Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
ADEUS

Este blog dá aqui os seus trabalhos por encerrados.

Agradeço sinceramente a todos os amigos que ao longo de 13 anos me ajudaram a fazê-lo.

Abraços,

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:15
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017
ENCONTROS DE ESCRITORES

 

 

Refeitório dos frades, Alcobaça.jpg

 

Foi James Joyce que me sugeriu a busca da epifania das coisas e dos lugares. No sentido filosófico e não propriamente no transcendental mas, de facto, não sou capaz de deixar de imaginar as pessoas que estiveram ligadas a essas coisas e a esses lugares conferindo-lhes a essência que sempre procuro pelo que, mesmo sem um esforço especial, me chego relativamente perto da transcendência sem, contudo, lhe tocar. É claro que não chamo os espíritos sobre uma mesa de pé de galo nem dou a mão a xamãs; limito-me a imaginar as pessoas que por ali andaram e se mais houver, não é para aqui chamado. E com esta imaginação, tudo ganha uma expressão muito especial. Eis a busca do significado que tantos escritores tentam; alguns, em vão. Sugiro a quem me lê que faça esse tipo de exercício mental que, por enquanto, não paga imposto.

 

Compreende-se, assim, o entusiasmo com que correspondi ao desafio que o Francisco me lançou para testemunhar os seus «encontros» e para eu próprio contar o que nesse âmbito me aprouvesse. Sobre as descrições que o Francisco nos trouxe, posso dizer algo; sobre as descrições dos meus «encontros», outros que opinem.

 

Transcendências e seus rituais postos de parte ab initio, trouxe-nos o Francisco uma encenação de grande efeito pois foi escolher um local por onde passaram muitas histórias - tantas que será por certo impossível descrevê-las exaustivamente. Mais: esse local foi conhecido de quase todos os escritores (se não mesmo de todos) por ele convidados pelo que, directa ou indirectamente, explícita ou implicitamente, formatou a cultura de todos os invocados. Ou seja, o refeitório dos frades do Mosteiro de Alcobaça sendo, por definição, um marco inultrapassável da nossa Cultura, é cenário natural a todos os invocados que pertencem – uns mais militantemente do que outros - à esfera da lusofonia e não obrigatoriamente à da lusofilia.

 

Mas o Francisco, elegante como sabemos, foi buscá-los à lusofonia e «deixou para lá» essa questão mais diáfana que é a lusofilia. Eu próprio o fiz nos meus escritos mas, dentre os que foram menos afáveis para connosco, portugueses de Portugal, só invoquei aquelas duas Senhoras que, na aflição, nos procuraram e nos deram tudo o que tinham: a vida1.

 

A vastíssima cultura do Francisco sobra em relação ao espaço que decidiu conceder aos seus escritos. Poderia continuar, não sei até onde… A sua arte literária permitiu-lhe tecer diálogos interessantíssimos que a todos nos deu asas à imaginação e que, também eles, poderiam continuar por aí além…

 

A propósito dos diálogos entre escritores que viveram temporalmente tão longe uns dos outros, lembrei-me da Rainha de Sabá e do Rei Salomão2 que talvez nunca se tenham encontrado e que, mesmo assim, conseguiram fazer um filho, o primeiro Imperador da Etiópia. Mas como a fé não se discute, fiquemos assim.

 

Resta-me uma questão final: como é que uma Cultura tão policromada como a Lusíada em que ainda hoje, neste início do séc. XXI, proliferam hostes de analfabetos, tem conseguido produzir tantos escritores e poetas? E são tantos que nem conseguimos listá-los sem grandes omissões. Ensaio uma resposta bastamente discutível: é muito mais fácil romancear e versejar do que mourejar.

 

Salvo melhores opiniões.

 

Grande abraço ao Francisco e que continue…

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca

1- Noémia de Sousa veio morrer a Cascais; Alda Lara veio cá tentar tudo para se salvar mas acabou por morrer em Angola.

2Salomão morreu em 931 a. C.; na tradição cristã, a rainha de Sabá é uma figura metafórica.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:53
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Sábado, 21 de Janeiro de 2017
A EUROPA – O SUL vs. O NORTE

EURO007.jpg

 

  • A Europa do Sul foi tomada por uma classe de políticos que não hesita em «comprar» votos usando a demagogia que paga com dinheiros públicos – daí surgem os défices públicos;
  • A Europa do Sul sempre gostou muito mais de folgar nas belas praias do que estudar nos livros – daí a grande deficiência na instrução e formação e a pobreza estrutural dos PIB's com inerente dependência económica externa e consequentes dívidas privadas;
  • Os políticos da Europa do Sul convenceram os seus eleitores de que é aos ricos que cumpre pagar a crise travestindo esse conceito marxista na famosa «solidariedade europeia»;
  • A Europa do Sul contou com tudo isso e agora diz que os culpados são os ricos que não querem pagar a factura da sua «dolce vita»;
  • Os ricos não pagam, não; os ricos emprestam, sim, mas sobem a taxa de juro porque o risco aumenta com os dislates de novo em curso.

Ou seja, Schäuble mais não faz do que defender os interesses dos seus contribuintes e por isso se zanga com o que por aqui vai novamente...

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:02
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
CITANDO...

Uma das penalizações por nos recusarmos a participar na política é que acabamos por ser governados por outros piores do que nós

Frase atribuída a

Platão.jpg Platão



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:18
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017
CITANDO...

Se o desonesto conhecesse as vantagens de ser honesto, seria honesto ao menos por desonestidade.

Frase atribuida a

Sócrates.jpgSócrates (filósofo grego)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:01
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Domingo, 15 de Janeiro de 2017
NÃO HÁ EXEGESE PARA NINGUÉM

 

 

Corão.jpg

 

OS RADICAIS MUÇULMANOS INTERPRETAM O CORÃO À LETRA

 

Quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os (…)

Corão, 9ª Surata, versículo 5

 

 

Eis algumas frases «simpáticas» de um dos teólogos muçulmanos mais radicais, o Sheick Hassan al-Banna (1906-1949), fundador da Fraternidade Muçulmana:

 

É da natureza do Islão dominar, não ser dominado, impor a sua lei a todas as Nações e fazer alastrar o seu poder ao planeta inteiro.

 

O punhal, o veneno e o revólver… Estas são as armas do Islão contra os seus inimigos.

 

E agora? Aceitam-se sugestões.

 

Janeiro de 2017

 

 

Henrique no barco-Israel.JPG

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:22
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017
ENCONTRO DE ESCRITORES – 2 –

 

 

- E a propósito de Almada, creio que será interessante o nosso anfitrião também dar voz às escritoras. Que acham?- pergunta Almeida Garrett.

De imediato, o grande Luis anuiu mas lembrou que a sua Jau nada escrevera.

- E lá por isso, a minha D. Madalena também não. Mas tanto a tua Jau como a minha Madalena são o resultado das nossas imaginações. Não, eu sugiro mulheres escritoras, elas próprias.

- Muito bem, vamos sugerir isso ao nosso anfitrião.

Falados, D. Francisco, o anfitrião, concordou mas logo lhes pediu que intercedessem junto de S. Pedro para que deixasse as Senhoras virem até ao lado de cá.

- S. Pedro? Porquê ele e não Santa Clara, por exemplo? - replicou o chique João Baptista. – Tratando-se de Senhoras, parece mais conveniente não meter homens pelo meio, por muito Santos que sejam.

- Sim, sim! – diz o Luís – Nada melhor que a intercessão de Santa Clara para termos por cá garantida Soror Mariana, a das cartas ao francês.

- Muito bem, seja! – diz o terreno D. Francisco – Vejam lá, então, se falam com Santa Clara.

E não é que falaram mesmo? E não é que obtiveram mesmo a autorização? Brilhantes! Pediu a doce Clara que dissessem onde deveriam as Senhoras aparecer e a que horas...

 

Foi então a vez do nosso amigo e anfitrião puxar pela cabeça para imaginar onde poderia ser a reunião das escritoras. Em Alcobaça não, obviamente, por ser mosteiro masculino.

Vai daí, mete-se ao caminho de Beja e procura o Convento da Conceição, das clarissas, onde residira Soror Mariana, mais conhecido por Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição para falar com a Dona Abadessa. E qual não é o espanto do nosso amigo D. Francisco quando se lhe depara o Museu Regional de Beja, totalmente laicizado (não propriamente profanado), sem Abadessa nem monjas. Pede então ao contínuo de serviço à portaria que lhe obtenha um encontro com a mais alta hierarquia do dito Museu. (...) Que sim, podiam usar uma das galerias desde que no dia de encerramento semanal ao público.

No dia aprazado, postas as mesas com os recipientes de «bebidas paulatinas» (nada de bebidas alcoólicas) e bolinhos conventuais (mas dos secos para obstar a molhangas e outras besuntices), logo ficou estipulado que o que sobrasse deveria ser distribuído por critério ad hoc, ou seja, a bel-prazer de quem por ali manda. E D. Francisco, o terreno, logo foi dizendo que sobraria quase tudo pois só ele comeria alguma coisa; que as espirituosas convidadas são austeras em beberagens e comissões.

 

Só o anfitrião presente e garantido o recato por expressa ordem de extra hominis, caiu o silêncio dentro da galeria colunada e...

 

Museu Regional de Beja.jpg

 

... conhecedora dos cantos da casa, entra serenamente à hora prevista a antiga residente no Convento, Mariana Alcoforado. Dada uma olhada calma pelos rótulos das bebidas e pelos pratinhos com bolos, ia a nostálgica e platónica apaixonada pelo Marquês de Chamilli dirigir-se a D. Francisco quando, vinda do Céu de Angola, entra Alda Lara (1930-1962) que já vinha à conversa com a moçambicana Noémia de Sousa (1926-2002). A goesa Maria Elsa da Rocha (1923-2005) foi a seguinte mas logo seguida pela santomense Alda Espírito Santo (1926-2010). E quase se iam atropelando umas às outras ao passarem, saudosas, pelas gulodices em que já não metem dente quando todas param de espanto perante um chapéu «belle époque» esvoaçante por cima duma pele de raposa anunciando a chegada da mais bela flor que sempre se considerou esquecida mas não espancada...

Tentando pôr fim ao sururu dos gritinhos de surpresa, beijinhos de saudades e outros salamaleques, foi a vez de o anfitrião sugerir o critério de só falar uma Senhora de cada vez. (...) que sim, que estava bem. E que seria ele, o terreno, a pôr ordem na chamada à palavra. Que sim, que fosse.

- Então, minhas Senhoras, vou pedir a cada uma que nos fale sobre uma obra que considerem importante dentre todas as que produziram. Comecemos por Soror Mariana...

- Obrigada, querido Francisco por me dar a palavra. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, confesso perante vós, minhas irmãs e colegas de escrita, o meu sincero arrependimento por ter pecado por actos escritos, pensamentos lúbricos e terríveis omissões, tudo em favor desse malévolo francês que me enfeitiçou com lindas promessas que hoje considero escabrosas, imundas e sarnentas e que depois me desprezou com um sonoro silêncio. E foi esse silêncio que me conduziu ao desespero, à ignominiosa escrita que em França os pecaminosos tanto aplaudiram e me conduziram ao estrelato, às honras que hoje tanto me afligem. Foi em desespero que me deixei conduzir pelas vias do pecado e só porque é infinitamente bom, o Pai me perdoou no meu arrependimento e me acolheu ao seu lado direito. Hoje venho aqui perante vós reconhecer os meus erros e declarar-vos que numa próxima vida me dedicarei afincadamente ao estudo para conjugar melhor os verbos em francês. Chamilli vai pagar-mas!

E assim se retirou para perto dos bolinhos, sem lhes tocar. Grande penitência. E na vingança confessada, lá foi Mariana «tirando bilhete» para o Purgatório se não mesmo para as brasas eternas...

 

Estava D. Francisco, o terreno, quase em estado de choque com o destino adivinhado da monja quando viu uma sombra a acenar como que a pedir a palavra. Era a bela flor da porrada.

- Sim, bela flor. Diga-nos um poema seu, por favor.

E assim foi que todas viram o tal chapéu «belle époque» dirigir-se até junto duma coluna para dali ouvirem...

 

Eu quis amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi p’ra cantar!

 

E se um dia me fiz pó, cinza e nada

Que fosse a minha noite uma alvorada,

Então eu soube-me perder... p’ra me encontrar...

 

E D. Francisco, o terreno, meio perdido no meio de tanta perdição, só pensava: - Ah! Grande sebenta que hás-de penar eternamente... Mas Deus é grande e perdoou-lhe. Só que deve estar ao Seu lado esquerdo.

 

Apressadamente, deu o nosso amigo terreno a palavra a alguém que lhe garantisse santidade na ex-vida terrena. E escolheu Alda que recordou o seu testamento...

 

À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...

 

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda...

 

Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...

 

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.

 

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor...

 

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças

Que encontrares em cada rua... 

 

Comovido, D. Francisco olhou em redor e viu todas as almas do outro mundo ali presentes com nós nas gargantas e lágrimas a correr suavemente pelas nuvens com formas de rosto.

 

Engoliu em seco, aclarou a voz e convidou Noémia de Sousa a dizer o seu «Magaíça».

 

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda

Engoliu o mamparra,

Entontecido todo pela algazarra

Incompreensível dos brancos da estação

E pelo resfolegar trepidante dos comboios.

 

Tragou seus olhos redondos de pasmo,

Seu coração apertado na angústia do desconhecido,

Sua trouxa de farrapos

Carregando a ânsia enorme, tecida

De sonhos insatisfeitos do mamparra.

 

E um dia,

O comboio voltou, arfando, arfando...

Oh nhanisse, voltou.

E com ele, magaíça,

De sobretudo, cachecol e meia listrada

E um ser deslocado

Embrulhado em ridículo.

 

Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?

Trazes as malas cheias do falso brilho

Do resto da falsa civilização do compound do Rand.

 

E na mão,

Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,

À cata das ilusões perdidas,

Da mocidade e da saúde que ficaram soterradas

Lá nas minas do Jone...

 

A mocidade e a saúde,

As ilusões perdidas

Que brilharão como astros no decote de qualquer lady

Nas noites deslumbrantes de qualquer City.

 

Calado, pensou: - Aqui estão as nossas 800 toneladas de oiro, a pesada herança do Doutor Salazar.  Pensou mas calou também a verdade inconfessada por muitos dos que se dedicaram a dizer mal de Portugal mas, quando doentes, se recolhiam à nossa guarda. E nós guardámo-los e demos-lhes tudo o que sabíamos dar. E por cá morriam e também eles nos davam tudo o que tinham: a vida.

Reconhecido, Francisco apenas se limitou a dizer – Obrigado!

 

A noite ia comprida e Santa Clara mandou recado de que lá em cima já eram horas das vésperas. Que as rezassem e regressassem ao Céu.

(...)

Foram os Magos seguindo

A estrela do Oriente

E com presentes confessam

A glória de Deus nascente.

(...)

E quem não falou desta vez, falará da próxima...

 

Cumpridor, D. Francisco agradeceu às Senhoras, viu-as sair através duma parede e pensou que da próxima teria que... o quê?

 

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:47
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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017
FRASES FAMOSAS DO BARÃO DE ITARARÉ

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:35
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017
CITANDO...

Tu próprio deves fazer parte da mudança que queres ver.

Gandhi.jpgMahatma Gandhi

(inscrição por cima das portas de acesso à aerogare dos voos domésticos no aeroporto de Bombaim)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:16
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017
OS HIPERBÓREOS

Wotan.jpg

 

Presidindo ao Walhala, Wotan é o deus da guerra e envia as suas filhas valquírias para recolher os corpos dos heróis mortos em combate. Só morrendo em combate se garante a vida eterna – eis a fé dos hiperbóreos, aquela raça que se crê superior e que vive para lá das neves sopradas por Boreas, o vento do Norte.

 

Foi Umberto Ecco que me apresentou os hiperbóreos[1] por intermédio de Nietzsche que me disse, referindo-se à sua própria Nação, que...

 

hiperboreos.png

 

... bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas. O nosso «fatum» era a plenitude, a tensão, a acumulação de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da resignação. Pairava a tempestade da nossa atmosfera; a natureza que nós somos obscurecia-se pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade. O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade do poder, o próprio poder. O que é mau? Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz, finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência isenta de moralismos.

 

General Ludendorff e Hitler.jpg

Ludendorff e Hitler, auto-enviados de Wotan

 

Destaco: (...) não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios (...)

 

E hoje?

 

Hoje, os descendentes dos hiperbóreos – a que actualmente chamamos alemães – ainda lambem as feridas que sofreram por terem ido à glória duas vezes em menos de 100 anos. E, ao contrário do que dão a entender, não esqueceram Wotan e a ideia de superioridade em relação aos soalheiros povos do Sul que tomam por carnavalescos.

 

Como assim? É que também contaram com Lutero que os incitou à justificação da fé pela fé, sem intermediários com o Deus único. Dessa relação directa resulta um grande sentido de responsabilidade e, portanto, ainda mais sisudez e maior convicção de superioridade em relação aos que carecem de intermediários para obterem o perdão divino. O luterano é directamente responsável pelos seus actos perante Deus e não há bula que lhe valha.

 

Desta responsabilidade individual resulta uma Ética também sisuda, austera, que induz os descendentes dos hiporbóreos a servirem o bem comum da sua Nação, atitude que os faz viverem para trabalhar e para aforrar.

 

Pelo contrário, os meridionais acham muito mais graça ir para as praias gozar dos mares aquecidos e, se pecarem, logo pedem a absolvição. Entretanto, os subsídios de sobrevivência que os endividados Estados Providência lhes concedem, não deixam margem para dúvidas: não há vida mais bela que a das férias permanentes.

 

Então, os setentrionais poupam e os meridionais gastam.

 

São estas as duas perspectivas, totalmente antagónicas, que fazem os Varoufakis e outros causídicos das «cigarras» dizerem mal de Schäuble e de outros defensores das «formigas». Mas mais valia que se queixassem a Wotan.

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Umberto Ecco – «História das Terras e dos Lugares Lendários», Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015

Max Weber – «A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo», Editorial Presença, 8ª edição, Setembro de 2015

 

 

[1] - «História das Terras e dos Lugares Lendários», Ed. Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015, pág. 241 e seg.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:25
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