Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA - 13

 

FÉ, MITOLOGIA E TEOLOGIA

 

Etimologicamente, «Mitologia» vem de mito que é algo que não existe, que é ficcional; «Teologia» tem a ver com «teo», Deus.

 

Independentemente da verdade, só a nossa religião é teológica; todas as demais são mitológicas.

Inti.jpg

 

Inti é o nome quéchua do Sol, tido pela divindade mais significativa da fé do Inca.

 

Culturas anteriores à quéchua tinham Viracocha como sendo a suprema divindade. A definição completa do seu poder absoluto passava pela enumeração da sua superioridade sobre a água, a terra e o fogo mas evoluiu para um conceito mais complexo que acabou por se tornar no Deus único e criador universal, Inti.

 

Este novo e muito poderoso Deus do Sol não estava sozinho, estava casado com a sua irmã, a Lua com quem compartilhava uma posição igual no tribunal celestial. A Lua era conhecida sob o nome de Mama Quilla.

 

Mama Quilla.png

 

Inti era representado por uma elipse de ouro; Mama Quilla era representada por um disco de prata. Como um criador, Inti era adorado e reverenciado, mas também concedia (ou não) favores e ajudava (ou não) a resolver problemas e aliviar as necessidades; só ele podia dar boas colheitas, curar doenças e providenciar a segurança exigida pelo homem. E no meio de Natureza tão agreste com desertos tão áridos, com chuvas diluvianas, com tremores de terra e tsunamis tão devastadores, bem se compreende como esta (e qualquer outra) divindade era importante.

 

A Mama Quilla foi atribuído o fervor religioso das mulheres e elas foram as que formaram o núcleo duro dos seus fiéis seguidores. Quem melhor do que Quilla conseguia entender os seus desejos e os seus medos dando-lhes a protecção pretendida?

 

* * *

 

Teologia ou apenas mitologia, uma coisa é certa: mesmo fora da influência das civilizações nossas conhecidas no Médio Oriente, no Oriente, no seu Extremo ou aqui na Europa, o homem acreditava em divindades - ou porque as sentira ou apenas porque precisava de se agarrar a uma crença. E aceitou os intermediários que lidam directamente com o divino: os xamãs, os médiuns, os sacerdotes, todos mais ou menos profissionais, todos verdadeira ou falsamente imbuídos de misticismo, uns verdadeiros, outros charlatães.

 

Mas, ao contrário dos que matam em nome de Deus, eu acho que a fé não se discute.

 

Janeiro de 2018

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(algures em Goa, no exterior de um templo hindu)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:39
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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 12

 

OS MENSAGEIROS

 

Quando todas as questões científicas possíveis e imagináveis tiverem sido respondidas, os problemas da vida – a tragédia, o sofrimento, a felicidade, o significado das nossas vidas – permanecerão completamente intocados porque a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. E, neste sentido, a ciência priva-nos da verdade. Então, perdemo-nos num amontoado de verdades transitórias e parciais.

 

Eis por que, perdido o sentido da metafísica, nenhuma verdade pode existir, a mentira domina e triunfa o nihilismo da missão do homem na vida. E esta vacuidade leva forçosamente à filosofia do poder, ao «salve-se quem puder». E foi nesse desespero que Nietzsche pôs termo à vida.

 

O drama actual está em evitar que a nossa velha Civilização continue na senda nietzschiana. Também, com todo o materialismo e profusão do conforto consumista, chegámos à alienação pela obesidade física, ao enfartamento informativo, à manipulação do conhecimento, à anulação da velha sabedoria geracional.

 

* * *

 

Depois deste interregno sociológico, sem nos transformarmos em anacoretas, urge regressarmos à Metafísica para não ficarmos fisicamente enfartados e pensarmos pelas nossas cabeças em vez de nos deixarmos manipular pela indústria da informação.

 

Anjo.jpg

 

E a questão é: onde cabem os anjos mensageiros da verdade nesta floresta de verdades transitórias e parciais?

 

Janeiro de 2018

 

Mar e cabelo revoltos.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:37
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Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 9

 

 

Como será na outra dimensão que não esta, material, em que nos encontramos? Não sei e não pensei ainda no assunto. O que sei é que não me vou preocupar por enquanto com o tema. Por enquanto…

james-joyce.jpg

 

Mas, embora possa parecer um absurdo, agora penso em James Joyce e na sua epifania, a epifania joyceana dos lugares e das suas ocasiões. E do que se trata? Trata-se de «vermos» o que aconteceu nos lugares por que passamos, sobre as pedras que pisamos. Mas isso, numa condição: a de sabermos o que se tenha por ali efectivamente passado. Então, vemos as cenas, imaginamos as pessoas, os factos historicamente conhecidos. E tudo isso acende luzes na nossa mente até ao ponto de consciencializarmos os pormenores, os fundamentos dos acontecimentos, a quinta essência dos locais.

 

Eis por que espiritualismo nada tem a ver com espiritismo; James Joyce nem sequer terá conhecido Allan Kardec. Prefiro «Ulisses».

 

A epifania a que me refiro acontece a partir do conhecimento prévio do que tenha acontecido, resulta de nós, não é uma adivinhação nem uma revelação de algo que não conhecíamos e que nos seja trazida… por quem? A transcendência joyceana é endógena, genuinamente nossa, não usa mesas com pé de galo nem fumos mais ou menos anabolizantes espirituais.

 

E nada me diz que James Joyce tenha curriculum que o eleve aos altares.

 

Janeiro de 2018

Natal 2011.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:55
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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 7

 

MATERIALISMO ESPIRITUAL

 

Materialismo espiritual parece um absurdo mas trata-se da manifestação perante os nossos sentidos de algo que só se pode associar a um espírito por falta de explicação alternativa.

 

Conforme relatei no texto inicial desta série, eu próprio testemunhei essa realidade por várias vezes: duas vezes ouvi; por vezes já incontáveis, vi. Em muitas destas vezes, fui acompanhado no testemunho pela minha mulher ou pela nossa empregada doméstica.

 

Trata-se de um conhecimento empírico, factual, não teórico.

 

Mas houve quem o teorizasse. Por exemplo, basta referir os budistas e os teólogos católicos.

 

Assim, se o Senhor Buda nunca se afirmou divino e sempre se disse um homem comum, foram os seus seguidores que lhe atribuíram milagres tanto em vida como por invocação depois da morte terrena. Aí está: morte terrena e sobrevivência do espírito que os devotos invocam.

 

Os católicos invocam os Santos da sua devoção por cuja intercepção com Deus esperam receber atenções específicas. Aí está novamente a morte terrena do Santo invocado e a sobrevivência do respectivo espírito.

 

No meu caso, não tenho a pretensão de ter testemunhado a aparição do espírito de algum ilustre membro do nosso hagiológio, pode ter sido de alguém mais chegado à minha vivência ou à minha casa. Na minha teologia cabe a possibilidade de cada um de nós, vivos, ter um anjo da guarda.

 

Sinto-me confortável ao imaginar que tenho um anjo que me guarda, aquele que me chamou na Índia e que já referi. Conforto empírico, não intelectualizado.

 

Dezembro de 2017

Buenos Aires, 2012.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:12
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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 5

 

UM PONTO NO INFINITO

 

Sim, creio que alguém deu a ordem de ignição para que o Big Bang acontecesse. E a esse alguém eu chamo Deus.

 

A questão que coloco de seguida é a de saber se Deus accionou a grande explosão e se retirou de seguida ou se se manteve a assistir ao resultado da acção desencadeada.

 

A esta questão respondo com a hipótese da continuação pois não encontro a quem mais se possa atribuir a autoria do inexplicável à luz dos nossos sentidos (conhecimento sensorial), do racional (lógica, a dos silogismos), do intelectual (raciocínio especulativo) nem do conhecimento científico. Autoria de inexplicável, vulgo, fazer milagres.

 

Será então que à medida que o homem avança no conhecimento, Deus recua nos milagres?

 

Aqui recorro novamente a Karl Popper[1] quando afirma que o avanço científico se faz pela sucessão de

problema inicial => tentativa de formação de teoria => discussão crítica para eliminação de erros => reformulação do problema => nova teoria => despiste de erros => …

Erros e Verdade.jpg

 

… e assim sucessivamente com destino à verdade que consiste num ponto no infinito.

 

Ou seja, o homem avança mas Deus não recua porque o homem culto e sabedor despista erros mas descobre que a verdade é esse tal ponto no infinito. E o inexplicável continuará até que o homem atinja a verdade total lá no infinito…

 

Dezembro de 2017

Mar e cabelo revoltos.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[1] «A VIDA É APRENDIZAGEM – Epistemologia evolutiva e sociedade aberta», Karl Popper, ed. Edições 70, 1ª edição, Janeiro de 2011, pág. 30 e seg.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:06
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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 4

 

 

Então, como ia dizendo, se os cientistas actuais admitem a existência de outro Universo (no singular ou no plural) a que futuramente se acederá pelos buracos negros espaciais, quem sou eu para duvidar?

 

Assim, admitido o desaparecimento da unicidade do nosso Universo, podemos também admitir outras dimensões que não apenas as três dos eixos cartesianos mais a do tempo, as tradicionais quatro dimensões em que navegamos diariamente[1].

 

Mais duas questões:

  • Em que dimensões funcionam os ultra rápidos OVNI’s?
  • Quem nos diz que noutros Universos as «coisas» funcionem como no nosso? É que, tanto quanto se supõe, no nosso tudo começou com o big bang.

E a partir deste ponto, cessa o esotérico e entra o exotérico.

 

E os outros Universos terão tido o mesmo big bang que nós tivemos ou foi de outro modo que nasceram? E mesmo no nosso, o quê ou quem provocou o big bang?

BIG BANG.png

 

Os animistas dizem que foi um Ser que não identificam, os hindus dizem que foi Brama, os budistas referem-se ao Ser Supremo, os judeus atribuem a criação do Universo a Javé, os cristãos a Deus, os muçulmanos a Alá e assim por aí além…

 

O nome e a teologia que cada grupo de homens lhe deu, é questão menor quando o que está em causa é saber se Deus existe ou não.

 

Eu creio que alguém provocou o big bang.

 

Dezembro de 2017

 

Henrique-Ushuaia, MAR12.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Recordemos que os matemáticos também têm modelos para mais do que estas dimensões



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:42
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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 3

 

 

Educado fora da religião – não contra – sempre fui céptico relativamente a questões exotéricas mas as histórias que narrei no texto inicial fizeram-me um click determinante na aceitação da dimensão imaterial, direi mesmo que da vida para além da morte.

 

A partir dos acontecimentos das histórias que contei, ficámos a ver por vezes - pelo canto do olho, não de frente - certas «nuvens» passageiras a que não fomos capazes de atribuir uma forma específica de modo a que conseguíssemos identificar do que (ou de quem) se tratava.

 

E isto significa o quê? Para já, significa que deixei de considerar exclusiva a dimensão tridimensional a que estamos habituados. Mas significa também que essa outra dimensão continua a ser misteriosa pelo que tenho que a abordar de um modo diferente para descortinar algo mais, tentando encontrar uma explicação para o que nas tradicionais três dimensões é inexplicável.

 

buraco negro.jpg

Sou assim levado a perguntar-me o que se passa com os buracos negros existentes por esse Universo além que tudo absorvem de tal modo que nem a luz lhes escapa. Para onde vai tudo? E a explicação que «homens de Ciência» me apresentaram consiste na hipótese de os buracos negros serem pontos de contacto com outro Universo (no singular ou mesmo no plural), quer dizer, com mundos nossos desconhecidos, com outras dimensões.

 

E se os cientistas actuais admitem que haja dimensões nossas desconhecidas…

 

Dezembro de 2017

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:06
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Domingo, 24 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 2

sol e núvens.png

 

Claramente pretensiosa a atribuição a estes pequenos textos da dimensão de matéria teológica. Mas que outro nome lhes hei-de atribuir? Metafísica? Sim, estou a referir-me ao que fica para além da física, ao imaterial. Mas na Metafísica cabe muito mais do que na Teologia e esta, sim, é a questão relativa à dimensão que tem a fé como inerência, em paralelo com a racionalidade. A Metafísica pode basear-se apenas na racionalidade; Deus exige fé. Nem Santo Anselmo conseguiu eximir-se à fé para elaborar o seu argumento ontológico. Nem Descartes, nem Pascal,… como já nem os teólogos da era patrística cristã ou aqueles que transformaram a filosofia budista em religião passando por todos os teólogos judeus, muçulmanos, hindus, xintoístas e até animistas. A Teologia existe para dar racionalidade à fé, para explicar o que aparentemente é inexplicável.

 

E cito Karl Popper a págs. 32 da sua autobiografia intelectual, «BUSCA INACABADA»[1] em que afirma que “a teologia (...) é devida à falta de fé”, conceito com que também não deixo de concordar pois quem tem fé não precisa de explicações e a quem a não tem, pode não haver explicações que bastem. Foi especialmente para estes últimos que a Teologia foi edificada.

 

Mantenho, pois, o título. Mas para descer ao nível que na realidade cabe às elucubrações que desenvolvo, aconchego tudo à cautelosa dimensão da «minhidade». E assim fica ab initio admitida a falibilidade.

 

 

Dezembro de 2017

 

Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - ESFERA DO CAOS, 1ª edição, Fevereiro de 2008



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:58
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Sábado, 28 de Outubro de 2017
LIDO COM INTERESSE – 74

 

 

EL MONARCA DE LAS SOMBRAS.jpg

 

 

Título – EL MONARCA DE LAS SOMBRAS

Autor – Javier Cercas

Editor – LITERATURA RANDOM HOUSE, Lima, Peru

Edição – 1ª, Fevereiro de 2017

 

Foi numa das minhas passagens pelo aeroporto de Lima, capital do Peru, que comprei este livro julgando tratar-se de um novo escritor peruano. Não, é espanhol. Mas li-o na mesma e a literatura peruana fica para um dia, lá para a frente, em que outro bookiniste não me induza em erro. Entretanto, uma vez que o meu universo da literatura peruana se limita a Mário Vargas Llosa, acho que não tenho motivos de queixa que me obriguem a correr a trás de algum outro escritor peruano que, muito provavelmente, não chegará ao nível deste que já conheço. Eis por que me aconselho calma na busca que farei.

 

Quanto a este que agora acabei de ler, Javier Cercas, é claramente um bom contador de histórias e prendeu-me desde o início até ao fim. Mas, mais do que a história (que nos é apresentada como verdadeira), apreciei o estilo literário com formas de construção das frases que me encheram de curiosidade. Por exemplo, intercalando entre cada raciocínio a conjunção «e» (em castelhano, «y»), faz parágrafos quase duma página inteira sem que o leitor perca o fôlego. Mais: obriga-nos a seguir a sequência que nos quer contar com um ritmo que a divisão em diversos parágrafos poderia quebrar e distrair-nos. Garante, pois, uma unidade de escrita que, afinal, não cansa.

 

Fez-me lembrar o que se diz de Saramago que parece escrever sem pontuação. É o que me dizem pois nunca li – nem tenciono ler – escritos do pensador de Lanzarote.

 

Outra curiosidade: Cercas intercala, entre aspas, diversas frases em discurso directo num parágrafo em discurso indirecto. E quando ficamos à espera duma grande confusão, damos por nós a constatar que, afinal, é uma escrita limpa.

 

Forma muito interessante, lê-se bem.

 

No que se refere ao conteúdo, a história é sobre a guerra civil de Espanha, a de 1936-39 e o personagem central é tio-avô (materno) do autor. Tudo começa num lugarejo perto de Trujillo, ali pouco depois da nossa Elvas e metade do livro é o autor – politicamente conotado com a esquerda ou, pelo menos, com a não-direita - a procurar uma justificação para escrever um livro sobre esse tio-avô que lutou nas tropas franquistas.

 

Livro sem a mais pequena ponta de «suspense» (desde o início que sabemos como a história acaba), dá para perceber as motivações de uns e outros na sociedade quase hermética de um «pueblito extremeño» durante os prolegómenos da que viria a ser uma das maiores matanças de espanhóis. E histórica e sociologicamente, é esta a grande virtude deste livro.

 

Li a versão original, castelhana, mas a tradução portuguesa chegou agora às nossas bancas.

 

Para acabar, uma breve referência ao autor, Javier Cercas, que nasceu em Ibahernando em 1962, é professor de literatura espanhola na Universidade de Girona e tem no seu curriculum de escritor várias obras editadas e traduzidas.

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:24
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Domingo, 22 de Outubro de 2017
PERU – 9

 

COLCA

 

Penhascos literalmente andinos e abismos tipicamente dantescos, eis o cenário que nos é oferecido neste passeio que nos faz saudades das planuras de Vila Franca de Xira ou da Camargue onde o Ródano finalmente se banha no Mediterrâneo.

 

Colca é uma cidade, um rio e um vale. A cidade – a que por ali chamam Chivay - deveria ser apodada com diminutivo para corresponder à realidade; o rio – no troço que vimos – é um riacho; o vale é ubérrimo mas rapidamente se transforma num canhão só habitado pelos majestosos condores.

 

Chivay, Colca, Peru.png

 

Apesar de se localizar no ponto mais fundo do vale agrícola, a cidade está a 3 650 metros de altitude, tem cerca de 5 mil habitantes, não tem desemprego e só lá se chega por estrada de montanha (bem asfaltada como todas as que usámos no Peru) mas não aconselhável a condutores com atracção do abismo. E sabendo que para de lá sair teríamos que regressar pela mesma estrada, perguntei onde o rio ia desaguar e se não havia estrada que o acompanhasse. Que desagua no Pacífico mas que o vale se transforma logo ali a seguir num canhão medonho a que só raros montanhistas se atrevem a aceder. Uma estrada por ali? Só se fosse toda ela em túnel numa das falésias. Não, é mais fácil a agradável «passear» pela estrada que já existe com belas vistas das montanhas.

 

colca-lodge spa.jpg

 

O hotel em que ficámos é mesmo no último palmo de terra que o homem normal pisa antes de o vale se transformar no tal canhão medonho. E para tranquilidade dos temerosos, há por ali nascentes efervescentes a convidar ao banho que nos lembram o caracter sísmico de toda a região em que os tremores de terra são o pão deles de cada dia. E se um cataclismo nos fecha ali naquele buraco? Não aconteceu o pior e tudo se resolveu a bem. Até o caminhito de acesso ao hotel que o nosso autocarro percorreu a contar os centímetros que lhe sobravam até à parede abrupta de um dos lados e do abismo do outro nos mostrou que a tal estrada de montanha é uma brincalhotice de crianças de escola. E, no regresso, para facilitar tudo, tivemos que nos cruzar com uma carrinha que se agarrou à parede como uma lapa e nós, os do carrão grande, que nos despenhássemos por ali a baixo… Sim, a gestão de todo o processo circulatório no dito caminhito, passou a ser feito não mais em centímetros mas sim nas suas parcelas. E como prova este escrito, tudo acabou com a naturalidade requerida pelos espíritos eruditos e tranquilos.

 

Apesar de tudo, já eu conhecendo a estrada de entrada e saída do vale pela montanha abaixo e acima, decidi que no regresso haveria de me concentrar no lado da parede em vez de olhar para o vazio dos abismos. Assim fiz e evitei sufocos estrangulantes de paisagens imponentes mas depois destas visões dantescas, não tardará muito para que o turismo de maior altitude que me permitirei futuramente seja, no limite, ao nível do segundo piso da Torre de Belém.

 

Mas aquela é a verdadeira casa do condor e é por ali que ele sia e passa…

Quando el condor pasa.jpg

 

Outubro de 2017

 

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:22
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