Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
ENCONTRO DE ESCRITORES – 6 -

 

Agnósticos, ateus e outros incrédulos, eis a plêiade dos que não acreditam em almas de um outro mundo. Eu também já fui desses. Até que ouvi chamar por mim já umas três vezes e abandonei aquele grupo inicial. Um dia, conto; hoje, não.

 

Esoterismo à parte, vamos ao que é exotérico. E os escritores que hoje invoco também pertenciam àquele grupo inicial mas o esoterismo deu-lhes por certo a volta e, mais dia- menos dia, desafio-os a virem até cá para conversarmos um pouco. Talvez que Santo Ambrósio volte a ser de grande utilidade. Ou São Boaventura, para não estar sempre a incomodar o mesmo.

 

Referi na crónica anterior o meu Avô. Chamava-se (ou chama-se) José Tomás da Fonseca e esteve por cá de 1877 a 1968. A sociedade portuguesa era na sua juventude predominantemente analfabeta[1] e nas terras beirãs onde lhe nasceram os dentes, os Padres tinham um enorme ascendente sobre a sociedade boçal. Querendo estudar, o meu Avô teve que ir para Coimbra interno no Seminário onde, para além do ensino secundário, fez o curso de Teologia. Mas, mesmo no final, «deu corda aos calcantes» e não tomou votos[2]. Então, muito resumidamente, assumiu como suas as duas missões que nortearam toda a sua vida: o combate ao analfabetismo adulto e o fim da hierocracia que na prática existia nas zonas rurais. Todo o cenário em que se movimentou fez dele um insubmisso, um rebelde. Mas, apesar disso, sempre foi muito afável. Eu costumo dizer dele que foi a pessoa simultaneamente mais culta e mais afável que alguma vez conheci. E dele guardo um poema que julgo traduzir a essência do que lhe andou sempre no espírito.

 

OS REBELDES

 

Eu amo a luta

E abrigo a paz no coração.

Meu credo é feito d’alma

E feito de perdão.

Vivo de bênçãos,

Como a flor vive da luz,

Pregando na montanha,

Assim como Jesus,

As delícias do amor

E a paz universal.

Baionetas para quê?

Se a baioneta é igual

À faca do assassino!

Em vez d’homens de guerra,

Camponeses lavrando

E semeando a terra…

Que eu não amo o que mata

Ao meio duma rua,

Mas o que cria um filho

Ou guia uma charrua.

E embora admire e louve

Essa mulher que foi

Ao meio de Paris

Executar um herói,

Muito mais louvo e quero

Essa mulher d’aldeia

Que vai à fonte,

Acende o lume

E faz a ceia

E abre o peito

Dando a um filho de mamar.

Corday [3] é uma tormenta,

A camponesa um lar.

Criar – eis o preceito;

Amar – eis o dever.

O nosso peito abri-lo

A todo o que o quiser:

Aos que são cegos, luz;

Aos que têm fome, pão.

Por isso é que eu abrigo

A paz no coração.

Tomás da Fonseca.bmpTomás da Fonseca

in Os Deserdados, 1909

 

Era o meu Avô preferido, sobretudo porque foi o único que conheci.

 

Na crónica anterior referi igualmente o meu Tio, também ele filho do meu Avô como o meu Pai. Chamava-se (ou chama-se) António José Branquinho da Fonseca mas ficou conhecido só pelos apelidos. Esteve por cá entre 1905 e 1974. Experimentou vários estilos literários, desde o poema lírico ao romance passando pela novela, drama e poesia. Contudo, ele próprio dizia que a sua expressão natural era o conto. E digam os seus biógrafos mais eruditos o que quiserem, eu digo que ele sempre se manteve ligado ao bucolismo da sua meninice. Dentre a extensíssima obra publicada, extraio o poema que segue que é, de longe, um dos de que mais gosto:

 

CANÇÃO DA CANDEIA ACESA

 

Ainda havia luz no céu

Quando se encostou à minha porta

A sombra da noitinha

E ali se adormeceu...

 

Mas como é de uso na aldeia,

Costume tão velho já,

Ao sentir-se alguém à porta

Eu disse-lhe: - Entre quem está...

 

Entrou. Era a noite... E, então,

Eu senti bem a tristeza

Daquela gente que não pode

Ter candeia acesa.

 

Eu tenho-a, Senhor;

Eu nem sei a riqueza que tenho:

Tenho uma terra

E também uma casa

E um rebanho...

 

E, além de tudo, um amor,

A quem quero e que me quer...

E que a vontade do Senhor

A faça minha mulher!

 

Tio António José.png

 

Era o meu Padrinho de baptismo preferido, até porque não tive outro.

 

Então, para levantar uma ponta do véu relativamente ao mistério inicial do meu abandono do grupo dos agnósticos e outros incrédulos, aqui vou eu de seguida...

 

Olá!

Diz-me aqui, baixinho,

Desde quando sentes companhia

Quando os outros te vêem só.

Também vês aquela sombra

Que passa pelo canto do olho

E sentes aquele murmúrio

Junto do teu ouvido

E que os outros não sentem?

Fala-me

Daquela outra dimensão

Onde estão os nossos queridos,

Esses que por aqui vogam...

Que sentimos por perto,

Vemos em penumbra,

Que amamos pelo que foram,

Que amamos pelo fumo que são,

E que vemos pelo coração.

Sim, nós sabemos

Que eles estão aí,

Que nos vêem.

Sim, eles são os nossos anjos da guarda

E sabem que nós sabemos.

Pois é isso que nos conforta.

E que venha a nós o seu reino

De pureza e de bem.

Ámen!

 

E assim me despeço. Passai todos muito bem!

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (1).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Em 1910, a taxa de analfabetismo adulto rondava os 90%

[2] Para saber mais, v. p. ex. em http://www.antigona.pt/autores/luis-filipe-torgal/

 

[3] Marie-Anne Charlotte Corday d'Armont (Normandia, França, 27 de Julho de 1768 - Paris, França, 17 de Julho de 1793) entrou para a história ao assassinar um dos mais importantes defensores da política do Terror (Jean-Paul Marat) instaurada em França pelos Jacobinos.

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:20
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017
EXPRESSÕES CURIOSAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

ANDAR À TOA

ANDAR À TOA.jpg Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está à toa é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:52
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017
ENCONTRO DE ESCRITORES – 5 –

 

 

- Eis-me, humildemente, a pedir a intercessão de Santo Ambrósio – rezei eu.

- Aqui estou, meu «filho» – disse de seguida o Santo – Então já sabes quem queres, quando e onde?

- Bem, vejo que não se esqueceu da nossa conversa anterior.

- No Céu, temos o dom da memória total.

- Então, quer isso dizer que o Dr. Alzheimer não está no Céu.

- Vá! Deixa-te de desconversas e vamos ao que interessa.

E fomos...

- Então, é assim, Santo Ambrósio: quanto ao «onde», já tenho tudo combinado para o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; quanto ao «quando», pode ser logo que eu lá chegue; quanto ao «quem», deixo ao seu critério a escolha dos «reciclados».

- Ah! Essa dos «reciclados» é muito boa! Sim, estão totalmente recuperados dos venenos que os infestaram na Terra. Muito bem, vai tu andando para o dito Paço e quando lá chegares, diz-me. Olha! Nem precisas de mo dizer porque no Céu sabemos tudo e quando eu te vir no local, logo te envio os «reciclados». OHOHOH!!! Essa é muito boa!

E assim foi que me meti ao caminho... chegando nervoso ao grande salão dos banquetes ducais. Quem iria o Santo enviar-me???

Paço dos Duques de Bragança, Guimarães.jpg

 

Foi nessa dúvida que vi a enorme tapeçaria da parede abanar ligeiramente e uma sombra inconfundível a passar junto das garrafas de branco e tinto abertas sobre a grande mesa, como que a medir as saudades dos vapores. Vapor que agora era ele próprio...

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno, 

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura, 

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

Eu próprio me esquecera por completo de pedir copos e, sobretudo, a tal «taça escura» pois bem sabia que ninguém tocaria em nada do que lá pusesse. Inconsequente esquecimento, até porque admito que a passagem pelo Purgatório o tenha desintoxicado dos vapores e da doentia apetência etílica. Poderia ter sido o maior poeta português mas deixou-se rodear por um anedotário de fábula burlesca e até pornográfica que nada terá a ver com ele. Mas pôs-se a jeito e aí está o povo para lhe torcer a fama.

 

Distraído com Bocage, não sei por onde entrou o seguinte que já vinha a declamar com voz tonitruante quando se aproximou de mim, apresentando-se...

 

Sonho que sou um cavaleiro andante. 

Por desertos, por sóis, por noite escura, 

Paladino do amor, busco anelante 

O palácio encantado da Ventura! 


Mas já desmaio, exausto e vacilante, 

Quebrada a espada já, rota a armadura... 

E eis que súbito o avisto, fulgurante 

Na sua pompa e aérea formosura! 


Com grandes golpes bato à porta e brado: 

- Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 


Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 

Mas dentro encontro só, cheio de dor, 

Silêncio e escuridão – e nada mais! 

 

- Oh Mestre, então veio directamente dos Açores ou do Casino? – perguntei eu.

- Do Céu, meu Caro, do Céu!

Sorri-lhe por fora mas temi-o por dentro. Aquela falta de serenidade não fora muito benéfica no banco do jardim público de Ponta Delgada... à bons entendeurs. E foi por causa desse episódio que teve que passar pelo Purgatório. Pena, tanta perturbação por coisas que estavam fora do seu controlo. Mas, pelo menos, sempre nos explicou algumas das causas da decadência dos povos peninsulares. E essa angústia não poderia dar bons resultados numa mente clinicamente perturbada. Eis por que Deus, por certo, lhe perdoou acto tão desconforme com a esperança.

 

Tive que interromper a conversa com Antero para dar as boas vindas ao barbudo seguinte que trazia um melro poisado no ombro da sobrecasaca. E fui eu que me lembrei dos primeiros versos d’«A velhice do Padre Eterno» e lhos recitei como que a dizer que o reconhecera...

 

O melro, eu conheci-o:

Era negro, vibrante, luzidio,

Madrugador, jovial;

Logo de manhã cedo

Começava a soltar d'entre o arvoredo

Verdadeiras risadas de cristal.

(...)

- Desculpará, Mestre, mas mais não digo porque mais não tenho de cor.

- Ah, Henrique! Não imagina com quem tenho estado...

- Não imagino.

- Com o seu avô.

- Que boa notícia me traz o Mestre! Mas não me surpreende assim tanto como muita gente poderia esperar. Lembro-me perfeitamente da sua frase relativamente a ele de que se tratava de «um Santo que diz não acreditar em Deus». Eu sou testemunha de que ele era um verdadeiro Santo, não no sentido religioso mas sim no da ética e da moral. E a moral e a ética que ele professava eram as cristãs e mais nenhumas. Continuo a não crer que só vai para o Céu quem diz acreditar em Deus; quem diz que não acredita, se tiver tido na Terra um comportamento exemplar na perspectiva moral e ética cristãs, não tem que ser impedido da salvação eterna. Não é por alguém dizer que não acredita em Deus que Ele deixa de existir.

- Exacto! Concordo totalmente com essa perspectiva. Eu próprio O reconheci na hora da morte mas se não tivesse tido bom comportamento durante a vida, poderia muito bem ter passado pela reciclagem (como você diz) do Purgatório e correr o risco de passar de seguida à condenação eterna. Mas é com muito gosto que lhe digo que o seu avô está muito bem. E o seu tio também, lá por isso.

- O meu tio também se dizia ateu. Mas essa é uma questão menor para Deus.

- Bem. Agora vou ali dar uma palavrinha ao folgazão sadino para ele me contar o que fez lá pelo Oriente. Só não sei é se terei muita pachorra para o açoriano trombudo com quem ele está a conversar. Lá terei que os interromper.

E foi...

Então, como no Céu o tempo não conta e nenhum dos etéreos compinchas dava mostras de cansaço, dei por mim a imaginar como haveria de os aproveitar ao máximo sem cansar os leitores destes escritos. Só que eu me comprometi com Santo Ambrósio que todos eles voltavam o mais tardar à meia-noite terrena pois é então que as portas celestiais se fecham e toca a silêncio até às 6 da manhã terrenas. Fácil: deixo-os continuar até à hora limite, registo tudo com pormenor e conto amanhã ou depois aos leitores.

 

(continua)

Henrique em Praga.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Praça Venceslau, Praga)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:41
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ENCONTRO DE ESCRITORES – 4 -

 

 

 

- D. Francisco – disse eu – tenho um problema a resolver para o que peço a sua ajuda.

- Pois não – disse ele com aquela expressão fantástica tão portuguesa da negativa significando afirmativa – diga o que o preocupa.

- Nesta nossa ronda pelos que usaram as letras para algo mais do que para fazer encomendas ao merceeiro, nem todos mereceram o Céu. Se o meu Amigo acha que também esses devem ser chamados aos nossos encontros – como já fez com o Antero - onde havemos de os procurar e por intermédio de quem?

- Respondendo por partes, acho que sim, também esses devem ser chamados. E se não estão no Céu, só podem estar no Purgatório ou no Inferno. Se estão no Inferno, não vejo modo de os sacarmos de lá; se estão no Purgatório, sugiro que invoquemos Santo Ambrósio ou mesmo São Boaventura que tanto nos explicaram sobre esse local. Pode ser que conheçam lá alguém que nos possa ajudar nessa busca de almas em vias de lavagem.

- Perfeito! E assim, não precisamos nós de contactar directamente o Chefe do Purgatório e não correremos o risco de algum salpico pecaminoso que ele ainda traga nas mãos das abluções ou dos clisteres purgantes. Os Santos têm curriculum suficiente para se salvarem de uma qualquer dessas putativas inconveniências.

- Fica então tudo esclarecido?

- Sim, creio que sim. Se um dos Santos estiver muito ocupado e não me puder responder, o outro há-de estar de folga. Oxalá!

- Oxalá é do árabe Inch Allah que significa «queira Deus». Veja lá se usa alguma expressão de que não gostem no Céu e lhe barram o contacto.

- Allah não é o Deus muçulmano; Allah é como se diz Deus em árabe. O Deus deles é o mesmo que o nosso; os Céus é que podem ser diferentes.

- Muito bem, então fica combinado que Você pede a um dos dois Santos e logo se vê o que eles dizem.

(...)

Disseram-me que São Boaventura estava a despacho (com Deus?) mas que Santo Ambrósio me poderia atender.

 

Stº Ambrósio (337-397).jpg

Stº Ambrósio (337 – 397)

 

- Meu «filho», em que te posso servir?

- Oh Santo Ambrósio: eu pretendo convocar para uma reunião terrena alguns escritores portugueses que devem estar no Purgatório mas não conheço ninguém da «nomenklatura» por lá mandante e lembrei-me de si porque nos explicou muito sobre o funcionamento daquilo e porque talvez consiga uma dispensa por pouco tempo de algumas almas escrevinhantes que ainda estejam por lá em abluções e clisterizações purgativas.

- Sim, conheço toda a «nomenklatura» purgativa e posso dizer-te que fizeste muito bem em vires falar comigo em vez de ires falar com eles. Ainda te sujavas e isso é que seria uma maçada. Mas estou a ver que já não te lembras dos meus ensinamentos... Há quanto tempo morreram esses escritores que queres contactar?

- Ui! Alguns morreram há mais de 20 anos e outros há mais de um século...

- Então, meu «filho», não precisas da minha intercessão pois as almas só estão no Purgatório por um máximo de 40 dias terrenos no fim do que ou estão limpas e vão para o Céu ou continuam encardidas e vão para o Inferno. Assim sendo, se estão no Céu, podes voltar a contactar quem contactaste das vezes anteriores para as reuniões que já fizeram...

- Ah, já vejo que sabe dessas reuniões.

- ... no Céu sabemos tudo...

- Sim, claro, desculpe o meu esquecimento.

- ... estás desculpado. ... se estão no Inferno, desde já te digo que não te posso ajudar de maneira nenhuma e não conheço ninguém que o possa fazer. São casos perdidos. Portanto, o melhor que podes fazer é pedires ajuda a alguém no Céu.

- Muito bem, acha que me pode ajudar?

- Sim, dize quem queres convocar, quando e para onde e eu vou ver o que se arranja.

- Posso dizer mais logo?

- Podes dizer quando quiseres. No Céu não medimos o tempo. Invocas-me e voltamos à conversa.

(...)

(continua)

 

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:23
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017
OS GATOS E AS LEBRES

gato-e-lebre.jpg

 

O que valemos para a Nação?

O que andamos por cá a fazer?

 

Dois modos de colocar a mesma questão por quem não gosta de ser um mero consumidor de oxigénio. Certo dia, bem longínquo lá nos idos, ouvi um Fulano apregoar que já tinha trabalhado muito «nos tempos da outra Senhora» e que agora (passava uma dezena de anos do 25 de Abril de 74) era a vez de não fazer nada, de gozar a vida. Perguntado por outro espectador sobre qual a profissão que exercera, respondeu que a de «contínuo» numa Repartição Pública.

 

Perguntado mais detalhadamente, ficámos a saber que lhe cumpria permanecer sentado numa secretária a meio de um longo corredor. Tive alguma dificuldade em suster o riso mas felizmente consegui manter um ar seráfico pois logo de seguida, na minha qualidade de contribuinte, me apeteceu insultá-lo. O que não fiz, claro!

 

Pelo modo como o Fulano se expressou, deu para entender que lhe cumpria estar sentado e que magnanimamente condescendia por vezes em fazer recados como por exemplo levar um ofício de uma para outra Secção da dita Repartição. Nada esclareceu (porque não perguntado) sobre se lhe cumpria dar alguma informação a contribuinte que lha pedisse. Fiquei convencido de que qualquer boneco de cera ao estilo de Madame Tussauds seria muito mais decorativo do que aquele emplastro, ficaria muito mais barato ao Erário Público e ninguém o veria espalitar os dentes depois do almoço (o que quase por certo faria). Ou seja, já «no tempo da outra Senhora» se praticava o sub-emprego, o mesmo é dizer, se confundia locais de trabalho com asilos.

 

Quando a Constituição da República de 1976 determinou que o trabalho passava a ser um direito, a produtividade, a competitividade, a competência e o brio profissional entraram num ainda mais acelerado processo degenerativo e concluíram o percurso em adiantado estado de moribundez. A política soviética do pleno emprego é mais uma das mentiras que ao fim de 70 anos de permanentes práticas viciosas levaram a URSS à ruína. Nós, Portugal, também não resistimos a tanta mentira.

 

E quando o nível médio de instrução da população portuguesa dá provas estatísticas de “grandes progressos”, é oportuno perguntarmo-nos sobre o que sabem esses jovens fazer. Olhemos em redor. Mas façamo-lo com cautela para não nos espetarmos nalgum desses cursos que não passam de gatos a imitar lebres, nas passagens administrativas, nas licenciaturas por «mérito» curricular...

 

Mas os Papás e Mamãs que provavelmente passaram a vida activa sentados num corredor, acham que aos Fifis com canudo tudo é devido e que «eles», esses outros sempre distantes mas sempre na boca dos desbocados, é que têm a obrigação de lhes arranjar um emprego. E dizem um emprego, não um posto de trabalho.

 

Sim, é mais do que tempo de corrigir as mentiras em que os demagogos e outros bandidos enrodilharam Portugal vendendo gatos por lebres. Há que voltar a pôr as lebres a correr (dar valor ao mérito) e amansar os gatos assanhados (mandar calar os balofos).

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:38
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Sábado, 7 de Janeiro de 2017
NA MORTE DE MÁRIO SOARES

 

Mário Soares

 

Sim, também ele teve qualidades e defeitos. Venha aquele que, sem defeitos, lhe atire a primeira pedra.

 

Todos nós, seus contemporâneos, lhe conhecemos o curriculum e, portanto, não é necessário repetir aqui o que todos sabemos mas não esqueço que foi com alívio que o vi subir ao Poder depois de, na praça pública, o termos ajudado a suster a onda comunista que em 1975 se preparava para subjugar Portugal.

 

Naquela terrível época, todos os Partidos democráticos o apoiaram e eu, do CDS, também estive no comício da Alameda Afonso Henriques. Demos-lhe o nosso apoio mas foi ele que «deu a cara». E disso não me esqueço.

 

Afastados os nossos inimigos comunistas da área da governação, entrámos no período de normalidade do regime que maioritariamente foi escolhido democraticamente (o CDS votou em 1976 contra aquela versão da Constituição) e foi esse o tempo de estabelecermos as fronteiras entre as diversas perspectivas de bem-comum que nos propúnhamos representar: o CDS confirmou-se na democracia cristã, o então PPD reservou para si a social-democracia e o PS confirmou-se no socialismo democrático. E de aliados no tempo em que não se limpavam armas, passámos à posição de corteses adversários.

 

Assim, morreu hoje um adversário, não um inimigo.

 

7 de Janeiro de 2017

 

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:39
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017
DALMÁCIA – 1

 

Dubrovnik.jpg

 

Cansados, foi quando deixámos de andar na lufa-lufa e nos sentámos por nossa própria conta num comprido banco de pedra estendido ao longo da muralha do velho porto de Dubrovnik. O Sol haveria de nos fazer companhia até ao meio-dia exacto quando todas as igrejas da cidade repicaram e, desaparecido, deixou cair a sombra em cima de nós. Foi então que mudámos de poiso. E o gato que estava deitado sobre um cartão que o dono pusera ali mesmo ao nosso lado, acompanhou-nos para o lugar que seria soalheiro por mais algum tempo. A certeza do caminho com que nos acompanhou, levou-me a duvidar se ele, o gato, veio mesmo connosco ou se fomos nós que o acompanhámos até ao lugar que ele tomava sempre que o Sol passava por cima da muralha e entrava na cidade. Conversa calada, não lho perguntei e ele não mo disse. Fiz-lhe mais uma festa a agradecer a companhia e ele disse que estava «mau» com um «i» lá pelo meio. Sotaques... Foi então que me lembrei da Simone de Oliveira e do seu «Sol de Inverno». Não fui capaz de cantarolar; esqueci-me da melodia que, por certo, a teria.

 

Simone de Oliveira.jpg

 Aquela a que continuo a chamar «de beau voir, pas d'écouter»

https://www.youtube.com/watch?v=HsAbEjCh8oU

 

Acalmado o movimento de barcos a levar e a trazer turistas em passeios de périplo a Loktrum, a ilha verde, que nós fizéramos na véspera, pude então copiar James Joyce na sua epifania dos lugares mágicos. E o velho porto de Dubrovnik é mesmo mágico! Imaginei e quase vislumbrei os marinheiros de todas as gerações que por ali passaram, os comerciantes chegados de Alexandria ou a caminho de Veneza, os turcos às ordens do «magnífico» Suleimão que por ali passavam em busca do tributo anual de muitos milhares de moedas de oiro, o preço da paz que a Bósnia não foi capaz de negociar. Lembrei-me das gerações de banqueiros que por ali assentaram arraiais, dos humildes frades menores franciscanos que ainda por lá estão assim como dos seus vizinhos à distância de poucos quarteirões, os soberbos pregadores dominicanos. Mas lembrei-me também dos sábios professores jesuítas que já não cabem na cidade velha e fizeram dois colégios extra muros. Mais prosaicamente, lembrei-me das sucessivas vagas de políticos e de outros malandrins...

 

Olhando quase na vertical, vi bem lá em cima a fortaleza que Napoleão mandou construir no cimo dos penhascos bem íngremes a que hoje se chega de teleférico. Dali, puderam os franceses bombardear a cidade transformando o tiro curvo da artilharia em tiro tenso sem necessidade de fazerem cálculos de pontaria para acertarem nos alvos cá em baixo, à disposição. As tropas de Milosevic também. Napoleão ainda se aguentou na pilhagem durante oito anos; Milosevic, não[1].

 

Stradun-Dubrovnok.jpg

 

Sem fome, é uma da tarde do dia 2 de Janeiro e o relógio aconselha a comer qualquer coisa num daqueles quiosques de comes e bebes na “Stradun”, a Rua Direita lá do sítio, para mais logo tomarmos o transporte para o aeroporto e o rumo de Lisboa. E como no avião só serviriam uma «sandocha», abalancei-me a umas «french fries» com mostarda de Dijon e mais não disse.

 

E que mais levo da Croácia? Logo direi...

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (1).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] A agressão militar sérvio-montenegrina à Croácia decorreu de 1991 a 1995.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:22
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016
BOAS FESTAS E FELIZ ANO NOVO

 

Canito.jpg

 

 

Votos de feliz Natal e que 2017 ponha um sorriso em todos.

Que em 2017 o último analfabeto adulto prove que sabe ler e escrever.

Que 2017 seja ano de benesses para os lusófilos espalhados pelo mundo.

E que tudo sejam motivos para cantarmos «ALELUIA, ALELUIA» a plenos pulmões.


https://www.youtube.com/watch?v=d_psFfD9Ib4



Abraços, abraços...

 

HSF-Café Magestic, Porto DEZ16.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(Café «Majestic», Porto, DEZ16)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:46
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016
FELIZMENTE, HÁ FUTURO

  

o-futuro.jpg

 

Sob o culto do consumismo de bens, serviços e notícias, colhe perguntar se haverá ou não lugar para valores intelectuais na perspectiva de conceitos, teorias, princípios éticos e morais.

 

Mais concretamente, a questão está em saber qual é o lugar dos valores superiores num mundo de factos e como podem aqueles entrar neste mundo primário.

 

Poucos são os homens de Ciência que escrevem sobre valores porque a grande maioria considera que essa é uma conversa que não passa de mero palavreado. Contudo, os valores emergem juntamente com os problemas e frequentemente estes dizem respeito a factos.

 

Assim, imaginemos que alguém está a resolver um problema (mesmo sem grande consciência de que o está a fazer) e imaginemos também que um outro problema tenha sido identificado e resolvido, que a resolução tenha sido testada pelo contraditório e que daí tenha nascido uma doutrina. No primeiro caso, apenas a nossa percepção de que a pessoa está com um problema pertence ao mundo intelectual; no segundo caso é o próprio problema e respectiva resolução que pertencem ao mundo da intelectualidade.

 

O mesmo se passa com os valores: uma coisa, uma ideia, uma teoria ou uma abordagem podem ser admitidas como válidas para ajudar a resolver um problema mas só passam a pertencer ao mundo intelectual se forem submetidas à discussão, à crítica. Antes disso pertencem muito provavelmente apenas à esfera do empirismo.

 

O mundo mais primitivo, desprovido de vida, não tinha problemas e, como tal, não tinha valores porque os problemas entram no mundo pela mão da vida e não exclusivamente pela da consciência. Daqui resultam dois tipos de valores: os criados pela vida, pelos problemas inconscientes tais como os do reino vegetal; os criados pela mente humana com base em soluções anteriores na tentativa de resolver problemas. É este último tipo de questões – formadas pelo conjunto de problemas historicamente originados em factos, inerentes soluções, críticas para o despiste de erros, teorias globalizantes e valores consequentes – que dá forma ao mundo da intelectualidade.

 

O mundo dos valores transcende, pois, o mundo sem valores e meramente factual, o mundo dos factos brutos.

 

O drama está quando se disfarça de intelectualidade a mera discussão de factos e, mais gravemente, de pessoas.

 

Eis a imensidão do que fica por fazer entre o primarismo factual e a elevação dos valores. O que nos vale é que o futuro existe.

 

Henrique Salles da Fonseca

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

KARL POPPER – BUSCA INACABADA, AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL - Esfera do Caos Editores, 1ª edição, Fevereiro de 2008, pág. 268 e seg.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:09
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016
O GESTO É QUASE TUDO

 

 

O método cartesiano, baseado na dedução pura, consiste em começar com axiomas e, pela sua conjugação lógica, desenvolver raciocínios até chegar a conclusões.

 

Dissipadas as dúvidas e definida até uma ou outra cláusula pétrea que dê fixação histórica à questão, eis que o lógico assume certezas sem necessidade do recurso a dogmas. E, no diálogo, vem-lhe ao gesto essa certeza como reforço da clareza do pensamento.

HSF-O GESTO É QUASE TUDO.jpg

Quanto ao interlocutor duvidoso, à vista de linguagem gestual convincente (ou será apenas convencida?), dissipa hesitações para glória absoluta do lógico triunfante.

 

Não há dúvida, o gesto é quase tudo.

 

Dezembro de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:52
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