Domingo, 8 de Janeiro de 2017
O TÚMULO DO REI D. DINIS...

Tumulo de D. Dinis.jpg

 


... foi aberto em 1938

 

O Rei D. Dinis escolheu a Igreja do Mosteiro Cisterciense de Odivelas para sua última morada. Indicou mesmo o local: a meio, entre a capela-mor e o coro.

 

Para que a sua vontade fosse cumprida, fez essa declaração no seu testamento.

 

Assim se cumpriu.

 

Naquele local e naquele Igreja foi depositado o seu corpo quando o cortejo fúnebre chegou, vindo de Santarém. Era um mausoléu majestoso. O primeiro a ter uma estátua jacente. O primeiro a ficar dentro de um lugar sagrado.

 

Estava cercado de grades altas de ferro terminando em escudetes nas pontas dos balaústres com as armas de Portugal e cruzes da Ordem de Cristo. Um dossel cobria-o em toda a sua dimensão.

 

O sismo de 1755 precipitou sobre o túmulo a abóbada da igreja, deixando-o gravemente arruinado.

 

Reconstruída a Igreja, foi o túmulo encostado à teia do corredor lateral direito e ali esteve até 1938, ano em que se fizeram novamente obras na Igreja.

 

Em consequência dessas obras, foi necessário mudá-lo de lugar e para facilitar o trabalho transportaram primeiro a tampa, pelo que, logo que a levantaram, ficaram à vista os restos mortais do Rei. Viu-se então um manto de brocado vermelho a cobrir o corpo do Rei, da cabeça aos pés. Este manto era tecido com fios de ouro.

 

A todo o cumprimento tinha faixas alternadas, separadas com fios dourados e onde se tinham executado bordados com os seguintes motivos: numa das faixas estavam bordadas pinhas em toda a sua extensão; na faixa seguinte bordaram açores e na última viam-se flores de Liz.

 

Na opinião dos que assistiram a este acontecimento, as pinhas são uma referência ao pinhal de Leiria; os açores, sendo o Rei um amante da caça de volataria[1], lembram-nos as aves de caça que muito estimava (conta-se que até mandou construir uma capela a São Luís em Beja porque este santo lhe ressuscitou um falcão); as flores de Liz são uma afirmação da sua ascendência real francesa.

 

Retirado o manto, ficou à vista o esqueleto do Rei, que estava completo e coberto pela pele ressequida. Tinha vestido um colete de lã branca muito macia, sobre a túnica. A cabeça repousava numa almofada e estava inclinada como quem dorme sobre o lado esquerdo, posição que o corpo acompanhava ligeiramente. O braço direito dobrado sobre o peito e o esquerdo descaído ao longo do corpo. Apenas os ossos dos pés estavam separados uns dos outros. Nos maxilares, a pele estava um pouco separada e apresentava uma longa barba ruiva. Na cabeça, a pele não se apresentava solta do crânio e tinha tufos de cabelos ruivos.

 

O Rei tinha 64 anos quando faleceu, o que para a época era uma idade avançada.

 

Apesar da idade, conservava todos os dentes.

 

Perante os restos mortais do Rei, os pintores dos seus retratos não se podiam ter enganado mais. Foi uma surpresa a verificação que era ruivo, o que se deve ao facto de ter antecedentes germânicos.

Afirma-se que soldados franceses terão tentado profanar o túmulo pensando que o Rei teria sido sepultado com esporas de ouro. De facto, alguém partiu o túmulo no sítio dos pés e terá introduzido um objecto que puxasse as esporas.

 

Não garanto que tivesse sido assim, mas o facto de os ossos dos pés estarem espalhados, pode ter essa explicação.

 

Não há sinais de o túmulo ter sido aberto antes de 1938 nem notícia de ter sido aberto depois.

 

Posteriormente, por decisão dos técnicos das obras, foi levado para o segundo absidíolo esquerdo, decisão que não foi aprovada pelo Presidente do Conselho que ordenou a sua remoção para dentro da Igreja por saber que essa era a vontade do Monarca. Foi então colocado onde hoje se encontra – na capela do lado do Evangelho.

 

"Estes são conhecimentos porque uma pessoa com saber e responsável soube transmitir-nos o que viu. Era então Director do Instituto de Odivelas um grande Militar e Pedagogo, Coronel Ferreira Simas. Assistiu à abertura e ordenou a uma professora de desenho que reproduzisse os bordados do manto.

 

Mais tarde, teve conhecimento de um artigo que fazia uma descrição cheia de atropelos. Então ele fez um relatório dos factos, com a descrição do que viu. Merece todo o crédito a sua descrição e foi aí que obtive as informações que aqui vos deixo com enorme satisfação."

 

Maria Máxima Vaz.jpg

 Maria Máxima Vaz

 

[1] - arte de caçar com falcões ou outras aves; altanaria

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:02
link do post | comentar | favorito
|

7 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Janeiro de 2017 às 09:09
Miguel Távora partilhou (pelo que se deduz que gostou).


De apmachado a 8 de Janeiro de 2017 às 16:22
Muito interessante. Filho de Beatriz de Castela (uma Gusmão de origens visigóticas e moçárabes) e neto de Dulce de Aragão, não faltariam a D. Dinis genes que o fadassem com cabelo ruivo. Mas fica o enigma: porque razão o corpo e, sobretudo, as suas vestes e adornos estavam em tão bom estado de conservação, decorridos mais de 600 anos?


De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Janeiro de 2017 às 19:55
Antigamente, a incorrupção do corpo era motivo suficiente (ou quase) para canonização.


De apmachado a 8 de Janeiro de 2017 às 20:08
Eu diria até que era uma evidência de santidade. Mas D. Dinis não passou à História como santo, nem entre os seus contemporâneos, nem para os que lhe sucederam (aliás, ficaram famosas, sim, as lutas que travou com seu filho e sucessor, Afonso). Para mais, segundo a crónica, o túmulo só foi aberto já no séc. XX, pelo que , antes, ninguém poderia ter atestado a santidade de D. Dinis. A m/ pergunta é puramente, digamos, científica: (i) especiais características genéticas? (ii) especiais condições ambientais (temperatura e humidade)? (iii) preparação do corpo?


De Henrique Salles da Fonseca a 9 de Janeiro de 2017 às 09:17
Ronalldo Juniorr gosta disto


De Henrique Salles da Fonseca a 9 de Janeiro de 2017 às 18:56
Jose Costa-Deitado gosta disto


De francisco g. de amorim a 9 de Janeiro de 2017 às 19:18
O maior de todos os reis de Portugal tinha que ser diferente. Talvez até santo!


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


artigos recentes

ADEUS

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

DONALD TRUMP – 3

DONALD TRUMP - 2

DONALD TRUMP - 1

ENCONTROS DE ESCRITORES

arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds