reconhecimento de que os frutos da produtividade conseguida pela automação têm que ser melhor distribuídos por todos.

 

6 Dezembro, 2016

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:54
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

O PRECARIADO

 

O trabalho precário não é apenas perda de salário. É perda de sentido da vida. O trabalho é ganha-pão, mas é também relação com os outros

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Guy Standing lançou em 2011 um livro e uma palavra explosiva: “Precariado, uma nova classe perigosa”. Essa palavra que aglutina precário e proletariado identifica uma nova forma de trabalhar que não é compatível com a dignidade, por muitos motivos.

 

Richard Sennett em O declínio do homem público. (1977) e em The Corrosion of Character, The Personal Consequences Of Work In the New Capitalism, (1998); Sygmunt Bauman em A modernidade líquida (2000) Dominique Aron Schnapper em O fim do Trabalho (1998) avisaram em tempo que o trabalho – esse grande espelho em que nos revemos para viver – estava a transformar-se.

Explicação económica

Podemos ir pelo caminho da explicação económica. A transformação começou na década de 1980, com os mercados liberalizados e desregulamentados. Com o desmantelamento de instituições de solidariedade social.

 

A integração da China e dos BRIC no mercado de trabalho mundial adicionou 2 biliões de trabalhadores à oferta mundial, a ganhar um quinto do que recebiam os trabalhadores da OCDE. As políticas de flexibilidade do trabalho e a deslocalização da produção e do emprego levaram a custos mais baixos. Tudo isto criou classes globais sobrepostas a antigas estruturas nacionais. Entre elas, o precariado.

 

Mas o trabalho precário não é apenas perda de salário. É perda de sentido da vida. O trabalho é ganha-pão, mas é também relação com os outros. É um espelho em que podemos ver o nosso lugar na sociedade. É um espaço de reconhecimento familiar. As amizades, o lugar na comunidade, as emoções, os planos de vida, a capacidade de poupança, planos para os filhos, resultavam do nosso trabalho. Tudo isso mudou.

 

Agora é diferente. A mobilidade total é o sonho dos empregadores que baixam os salários. O desenvolvimento tecnológico destrói empregos. Se as máquinas vão construir máquinas, quem irá trabalhar? E quem irá consumir? E quem não é produtor nem consumidor, não tem onde cair morto. A economia de mercado fica predadora.

Insegurança

Sem segurança no emprego, não há estabilidade de vida e deixamos de construir a nossa vida com os vizinhos. Sem trabalho deixamos de ter filtros através dos quais vemos o mundo e o mundo nos vê. Trabalhar seis meses numa cidade e mais seis meses noutra, é terrível. Piora a vida familiar e social. Os testes de aptidão profissional deixaram de valorizar a capacidade de liderar equipes e preferem a capacidade de se livrar deles.

 

Há pior que o precariado? Pois há. É o desemprego. Os milhões de desempregados na Europa e no mundo sabem o que é não terem trabalho. Tal como um vírus letal, corrói os músculos e chega ao osso. E onde não há possibilidade de trabalhar como assalariado, como os migrantes sem documentos e sem dinheiro que vêm de todo o lado, sem bandeira, nem responsabilidade.

 

A precariedade tornou-se na imagem de marca do trabalho actual, a bomba com que o neoliberalismo dinamitou o estado social e democrático de direito. Desapareceu o estatuto conquistado em décadas anteriores, o reconhecimento social ligado ao salário.

 

Mesmo um trabalhador com salário modesto conseguia construir uma carreira. Com trabalho precário, isso é impossível. O precário não sabe se vai manter o emprego, não tem segurança, não tem garantias nem de melhorar as suas capacidades. O salário baixo não lhe permite habitação, saúde, reforma condignas. E como não pesa na esfera produtiva, não participa na defesa colectiva dos interesses.

A grande mentira

O precário revela a grande mentira da nossa sociedade: num mundo de redes, o precário está cada vez mais isolado. Sem a identidade do trabalho. Sem memória social. Sem o sentido de pertença a uma comunidade, com base em práticas estáveis, padrões de comportamento, reciprocidade e fraternidade éticas.

 

Em Portugal, existirão 1.200.000 precários nas suas múltiplas formas, de part-time involuntário, contrato a termo, falsos recibos verdes, empresas de trabalho temporário, bolsas precárias, empresas de outsourcing ad hoc que deveriam ter um vínculo ao Estado, Contratos de Emprego e Inserção.

 

Ainda há quem não perceba a crise do precariado. O juiz José Lopes Barata condenou Ana Nicolau, dos Precários Inflexíveis, a pagar 1200 euros por exigir no Parlamento a demissão do ex-primeiro ministro. Na leitura da sentença destacou que Ana Nicolau é uma “cidadã empenhada”. Mas de forma inconsistente, aplicou a coima.

 

A solidariedade entre precários é difícil porque não há pontos de encontro. Fica a sensação de um constante abuso. Uma sensação que gera raiva. Bolseiros sem promoção; vendedores que aceitam todas as exigências da empresa, como sorrir e moldar o corpo para ser mais gracioso, uma vantagem para a “empregabilidade”; empreendedores sem oportunidades de desenvolver a sua start-up.

 

A falência do “mercado de trabalho” gera um novo tipo de pessoa. Alguém que luta contra o desenraizamento: que não está disposto a mais esforços. Tem um pé na anomia e o outro numa vaga esperança. Tem a ansiedade de quem vive à beira do abismo: basta um erro ou um golpe de má sorte para cair. Tem a frustração de saber que se tem muito pouco e que é fácil perder o pouco que se tem. A falta de perspectivas conduz à alienação: e ainda ouve, no coaching, que é preciso ser positivo e sorrir.

 

Contra esta democracia do call-center é preciso erguer a cidadania. É preciso mostrar que os precários lutam para saírem do fosso onde os deitaram e com os valores da solidariedade e da fraternidade combatam as sereias do populismo que lhes inventam um futuro feito de nostalgias e de passados reais ou imaginários.

 

22 Novembro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:05
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

 

Esta corrupção que as entranhas rói

 

O conflito geo-financeiro entre credores e devedores teve, entre outros, o efeito nocivo de aumentar a ganância pelo controlo da gigantesca massa de dinheiro à solta no mundo

 

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Perplexidades

  • Maria de Lurdes está a cumprir pena de prisão de 3 anos na cadeia de Tires por delito de opinião contra juízes que maltrataram a sua causa de bolseira do Estado. Quem sonegou documentos?
  • O Tribunal de Braga arquivou o processo contra três dirigentes da PME Portugal acusados de fraude de milhões, porque o MP apresentou a acusação sem respeitar princípios legais? Summum jus, summa injuria?
  • Um homem de 72 anos, residente em Coimbra, vai ter de pagar 4.200 euros por difamação contra o deputado do PSD Carlos Peixoto, segundo um acórdão da Relação de Coimbra. 4200 euros. É isso que vale o homem da peste grisalha?
  • O MP deixou esgotar o prazo para acusar Armando Vara, detido em 2015, arguido da Operação Marquês, acusado dos crimes de corrupção passiva, branqueamento e fraude fiscal? Deixou esgotar? Que calendários usam?
  • O TagusPark terá que pagar 212 mil euros a Luís Figo, por um contrato de publicidade, que o MP considera ser uma simulação para apoiar José Sócrates? Qual dos “sistemas” aqui funcionou?

 

Dinheiro à solta

O conflito geo-financeiro entre credores e devedores teve, entre outros, o efeito nocivo de aumentar a ganância pelo controlo da gigantesca massa de dinheiro à solta no mundo.

 

A corrupção é o caminho mais curto da ganância. Dinheiro fácil, dinheiro sujo, dinheiro por baixo da mesa, dinheiro em saco azul. Quem consegue resistir? Surgem os intermediários das lavagens de dinheiro, operações de maquilhagem. Segredos lascivos bem guardados num mundo em que o dinheiro se tornou rei. Se há dinheiro à solta, há corrupção à vista. Os exemplos abundam, desde os pequenos crimes económicos, que destroem vidas e consciências, à grande corrupção que deita abaixo instituições, degrada o estado social e empobrece nações como Portugal.

 

Há a corrupção de sobrevivência. Há a corrupção dos facilitadores que evitam problemas ao estado, a empresas, a particulares. A pequena corrupção anuncia dolos em níveis superiores e mais graves se não for combatida. Por detrás de Vara, Sócrates? Por detrás de Sócrates, Salgado? Quem sabe? A puxar os pequenos, os grandes, isso é certo.

 

A grande corrupção de governantes, banqueiros e empresários – que abusam dos cargos a fim de obter ganhos ilícitos – envolve subornos de muitos tipos. Inclui fraudes, branqueamento de capitais e operações no mercado negro e contas em paraísos fiscais. Além de configurar um crime económico, tem formas de peculato, abuso de poder, concussão, favorecimento pessoal e tráfico de influência.

 

A corrupção não é um problema cultural. Surge em todas as sociedades. Não é só de países pobres nem de países ricos. É preciso dois para o tango. É o problema social e humano em que a soberba do dinheiro se tornou o culto predominante. A corrupção é o pecado que se tornou sistema, como incansavelmente repete o Papa Francisco.

 

Na Alemanha, com a Volkswagen em 2015; em Angola, com o nepotismo presidencial; no Brasil, com a Petrobrás; na China, com governantes e privados que dirigem indústrias. Nos EUA, com os Madoff, presos e à solta. Na FIFA com Sepp Blatter. Em Portugal, com os bancos zombies.

 

A lista da grande corrupção é inesgotável

A comunicação social tem um papel crucial na denúncia e investigação, quando assume independência e coragem. Jornais e revistas generalistas como o Correio da Manhã, a Visão e Exame, são mais eficazes que as publicações económicas a denunciar os crimes de corrupção, combatendo a ineficácia das instituições.

 

Alguns trabalhos marcantes têm surgido sobre a triangulação entre poder político, o mundo financeiro e os consórcios de advocacia. Gustavo Sampaio em Os privilegiados (2013) e Os facilitadores (2014) denunciou os que movem influências em seu benefício com negócios intermediados pelas grandes sociedades de advogados. O prejuízo é para nós, portugueses.

 

Carlos Moreno em Como o estado gasta o nosso dinheiro, (2010) denunciou os negócios ruinosos com o sector privado. Gabriel Zucman em A Riqueza oculta das nações, (2014) fala de uns 30 mil milhões de euros de portugueses na Suíça, 80% dos quais provêm de evasão fiscal. Dinheiro não declarado. Nem tributado. Dinheiro subtraído ao investimento social.

 

As campanhas contra a corrupção só serão bem-sucedidas se tiverem o apoio do público. Não basta uma voz como a de Paulo Morais, corajoso candidato presidencial que fez da anti-corrupção o motivo único da sua campanha, e depois quase desapareceu da comunicação social.

 

Estaremos condenados a pensar que os melhores, se existem, não estão na política? E que os piores estão entre a política e a corrupção? O país precisa de escutar os exemplos de todos aqueles que, tivessem ou não a possibilidade de «falar às massas», souberam «recusar a massa».

 

Acima de todos se destaca o presidente Ramalho Eanes. Entre muitos outros actos com que evitou onerar o Estado, recusou ser ressarcido dos retroactivos que lhe eram devidos de mais de 1 milhão de euros e rejeitou a promoção a Marechal.

 

Precisamos deste exemplo de Ramalho Eanes e de outros ainda anónimos para fortalecer a nossa confiança e perseguir os bandidos sociais. Podemos estar de joelhos, mas ainda não estamos de rastos. Precisamos de media livres que fortaleçam este combate. De magistrados com cultura de cidadania. De escolas com educação para a cidadania. De criadores de literatura com entusiasmo cívico. E de cidadãos a tempo inteiro.

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

 

As Utopias em Novembro

Novembro é o mês em que se julgam as utopias. A 7 de Novembro a revolução Russa faz 99 anos. A 8 de Novembro, é a eleição norte-americana. 9 de Novembro é o aniversário da queda do Muro de Berlim

 

MCH-utopia.jpg

 

Muros que caem, outros que se erguem, sonhos que se desfazem, utopias que renascem.

 

Quando Tomás Moro escreveu Utopia em 1516, essa sociedade numa ilha imaginada pelo personagem que lhe servia de heterónimo, o navegador português Rafael Hitlodeu, talvez não previsse que estava a criar um género literário.

Utopias

A Utopia descreve as instituições económicas, política e religiosas de uma sociedade ideal preferível à Europa do seu tempo. Na Inglaterra “as ovelhas comiam os homens”; as pastagens reservadas à criação de gado para tosquia expulsavam os camponeses para as cidades, e para a pobreza e o roubo, enquanto crescia a ganância dos grandes proprietários. Em O Capital, Marx enalteceu esta descrição.

 

A solução radical da Utopia é abolir a propriedade privada, raiz da soberba e do egoísmo. Se tudo fosse de todos, ninguém roubaria, nem mataria, nem faria a guerra de conquista. Tomás Moro sabia que estava a pedir o impossível. Como membro do Parlamento e primeiro-ministro inglês entre 1529 e 1534 não agiu como pedia na sua obra.

 

Contudo, quando chegou a hora da verdade, em confronto com Henrique VIII que queria provocar mais uma divisão na Igreja, tornar-se chefe da Igreja anglicana e expropriar o clero, Tomás Moro teve a coragem moral de se opor ao rei que todos temiam. Pagou com a vida essa oposição à vontade tirânica do monarca.

 

Esse exemplo admirável da sua obra e da sua morte tornou Tomás Moro um santo da Igreja Católica e do movimento comunista.

 

O impacto da Utopia foi tão forte que foi seguido por mais vinte utopias só no século XVI; a um século de distância veio a Cidade do Sol de Campanella, e a Nova Atlântida de Bacon. No século XVIII, As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, o Robinson Crusoe de Daniel Defoe, as Viagens a Tahiti de Bougainville são variações iluministas sobre as sociedades ideais.

 

“No princípio todo o mundo era América…” é uma fórmula de John Locke que pertence a esta descrição da sociedade ideal e a ficção do bom selvagem continua nas obras de Rousseau, em O último dos Mohicanos de Fenimore Cooper e o Atala de Chateaubriand.

 

No séc. XIX, os desafios da revolução industrial criaram novas utopias – de Owen, Fourier, Saint-Simon e Cabet – que vieram a ser chamadas de socialismo utópico. Descreviam minuciosamente sociedades tão perfeitas que dispensavam o ser humano de um esforço de aperfeiçoamento.

 

Foi Friedrich Engels quem criou a expressão ‘socialismo utópico’ que considerava inferior ao ‘socialismo científico’. As propostas de ambos os sectores iriam confrontar-se, desde o comunismo soviético até Maio de 68, desde Proudhon até Marcuse, entre o esquerdismo e a ortodoxia leninista.

Distopias

Esgotada a corrente optimista da utopia, começaram a surgir as distopias. Em primeiro lugar, agitando a ameaça tecnológica. É o caso de Erewhon de Samuel Butler, da Utopia Moderna de H.G.Wells, do Admirável mundo novo de Aldous Huxley. Karel Kapek escreve a peça R.U.R., iniciais de Robots Universais de Rossum, contra a ameaça dos autómatos. Anthony Burgess apresenta a Laranja Mecânica.

 

Com o trunfo da Revolução Russa surgiram as distopias políticas. Eugénio Zamyatin escreveu Nós, em 1920. As pessoas não têm nomes mas apenas números e o amor é proibido. No Triunfo dos porcos (1945), George Orwell descreve a chegada ao poder dos totalitários. Em 1984 desenvolve o Nós, de Zamyatin numa sociedade em que a propaganda inverte a linguagem e a realidade e se lança à conquista do mundo.

 

As distopias descrevem a banalização do mal e a violência organizada do estado, dos gangs e das instituições. As novelas de Jack London e Somerset Maugham e o Joseph Conrad de Coração de Trevas desenrolam-se no mesmo ambiente, em que a vida decorre às avessas.

Heterotopias

E temos ainda as heterotopias, lugares que imaginam ou constroem um espaço diferente, em que a realidade é simulada como num museu ou jardim botânico e zoológico, ou imposta como num asilo, prisão, internato, enfermaria.

 

A humanidade ou sonha ou morre. Vivemos até 1989 rodeados pela força maciça dos que nos queriam libertar à força através de mundos perfeitos. Vivemos desde 1989 presos pelos vendedores de mercadorias que nos querem libertar através da imaginação aquisitiva.

 

Sonhar ou morrer, parece ser o nosso destino. Por tudo isto, temos de repensar as utopias, as distopias e as heterotopias.

 

É o que iremos tentar com mais de 60 especialistas, reunidos entre 24 a 26 de Novembro, por iniciativa dos Centros de Estudos da Faculdade de Ciências Humanas, da Católica, em colaboração com entidades como o CLEPUL, a Professional Women’s Network, e o CF António Sérgio.

 

Em conjunto iremos promover o Congresso Internacional Tomás Moro e os Horizontes de um Mundo Melhor, por ocasião dos 500 anos da publicação da obra Utopia, a fim de questionar de que modo a mensagem de Tomás Moro continua presente nos caminhos da cultura, da política, da economia, da religião e da reinvenção da sociedade.

 

Após décadas de falsas utopias, de que iniciativas de imaginação criadora seremos ainda capazes?

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:48
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

FRANCISCO E LUTERO:

DOIS REFORMADORES

 

Mas por que foi Francisco à Suécia? Porque são importantes estes acontecimentos de há 500 anos? Afinal não somos apenas nós, Portugueses, que nos preocupamos com sucessos de há 500 anos?

 

MCH-Francisco-na-Suecia.jpg

 

A 31 de Outubro de 2016, o Papa Francisco esteve em Lund a iniciar o aniversário dos 500 anos da Reforma, juntamente com representantes da Igreja Luterana. A 1 de Novembro celebrou uma missa para 25 mil católicos; não há muitos mais na Suécia.

 

Onde foi pregar o papa? À Suécia, um dos países mais descristianizados da Europa. Segundo o Eurobarómetro, em 2010, apenas 18% dos suecos “acreditam que existe um Deus”. Segundo a Gallup em 2009, 17% afirmam que “a religião é uma parte importante da sua vida diária”. Apenas 15% dos membros da Igreja Sueca acreditam em Jesus, enquanto outros 15% são ateus, e 25% agnósticos. Apenas 2% participam nas celebrações. Neste país, a religião é considerada com indiferença benigna.

 

Mas por que foi Francisco à Suécia? Porque são importantes estes acontecimentos de há 500 anos? Afinal não somos apenas nós, Portugueses, que nos preocupamos com sucessos de há 500 anos?

 

Na época de Lutero, a Igreja Católica considerava que ninguém deveria formar as suas próprias opiniões a não ser através da mediação da Igreja. Contra esse paternalismo, Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, a língua comum. Assim recomendavam todos os humanistas cristãos: Erasmo, Colet. Moro. Budé, Vives.

 

Papa comemora a Reforma

 

A viagem de Francisco a Lund significa a primeira vez que um papa comemora a Reforma. A era ecuménica do “consenso diferenciado” começou há 50 anos com o Concílio Vaticano II e é agora reforçada na cerimónia luterano-católica.

 

Se Lutero tivesse sido apenas um teólogo com ideias inovadoras; se apenas tivesse escrito ou impresso tratados com as suas leituras e interpretações da palavra de Deus mas tivesse morrido a 30 de Outubro, o mundo seguiria o seu rumo.

 

Mas Lutero foi diferente. A 31 de Outubro pegou nas 95 Teses que denunciam a venda das indulgências e afixou-as na igreja de Wittenberg, o primeiro dos actos com que arriscou a vida pela fé cristã, e pelos valores da liberdade de consciência.

 

Em 1521, chegou a Worms perante o imperador Carlos V e ouviu a condenação dos juízes; após pedir 24 horas de reflexão, afirmou com lucidez e coragem: “Estou submetido à minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.”

 

A loucura de Lutero

 

Esse foi o primeiro ponto de Francisco em Lund. Elogiar essa “loucura” do “Aqui estou e não posso fazer o contrário“, a loucura de quem arrisca tudo pela fé e para ajudar os outros.

 

A Igreja de Jesus Cristo nasceu em Jerusalém há quase dois mil anos. Teve um período verdadeiramente católico ou universal, até ao cisma de 1054, gerador da Igreja Ortodoxa na Europa do Leste e Rússia. Teve um período confessional desde a reforma de 1517 em que as guerras de religião se sucederam e as divisões diminuíram o fulgor evangélico. E iniciou um período ecuménico a partir do séc. XX em que o ateísmo e agnosticismo crescentes se tornaram ameaças maiores que as divisões internas.

 

Ecuménico significa o que abrange o planeta. Ecuménico é também o movimento em que catolicismo, protestantismo e ortodoxia, antes constrangidos por posições confessionais, redescobrem a unidade primordial em Jesus Cristo.

 

É a primeira vez que um papa comemora a Reforma mas a história do ecumenismo é mais longa. A Conferência Missionária Mundial de Edimburgo em 1910 foi um passo importante como o é o prémio Templeton, desde 1972 considerado Prémio Nobel da Teologia.

 

Ecumenismo

 

As Igrejas evangélicas iniciaram o ecumenismo com a Assembleia geral do Conselho Mundial das Igrejas em Uppsala (1968).

 

A Igreja Católica iniciou-o com o Concílio Vaticano II. O decreto ecuménico Unitatis redintegratio; a constituição dogmática Lumen gentium e a Constituição pastoral Gaudiam et Spes e o decreto missionário Ad gentes são os marcos desse ecumenismo. A recente Encíclica Laudato Sí, de 2015, expandiu este horizonte.

 

A “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação” de 1999, apresenta a fórmula de “consenso diferenciado”. No documento “Do conflito à comunhão” da Comissão Internacional Católico-Luterana em 2013, afirma-se: Em 2017, devemos confessar que somos culpados diante de Cristo por termos rompido a unidade da Igreja.

 

Em 1517 a Igreja encetava com Lutero o caminho da separação. Em 2017 está no caminho para a unidade nas diferenças. A unidade está mais próxima: essa foi a segunda mensagem do Papa Francisco em Lund: as comunidades cristãs não podem resignar-se à distância que a separação criou.

 

Conta o cardeal Walter Kaspar no seu livro Martinho Lutero; lido em chave ecuménica 500 anos depois que a 1 de Novembro de 2009 plantou uma tília no jardim de Lutero em Wittenberg; em retribuição, os luteranos plantaram uma oliveira diante dos muros da basílica de São Pedro, construída com o dinheiro da venda das indulgências. Quem planta árvores tem esperança mas também tem que ter paciência.

 

O ecumenismo tem que se alimentar do mútuo reconhecimento; não é um produto de uma pessoa, um grupo ou uma igreja. Para os crentes, acontece como dádiva de Deus; para os não crentes, é o que o mundo necessita para sair dos impasses actuais…

 

Crenças comuns

 

A chanceler Angela Merkel, cristã luterana e filha do pastor Horst Kasner, apelou às igrejas protestantes e católica da Alemanha para salientar as crenças comuns em 2017.

 

Tal como Lutero, há 500 anos atrás, estava escandalizado que o bom dinheiro alemão era desperdiçado com os luxos da Roma mediterrânica e estava descrente desse grande projecto europeu que era a aliança entre o Império e a Igreja Católica Romana, a sr.ª Merkel tem um problema luterano de lidar com um povo que acha que o dinheiro alemão subsidia estrangeiros mal comportados.

 

Para o resolver vai ser preciso muito mais que perceber de finanças internacionais. Vai ser preciso construir com paciência a atitude ecuménica dos consensos diferenciados que as igrejas cristãs descobriram ao longo do século XX e que o reformador Papa Francisco veio celebrar em Lund com os reformadores luteranos.

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 06:37
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

Banca Zombie

 

Zombie, na cultura popular, é um morto-vivo, um ser sem vontade própria que passeia à noite por entre os vivos

MCH-banca-zombie.png

 

Assim vão os bancos em Portugal e na Europa: movem-se mas sem rumo nem liderança. O dinheiro ganhou neles vida própria. É sugado aos cidadãos; é injectado pelo Estado nos bancos mais fracos; estes são vendidos a preço vil aos bancos mais fortes; e estes dependem do Banco Central Europeu que lhes lança dinheiro das nuvens, enquanto se aproxima o colapso do sistema montado nos longínquos anos 90 e que desde 2008 não recuperou mais.

 

Nunca houve tanto dinheiro na Europa – 95% dele escriturário – mas é como as areias do deserto; a ninguém aproveita e o sistema está descontrolado.

 

Primeiro, vem a austeridade forçada para o Estado arrecadar dinheiro. Pensionistas e reformados tentam sobreviver. Empregados e funcionários vêem os seus ordenados reduzidos, enfrentando o precariado e a pauperização. Os jovens vão saltando de emprego em emprego, na tentativa de criar condições para terem casa e família. Centenas de milhar de doentes deixam de ser assistidos de forma condigna em hospitais sobrelotados. Centenas de milhar de empresas e de famílias estão na insolvência ou com sobre-endividamento.

 

Depois, vem a injecção estatal. Entre 2007 e 2016 em Portugal – com as falências de BPN, BPP, BES, BANIF e as recapitalizações da CGD, mais juros sobre isto tudo – Portugal empatou 13 mil milhões de euros de ajudas ao sector financeiro, 7,3% do produto interno bruto.

 

MCH-banca-zombie-outra.png

 

A seguir, as dívidas dos bancos dos países ricos são passadas aos bancos dos países pobres. Os países europeus resgatados – Portugal Grécia e Espanha – reduziram dezenas de milhares de milhões de euros de exposição a bancos estrangeiros desde o início do resgate – mas continuam a aumentar o volume de dívida total. Ou seja, resgatados foram apenas os bancos privados dos países europeus ricos. Tudo o mais que se disser é mentira.

 

Em paralelo os bancos fracos são vendidos aos bancos fortes. O BCE tem uma estratégia de colocar a banca privada nacional na dependência de bancos estrangeiros”, referem os subscritores do documento de reflexão “Reconfiguração da Banca em Portugal”. Veja-se a penetração da banca espanhola em Portugal.

 

O Santander comprou o BCI nos anos 80. Em 2000 tornou-se o accionista maioritário do Totta & Açores. Depois criou-se o Santander Totta. Depois ficou com o Banif, após o colapso de Dezembro de 2015 pagando apenas 150 milhões de euros, a um banco resgatado que recebeu 225o milhões de Nós, o Estado. E agora poderá comprar até Agosto de 2017 o Novo Banco que custou 4,9 mil milhões ao “Fundo de Resolução” – ao qual Nós, o Estado emprestou 3,9 mil milhões de euros.

 

Também o Bankinter espanhol comprou em Setembro de 2015 o negócio de retalho do Barclays Portugal. O CaixaBank espanhol lançou uma OPA em Abril de 2016, sobre o Banco Português de Investimento (BPI) que parece final. Desde o início do ano, vários bancos espanhóis querem adquirir o Millenium/BCP, sendo que o Sabadell já controla 5%.

 

Na fase seguinte, os zombies chegam aos grandes bancos das grandes nações. O Deutsche Bank está a vacilar. O Banca Monte dei Paschi di Siena, de Itália, ( o mais antigo do mundo em funcionamento) tem 40 mil milhões de créditos mal parados.

 

Segundo as regras recém-criadas de “resolução de banco” – a linguagem crioula da parasitocracia para descrever a falência de um banco – os depositantes tornaram-se credores do banco contra sua vontade. Em caso de falência os accionistas pagam em primeiro lugar, em seguida, os credores e finalmente os depositantes, com mais de 100.000 euros.

 

Talvez o nível de literacia financeira dos bebedores de cerveja dos países do norte da Europa seja superior aos dos bebedores de vinho dos países do sul da Europa. Mas a turbulência ataca a todos. Diz o FMI, através de Peter Dattels: “Na Europa, cerca de um terço do sistema bancário – cerca de 7.500 mil milhões de euros – permanece incapaz de gerar lucros de forma sustentável ”

 

Finalmente, os zombies vivem no Banco Central Europeu. Como está em jogo a sobrevivência da zona euro, o BCE emite dinheiro a rodos em papel-moeda enquanto a banca zombie continua a criar dinheiro escritural através de empréstimos.

 

Ainda falta uma coisa: à injúria acrescenta-se o insulto, como lembra a famosa sentença de Tomás Moro. à injúria gigante infligida pela banca, junta-se o insulto dos vencimentos milionários dos administradores de um sistema condenado a falhar.

 

Há saída ? Há, mas só quando deixarmos de nos guiar pelas élites financeiras e políticas do momento. A dúvida instalou-se no coração da Europa: leiam a confissão de Jean-Claude Juncker a 7 de Outubro, por ocasião dos 20 anos do Instituto Jacques Delors, em Bruxelas.

 

26 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:19
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
PERGUNTAS PROIBIDAS

Ocidentalismo

Ou de como o Ocidente é usado contra ele próprio

MCH-Ocidentalismo.jpg

Ocidentalismo, de Adel El Siwi

 

Existe um fio condutor cada vez mais evidente a ligar o burkini de Verão aos massacres de Aleppo, o contragolpe de Erdogan à Primavera Árabe falhada, a desconfiança para com os refugiados ao véu islâmico. Foi identificado num pequeno livro de 2004 de Avishai Margalit e Ian Burma chamado Ocidentalismo.

 

O Ocidente teve uma revolução científica e uma revolução industrial que o enriqueceu materialmente, ligando o crescimento económico à ruptura com a sociedade tradicional e com a religião. Esta imagem de modernização foi a rampa de lançamento do Ocidentalismo. Os líderes de países não-ocidentais quiseram reconstruir as suas sociedades com base num modelo científico que deitaria fora a tradição.

 

Já em 1700, Pedro o Grande da Rússia mandara os nobres cortar as barbas e os sacerdotes pregar as virtudes da razão. Desde então, muitas guerras foram declaradas ao Ocidente em nome da alma russa, da raça germânica, do Xintuísmo japonês, do comunismo soviético. De todas as revoluções do Terceiro Mundo, o presidente Mao foi o grande ocidentalista e destruidor de tradições.

 

Mas deixando de lado Mao Zedong, Estaline e Hitler que pertencem a outra constelação totalitária, concentremo-nos no ocidentalismo de Kemal Ataturk, na Turquia ou de Reza Pahlevi no Irão, de Nasser no Egipto e dos príncipes sauditas.

 

Chegado ao poder em 1923, Ataturk transformou a vida social da Turquia. Aboliu o vestuário oriental: véu, turbante, fez. Estabeleceu um sistema de educação secular. Tornou o secularismo uma religião política. E contra ele agora se revolta o partido de Erdogan, como aliás em Marrocos.

 

Quando Reza Shah Pahlavi tomou o poder no Irão com um golpe de Estado em 1921, trouxe a emancipação feminina e a destruição de privilégios tribais. Como outros modernizadores, atacou as formas tradicionais de vestuário. Soldados mandavam as mulheres retirar os véus, e os clérigos os turbantes. Os crentes foram proibidos de ir a Meca; os seminaristas que protestassem eram mortos a tiro.

 

O seu descendente, Mohammad Reza Pahlavi casado com Farah Diba, uma princesa que piscava os olhos ao Ocidente, tinha igual apreço pelo ocidentalismo e desprezo pela religião. Mas aos olhos dos revolucionários do Alcorão, era um idólatra e foi deposto em 1979 pela revolução islâmica. Taleqani (1910-1979) promoveu essa noção da idolatria dos ocidentalistas e moldou a ideologia da revolução islâmica no Irão e fundou o Fada’iane-e Islam, donde emergiram os Ayahtollas.

 

Sayyd Qutb, o ideólogo egípcio da Irmandade Muçulmana no séc. XX, inspirador da Al-Qaeda de al-Zawahiri e Bin Laden, via a idolatria em tudo. Desde o Cairo decadente aos bairros de Nova Iorque, o mundo vivia na luxúria, ganância e egoísmo. Para terminar isto, o mundo deveria ser governado pelas leis de Deus. O estado islâmico traria a guerra santa e permitiria aos homens superar ambições egoístas e opressores corruptos. Os alvos imediatos eram os governantes ocidentalizados das nações muçulmanas. A seu tempo viria a guerra contra os judeus e os países ocidentais.

 

Na Arábia, a aliança entre a dinastia saudita e o credo Wahhabita, pregadores e guerreiros, permitiu a conquista das cidades santas do Islão com o apoio dos britânicos na Primeira Guerra Mundial. O Wahhabismo tornou-se a ideologia oficial de uma sociedade muçulmana puritana nos anos 20.

 

Entretanto, jorrou muito petróleo dos poços e as riquezas sauditas mudaram as regras do jogo. Milhares de príncipes sauditas são milionários. Mantêm uma aparência de wahhabismo mas desfrutam de tudo o que o Ocidente pode oferecer. E o que Riade não fornece, Londres tem em abundância. Contra esta hipocrisia sem limites revoltou-se Bin Laden e lavra a guerra no Iémen de que pouco se fala.

 

Os islâmicos radicais culpam judeus e cristãos por sucumbir às novas idolatrias do dinheiro e da luxúria mas tentam saldar as contas com os ocidentalistas dos seus países, antes de se virarem contra os países ocidentais. Por vias guerreiras como o ISIS na Síria, ou com manobras eleitorais, como no Egipto.

 

O Ocidente, definido pelos inimigos, é uma ameaça porque as promessas de conforto material, liberdade individual e dignidade de vida deitam abaixo as pretensões de vida heróica. Escreveu Werner Sombart em Mercadores e Heróis, de 1915, que a guerra cultural entre a Inglaterra e França, era um confronto entre os oportunistas da Europa Ocidental e a Alemanha que é a nação de heróis capazes de sacrificar-se por ideais. Um ocidental que usa o Ocidente contra si próprio, como muitos outros desde Ernst Juenger até aos movimentos de extrema-direita na Europa actual.

 

Esta noção de que falta sacrifício e heroísmo no Ocidente democrático, leva jovens a inscreverem-se no Daesh; leva os ocidentalistas a considerar o Ocidente como decadente no pensamento e nos costumes; e traz aos ocidentais atarantados a cegueira de que tudo se perdeu: a flauta mágica; a religião; o romantismo dos heróis.

 

Aos olhos dos ocidentalistas, a mente do Ocidente é sórdida, boa para escolher meios, mas inútil para encontrar o caminho certo. E os norte-americanos colocam-se a jeito para esta leitura, ao contrário dos esforços feitos pela Sociedade decente, o outro grande livro de Avishai Margalit onde se indica como ultrapassar o Ocidentalismo.

 

18 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:32
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