Domingo, 21 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA - 16

 

 

Não eleves a fé até à altura do vôo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes.

John Steinbeck.jpg John Steinbeck, in «As vinhas da ira» (pág. 110 - LIVROS DO BRASIL, edição de Novembro de 2014)

 

 

Por cá, dizemos «fia-te na Virgem e não corras, logo verás o trambolhão que dás». Ou seja, o livre arbítrio é determinante no rumo das nossas vidas, o determinismo não faz sentido. Temos sorte na vida se a soubermos «levar direitinha»; com muitas probabilidades, o azar bate-nos à porta se não procurarmos acertar, se pusermos o pé em ramo verde, não pusermos as barbas de molho.

 

O anjo da guarda só actua se nós não abusarmos da sorte, se agirmos dentro da sociabilidade, enfim, se seguirmos o Decálogo com um mínimo de respeito; ele, o anjo da guarda, age contra agressões externas, não contra o mal que façamos a nós próprios tanto por actos como por omissões.

 

No que respeita à saúde, convém passarmos pelo médico antes que este já nada saiba fazer e quando isto suceder, então e só então, é que devemos procurar a ajuda sobrenatural.

 

Fomos dotados duma capacidade estaminal de raciocínio que nos tem permitido grandes progressos científicos. A própria capacidade de raciocínio, a inteligência, tem evoluído muito ao longo dos milhares de anos que a humanidade já conta e, portanto, afrontaremos quem nos dotou dessa capacidade estaminal se não recorrermos aos conhecimentos adquiridos e se não nos deixarmos tratar por quem utilize a medicina em conformidade com a ética.

 

Curámo-nos da maleita que nos incomodava? Óptimo! Isso foi porque nos deram a injecção certa, nos submeteram à cirurgia conveniente, nos fizeram a transfusão de que estávamos necessitados. Deixemos o «queira Deus» para quando o homem já não souber actuar. Então, sim, entreguemo-nos ao Altíssimo.

 

Janeiro de 2018

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 15

gente_normal.jpg

 

Santos - refiro-os no masculino apenas por uma questão de simplificação da escrita mas é para mim claro que o feminino se lhe aplica em perfeita igualdade.

 

Sei de Santos em várias religiões – na hindu, na budista, na católica e na muçulmana. Nas outras, não sei se os há.

 

E o que é um Santo? Objectivamente, é alguém a quem os fiéis pedem bênçãos por intermediação com a Divindade Suprema. E serão mesmo “muito bonzinhos” como diz a crença popular? Tenho as minhas sérias dúvidas de que tenham obrigatoriamente que o ser. Não podem é ser maus porque, se o forem, não serão aceites como intermediários credíveis entre Deus e o humano pecador (mas não obrigatoriamente pecaminoso).

 

Como se pode, então, ser intermediário entre Deus e os homens? Tenho como condição essencial, a de ser aceite por ambas as partes, Deus e homens, sem o que não se estabelece a imprescindível ligação. E só uma grande finura espiritual pode alcançar o misticismo necessário à aproximação da Divindade Suprema - o Ser Supremo budista, Brahma hindu, Allah muçulmano, o Deus cristão - e em nome dos homens obter a dádiva por estes pedida. Tudo, no singular ou no plural, no masculino ou no feminino.

 

Esta aproximação e intermediação pode ser feita em vida do Santo, antes do reconhecimento canónico por parte das respectivas Igrejas; o Santo pode sê-lo antes da canonização uma vez que esta é apenas o reconhecimento oficial (canónico) pelos homens das capacidades sobrenaturais do Santo, do seu misticismo. Mas o Santo é-o independentemente de ser ou não reconhecido pelos homens.

 

Daqui, dá para imaginarmos quantos Santos por aí andam ou andaram que ninguém conhece nem reconhece…

 

Os Santos são-no por si próprios, não pelo reconhecimento humano e com ou sem parusia.

 

Janeiro de 2018

Henrique-Ushuaia, MAR12.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Sábado, 13 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 14

 

 

Tenho os anjos como os mensageiros da verdade.

 

Então, o que são anjos e o que é a verdade?

 

Citam os antigos quatro seres da esfera espiritual: anjos, arcanjos, querubins e serafins.

 

Os anjos são citados como mensageiros e executores da ordem divina, espíritos que servem a Deus e aos humanos. Em alguns textos cristãos, os anjos são descritos com características semelhantes às humanas.

 

O arcanjo é uma espécie de “Anjo-chefe” e exerce uma posição de destaque na esfera espiritual. Por exemplo, São Miguel Arcanjo, o protector de Portugal, é uma figura mística que não corresponde a alguém que tenha vivido na Terra e que historicamente resulta da cristianização do deus romano Zéfiro que, por sua vez, tinha sido a romanização de Endovélico, o deus dos lusitanos.

Santuário de Endovélico-rocha-da-mina.jpg

Santuário de Endovélico – Rocha da Mina

 

Quanto aos querubins e aos serafins, parecem-me fruto de imaginações muito elásticas e, portanto, não os levo em consideração. Não creio que tenha sido algum destes que me tenha chamado.

 

E o que é a verdade? A verdade da nossa vida, sendo o contrário do erro, é revelada pelo sentido protegido da vida individual terrena, a que levamos. Nada a ver com qualquer predestinação definida superiormente, apenas com a «boa gestão» de um processo em que o livre arbítrio desempenha um papel central; um sentido místico que nos protege não nos deixando cair em tentações, nos dá sinais que nem sempre percebemos e, portanto, não seguimos; a que subjaz a uma orientação que nos é concretamente sugerida pelo tão esquecido Decálogo.

 

Tudo, para além da mera ordem cognitiva metafísica; tudo, na ordem da fruição mística, do superlativo intelectual.

 

Janeiro de 2018

 

De Denang para Hué.JPG

 Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 11

 

UMA QUESTÃO DE SEMÂNTICA?

 

Quando pousei pela primeira vez na Índia, logo o guia turístico me chamou a atenção para a profusão de Deuses na religião hindu. Tantos que nem ele, devoto, os conhecia a todos. Mas um, Brahma, é o principal, o criador de tudo [i], sendo os outros apenas seus auxiliares na ligação temática com os humanos. Por isso, os hindus consideram que, para cada tipo de questões, devem invocar um certo Deus secundário.

BRAHMA.jpg

 

Claro está que, em silêncio, logo fiz uma analogia com o Deus cristão, Cristo e Santos assim como também me lembrei do que os budistas fazem nos pagodes (onde rezam a Buda e, por sua intercessão, ao Ser Supremo) e nos templos (onde invocam o orago respectivo e lhe pedem isto e aquilo).

 

Hierarquias estas que me parecem muito semelhantes (se bem que cada religião com particularidades muito específicas). Semelhanças evidentes entre o Deus cristão, o Ser Supremo budista e o Brahma hindu a quem os homens reconhecem a função criadora. Uma diferença evidente que é apenas de cariz semântico. Depois vêm as outras diferenças resultantes do isolamento durante milhares de anos de uns relativamente aos outros, de exegeses diferentes e assim por diante…

 

Mas também me parece evidente que muitas diferenças resultam do interesse dos respectivos Cleros manterem os seus rebanhos próprios, bem controlados e isolados dos demais no âmbito de um esquema a que chamo «Teo business». Ou seja, há muito interesse no distanciamento e muito pouco em qualquer espécie de diálogo inter-religioso.

 

Se os homens se quisessem entender nestas matérias, bem poderiam começar por abordar as questões de semântica. E só com isso já seriam capazes de se entreter durante uns quantos séculos num longo processo de paz e de tendencial concórdia. Talvez…

 

Janeiro de 2018

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] -  http://deva-dani.blogspot.pt/2009/01/deus-da-criao-brahma.html



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Sábado, 6 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 10

 

 

Sobre a reencarnação nada tenho ainda para dizer mas acerca da perenidade do espírito sobre a caducidade da matéria, já disse e repito, acredito.

Santo Agostinho.jpg

 

Foi Santo Agostinho que disse que todo o ser vivo corpóreo tem alma, a qual lhe é dada por Deus: no caso dos vegetais, a alma é simplesmente o que dá vida ao corpo permitindo que este seja alimentado, cresça e se reproduza; nos animais, a alma não é somente a fonte dessas actividades que se encontram nos vegetais mas é também a fonte da sensação e do apetite; nos seres humanos, a alma racional é a fonte do pensamento e da vontade, além de todas as demais actividades que os homens têm em comum com os vegetais e com os animais.

 

E São Tomás de Aquino disse que o embrião humano tem uma alma vegetativa, o feto tem uma alma animal e só pouco antes de nascer tem uma alma verdadeiramente humana.

 

Não gosto desta doutrina de S. Tomás pois abre portas à interrupção voluntária da gravidez e com esta não concordo minimamente (a menos que clinicamente aconselhável) mas chego-me descontraidamente à de Santo Agostinho acrescentando a possibilidade de os animais domesticados (e os pets por maioria de razão) terem uma alma evoluída no sentido da sofisticação da humana. Sim, neste sentido, creio que as almas também se educam.

 

Mais: admito que, após a morte do corpo, a alma possa vaguear uns tempos pelos locais onde os afectos se tenham manifestado durante a vida (não pelos cemitérios, locais com que as almas nada têm a ver) mas que posteriormente se encaminhem para níveis definidos fora das tais quatro dimensões nossas conhecidas: o Céu dos cristãos «onde se sentarão à direita de Deus Pai» ou os sucessivos patamares budistas «rumo ao Ser Supremo» ...

 

Porque não são conhecidos regressos do Céu ou dos tais patamares budistas, só as almas errantes poderão reencarnar. Será?

 

Janeiro de 2018

 

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017
TEOLOGIA, DA MINHA – 6

 

VIVA A DEMOCRACIA!

 

Se a plenitude do conhecimento científico é inalcançável, então o que se passa com o conhecimento total? A minha resposta é simples: o conhecimento científico é uma parcela do conhecimento humano; se a plenitude do conhecimento científico é inalcançável, então a plenitude do conhecimento é inalcançável também. Monsieur de La Palisse não seria mais óbvio.

 

E quanto às outras parcelas do conhecimento humano, as não propriamente científicas? Creio que a sua plenitude é também utópica pois haverá sempre a prevalência do ditado que nos diz que «cada cabeça, cada sentença».

 

CADA CABEÇA.jpg

 

É que basta o raciocínio humano não ser unicitário – VIVA A DEMOCRACIA! – para que haja sempre a possibilidade duma variante ao pensamento «provisoriamente definitivo» quer empírico e factual, quer doutrinário, quer filosófico, quer religioso, quer material, quer espiritual e assim por aí além…

 

Basta hoje pensarmos no que há um século era tido por definitivo para nos espantarmos (ou rirmos, até) com o atraso em que os nossos antepassados estavam há relativamente tão pouco tempo. E isso, em todos os campos do conhecimento.

 

Então, se 2+2 continuam a ser 4, já o pensamento de Nietzsche nos pode parecer inadequado para os tempos actuais, a máquina a vapor temo-la como um «pouco» ineficaz no processo de lançamento de naves espaciais, as determinações do Concílio de Trento podem não ser totalmente conformes às do Concílio Vaticano II e as teologias luterana e romana podem já não estar tão distantes como o estavam há 500 anos.

 

E que dizer do budismo tibetano e de outros espiritualistas?

 

Dezembro de 2017

Henrique à porta da Sé de Goa.JPG

 Henrique Salles da Fonseca



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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2017
PENSANDO…

 

Apesar do título, inspirando racionalidade, começo com um dogma que, por definição, dispensa a tal racionalidade.

 

DOGMA - Uma pessoa de bem, paga o que deve.

 

divida-paga.jpg

 

Este meu dogma aplica-se tanto na dimensão micro como na macro, ou seja, às pessoas e aos Estados. Porque, ao contrário do que disse um «sem-vergonha dos quatro costados», as dívidas são para pagar.

 

Então, deixando a definição da dívida micro ao cuidado dos contabilistas, a nível macro a dívida global tem duas vertentes: a pública e a privada.

 

A dívida pública é a que vem sendo mais referida pela comunicação social mas a privada também tem que se lhe diga.

 

A dívida pública, constituída para financiar os défices públicos, só pode ser reduzida na medida dos superávites públicos; a dívida privada só pode ser reduzida na medida dos saldos positivos da balança de transacções correntes.

 

Enquanto não tivermos saldos positivos nas contas públicas, não reduziremos o stock da dívida pública; se não tivermos saldos positivos na balança de transacções correntes, o sistema bancário nacional continuará a endividar-se sobre o exterior persistindo na via da falência ou, no mínimo, da absorção pela banca estrangeira.

 

PRIORIDADES:

  • Obtenção urgente de saldos positivos nas contas públicas;
  • Reforço da produção de bens e serviços transacionáveis; contenção do consumo.

 

Estes, os meus silogismos dogmáticos para hoje.

 

Dezembro de 2017

Henrique Salles da Fonseca.png

 Henrique Salles da Fonseca



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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
MEMÓRIAS TROPICAIS

Aranha ornamental do Sri Lanka.jpg

 

Foi algures no Sri Lanka que, ao deambular pelas cercanias duma plantação de chá, me chamaram a atenção para um certo ramo duma árvore por baixo da qual eu estivera pouco antes. Estava ali, com algumas gotas de humidade a tremeluzir, uma teia da maior aranha que eu alguma vez vi. Era seguramente do tamanho da mão de um homem se não mesmo maior. Patas, inclusivé, claro está. Até porque o corpo era relativamente pequeno quando comparado com o tamanho das patas. Mas, mais do que isso, a aranha tinha várias tonalidades de azul, direi mesmo que era bonita.

 

Foi já regressado a casa que procurei identifica-la. Pelas imagens que encontrei na Internet, não a reconheci mas, em compensação, fiquei a saber que no Sri Lanka há aranhas decorativas, tratadas como animais de estimação a quem os donos prodigalizam uma dieta da profusa mosquitada local.

 

Dá mesmo para nos perguntarmos se as ditas aranhas são de estimação porque são bonitas ou se o são como devoradoras da mosquitada. Ou por ambas as razões. Não encontrei por cá quem me esclarecesse. Talvez tenha que voltar ao Sri Lanka e fazer a pergunta localmente.

 

Dezembro de 2017

Henrique-piscina dos monges em Kandy, Sri Lanka.JP

 Henrique Salles da Fonseca



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Domingo, 3 de Dezembro de 2017
O FILHO DAS SALSAS ERVAS

 

Ervas daninhas.jpg

 

 

Até ele nascer, o pai teve catorze filhos sendo quatro do casamento e dez fora do dito.

 

Este rapaz que vos estou a referir, foi o único daquela mãe e esta não passava de uma das empregadas do pai, comerciante e fazendeiro numa terriola perdida num vale andino, no Peru. Para ela, o filho era um empecilho que não lhe permitia alternar o trabalho com os folguedos. Por isso, logo que conseguiu amealhar uns dinheiritos, comprou um bilhete de ida e volta na camioneta que os levaria a umas centenas de quilómetros, a uma terriola na costa peruana onde tinha parentes que por certo não se importariam de criar o petiz. Levou-o, deixou-o e regressou à origem antes que os tais parentes se arrependessem.

 

Os parentes, espantados, não tiveram tempo para manifestar qualquer arrependimento antes de a rapariga desaparecer pelo que a criança ficou em casa deles. Mas as atenções dispensadas foram apenas as necessárias para que não morresse de fome ou de frio. Deambulou uns tempos pela praia mas não chegou a fazer amizades pois as crianças da sua idade estavam no afago das respectivas famílias, o que ele não tinha. Foi o Padre local que lhe ensinou as primeiras letras mas ninguém controlava as idas às aulas e a instrução primária ficou-se pela precaridade.

 

Até que aqueles parentes se fartaram do rapazito e o mandaram para casa de outros parentes que viviam em Lima, a capital, a mais não sei quantas centenas de quilómetros e cada vez mais longe do local de origem em que a mãe continuaria. Aliás, nunca mais na vida voltou a ver a mãe.

 

Depois de longuíssima viagem, chegou a Lima e conseguiu descobrir a casa dos novos parentes que ele nunca vira. Tudo bem, deram-lhe um quarto para dormir, mandaram-no à escola para completar o ensino elementar mas exigiram-lhe em contrapartida que fizesse trabalhos domésticos. E foi como serviçal que estudou até meio do ensino secundário.

 

Aluno mediano, lá se viu novamente em bolandas para uma cidade no interior do país onde alguém descobriu o pai dele e respectiva família que, entretanto, já era outra relativamente à da época em que ele nascera. E da mãe, nem rastos… esfumara-se.

 

Muito severo, o pai não lhe ligava patavina (nem aos outros irmãos), apenas se preocupava com os negócios e se dedicava a fazer mais filhos um pouco por toda a parte. Mas a madrasta, ao contrário das histórias para crianças, prestou-lhe atenção e, pela primeira (e talvez única) vez ele sentiu que alguém se interessava por ele. A única obrigação que lhe foi imposta foi a de estudar. O quê? O que ele quisesse desde que fosse na Universidade. Mas ele queria ir para a Escola do Exército. Não, isso é que não! Para a Universidade e não havia discussão. E ele foi…

 

Licenciou-se em Direito, escolheu a carreira docente e chegou a Catedrático. Como assim, tão rapidamente?

 

É que lá pelo final do ensino secundário alguém lhe havia falado de um tal Marx, de um Fulano chamado Engels e de um russo a quem chamavam Lenine por cujos livros (de distribuição clandestina) o jovem estudante se interessara. Mais: livros que devorou e passou a citar de cor.

 

Então, assumindo-se comunista, caiu nas graças do Reitor da Universidade que o recrutou para a carreira docente logo que o jovem concluiu a licenciatura, o foi encarregando de missões políticas dentro e fora do curriculum académico e o promoveu sucessivamente até que – sem grandes discussões científicas – se viu alcandorado a uma cátedra.

 

À boa maneira dos comunistas, o nosso homem não ria nem sequer sorria, não tinha amigos e apenas se relacionava com camaradas – eles e elas. E foi com uma dessas elas que ele casou. Ele com 31 anos de idade; ela com 17.

 

Subidos na hierarquia do Partido Comunista Peruano, puseram em prática a cartilha da organização partidária e de doutrinação das hostes.

 

Só que, a certa altura do «campeonato», chegaram-lhes às mãos os livrinhos vermelhos do Presidente Mao e, vai daí, os nossos «artistas» dão-se de amores por esse chinês e decidem formar um novo Partido Comunista mas de prática maoista e não mais «revisionista» como eles passariam a chamar aos de observância moscovita. Este, sim, o verdadeiro caminho das luzes – em espanhol, o Sendero Luminoso.

 

Frustrado com o facto de não lhe ter sido possível seguir a carreira militar, o nosso homem decidiu militarizar o seu novo Partido, o maoista, mas quem se encarregou da missão foi ela, a mulher.

 

Seguiu-se o lançamento de acções de terror por todo o país, clandestinidade, guerra de guerrilha, milhares de mortos… uma verdadeira desgraça nacional. Foram 18 anos de pesadelo até que uma sociedade destroçada conseguiu reunir algum ânimo, dar guerra aos assassinos lunáticos, derrotá-los e prendê-los.

 

Ela, a grande guerrilheira «Norah», Augusta La Torre de seu nome oficial, já tinha desaparecido da circulação numa morte misteriosa e sem prova de corpo. Quanto a ele, preso, julgado e condenado a duas prisões perpétuas, já passou os 80 anos de idade e cumpre pena no mesmo estabelecimento prisional que os seus arqui-inimigos, ex-Presidentes corruptos do Peru, Alberto Fujimori e Alejandro Toledo, ambos condenados a 25 anos de cadeia pela cleptomania que praticaram no exercício do cargo presidencial.

 

O «artista» que acompanhamos desde a infância fora baptizado como Ruben Manuel Abimael Guzman Reinoso, toda a vida usou apenas Abimael Guzman, passou por ser o «camarada Álvaro» e acabou a clandestinidade como «Presidente Gonzalo». Então, fruto que é do abandono familiar e do desprezo social, fez do Peru um antro de terror horrível para todos os seus concidadãos e por isso eu prefiro chamar-lhe «o filho das salsas ervas» para não lhe chamar aquilo que o leitor está a imaginar…

 

Dezembro de 2017

 Henrique Machu Picchu.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

ABIMAEL – EL SENDERO DEL TERROR, Umberto Jara, ed. Planeta, Lima – Peru, 1ª edição - Agosto de 2017



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:26
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FRASE DO DIA

 

Quem quiser ser bem sucedido na política, deve manter a sua consciência sob apertado controlo

Lloyde George.pngLloyd George

David Lloyd George (1863 – 1945), 1.º Conde Lloyd-George de Dwyfor foi um estadista britânico e o último membro do Partido Liberal a ser Primeiro-ministro do Reino Unido. Está enterrado na Abadia de Westminster.

Partido político: Partido Liberal (1890–1916 & 1924–45)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:20
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