Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016
DE COMO NASCI E FUI CRESCENDO... – 2 –

 

No primeiro texto deixámos o Padre António Vieira e o Mestre Agostinho da Silva no seu eterno presente, mas nós vamos voltar um pouco ao que ainda lembramos: o passado.

 

O coitado daquele menino, com uns seis anos, continuava e ainda continuou por bons (?) anos, a sofrer, no tempo quente, daquelas mazelas nas pernas e braços. E o tratamento era com o tal pincel. Um dia, criança em cima de uma mesa e uma empregada (a Conceição, de má memória) pincelava as feridas. O pequeno chorava porque aquilo ardia. A megera, para o calar, de repente enfia-lhe o pincel na boca! A mãe estava em casa, estranhou qualquer anomalia no “tratamento”, entra na sala, vê a enormidade da besta, enfia-lhe dois bofetões no focinho e mandou-a porta fora! A minha mãe não era de levar desaforo, nem se amedrontava com ameaças. Que saudades de uma mãe!

 

Ali perto de onde morámos (sob influência do Pe. António Vieira!), na Rua Artilharia Um havia um colégio das Doroteias, para onde foi a irmã mais velha. Ao lado do antigo quartel do Regimento de Artilharia que deu nome à rua.

 

Com o irmão mais velho, o Luis, acompanhávamos a irmã Helena até ao colégio e daí seguíamos para o primeiro (conhecido) local onde funcionava o Colégio de Clenardo, na Rua Castilho, esquina para a Braancamp, onde há anos derrubaram a pequena casa e construíram um centro comercial.

 

E aqui começa um pouco a história-geográfica deste colégio.

 

Não tardou aí o colégio e mudou-se para o Lumiar, ao lado dos estúdios da Tobis Portuguesa, num belo palacete dos Marqueses de... (já não lembro de “quê”!).

 

Em frente ao Colégio das Doroteias aguardava uma “caminete” que nos levava para o Lumiar e, por impossível que pareça, ainda lembro que eu saía de casa com uma “carcaça” com marmelada, que me preparavam para o caso de eu ter fome, talvez a meio da manhã. Só sei que assim que entrava na dita “caminete” ia sentar-me no banco traseiro e a primeira coisa que fazia era comer a carcaça!

 

Não sei já quem era o professor do ensino primário, mas não esqueço também que, regressando de férias (quais e quando?) cheguei ao colégio com um dia e talvez uma hora de atraso. Só tinha lugar para me sentar numa das últimas carteiras e, com os coleguinhas todos de costas, não conseguia ver quais eram os meus conhecidos ou amigos. Quando descobri um deles devo ter feito qualquer manifestação de agrado e o tal professor, uma besta, veio lá da frente deu-me uma bofetada com tamanha força que eu caí da cadeira. Eu teria uns 7 ou 8 anos. O “valente” professor mostrava a sua força a criancinhas. Por isso jamais esqueci tamanha covardia.

 

Também pelo Lumiar o colégio não ficou muito tempo. Mudou-se definitivamente para a Rua do Salitre onde fiz a 4ª classe, em 1941/42. Aí tive muitos amigos que ficaram pela vida fora, a maioria deles já descansa.

 

Estávamos em meio à II Grande Guerra. A empresa onde o meu avô trabalhava, e sócio desde 1922, Estabelecimentos Herold, Ldª., era de origem alemã e quase todos os negócios internacionais eram feitos com a Alemanha. Daí, eu ser germanófilo! Como é evidente ninguém sabia nada de Hitler, judeus e outras barbaridades, mas a maioria dos colegas era anglófila. Um dia, numa acirrada discussão “política” os pró-britânicos decidiram derrotar o pró-germânia, e este, que escreve, levou uma bela surra. Mas de muitos, até desses, guardei amizade por longos anos!

 

Só um intervalo para dizer quem foi Clenardo: nasceu em 1495 no Ducado de Brabante, entre o que é hoje a Bélgica e Holanda, e morreu em Granada em 1542. Foi um autodidacta de grande formação intelectual, tentou a conversão dos muçulmanos através do diálogo sobre a sua cultura. Manteve um princípio próprio do que se pode chamar pedagogia moderna. Escreveu manuais de gramática grega e hebraica para simplificar o aprendizado dessas línguas. Um professor educador.

 

Voltemos ao colégio. Em 1939 a família, éramos cinco irmãos, mudou-se para a Estrela, Rua Almeida Brandão, um segundo andar com uma bela vista para o Tejo. Foi dali que assistimos, em 15 de Fevereiro de 1941, ao famigerado e de má memória ciclone que arrasou casas, milhares de árvores, deixou mais de cem mortos pelo país e até destruiu a bela Nau Portugal que tão bonita era!

 

FGA-nau Portugal depois do ciclone.png

A nau «Portugal» depois do ciclone

 

Entretanto, com a mudança para a Estrela, o irmão mais velho entra para o Liceu Pedro Nunes e eu, com duas irmãs, para o Colégio das Oblatas, na Rua dos Navegantes, onde fiz a terceira classe. Sexos separados, como era óbvio. Em dias de festa, que não lembro quais seriam, os meninos saíam todos muito arrumadinhos em formação para irem assistir à Missa e outras cerimónias no colégio das meninas, que era a uma ou duas centenas de metros. É fácil imaginar que nessa andança, “a malta” da rua vinha chamar-nos nomes simpáticos, tais como mariquinhas e outras amabilidades! E nós, com uma vontade danada de sair da formação e começar ali uma guerra! Era directora desse colégio uma famigerada Dona Georgina que ninguém gramava. Feia como só ela.

 

Em nossa casa, a mãe a passar por outra gravidez, que não vingou, mas a obrigava a repouso, contratou uma “mamósele”. Lembro de várias mas uma, coitada, sofreu um bocado comigo. Também o que ela fazia era sentar-se numa cadeira e olhar para nós como se a sua presença bastasse para nos manter ocupados ou distraídos. E lia o jornal. Uma das graças que lhe fazia era, “sem querer”, chutar uma bola directa ao jornal, que acabava na cara da dita senhora. Isto, vezes sem conto. Um dia ela pôs-me de castigo, à janela, com duas orelhas de burro na cabeça. Em vez de me achincalhar foi um pedaço bem divertido que vivi, porque quem passava na rua achava graça, pensavam que era brincadeira minha e ainda falavam comigo. Não durou muito esta senhora, lá em casa. Rapidinho se demitiu. A seguir veio outra, durona, a mamósele das pernas tortas, coitada da senhora, mas que se impunha e a nossa mãe pôde descansar um pouco mais. Talvez se chamasse Ludovina da Conceição... não sei o resto!

 

Os Verões, desde que me lembre, mesmo quando morávamos no Porto, eram passados na quinta dos avós, a Quinta das Rosas, em Sintra. Casa grande, lá cabíamos todos e mais os tios, casados e solteiros.

 

Foi aí que comecei a jogar o ténis, no court que havia lá na quinta. Um tanto curto nas cabeceiras mas servia perfeitamente.

 

Lembro que teria uns 10 anos, a minha querida prima Tereza Sabrosa deu-me a sua raquete de ténis! Raquete pequena e como ela tinha mais cinco anos do que eu, já não lhe servia. Joguei muitos anos com ela, perdia a maioria das partidas com os meus amigos, dos quais destaco, na adolescência, o Fernando Monteiro, e já em África sobretudo o Fernão Dornellas que me dava cada surra... Só deixei de jogar por causa de um dos joelhos que tinha sofrido rotura dos ligamentos, quando em 1953 um tractor me passou por cima das pernas (!). Fácil lembrar: talvez 1970. Um torneio inter-bancários em Luanda. Fomos à final, mas o meu joelho estava tão avariado que entrei em campo com a raquete numa mão e uma bengala na outra. Disse ao parceiro: vais ter que correr muito! Ao fim de dois ou três jogos, pedi desculpa e tivemos que desistir. Creio que o Fernão nunca me perdoou... bem! Nunca mais joguei!

 

Mas entretanto tinham nascido mais dois irmãos: a Luiza em 40 e o João em 42.

 

Voltando a 1942, Outubro, entrada para o Liceu Pedro Nunes.

 

Já contei que apanhei uns “caldos” à entrada, tarefa em que os garotinhos do 2º ano se exibiam como veteranos, mas não gostei muito daquela recepção e devolvi logo umas quantas chapadas aos “machos”!

 

Isso valeu-me a simpatia dos alunos já do 5º ano, com quem passei boa parte dos intervalos das aulas a saltar ao eixo! Não era bem saltar. Eu tentava voar para alcançar as “longas” distâncias até àqueles que se “amochavam”, e por diversas vezes fui apanhado no ar para não me estatelar no chão!

 

Fui estudando (não muito, mas... o suficiente) e em Abril de 43 mudámos para uma casa magnífica que o nosso pai tinha encontrado, meio abandonada, na rua das Trinas, onde fez imensas obras que lhe custaram muito dinheiro, que teve que pedir emprestado.

 

Trabalhava muito: chefe da Repartição de Arborização e Jardinagem da Câmara de Lisboa, administrava o departamento agrícola da Casa Herold e ainda projectava e executava jardins particulares; com isso tinha algum desafogo financeiro.

 

Não demorou muito a nossa felicidade nessa casa.

 

Em Novembro desse fatídico ano de 1943, o céu caiu-nos em cima de forma demasiado violenta.

 

A nossa vida nunca mais foi a mesma.

 

Começou a diáspora dos irmãos!

 

Mas disto não vou falar.

 

8/dez/2016

Francisco Gomes de Amorim, 1954

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:36
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Dezembro de 2016 às 22:41
Tarciso Couceiro e Mário Soares Dias gostam disto


De Henrique Salles da Fonseca a 13 de Dezembro de 2016 às 08:27
Ronalldo Juniorr gostou e partilhou


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