Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016
A RÚSSIA E A EUROPA

 

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Rouco, barbado e comunista, eis pelo que eu tinha José Milhazes. E ao ler a badana do seu livrinho1 editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em Janeiro de 2016, mais me convencia de que ele é um russófilo ferrenho.

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Do livrinho nada se conclui sobre a rouquidão mas das barbas faz prova a foto que se apresenta na dita badana. Se é comunista, também não se pode concluir mas do que não restam dúvidas é que é certamente russófono porque cursou numa Universidade em Moscovo; quanto a ser russófilo, isso é que fica claramente demonstrado pela negativa. E esta negativa é que para mim foi total novidade.

 

Para além de português, José Milhazes é ucranófilo2. E como a maior parte de nós só o conhece das televisões, transcrevo a tal badana para a qual o próprio deve ter fornecido a informação para ser apresentado aos leitores:

 

  • José Manuel Milhazes Pinto nasceu na Póvoa de Varzim em 1958. Licenciado em História da Rússia pela Universidade Estatal de Moscovo (Lomonossov) em 1984 e doutorado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2008. Entre 1989 e 2015 trabalhou como correspondente de vários órgãos de informação nacionais e internacionais, na Rússia e na Comunidade dos Estados Independentes. Autor de numerosos artigos e livros sobre as relações entre Portugal e a Rússia, sobre a política da URSS nas ex-colónias portuguesas de África e sobre as relações entre o Partido Comunista Português e o Partido Comunista da União Soviética. Leccionou em várias Universidades russas e portuguesas. Actualmente é comentador de assuntos internacionais da SIC e RDP. Cavaleiro da Ordem de Santa Maria (Estónia) e Comendador da Ordem do Mérito (Portugal).

 

E já que estou numa de cópia à moda da instrução primária, eis o que se escreve na contra-capa:

 

  • A História mostrou que, não obstante todas as vicissitudes e dificuldades, a Rússia é um país com fortes raízes europeias. Os grandes momentos da sua existência estão ligados ao Velho Continente. Resta apenas continuar à procura do melhor modus vivendi entre todos os povos europeus, onde as suas tradições, costumes e direitos sejam respeitados.

 

Sim, pegando neste final, também creio que as «matrioscas» não se devem sobrepôr ao «galo de Barcelos» nem vice-versa.

 

Então, o livrinho pode dividir-se em algumas partes sendo que a primeira se refere à História. Necessariamente, muito resumida para caber nalgumas das 90 páginas de texto de toda a obra. Mas, sendo resumida, não enfada e fiquei convencido de que dela constam os episódios mais importantes da formação da Rússia como a conhecemos até ao início da URSS.

 

Curiosas as relações entre todos os Impérios, Reinos e Principados da Europa lestiana e do Próximo Oriente; muito importantes, as «danças e contra-danças» que levaram à autonomização da Igreja Ortodoxa de Moscovo relativamente a Constantinopla.

 

Um pequeno trecho (pág. 22) que chamou a minha atenção: “a mistura de eslavos, fino-úgricos, alanos e turcos fundiu-se na nacionalidade grã-russa” - os marotos alanos que, algo diluidos, também correm nas nossas veias.

 

Na mesma página refere o Autor que “sob a pressão do domínio mongol, esses principados e tribos fundiram-se num só, o Reino da Moscóvia e, depois, Império Russo”.

 

Respigando daqui e dali, eis algumas pinceladas do que por aquelas bandas se foi passando…

 

Ivan IV, o Terrível, virou-se para o Oriente e anexou o Caganato de Kazan em 1552 (e eu esbocei um sorriso, claro!), obrigou o cã da Sibéria a prestar-lhe vassalagem em 1555 e obteve a rendição de Astracã no ano seguinte. (pág.26)

 

perante a ameaça da Turquia, russos e polacos assinaram o armistício de Andrussovo de 1667 que previa a passagem para a Rússia de toda a parte oriental da Ucrânia e da cidade de Kiev. (pág. 28)

 

Assim ficou a Rússia com acesso ao Mar Negro et pour cause, ao Mediterrâneo, ao Atlântico médio e, na actualidade, depois da abertura do Canal de Suez, ao Mar Vermelho, Índico, etc.

 

Foi o czar Pedro I que entre 1700 e 1721, com a chamada «Guerra do Norte», conseguiu conquistar uma saída para o Báltico.

 

E aí estamos nós a reconhecer os contornos que a Rússia hoje tem, depois de ter tomado pela força a Península da Crimeia que Krushchev “dera” à Ucrânia.

 

Numa segunda parte, o Autor traz-nos até à actualidade onde nós, Ocidente, estamos muito zangados com a política de Putin e em que nos batemos pela integridade territorial da Ucrânia como a conhecemos aquando do desmoronamento da URSS. É neste particular que José Milhazes diz de Putin o que Maomé não sonhou dizer do chouriço de porco e assim se percebe como é ucranófilo: tudo a favor da Ucrânia; tudo contra Putin.

 

E se Ronald Reagan rebentou com a URSS ao ameaçar com a «Guerra das Estrelas», Barack Obama, não arriscando bluffs, provocou uma baixa mundial dos preços do crude e do gás que levou à falência da Rússia putinesca e à impossibilidade de continuação das demonstrações militares de força com arrogantes penetrações de aviões em espaços aéreos da NATO, etc.

 

Putin decidiu então voltar-se para a China e relançar pactos de amizade eterna… Mas o crescente PIB chinês é cinco vezes superior ao minguante PIB russo e a estrutura do comércio bilateral tem nas actuais cotações do crude e do gás o motivo da falência do modelo de desenvolvimento destas relações «de amizade».

 

Antevendo a falência das políticas de Putin, José Milhazes admite que venha a haver, não dentro de muito tempo, uma mudança na liderança russa não sem temer que o novo czar possa ser ainda mais radical do que o actual.

 

* * *

 

Uma nota final de cunho exclusivamente pessoal: se eu fosse Czar da Rússia, também não abria a mão para deixar fugir a Crimeia.

 

 

Junto a Balsa, Agosto de 2016

HSF-AGO16-Tavira

Henrique Salles da Fonseca

 

1 - «livrinho» porque custa apenas 5,00 Euros

2 - Acabo de inventar esta palavra. Será que já existia e eu apenas tive um rasgo de esperteza?



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:02
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016
ACORDOS CETA E TTIP DISCUTIDOS POR PARLAMENTOS

 

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Bruxelas parece ter cedido à pressão dos cidadãos e do SPD alemão que não estão de acordo que a Comissão da UE aprove as negociações de livre comércio CETA (e TTIP) sem serem discutidas nos Parlamentos nacionais.

 

As negociações dos acordos de comércio livre, entre o Canadá e a UE (Ceta) e entre os EUA e a UE (TTIP) serão finalmente discutidos no Parlamento alemão acabando-se assim com o secretismo de negociações entre Bruxelas (Comissão Europeia) e o Canadá e os USA.

 

A crítica dirige-se contra tais acordos que, no dizer de especialistas, prejudicariam os interesses de consumidores, empregados e das empresas médias e pequenas, além de tirarem competência jurídica aos Estados envolvidos pois tanto o Ceta como o TTIP prevêem, para questões conflituosas internacionais, um regime de arbitragem permanente, sem legitimação democrática.

 

O Princípio alemão da precaução (antes prevenir que remedir) seria anulado em favor do princípio de remediações posteriores.

 

Devido à pressão da rua, nos países onde o cidadão tem algo a dizer, os Acordos terão de ser discutidos no respectivo Parlamento.

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:32
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Domingo, 24 de Julho de 2016
A EUROPA DIVIDIDA…

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 ... MANTÉM A AMEAÇA DE SANÇÕES ATÉ

OUTUBRO

 

A COMISSÃO EUROPEIA PREOCUPADA COM

PORTUGAL E ESPANHA POR ULTRAPASSAREM O

DÉFICE DE 3%


 

 

Como previa a imprensa internacional, a Comissão europeia adiou, talvez para Outubro, a possível decisão sobre a aplicação de sanções a Portugal e Espanha por terem transgredido as regras europeias ao ultrapassarem a marca de défice dos 3% do produto nacional e que atingiu os 4,4% em Portugal e os 5,1% em Espanha. Este período de observação do comportamento dos Governos nas suas medidas relevantes para o desenvolvimento da economia revela-se mais oportuno para todos.
 

O que mais tem afligido a Comissão Europeia foi o facto de o Governo de António Costa mudar de estratégia e tomar medidas mais consumidoras e menos produtivas: a redução do horário dos funcionários do Estado para 35 horas, além dos problemas bancários portugueses e da ideia do BE de se fazer um referendo em Portugal.

 

Comissários da UE, entre eles, Oettinger e Valdis Dombrovskis queriam já sanções contra Portugal e Espanha.
 

O conservador Jean-Claude Juncker, preocupado com a integração dos membros da UE e outros que são pelo enfraquecimento do Euro, não estava de acordo com uma aplicação automática de sanções por parte da Comissão contra Espanha e Portugal. Em Portugal joga-se na opinião pública um jogo do rato e do gato entre facções políticas, um jogo do empurra de responsabilidades, à margem de uma discussão tendente a resolver problemas.

Até hoje nunca um país membro foi punido com multas. Para se chegar a tal teriam de todos os comissários da UE aprovar tal medida. A UE está demasiadamente dividida para poder chegar a tal.
 

Importante seria fazer um levantamento do que a Comissão europeia faz de mal e o que os Estados fazem de mal em questões de regulamento dos Orçamentos de Estado; depois, fazer-se uma avaliação dos interesses da UE contra os interesses nacionais e vice-versa e partir-se daí para a discussão pública; doutro modo, cada posição fica prisioneira de interesses nacionalistas ou de interesses europeístas; o resto reduz-se a conversa fiada de Partidos e pessoas beneficiadas por um ou por outro grupo e por isso todas elas interessadas em possuir a razão ou em desviar a bola para canto e ir-se prolongando o jogo na esperança da solução estar na sorte dos penalties.

 

DA CULPA PURIFICADA PELA INOCÊNCIA POLÍTICA
 

Na crítica pública e partidária, sobre os interesses do país, parece só ser conhecida a lógica exclusivista de que a culpa está no outro! A esquerda culpa a direita, a direita culpa a esquerda pelos males do país que conjuntamente criaram.
 

Seria incorrecto ou mesmo injusto falar-se aqui de culpados, (de autocratas, de carneiros e de ovelhas, de mediocridade e de excelência) num país onde a orientação é a manjedoura e a roupa domingueira em moda é a camisola do clube/partido!
 

A culpa não é da esquerda nem da direita, não é de governos nem de governados e menos ainda de corruptos e de danados. A culpa será de Portugal que tudo gerou e justifica. Num Estado virginal, coberto de violadores, só a culpa não tem dono, a culpa acabou por “morrer solteira„ só deixando filhos de ninguém. Tudo vive bem encurralado. É caso para estarmos atentos ao problema do encurralamento do espírito crítico num ou noutro curral onde o próprio cheiro se torna afrodisíaco.
 

EUROPA A MAIS OU EUROPA A MENOS?

 

De momento, a bússola europeia deixou de apontar para Bruxelas para passar a oscilar entre os países membros e a UE.

 

Uns falam da desmontagem da democracia em favor de lóbis presentes em Bruxelas outros falam do não funcionamento da democracia se os países com reduzida população e deficitária produção económica tiverem direito a voz no concerto da União Europeia. Tudo berra e tudo se afirma na esperança de o factor grande não ser decisivo na luta!

 

O problema da UE é controverso e por vezes contraditório! Dá motivos tanto a progressistas como a conservadores para se arreliarem: os progressistas estão descontentes com a política económica de direita da UE e os conservadores estão descontentes com a política cultural da esquerda da UE que ataca muitos dos valores culturais nacionais e europeus.
 

Na Europa reina o caos; por isso se discutem os mais diversos cenários para resolver os seus problemas. Há países membros que “se comprometeriam com resoluções comuns e que formariam um núcleo europeu que então funcionaria como núcleo magnético e não como “clube exclusivo”, advoga Gunther Krichbaum, outros querem a realização da união EUE (Estados Unidos da Europa), outros ainda querem voltar às soberanias nacionais.
 

Por enquanto, as nações grandes querem mais competências e mais poder para as instituições da UE como defendem S. Gabriel (SPD) e M. Schulz (SPD). Facto é que, mesmo em caso de grande movimento, os países fortes arranjam sempre um parque de estacionamento para as suas máquinas.
 

A Europa é mais que o seu núcleo Zona Euro ou a UE. O que se precisa é de uma Europa de instituições para as pessoas.
 

A crença na Europa tem garantido a paz e a liberdade. A erosão política, a desmontagem da autonomia nacional e da cultura aliados a um liberalismo económico desmedido da UE desestabilizam uma Europa que se sentia já como um oásis sem conflitos de maior no mundo. Os britânicos queixavam-se de que 68% das leis nacionais vinham de Bruxelas e que não queriam receber tudo mastigado pela burocracia de Bruxelas. Também a ideia da fundação dos EUE (como defende a comissária europeia Viviane Reding) atemoriza especialmente uma nação com uma tradição histórica de grande continuidade.

 

Nota-se uma luta entre os países pagadores líquidos da UE e os outros. Agora, sem a Grã-Bretanha, os outros países constituem a maioria e aqueles não querem ver-se reduzidos a minoria em questões que exigem votos. Os Estados fortes, como a Alemanha, têm medo de virem a ter de pagar ainda mais para os bancos doentes. A situação torna-se tão complicada que muitos já desejariam ver a UE reduzida à velha Comunidade Económica Europeia.
 

Efeito do Brexit – O Acordo Comercial Ceta passará pelos parlamentos nacionais
 

A Comissão Europeia tinha declarado através do seu chefe Jean-Claude Juncker que o acordo comercial (acordo de comércio livre) Ceta não era da competência dos Estados-Membros mas sim da UE e como tal não era objecto do acordo dos parlamentos dos Estados membros. Perante a nova situação da UE o SPD alemão e outros políticos nacionais e internacionais declararam-se contra o anunciado por Juncker e a Comissão Europeia reagiu contradizendo o chefe afirmando agora que os parlamentos nacionais podem votar sobre o acordo. Ficou-se com um pouco mais de democracia, quanto ao resto será difícil de entender. Com esta medida, enfraqueceu o poder do Parlamento Europeu e do Conselho Europeu. Isto vem ferir os interesses das grandes potências europeias.

 

Bulgária e Roménia só querem assinar o contrato Ceta com o Canadá na condição do Canadá cancelar os vistos para romenos e búlgaros.

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:04
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Segunda-feira, 18 de Julho de 2016
BREXIT

 

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O PROCESSO DE DIVÓRCIO DA GRÃ-BRETANHA COM

 

A UNIÃO EUROPEIA DURARÁ PELO MENOS 2 ANOS

 

Cameron semeou Democracia e agora o Mundo

 

colhe os seus Frutos!

 

 

Castigue-se o desertor”, gritam os europeístas! “Parabéns ao desertor” gritam os nacionalistas!

 

A União Europeia e a Grã-Bretanha recebem agora a factura da arrogância da sua classe política. Cameron semeou democracia e agora ela ondula pela Europa à maneira das searas em dias de ventania. Os adeptos do politicamente correcto procuram, com a sua música acompanhante, desviar a bola para canto difamando a voz do povo como sendo desafinação de populistas.

 

Bruxelas avisou Londres para apresentar já a declaração de saída e assim não “tomar todo o continente como refém”, e assim não prejudicar ainda mais a UE e não contagiar outros membros que já flirtam com a ideia da saída. A negociação do acordo encontra-se sujeita a vários entraves pelo facto do Brexit ter de ser ratificado pelas Câmaras britânicas. O requerimento de aplicação do artigo 50 da UE que dará início ao processo de saída, se não acontecer algum improviso até lá, será certamente iniciado em Novembro-Dezembro, a não ser que os interesses dos conservadores europeus sejam vencidos pelos interesses da esquerda.

 

Cameron, para defender os interesses do Partido Conservador e os interesses económicos da Grã-Bretanha pretende só abandonar o Governo em Outubro. Pretende assim que o processo de divórcio só seja solicitado depois de haver novo Chefe de Governo. O processo de divórcio durará 2 anos como prevê o artigo 50, a não ser que algum país não esteja de acordo e então o prazo seria prolongado, como opinam os especialistas. Ângela Merkel já deu sinal de compreender a intenção de Cameron em querer adiar o início do processo de divórcio; políticos de outros partidos alemães não acham oportuna a posição de Merkel. Os britânicos, encontrem-se em que posição se encontrarem, conseguirão sempre condições especiais para o seu país, tal como faziam já na UE e ao longo da história com Portugal. É um povo fino e pragmático!

 

O Busílis da questão

 

A França e outras forças reformistas não poderão deixar adiar muito o processo; doutro modo a resistência popular interna e contra a UE aumentará. É o que se diz pela Europa fora: o desertor tem de ser castigado para se estatuir um exemplo para outros países que seriam tentados a imitá-lo.

 

A Alemanha estará interessada na realização de um acordo de comércio livre entre a UE a GB antes do divórcio se realizar definitivamente. Com o Brexit, as economias de muitos países ressentir-se-ão e as consequências serão incalculáveis. As Finanças internacionais e os operadores mundiais começam a duvidar da Europa como lugar estável de investimento. A UE perde peso e a instabilidade, devido a um conglomerado de factores, acentuar-se-á. O movimento europeu de forças a operar em sentido contrário à filosofia da globalização reage agora no sentido do proteccionismo nacional contra um centralismo só orientado pelas leis de um mercado livre que não respeitava identidades nacionais, povo nem a sua cultura com os seus lugares sagrados  de refúgio.

 

A GB continuará a ser a Capital das finanças do mundo, tem bomba atómica, tem assento no Conselho de Segurança da ONU e tudo isto toca com muitos interesses comuns!

 

 

Estudos prevêem que o Pfund desvalorizará até 20%. A GB perde a vantagem competitiva que lhe advinha pelo facto de pertencer à UE. O centro financeiro Frankfurt ganha mais relevância.

 

Com a saída da Grã-Bretanha, a UE passará a investir mais no armamento para com o tempo criar um Exército Europeu. O Exército Alemão, na intenção de políticos, já pensa em abrir as suas portas a candidatos da UE.

 

O busílis da questão vem ainda do facto de 62% dos escoceses terem votado pela permanência da GB na UE. Deste modo, o referendo de 1914 sobre a independência da Escócia em que 55% tinham determinado a permanência na Grã-Bretanha, passa a ser maculatura, legitimando um novo referendo sobre a independência da Escócia, como pretende o seu Governo. Para alguns, isto poderia motivar as instituições britânicas a não ratificarem o referendo. Nesse caso, seria pior a emenda que o soneto. A Áustria já avisou que quer uma UE reformista e sem a Turquia. A França, a Chéquia, os Países Baixos, têm fortes movimentos cívicos que ameaçam com a saída da UE. Em Portugal também surgem vozes da esquerda radical nesse sentido mas isso não passa de conversa fiada, própria para entreter as emoções da sociedade portuguesa.

 

A UE, mesmo com a saída da Grã-Bretanha, continua a ser o bloco económico mais forte do mundo. Numa era de concorrência entre civilizações e grandes economias o vento delas não sopra em favor dos biótipos culturais nem das Nações. Geralmente, segue-se a regra de primeiramente encher o estômago e só depois a moral.

 

Há ainda um outro problema que a UE terá de levar a reboque por mais tempo! São os milhares de empregados britânicos nas instituições da UE. Bruxelas já disse: “Eles são funcionários da UE. Eles trabalham para a Europa”. Quem terá de pagar depois as suas deliciosas pensões terá de ser ainda negociado.

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:33
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016
PARA QUANDO UM MEXICANO NO PAQUISTÃO?

 

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Quem matou Benazir Bhutto e quem já depusera o Xá da Pérsia?

 

 

Julgo interessante meditar um pouco sobre o que se tem passado no Paquistão. Melhor: sobre o que se passa no mundo islâmico. Melhor ainda: sobre o que se passa no relacionamento dos sunitas wahabitas com os demais habitantes da Terra.

 

 

Foi por meados do nosso séc. XVIII que Ibn al Wahab disse a Ibn Saud, mais importante rei da região sul da Península Arábica, que se quisesse manter o poder temporal tinha que lhe reconhecer a ele, Wahab, o poder espiritual. Desde então e até aos dias de hoje, à família real saudita cumpre o proselitismo wahabita, ramo mais radical dos sunitas. Quando essa missão assenta numa montanha de petrodólares, facilmente se compreende a dinâmica de tal corrente religiosa. Sim, Ben Laden era saudita.

 

 

Como nota intercalar, refira-se que sunitas são os seguidores de Maomé e xiitas os de Ali, genro do Profeta. Os sunitas têm uma filosofia de conquista; os xiitas de sacrifício. Os sunitas fazem uma interpretação literal e estática do Corão; os xiitas interpretam o Corão numa perspectiva de significado não estritamente literal e desenvolvem essa interpretação ao longo dos tempos. Ou seja, os xiitas fazem a exegese dos seus textos sagrados; os sunitas condenam à morte quem faça a exegese do Corão.

 

 

Dá para imaginar a acção decorrente da interpretação literal do Versículo 5 da 9ª Surata do Corão que diz: (…) Quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os (…)

 

 

É claro que para crente militante sunita wahabita tanto o cristão como o ateu ou o muçulmano xiita são infiéis idólatras que devem ser espreitados, acossados, perseguidos, capturados e mortos.

 

 

E o Paquistão é hoje o grande coito dos sunitas mais radicais, os talibãs.

 

 

Assim se compreendem as confusões permanentes por que passou o Paquistão durante a governação de Ali Bhutto, assassinado e pai da assassinada Benazir. E o que pretendiam eles? Muito simplesmente instaurar um regime democrático à moda ocidental ou, de preferência, ao estilo do vizinho indiano ou do longínquo México em que o seu Partido governasse perenemente com breves interregnos que a História rapidamente esqueceria.

 

 

Perfilam-se, pois, três actores no cenário paquistanês: o radical talibã comandado pelo clero sunita; o seu arqui-inimigo que lhe responde com os mesmos métodos e cuja figura de proa era Pervez Musharraf entretanto afastado da cena pelas «inteligências politicamente correctas»; uma linha dita democrática que não assume o laicismo e muito menos o agnosticismo (ou não tem coragem para assumir depois de ver dois dos seus líderes carismáticos assassinados).

 

 

Eis o império do vazio construido ao gosto de alguém.

 

 

Todos sabemos que “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão” e nunca vimos ninguém no seu perfeito juízo meter-se entre a cabeça do toiro e o peito do forcado. Por isso, parece não ter ainda soado a hora mexicana no Paquistão. Até porque ali se está a lidar com o corporativismo feudal clerical e não será um “falinhas mansas” qualquer que resolverá o assunto.

 

 

A menos que apareça por lá alguma reencarnação de Pancho Villa que se esteja nas tintas e supere as tais «inteligências» que tudo deitaram a baixo. E o pior é que o mexilhão é todo o resto do mundo, nós.

 

 

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Henrique Salles da Fonseca

(na grande mesquita de Delhi, Janeiro de 2008)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:46
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2016
GUERRA-FRIA ENTRE A NATO E A RÚSSIA

 

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Manobra da NATO na Polónia, uma Provocação?

 

Mais de 30.000 soldados, 3.000 veículos, dezenas de aviões de guerra e barcos dos países da NATO encontram-se em manobras na Polónia numa demonstração de força perante a Rússia. Este espectáculo destina-se a atemorizar o governo de Putin interessado em manter para a Rússia as antigas zonas de influência da antiga União Soviética.

 

Nestas manobras militares, a NATO serve os interesses americanos mais interessados na provocação do que na solução dos problemas. Os interesses genuínos da Europa, que exigiriam mais diálogo e prontidão de compromisso entre a Europa e a Rússia são assim sacrificados aos USA e seus parceiros estratégicos.

 

O facto de terem sido convidados para as manobras da NATO observadores militares da Ucrânia e da Geórgia, torna a acção ainda mais provocante. Indirectamente, a NATO manifesta o seu interesse de admitir os dois países na zona de influência da NATO sem consideração pelos interesses da Rússia como herdeira da antiga União Soviética.

 

Os países ao longo da fronteira da Rússia tornam-se cada vez mais em zonas demarcadas de conflito de interesses rivais.

 

A NATO, devido à influência da Alemanha, viu-se obrigada a retroceder um pouco na sua retórica agressiva, passando a declarar as manobras como exercícios da NATO sob orientação da Polónia.

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:26
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2016
MENTES BRILHANTES

 

 

Foi na instrução primária que tive professoras de alto nível diplomático. Diziam que certos dos meus colegas eram inteligentes e que eu era trabalhador. Eis por que me habituei desde a infância aos eufemismos que os sábios usavam para me chamarem burro. Mas foi também logo nessas idades que não me deixei abater talvez já conformado com a realidade e com o princípio que mais tarde aprenderia que diz que contra factos não há argumentos.

 

E como a inteligência é relativa tanto no espaço como no tempo e muito resultante dos trabalhos que fortalecem ou enfraquecem a rede de sinapses com que cada um nasce, aí estive eu a trabalhar o suficiente para nunca ter perdido um ano desde as primeiras letras até à conclusão da licenciatura.

 

Ciente de que possuía alguma capito deminutia, eis-me a fazer uma coisa de cada vez para que todas as sinapses se dedicassem apenas a um tema, sem dispersão que pudesse levar a que o sistema gripasse. Desenvolvi, pois, a capacidade de concentração e ao longo da vida tenho encontrado mentes brilhantes que quando estão a fazer uma coisa já estão a pensar noutra nunca chegando a rematar à baliza e muito menos a meter golo. Fazer uma coisa de cada vez não obsta que se faça uma aproximação holística ao tema. O meu método é, pois, inspirado no provérbio italiano que diz que «chi va piano va sano e va lontano».

 

Ainda tentei fazer 10 coisas ao mesmo tempo aprendendo a tocar piano mas acabei com a experiência para salvaguardar a serenidade da vizinhança.

 

Já lá vão 71 anos, acho que tenho feito bem e tenciono assim continuar durante esta segunda série de 70.

 

Primavera árabe.jpg

 

Um dos temas que mereceu a minha atenção durante estes últimos anos foi a chamada «Primavera árabe» e foi com algum receio que fui ouvindo as opiniões dessas mentes brilhantes espalhadas por tudo quanto é televisão europeia e americana. Se os factos já me davam motivos para recear as consequências, as opiniões desses iluminados deixavam-me estarrecido.

 

Estava-se mesmo a ver que não era Primavera nenhuma e que o derrube dos ditadores iria descambar na tomada do Poder pelas forças mais conservadoras do Islão. E aí está a débâcle do Norte de África e do Médio Oriente a dar-me razão.

 

Tudo se resume a um ditame: derrube de Estados laicos para instauração de hierocracias fundamentalistas.

 

Entretanto, acho que é o Putin que está certo e os EUA que estão errados na Síria e por aí fora...

 

E que fazer perante a invasão muçulmana da Europa?

 

Mas as mentes brilhantes dizem que assim é que está certo e eu fico-me pela minha burrice. Haja saúde!

 

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Henrique Salles da Fonseca

(em Marrakesh, 2006)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 06:50
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Domingo, 26 de Junho de 2016
CETA – AVISO DE BERLIM A BRUXELAS

 

CETA_2014.png

 

O Governo alemão acaba de avisar Bruxelas que o acordo comercial CETA com o Canadá não poderá ser aplicado na Alemanha sem a aprovação do Parlamento alemão e do Conselho Federal.

 

Este é um aviso às instituições da UE e aos lóbis de Bruxelas de que a democracia também tem uma palavra a dizer num negócio que não deveria ser feito à margem dos parlamentos de países europeus em que os governantes respeitam o parlamento e o cidadão.

 

O Governo alemão vê-se obrigado a intervir porque o povo tem feito muita pressão.

 

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:09
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016
A CRISE CULTURAL...

 

... E A NOVA AGENDA DOS PARTIDOS DE ESQUERDA NA EUROPA

Uma Europa tão aberta que não sabe onde é dentro nem onde é fora

Ponto de partida

Gramsci.png

 

Vivemos numa Europa que não sabe o que a Europa quer! A sociedade europeia parece ter chegado aos seus limites. De facto, a sua abertura é tanta que já não se sabe onde é dentro e onde é fora.

 

Toda a sociedade que não se preocupa com a sua definição, com a sua identidade, perde a razão do seu existir. Uma sociedade não se pode definir apenas pelas suas demarcações territoriais, ela precisa também de um tecto cultural espiritual, no caso, precisa de se reencontrar no cristianismo.

 

A moral baseada nos dez mandamentos foi substituída pelo moralismo do pensamento politicamente correcto, da falsa tolerância, do “não deves…” e de um insidioso desenraizamento que se agarra à rotina de uma desgraçada filosofia niilista que reduz o ideário do cidadão à mera satisfação das suas necessidades primárias.

 

A consequência natural da ausência de um tecto metafísico torna-se visível nas crises de identidade individual, de identidade nacional e de identidade civilizacional. Isto leva socialmente à formação de uma economia dominada por um capitalismo predatório e de uma cultura submetida a um socialismo predatório. No vácuo cultural formam-se bolhas islâmicas e mundivisões mecanicistas que conduzem à arrogância, à insatisfação e à frustração de pessoas humanistas adultas, mais conscientes e sensíveis.

 

A insatisfação social e a situação partidária

 

Grande parte do povo europeu tem a sensação de que não é senhor na própria casa e tem a impressão de ter uma classe dominante composta de lobos vestidos de cordeiros. Assim, o povo, cada vez mais se afasta da classe política estabelecida e reinante. Em todas as nações alastra o descontentamento social e a desilusão observando-se, na sequência disso um amplo movimento social para o centro-direita e um radicalismo nos extremos.

 

Os ventos neoliberais que assediam a social-democracia europeia desestabilizam o centro social-democrático de esquerda e de direita, o que leva os partidos andarem agora à procura de noivas nos partidos radicais.

 

Os grandes partidos do consenso perdem as penas, correndo perigo de se tornarem ultrapassados; por outro lado os partidos das bordas têm-se encontrado demasiado centrados em si mesmos, e, como rastejo acompanhante, assiste-se a protuberâncias sociais no activismo político da extrema-esquerda e da extrema-direita. (A sociedade portuguesa é pacífica e moderada; politicamente é de inclinação republicana esquerda não possuindo extrema-direita).

 

Reacção apressada à situação

 

Atendendo à insatisfação generalizada do povo europeu os partidos que antes giravam em torno do centro esquerda reagem querendo perfilar-se com posições ainda mais radicais à esquerda como forma de responderem à acentuação do crescente nacionalismo provocado pelo vácuo cultural criado principalmente por ideologias prepotentes que fizeram das leis as rédeas do povo; essa elite reage agora assustada quando este parece querer beneficiar os partidos do centro direita e favorecer as bordas da sociedade, o que implica maior fragmentação política e social.

 

Tanto a esquerda radical (comunista) como a esquerda socialista, em vez de agirem reagem, chegando apressadamente à conclusão de que o povo precisa de assédio e de mais estímulo emocional. Para isso as famílias partidárias da esquerda europeia pretendem seguir uma agenda ainda mais virada para um “populismo de esquerda, empático e iluminado". A agenda de radicalização foi anunciada na Alemanha pelo partido Die Linke (A Esquerda), seguindo-se-lhe o moderado SPD alemão (desgastado pela governação) e por último o Congresso do PS em Portugal. O PS já se encontra demasiado à esquerda (se tivermos em conta o SPD). A experiência do governo de Aléxis Tsípras na Grécia e de António Costa em Portugal parecem encorajar a esquerda a tornar-se mais radical.

 

Armam-se em escudo protector de uma classe que também exploram e para melhor se perfilarem usam uma posição ambígua em relação aos governos e de alas dentro do próprio partido. Numa época em que as questões sociais não se resolvem só a nível nacional nem partidário, a esquerda parece abdicar da responsabilidade ao acentuar uma estratégia baseada no ressentimento e na inveja e na luta entre os de cima e os de baixo; por outro lado um capitalismo liberal desenfreado dá-lhes razão.

 

Perante o Zeitgeist (espírito da época) europeu, que de momento expressa a necessidade de corrigir um movimento político progressista a perder cada vez mais as referências da cultura europeia, a esquerda europeia, em vez de reflectir sobre erros e exageros na imposição da sua ideologia, quer reagir mais agressivamente nos debates da sociedade, para assim poder ganhar para si a razão da emoção.

 

Portugal derrapa à esquerda enquanto a Europa se corrige reorganizando-se um pouco mais à direita. O povo português teria muito a dizer à UE mas a sua elite, enquanto não se descobrir como povo, será levada a viver da ideologia importada, impingindo ao povo gato por lebre, quando no país há tanta lebre!

 

Como Portugal não tem nenhum partido de extrema-direita, a nova estratégia da esquerda significará para Portugal uma escorregadela ainda mais à esquerda; em relação aos países do centro nórdico europeu, a sociedade portuguesa continua a nível ideológico político um passo à esquerda da Europa.

 

Quem manda pode e quem pode manda; só manda vir quem não pode ou quem não está consciente de que também pode poder organizando-se!

 

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:50
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2016
BREXIT

FICA, INGLATERRA!

 

Escolho o dia anterior ao referendo britânico sobre o “Fico” ou “Saio” da União Europeia, para me pronunciar sobre o tema. Antes de saber os resultados, desde já declaro, com risco, que creio que vencerá o “Fico!”

 

E creio que será um melhor resultado para os europeus e para o mundo. Creio que também será melhor para os britânicos, mas respeitar as democracias nacionais significa respeitar o que elas decidirem.

 

Antes de mais, aquilo a que os manipuladores de opinião chamam Brexit – termo de si já traiçoeiro – oculta um consenso entre os ingleses pró e contra: não gostam que a democracia britânica receba ordens da burocracia de Bruxelas. É uma premissa maior partilhada pela esmagadora maioria dos ingleses.

 

Mas depois dividem-se, claro, na premissa menor. Os da “Saída” usam toda a casta de argumentos, desde as lamúrias neoliberais e conservadoras à maneira da senhora Thatcher – “Quero o meu dinheiro de volta!” – até ao nacionalismo tacanho do UKIP com medo dos estrangeiros e nostalgias do império, passando pelo racismo e xenofobia que levaram ao tenebroso assassinato da deputada Jo Cox, do “Fico”.

 

Os do “Fico” fazem contas de que abandonar a Europa sairá muito caro - menos 5% do PIB a prazo; falam da responsabilidade social e política da Inglaterra para com o projecto europeu, como Corbin; e, tal como Cameron, falam da instabilidade política. Uns poucos dizem ainda que a Grã-Bretanha fechou o ciclo do império e tem de acolher a Europa, o Erasmus e a mobilidade.

 

Se olharmos para o mapa das sondagens, sabemos que Escócia e Grande Londres votam maioritariamente pelo “Fico” e que Gales o Ulster também assim votam, em menor grau. E que as províncias inglesas votam maioritariamente pela “Saída” com manchas mais difíceis de racionalizar.

 

Os argumentos económicos e financeiros já foram explicados cem vezes. A City dos negócios financeiros gosta da UE. Os exportadores ingleses gostam da UE. Os ingleses das cidades menores e províncias têm medo de perder empregos e pagar impostos para os “ preguiçosos do sul” com quem passam férias sem trabalhar. Os escoceses e, em menor grau, galeses e irlandeses do norte gostam da UE porque assim não estão vinculados apenas à “little England”.

 

Contudo, o tutano dos argumentos de ambos os lados, nas entrelinhas, nos subentendidos, nos understatements de que o ingleses tanto gostam é outro: é a defesa apaixonada da democracia de que os ingleses justamente se ufanam desde a Magna Carta; é o sentido do humanismo individual que vem desde o anónimo de York no séc XI, até Tomás Moro no séc. XVI, e Winston Churchill na segunda Guerra Mundial. “Their finest hour” foi sempre contra os feudais, contra os fundamentalistas, contra Napoleão, contra os nazis. Será que Bruxelas é um papão deste tipo? Ou será que a Inglaterra tem um complexo de superioridade?

 

MCH-brexit.jpg

Fica, Inglaterra!

 

Bruxelas não é papão como os fundamentalistas e os nazis. Mas a enorme propaganda dos tablóides agitados pela sede de poder de Boris Johnson e Nigel Farage e os activistas do Brexit fazem passar essa imagem. Entretanto, os Britânicos com coragem e coração dizem o contrário e não abusam das palavras “independência” e “liberdade”.

 

A tradição das liberdades civis Inglesas tem muito de mito histórico, mas foi narrada tantas vezes que se tornou um acervo real. A Inglaterra fez a revolução há tanto tempo – cortaram a cabeça ao rei em 1640 – antes de 1789, antes de 1820, antes de 1917 – que parece ter tido uma transição gradual para a democracia. Claro que o parlamento do século 18 não era democrático. E o sufrágio só começou a mudar na década de 1880.

 

E assim chegamos à tradição da democracia. Na Inglaterra, a oposição pode levar o governo a renunciar. Na União Europeia, não é assim. O Parlamento Europeu é uma coligação de grandes partidos, o que até evita conflitos. A Comissão que não é eleita faz as vezes de um governo real. Assim, as críticas sobre a natureza anti-democrática da UE são justificadas. Agora só um ingénuo julgaria resolver os conflitos de interesses entre as nações por referendos e decisões de maioria: seria a morte dos pequenos países. Os problemas podem ser resolvidos por negociação e consenso.

 

Ficando a Inglaterra na UE a 23 de Junho, nada fica resolvido dos podres de Bruxelas. O euro é cada vez mais uma fonte de divisão europeia. O euro dos credores vale mais que o euro dos devedores e o BCE não só não resolve esta divisão como a agrava. O euro empurra para a união monetária e esta empurra para um estado confederal. Com o “Fico”, ou com a “saída”, este problema continua em cima da mesa.

 

Mas com o “Fico”, há uma grande diferença que todos os europeus saberão saber apreciar. Com o “Fico”, a Grã-Bretanha terá dado um enorme sinal de que quer continuar a contribuir para domesticar os ímpetos burocráticos de Bruxelas, em vez de deitar a toalha ao chão: e que pretende continuar a alimentar a seiva democrática.

 

A permanência da Grã-Bretanha será um sinal para todos os Europeus que Ingleses, Escoceses, Galeses e Irlandeses do Norte não querem ser substituídos pelos mecanismos de tomada de decisões em Bruxelas. Que poderemos contar com eles, para organizar a vida em comum do século XXI e acolher o mundo numa fase de grandes desafios.

 

Por isso, do alto lugar da minha insignificância, eu apelo: Fica, Inglaterra!

 

22 Junho, 2016

 Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:39
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