Domingo, 12 de Novembro de 2017
OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

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Chamava-se Gaspar de Guzmán y Pimentel Ribera y Velasco de Tovar mas ficou na História como Conde Duque de Olivares. Nasceu por acaso em Roma a 6 de Janeiro de 1587 e morreu aos 58 anos de idade em Toro a 22 de Julho de 1645, diz-se que abalado por uma grave melancolia (ao que actualmente chamamos depressão).

 

Nobre e político espanhol, foi o terceiro Conde de Olivares, o primeiro Duque de Sanlúcar la Mayor, primeiro Marquês de Heliche, primeiro conde de Arzarcóllar, primeiro Príncipe de Aracena e Valido do Rei Felipe IV (Valido corresponde ao que actualmente chamamos Primeiro Ministro).

 

Como Primeiro Ministro, ficou famoso por ser o autor do chamado «Gran Memorial»​ (1624) e cujo conteúdo consistia na introdução da uniformidade legal em toda a Espanha, no reforço do poder real pela abolição de prerrogativas locais e regionais e na eficácia da maquinaria bélica a fim de atender a todos os potenciais (e reais) conflitos internos e externos.

 

A esta última faceta da sua política, chamou Olivares a «União das Armas», projecto destinado a incrementar o compromisso de todos os reinos de Espanha para compartilhar com Castela o esforço bélico tanto humano como financeiro. Eis como aos portugueses se lhes «chegou a mostarda ao nariz» por se verem obrigados a marchar ao serviço dos interesses de Castela e, ainda por cima, tendo que pagar.

 

Conspirando com eficácia, os restauradores da nossa soberania não deram tempo à Duquesa de Mântua nem a Miguel de Vasconcelos para se aperceberem com clareza do sarilho em que estavam metidos. Ela, convidada a viajar para lá de Badajoz; ele, defenestrado.

 

E quando Olivares soube dos acontecimentos, já por certo D. João IV tinha sido aclamado Rei de Portugal. Não teve tempo para mandar prender ninguém por uma ou duas simples razões: não teria encontrado quem lhe obedecesse a qualquer ordem de prisão que desse sobre os revoltosos; a Catalunha era muito mais importante que as «praias atlânticas» das quais voltaria a tratar logo que Barcelona sossegasse.

 

Um estratega, sem dúvida; um democrata, por falta de força para ser bruto.

 

Seguiu-se a nossa Guerra da Restauração mas quando ela estava no auge para gáudio português e tristeza castelhana, já Olivares tinha sido, também ele, politicamente defenestrado e enviado para Toro, lá bem perto do Sol posto, no que representaria uma caminhada de quase 50 horas a partir da Corte madrilena.

 

E foi nesse exílio que lhe surgiu a tal melancolia que pôs fim aos seus 58 anos de vida terrena.

 

Passados uns tempos, eis que a Catalunha volta a dizer que está farta do «Gran Memorial» e do Valido de Filipe VI.

RAJOY.jpg

 

Mas agora, não tendo já muitas veleidades sobre as «praias atlânticas», o Valido actual envia os seus fiéis castelhanos (ele, propriamente, é galego) travar os «moços de esquadra» e espatifar as urnas de voto numa demonstração de irracionalidade democrática, manda reabrir as prisões políticas tão usadas no tempo do Caudilho Franco e apresenta-se nas televisões a dizer que é necessário recuperar a Catalunha para a democracia. Bastou, afinal, uma relativamente modesta acção policial para uns quantos se porem «a monte».

 

O descaramento de um corresponde na perfeição à cobardia dos outros.

 

Reconheçamos que não foi com gente do calibre dos que fogem que se fez Portugal. Também, não dá para perceber como há por cá quem não reconheça a legitimidade política da afirmação catalã.

 

Novembro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia - https://es.wikipedia.org/wiki/Conde-duque_de_Olivares



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:27
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017
FRASE DO DIA

 No Lenin, no Hitler

“Without the Russian Revolution of 1917, Hitler would likely have ended up painting postcards in one of the same flophouses where he started. No Lenin, no Hitler”.

Simon Sebag Montefiore.png

 Simon Sebag Montefiore

 

(historiador, autor de uma celebrada biografia de Estaline)

Stalin,Montefiore.jpg

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:32
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017
PERU – 12

 

CUSCO

 

No final da crónica anterior aprazei para agora um relato sobre a nossa visita a Cusco mas, pensando um pouco mais, acho que os meus leitores ficam muito mais esclarecidos se forem à Internet e procurarem informação sobre essa cidade. Para já, sugiro que vejam em https://pt.wikipedia.org/wiki/Cusco e logo de início vão ver que o nome da cidade, em língua quéchua, significa «o umbigo do mundo». Confesso que já li descrições mais agradáveis como por exemplo, a «cidade das luzes» relativamente a Paris, uma outra qualquer a que chamam «a pérola do Adriático», etc. Mas umbigo… ná!

 

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Sim, tem história que basta para encher um livro ou dois mas estejam tranquilos que não vos maço com isso. Maço-vos com outras coisas. Por exemplo…

 

… por exemplo com algo que consciencializei em Cusco mas de que ninguém me falou: a dicotomia étnica da sociedade peruana. Sim, há nitidamente dois Perus, o nativo - tanto genuíno como misto – e o de «pura raza española». O nacionalismo peruano é quéchua (e das demais etnias indígenas que erradamente misturo por completo numa só), seja ele puro ou misto; os «espanhóis» estão lá para ganhar dinheiro sem beliscarem a pele. Digo eu, mas sinto que estou a generalizar demais. O leitor dará um desconto a seu bel critério.

 

E porquê em Cusco? Porque esta é a capital do Império do Inca, não Machu Picchu que era apenas um local de contemplação religiosa (eis o grande templo ao Deus Sol) e de fuga das maldades profanas. A propósito, também de refúgio contra os espanhóis. E foi precisamente em Cusco que os invasores concentraram a sanha da sua maldade enquanto se limitaram a passar em frente pelo sopé da famosa montanha.

 

quechua-peru.jpg

 

E o nacionalismo peruano é em Cusco que se concentra enquanto em Lima são os «de pura raza española» que se pavoneiam.

 

Bastaria a militância «cusqueña» dos nossos guias turísticos para dissipar quaisquer dúvidas. Mas é um nacionalismo positivo a favor da cultura nativa, não contra quem quer que seja. E isso só lhes fica bem, acho eu.

 

Como já referi em crónica anterior, foi-nos apresentada com algum detalhe a mitologia inca - que tiveram o cuidado de não identificar como teologia. E a pergunta que se impunha era a de saber se continua a haver fiéis dessa religião. A resposta foi dúbia, falaram de sincretismo entre a religião tradicional e o cristianismo, disseram que sim e mais que também… e eu fiquei na mesma, sem saber nada de concreto. Quero, contudo, acreditar que os antigos rituais de sacrifícios animais já não se realizem e muito menos os humanos. Haverá hoje um ensino daquela religião numa base meramente cultural, sem fé.

 

E o que fazem por lá os «espanhóis»? Fazem política e ganham dinheiro.

 

Finalmente, como na música, esta viagem concluiu-se com um «da fine al capo» ou, mais prosaicamente, como a pescadinha de rabo na boca: voltámos a Lima, almoçámos num restaurante no Bairro San Borja e isso permitiu-nos melhorar substancialmente a ideia inicial sobre Lima que, afinal, também é uma bela cidade.

 

No dia seguinte, 6ª feira, 13 de Outubro, voámos de regresso à Europa sem solavancos nem outros azares.

 

Outubro de 2017

Henrique Machu Picchu.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:46
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
PERU – 11

 

VALE SAGRADO – MACHU PICCHU

 

Então, se em Puno estávamos a 3800 metros de altitude, vá de amarinhar pelas montanhas acima até que chegámos aos 4955. E o mais curioso é que não senti o mínimo incómodo. Parámos frente a mais uma montanha imponente que nos fazia esquecer a altitude a que já chegáramos e vai de reparar num riacho que passava por baixo da estrada em que estávamos estacionados e que ali mesmo se dividia em dois: um ramo virava para o vale que nós acabávamos de percorrer e o outro seguia pelo nosso caminho em frente. O que, relativamente ao nosso sentido de marcha, voltava para trás, tinha como destino desaguar no Titicaca; o que se nos adiantava, desaguaria lá longe, directamente, no Pacífico.

 

O local em que nos encontrávamos era, como já deu para perceber, a divisória de duas bacias hidrográficas: a do Titicaca e a de Cusco.

 

O ribeirinho das nossas arrecuas vagueava um pouco sem rei nem roque pelo vale que acabáramos de subir através de paisagens imponentes mas de pastoreio extensivo e agricultura escassa duma população relativamente empobrecida; o da frente, saía do nosso apeadeiro logo num caneirinho, todo pimpão. Logo ali à frente, surgiram uns edifícios rodeados de parques onde pastavam alguns lamas e qual não é o meu espanto quando leio um placard a anunciar o «Centro de Estudos Genéticos e de Melhoramento das Raças de Camelídeos» (lamas, alpacas e vicunhas) da Universidade de Cusco. Toma e embrulha! Para quem, como nós, acabava de percorrer uma região economicamente atrasada, aquela inesperada visão do novo vale, era francamente prometedora. E a promessa cumpriu-se.

Vale Sagrado, Peru.jpg

 

Assim foi que começámos a percorrer o vale a que os quéchuas desde sempre chamam «sagrado», tal a riqueza da agricultura, a democratização da propriedade, o bem-estar relativo que por ali se observa. E porquê? Porque, como já anotei, a gestão da água se faz desde a fonte e vai até muitos quilómetros além, onde o vale se transforma num canhão apenas transponível com alguma dificuldade no sopé de Machu Picchu.

 

O ex-libris por excelência do Peru é de acesso difícil. Propositadamente, claro! E, mesmo assim, o Inca não se livrou da grande desgraça espanhola que o assoberbou com o apelido Pizarro.

 

Depois de termos deixado o autocarro, passámos para duas carrinhas que nos transportaram ao fim do Vale Sagrado. Metemo-nos então numa luxuosa carruagem de um comboio que haveria de percorrer um canhão entre montanhas durante uma hora e meia, em paralelo com o rio Urubamba (o tal riacho que tínhamos visto nascer lá nos píncaros) para finalmente chegarmos à cidadezinha que, entre penhascos descomunais, se localiza no sopé do Monte Velho a que os quéchuas chamam Machu Picchu. Ao Monte Novo chamam os nativos Huayna Picchu e é esse que habitualmente aparece nas fotografias deixando o verdadeiro nas costas do fotógrafo.

 

Mas não vou estar aqui a descrever o que está muito bem apresentado na Internet, por exemplo, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Machu_Picchu

 

 

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O mais fantástico de tudo é que todos os que estávamos exaustos, coxos, palpitantes e não sei mais quê, subimos por ali acima quase como se estivéssemos de visita à «Companhia das Lezírias», ali a seguir a Alcochete. Será esse o fascínio de Machu Picchu, o de reerguer os caídos e reanimar os moribundos? Talvez. O que sei é que amarinhei – por vezes agarrando-me sabe Deus onde – mas não me senti doente e apenas dei por mim salutarmente cansado.

E dali seguimos para Cusco…

 

Até amanhã.

 

Outubro de 2017

Henrique Machu Picchu.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:08
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
PERU – 10

 

LAGO TITICACA

 

Puno é o nome da cidade que parece uma favela brasileira sem as fachadas rebocadas e se enrola no extremo norte do Lago Titicaca, essa enorme massa de água doce abastecida por cerca de 25 rios que descem das neves andinas.

 

Lago Titicaca.jpg

 

Com uma área de cerca de 8400 km2, o lago é mesmo grande, situa-se a 3821 metros de altitude e divide-se entre o Peru (cerca de 2/3 da superfície) e a Bolívia (o resto).

 

Sugiro a quem quiser saber mais, que visite a Wikipédia, p. ex. em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lago_Titicaca

 

Ficámos instalados num hotel magnífico – «El Libertador» - situado numa ilha a que se acede por uma pequena ponte a partir de Puno. A bem dizer, tendo lá chegado à noite, nem sequer notei a ponte e duvidei de que estivéssemos numa ilha. Mas estávamos. Disso me certifiquei na manhã seguinte quando nos dirigimos para o «vaporetto» que ali não recebe tal nome mas que me fez lembrar os dito cujos.

 

Tinham-nos dito que o lago é limpo e puro como uma noiva em dia de casamento mas, no ancoradoiro, a água fervilhava de reacções químicas variadas provocadas pela decomposição de… nem quero imaginar. Sei que uma das nossas companheiras de aventura tropeçou à entrada do barco, mergulhou uma perna no dito «caldo» e arranjou uma série de chatices na pele. Portanto, a noiva não é assim tão limpa e pura como nos quiseram fazer crer. Pelo menos, na zona do embarcadoiro.

 

E zarpámos rumo às famosas ilhas flutuantes que – quiseram fazer-nos crer – são habitadas por grupos de algumas famílias que ali nascem, vivem e morrem. Foi uma visita interessante mas eu fiquei com a sensação de que estava a visitar um jardim zoológico. Tudo me pareceu ficção, arranjo para turista ver, irreal. E se é real, então não abona nada a favor de quem permite que haja gente que assim continue a viver. Sobretudo, bem próximo duma grande cidade como é Puno.

 

Lago-tititaca-ilha flutuante 1.png

 

Aos barcos de junco chamam Uros mas a evolução tecnológica fê-los perder grande parte do velho encanto pois agora a estrutura é composta por alguns milhares de garrafas de plástico vazias. Flutuam melhor e têm uma durabilidade muito maior que antigamente mas, contado o «segredo», tudo parece ainda mais artificial.

 

Titicaca - UROS.jpg

 

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Libertados do folclore, navegámos sem grandes vagares durante cerca de duas horas até à ilha de Taquile onde almoçaríamos. E almoçámos mas… tivemos que escalar uma rampa e alguns «degraus incas» (feitos à trouxe-mouxe) que nos deixaram derreados apesar de, por vezes, nos termos agarrado ao chão, a quatro como a bicharada, para melhor distribuirmos o peso… que nunca imagináramos tão pesado. E durante o nosso desespero, eramos ultrapassados por carregadores nativos que transportavam às costas trouxas «só» de 30 kgs. Mas eles têm os glóbulos vermelhos a condizer com aquelas altitudes e nós estamos aclimatados à altitude zero. E, vai daí, almoçámos e quisemos crer que a descida ia ser «trigo limpo». O tanas!!! Na descida, os músculos são outros que não os da subida e voltámos a ter que descansar nos muros e muretes que bordejavam a famigerada rampa. Mas chegámos ao barco cujas cadeiras, afinal, eram muito mais confortáveis do que inicialmente nos tinham parecido.

 

A ilha de Taquile foi presídio durante o período espanhol, hoje está dedicada ao turismo a tempo inteiro e não há por lá cães, gatos nem cavalos; para além das pessoas, só há lamas, ovelhas e vacas. À hora da nossa passagem, também estavam como nós, cansadas, com a diferença de que elas estavam deitadas e a ruminar; nós não.

 

E zarpámos para o hotel onde chegámos duas horas e tal depois. Era o fim da tarde.

 

Do ancoradoiro ao hotel havia que subir uma centena de degraus turísticos (suaves) mas eu estava com os meus glóbulos vermelhos exauridos do esforço anterior e senti-me a morrer. E para não morrer despudoradamente no parque de estacionamento a meio da escadaria, resguardei-me entre dois carros ali estacionados e encomendei-me… Mas não quis o Altíssimo receber-me naquele dia pelo que lá consegui respirar fundo umas quantas vezes e arrastar-me até ao hall do hotel onde um «botones» me ferrou com uma máscara de oxigénio nas ventas sem me perguntar se eu queria ou deixava de querer. E, depois, subi ao quarto a que eles por ali chamam «habitacion».

 

Amanhã há mais…

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:38
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Sábado, 21 de Outubro de 2017
PERU – 8

 

AREQUIPA

 

Certa vez, em Lisboa, ao entrar na pastelaria em que habitualmente tomo o meu segundo pequeno almoço, vi um carro mal-estacionado a ser rebocado pela Polícia Municipal. Poucos minutos depois, ao sair da dita pastelaria, vi um outro carro a estacionar no tal lugar de que o anterior tinha sido rebocado. Porquê? Porque os sítios não transmitem a sua própria história, é necessário conhecê-la. E é a isso que me dedico com alguma militância: conhecer a história dos sítios, das pedras que pisamos.

 

Aqui, onde piso, quem é que já aqui pôs o pé e com que sentido o fez?

 

Eis o que pensei quando pisei as primeiras pedras que me foram apresentadas à entrada da «Plaza de Armas» de Arequipa.

 

À saída de Lima com destino a Arequipa, o vôo foi cancelado para nos lembrarmos de que estávamos em «terra de fronteira» da nossa organização civilizacional em que os direitos do consumidor são (mais ou menos) sagrados. Ali, pelos vistos, os direitos do consumidor são discutíveis se não mesmo discutidos. Mas lá seguimos no vôo seguinte. À janela, vi o que nos passava por baixo, a imponência do deserto de Atacama. Não tão bonito como o Sahara (inexcedível em matizes coloridos, sombras e luminescências) mas belo como só um deserto sabe ser. Uma particularidade: alguns lagos que não dá para adivinhar se são naturais ou artificias mas sem um mínimo de vegetação envolvente, paisagem completamente careca. Mistério que ficou por esclarecer até ao final da viagem. A aproximação da pista do aeroporto de Arequipa é quase tão «lunar» como a homóloga de El Calafate, na Patagónia argentina, no outro extremo (o do Sul) do deserto de Atacama. Terrível mas belo, «quand même».

 

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E, pelo sopé de um vulcão, entrámos na cidade…

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Perante a imponência da «Plaza de Armas» com a catedral mais do que magnífica e os seus «portales» (arcadas laterais), tudo o resto se dilui mas não se pode ir a Arequipa sem se visitar o «Convento de Santa Catalina» que, só por si, “fala” muito sobre a vida que por ali se viveu.

 

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As filhas «más» (não casáveis) das «boas» (ricas) famílias ou as viúvas ricas sem descendência directa, pagavam para se poderem recolher ao convento onde passavam a ter uma vida austera mas em que se podiam fazer acompanhar de serviçais que lhes prestassem a assistência próxima. Assim, era fundamental fazerem-se anteceder de um vultoso dote que revertia ab initio (e sem putativa devolução no caso de desistência do ingresso) para o património do convento.

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Chegaram a viver no convento mais de 400 pessoas entre religiosas e serviçais mas actualmente já só ali vivem menos de 100 freiras. E, segundo consta, não há serviçais para ninguém.

 

Que as Senhoras e meninas ricas para tivessem que ir com mais ou menos convicção religiosa, vá que não vá…, mas as serviçais, essas, é que eu lamento. Já era mau ter que servir em regime de quase escravatura mas, para além disso, serem «enterradas vivas», deveria ser de loucura.

 

Hoje, felizmente, temos a Segurança Social e amanhã vamos até ao Vale de Colca.

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
PERU – 7

 

E MAIS QUÊ?

 

Fechei a crónica anterior com esta pergunta «E mais quê?» para logo de seguida me auto-responder «Já lá vamos…». Eis-nos, então, no sítio em que a resposta implicaria estarmos: aqui, na crónica seguinte e, mais especificamente, no Peru integrando um grupo de turistas tão portugueses como eu, muito afáveis e que criaram um ambiente magnífico, a não esquecer. Gente com que é fácil criar amizades.

 

Saímos de Lisboa de avião com destino a Madrid e vá de acelerar o passo em Barajas para apanharmos o avião com destino a Lima. Vôo sem história, chegámos ao destino na manhãzinha seguinte para uma visita ao centro histórico da cidade. Só rumaríamos ao hotel pelo meio da tarde.

 

Depois de saber que a História do Peru tem sido uma panóplia de violência e descaminhos (a começar pelos sacrifícios humanos aos Deuses quéchuas até à ladroagem de Fujimori e Toledo, passando pelo terrorismo do «Sendero Luminoso» e do «Túpac Amaru» e sem esquecer os terramotos, os tsunamis, as secas extremas e o «El Niño»), não me admirei com a primeira impressão que nos foi servida, algo depressiva, da periferia da cidade entre o aeroporto e a zona mais central na qual havíamos de nos alojar.

 

O que mais me impressionou foi o ar de desmazelo dos prédios pois a maior parte deles não está rebocada dando a impressão de cópia das favelas brasileiras. E porquê? Porque se o edifício não estiver concluído, a taxa municipal é muito mais baixa do que se o reboco alindar o imóvel. E como não deve haver «licenças de utilização», tudo está habitado e a funcionar numa base precária. Mais: é corrente ver os prédios inacabados em altura pois à medida que os proprietários vão tendo disponibilidades financeiras, aumentam mais um piso e não se preocupam com o alindamento dos pisos de baixo. Sim, um verdadeiro espectáculo terceiro-mundista.

 

Casario Lima Peru.jpg

 

Mas à medida que nos aproximamos do centro, tudo melhora pois as municipalidades sucessivas por que se passa têm legislações diferentes e nas zonas nobres não há desleixo. Pelo contrário, há esmero.

 

O ajardinamento sistemático dos separadores centrais nas avenidas, nos jardins públicos, nos jardins privados das moradias, quase nos fazem esquecer de que estamos num deserto que a Mãe Natureza ali plantou, o que continua o de Atacama, mais a sul… Pensei mesmo em escrever um livro cujo título fosse «O jardineiro de Atacama». Mas acho que tenho mais que fazer.

 

Palácio presidencial Lima.jpg

 

Foi neste primeiro dia que visitámos o centro histórico e reconheço magnificência ao palácio presidencial e a diversos edifícios que por ali estão. A Catedral, afinal, é quase toda de madeira coberta de estuque como consequência dos abalos telúricos que a destruíram diversas vezes e que acabaram por convencer os responsáveis de que mais vale edificar algo que abane mas que se aguente do que algo que resista, parta e se desmorone.

 

Visitámos também uma casa senhorial duma família muito conhecida lá no burgo mas cujo nome me escapou por completo. Vivem lá mas têm uma parte que nós, os forasteiros, podemos visitar. E de vez em quando vê-se uma ou outra pessoa a passar por ali com ar de quem está em casa. E está mesmo! Senti-me como um penetra numa festa para que não tivesse sido convidado. Pelos vistos, as despesas de manutenção do palacete são ajudadas pelos bilhetes que as agências de viagens pagam pelas nossas visitas (e que nos são debitados no preço total da viagem, claro está). Relativamente àquela família, dizem-me que a base da fortuna é a exploração mineira de… não sei quê.

 

A propósito, a economia peruana tem uma fortíssima componente mineira mas não vos maço agora com esse tema tão pouco turístico. O Google informa quem se interesse por isso.

 

E amanhã há mais… Até amanhã, durmam bem!

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:16
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
PERU – 6

 

QUEM COM FERRO MATA, COM FERRO MORRE

 

Poderia ter sido um esplendor da civilização cristã mas não foi nada disso. Foi apenas um malandro odiado e temido. Chamava-se Francisco Pizarro, foi o autêntico Stalin do séc. XVI e teve o fim que merecia, decapitado.

Pizarro.jpg

 

Vamos a ele… com a ajuda da Wikipédia.

De seu nome completo Francisco Pizarro González, nasceu em Trujillo, na Extremadura espanhola, em 16 de Março de 1476 e fez diabruras até 26 de Junho de 1541 quando foi assassinado em Lima e o seu corpo, decapitado, arrastado pela Praça de Armas até ao esfrangalhamento quase completo. Os ossos acabaram varridos para uma caixa que foi depositada por ali... Passados séculos, foram finalmente identificados e colocados num ataúde apropriado que se encontra exposto numa lateral da Catedral de Lima pois mesmo que maligno, não pode deixar de ser considerado importante na História do Peru. Mas quem nos mostra o local, tem o cuidado de dizer que não se trata duma capela; é apenas um local. Aliás, passou à História como "o conquistador do Peru" pois subjugou o Império do Inca ao poderio espanhol. Mas fê-lo de modo especialmente sanguinário e repugnante aos olhos actuais - e em especial aos dos coevos, claro, que lhe sofreram a maldade.

Mas – e lá vem o tal «mas» que tanto relativiza os juízos – é preciso saber-se que o rapaz foi abandonado na tenra infância, que guardou porcos para que alguém lhe desse alimento e o deixasse dormir no chiqueiro, que só foi tardiamente reconhecido pelo pai, que quem o deveria acolher não descansou enquanto o não embarcou num navio da conquista lá pelo ano de 1489, rondava ele os 13 anos de idade. Quem o educou, então? Os suínos que pastoreara ou os javardos bípedes embarcados por indulto das cadeias espanholas? Dá para imaginar os atropelos a que foi submetido…

E assim se fabrica uma besta.

O primeiro registo oficial que o menciona é a documentação da expedição de Vasco Núñez de Balboa no Panamá em 1513, onde aparece como obscuro oficial, quase analfabeto. Desde aí, desenrolou-se-lhe a vida na aventura da conquista da América, nas primeiras colónias espanholas na América Central, então chamada «Castilla de Oro», o que mais lhe rendeu aflições com índios e companheiros espanhóis do que honra e glória. Até que, em 1517, lhe foi atribuída a tarefa de aprisionar o seu antigo chefe, Balboa, por ordem de Pedro Faria, o novo Governador colonial.

Foi em 1524, já com cinquenta anos de idade, que se juntou a um oficial menor chamado Diego de Almagro, ambos acalentando planos depois de ouvirem a narrativa de Pascual de Andagoya que, embora regressasse ferido e sem riquezas de uma expedição mais ao sul, teria obtido a informação de um nativo que, apontando mais para o sul, lhe dissera que conhecia o Pirú, reino onde "se come e se bebe em vasilhas de ouro".

Aproximando-se de um rico comerciante da Colômbia, o juiz Gaspar de Espinosa, Pizarro obteve um patrocínio e em Novembro de 1524, fez-se ao Pacífico com oitenta homens e quatro cavalos.

Infrutífera viagem, regressaram sem riquezas ou glórias (Almagro perdeu, entretanto, um olho nos combates travados com nativos), foram necessárias muitas negociações para o financiamento de uma nova expedição que, entretanto, foi minuciosamente contratada por escrito no qual já se previa a conquista do Peru ainda desconhecido e já se tratava da partilha das suas riquezas.

Foi em Novembro de 1526 que Pizarro voltou ao mar desembarcando na foz do Rio San Juan na costa da atual Colômbia onde ficou com a maior parte dos seus homens enquanto Almagro voltava ao Panamá com uma das embarcações para buscar mais reforços. A outra embarcação, sob o comando do piloto Bartolomeu Ruiz, prosseguiu, passando o Equador, ocasião em que teve o primeiro contacto com a civilização Inca: tratava-se de uma grande jangada impulsionada por uma vela quadrada na qual havia homens e mulheres bem vestidos com túnicas de lã, usando ornatos feitos do tão ambicionado ouro.

Três Índios foram aprisionados para servirem de intérpretes. Bartolomeu Ruiz voltou e reuniu-se com Pizarro. Pouco depois chegou Almagro com um reforço de 90 homens. Entretanto, Pizarro já havia perdido muitos homens vítimas da fome e do escorbuto (?). Traçando com a espada uma linha na areia, desafiou todos a passarem para o lado dele, onde estariam a luta e a morte mas também a fama e a fortuna. Apenas onze espanhóis e um grego se lhe juntaram; os outros regressaram ao Panamá.

Pizarro e companheiros esperaram numa ilhota ao largo da costa durante sete meses, até que o Governador do Panamá lhe enviou um barco com novos recrutas. Embarcando, esta força expedicionária navegou mais para o sul por mais de 25 dias até ao golfo de Guaiaquil onde um daqueles índios, já intérprete, explicou que se tratava do porto quéchua mais setentrional, a actual cidade de Tumbes. Ficando aí alguns espanhóis, Pizarro prosseguiu mais para o sul até Guayaquil onde foi confrontado com um grande número de jangadas repletas de guerreiros nativos. Trocando informações com eles, Pizarro exibiu as vistosas armaduras, arcabuzes e vinho e os quéchuas falaram abertamente da sua civilização admitindo a existência de ouro, prata e pedras preciosas. Algumas semanas depois, Pizarro voltava ao Panamá com artefactos de metal e tecidos finos indígenas, algumas lamas e vários jovens índios destinados ao serviço de intérpretes, prova mais que suficiente para fundamentar nova expedição.

Prosseguindo os seus objetivos, Pizarro voltou a Espanha e diante da corte de Carlos V fez a apologia dos esplendores do Peru fazendo coro com os relatos ainda mais auspiciosos de Hernán Cortés, que regressava da conquista do México. Em 26 de Julho de 1529 a rainha assinou a «capitulación» que autorizava Pizarro a conquistar e explorar as riquezas do Peru nomeando-o Governador e Capitão- Geral.

Em 1530, Pizarro reuniu-se no Panamá com Almagro e rumou para o sul fundando, em Setembro de 1532, o primeiro estabelecimento hispânico na costa do Peru denominado San Miguel de Piura, formando uma força de conquista com sessenta e dois cavaleiros e cento e seis infantes com a qual avançou continente adentro na "Conquista do Império Inca".

No dia 16 de Novembro de 1532, Pizarro, com a sua pequena força expedicionária, chegou a Cajamarca onde, deixando a maior parte dos seus homens fora da cidade, aceitou o convite do imperador Atahualpa para um jantar no qual fez assassinar a sua pequena guarda de honra e aprisionou o próprio imperador. Seguiram-se chacinas medonhas de todos os que ousavam aparecer-lhes à frente. No ano seguinte, Pizarro invadiu Cuzco e derrubou o rei local.

Considerando Cuzco muito distante e muito acima no planalto, Pizarro fundou a cidade de Lima no dia 18 de Janeiro de 1535, prosseguindo em grandes chacinas pois as forças quéchuas (do Inca) tentaram retomar Cuzco. Derrotadas finalmente por Almagro, julgou-se este em condições de tomar a cidade para si, gerando uma disputa com Pizarro que o derrotou e executou ali mesmo, em Cuzco. Corria o ano de 1538.

Zangados, partidários de Almagro foram ter com Pizarro que entretanto estava em Lima, assassinaram-no em 26 de Junho de 1541, decapitaram o cadáver e fizeram-no arrastar pela Plaza Mayor até ficar em pedaços.

Como já disse, encontra-se depositado em ossário exposto na Catedral de Lima.

Do outro lado da Plaza Mayor, foi há pouco tempo apeada a estátua que o representava, procedimento que muito irritou a UNESCO cujos membros não têm seguramente antepassados importunados por Francisco Pizarro González, esse autêntico Stalin do séc. XVI.

Sim, é assim mesmo: quem com ferro mata, com ferro morre.

E mais quê? Já lá vamos…

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 

Henrique Salles da Fonseca



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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
PERU – 5

 

MITOLOGIA E TEOLOGIA

 

«Mitologia» vem de mito que é algo que não existe, que é ficcional; «Teologia» tem a ver com «teo», Deus.

Só a nossa religião é teológica; todas as demais são mitológicas.

 

Inti é o nome quéchua do Sol, tido pela divindade mais significativa da mitologia quéchua, a do Inca.

Culturas anteriores à quéchua tinham Viracocha como sendo a suprema divindade. A definição completa do seu poder absoluto passava pela enumeração da sua superioridade sobre a água, a terra e o fogo mas evoluiu para um conceito mais complexo que acabou por se tornar no Deus único e criador universal, Inti.

Até aqui, parecia que estávamos a falar do nosso Deus mas este novo e muito poderoso Deus do Sol não estava sozinho, estava casado com a sua irmã, a Lua, com quem compartilhava uma posição igual no tribunal celestial. A Lua era conhecida por Mama Quilla.

Inti.jpg

 

Inti era representado por uma elipse ou disco de ouro; Mama Quilla, por uma figura de prata.

Mama Quilla.png

 

Como criador do Universo, Inti era adorado e reverenciado, mas também concedia (ou não) favores e ajudava (ou não) a resolver problemas e a aliviar as necessidades; só ele podia dar boas colheitas, curar doenças e providenciar a segurança exigida pelo homem. E no meio de Natureza tão agreste com desertos tão áridos, com chuvas diluvianas, com tremores de terra e tsunamis tão devastadores, bem se compreende como esta (e qualquer outra) divindade era importante para acalmação das gentes da sua fé.

A Mama Quilla competia a gestão do fervor religioso das mulheres, nomeadamente das Mama Conas, que formavam o núcleo de fiéis seguidoras que eram as sacerdotisas encarregadas pela Deusa de guardarem e instruírem as vestais que residiam no templo anexo aos aposentos do Inca e cujas funções eram não só de índole puramente religiosa mas também a de garantirem a descendência do próprio rei. Em resumo muito erudito, «orare et coierit».

Com a chegada dos espanhóis em 1532, chefiados por Francisco Pizarro, tudo isto foi desbaratado, templos arrasados e gentes insubmissas passadas a fio de espada.

O objectivo era o de destruir a mitologia e impor a teologia. Sim, sim… e o de obter o ouro e outras preciosidades que os quéchuas possuíam.

E quem era esse tal Francisco? Já lá vamos…

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017
PERU – 3

 

POR SUPUESTO

 

- Juan, for favor, fale-nos dos movimentos terroristas aqui no Peru.

- Si, por supuesto, lo haré!

Foram dois os «Juans» (nomes falsos que atribuo aos guias que nos elucidavam sobre tudo o que víamos, sobre a História, religiões, etc.) a quem pedi que nos falassem sobre o cenário político e de segurança, foram dois os que me responderam «por supuesto» e foram dois os que nada disseram. Pelos vistos, o tema não é confortável nem sequer em ambientes fechados como o do grupo de turistas em que nos integrávamos.

E, de facto, com tantos temas interessantes à disposição, para quê abordar assuntos que se podem revelar incómodos?

Lembro-me de no final dos anos 60 do século passado, um conhecido meu dizer que em determinado país da América Latina (Colômbia?) em que ele trabalhava como perito agrário, havia 46 Partidos políticos em que apenas um não se denominava revolucionário: o Comunista. E sugeria esse meu conhecido que ninguém se metesse num avião em que viajasse algum Ministro.

Pois é, Caros Leitores, a América Latina tem os seus quês. Pelos vistos, ainda hoje.

No Peru, tudo o que consegui apurar é que estão presos dois ex-Presidentes por aboletamento de dinheiros públicos (Alberto Fujimori e Alejandro Toledo) e vários dirigentes terroristas por razões óbvias. Por motivos que não apurei, apenas constatei que toda essa rapaziada de trato mais ou menos fino, se encontra no mesmo estabelecimento prisional. Talvez que para mais eficaz troca de saberes e de experiências feitas. Por certo, sairão de lá uns malfeitores ecléticos de altíssimo gabarito e à prova de todas as circunstâncias. Vai ser bonito…!!!

Duas particularidades: o «empochamento» de Fujimori terá ultrapassado os 6 biliões de dólares, os quais se encontram em parte incerta pelo que o Erário peruano ainda não conseguiu deitar-lhe a mão; os dirigentes terroristas (do «Sendero Luminoso» e do «Túpac Amaru») já fizeram saber que não estão arrependidos e que as suas críticas se mantêm. Repito: - Vai ser bonito…!!!

Kuczynski_Pedro_Pablo.jpg

 

Actualmente, o Peru é presidido por Pedro Pablo Kuczynski, economista e ex-primeiro ministro de tendência centro-direita. Note-se que conquistou a presidência derrotando Keiko Fujimori, a herdeira dos tais 6 biliões que ela deve saber onde estão. E porque a oposição (a do gamanço) tem a maioria nas Câmaras legislativas e não o deixa governar completamente, consagrou solenemente o Peru, ele mesmo e sua família, ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria como quem diz que a situação política só verá a sanidade com a ajuda divina.

«Por supuesto», todos os peruanos com quem falei me disseram bem dele na sua condição de competência e seriedade.

«Por supuesto», gostei do que ouvi. Até porque somos colegas de profissão. Com duas diferenças fundamentais: ele está ao activo e eu estou aposentado; ele é Presidente do Peru e eu não.

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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