Sábado, 7 de Janeiro de 2017
DALMÁCIA – 3

 

Dalmácia, algures, DEZ16.jpg

 

Quanto mais velho, menos horas de sono, mais leituras e escritos nocturnos. Foi por isso que levei para Dubrovnik um livrinho que me apetecia reler, «O Regresso da Princesa Europa», de Rob Riemen[1].

Rob Riemen, O Regresso da Princesa Europa.gif

 Porquê e para quê?

 

Porque já tinha gostado dos livros dele que lera antes, «NOBREZA DE ESPÍRITO» e «O ETERNO REGRESSO DO FASCISMO», ambos traduzidos em português e publicados pela Bizâncio, editora que, também ela, merece o meu respeito; para verificar até que ponto os croatas, bósnios e montenegrinos são mais ou menos europeus que nós, os velhos europeus.

 

Recordando, a síntese do que escrevi e publiquei depois da leitura de cada um daqueles livros:

 

  • A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à Humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal[2];

 

  • Uma filosofia em que o objectivo mais elevado é o poder e que resulta claramente de um espírito de permanente competição. Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes, a tradição e, pelo contrário, adoptam outras normas e regem-se por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade.[3]

 

Neste, que levei até à Croácia para ocupar o vazio das insónias, depois de referir as questões essenciais dos dois livros anteriores, Rob Riemen centra-se na questão da verdade para nos dizer que, sem ela, não haverá mais Europa.

 

Então, o que é a verdade?

 

A verdade científica nunca é mais do que a realidade, os factos, o que podemos observar, tocar e calcular e, mesmo assim, pode variar ao longo dos tempos até ter levado Karl Popper a afirmar que ela não é mais do que um ponto no infinito. E também Wittgenstein disse algo como «quando todas as questões científicas possíveis e imagináveis tiverem sido respondidas, os problemas da vida – a tragédia, o sofrimento, a felicidade, o significado das nossas vidas – permanecerão completamente intocados» porque a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. E, neste sentido, a ciência priva-nos da verdade. Então, com todo o Ocidente dedicado ao materialismo, é a própria Europa que, também ela, se perde num amontoado de verdades transitórias e parciais.

 

Perdido o sentido da metafísica, nenhuma verdade pode existir, a mentira domina e triunfa o nihilismo da missão do homem na vida. E esta vacuidade leva forçosamente à filosofia do poder, ao «salve-se quem puder». E foi nesse desespero que Nietzsche pôs termo à vida.

 

O drama do Ocidente – e, nele, a Europa – está em evitar que a nossa velha Civilização continue na senda nietzschiana.

 

Foi nesta busca que fui à Dalmácia, tentar perceber ao que andam croatas, bósnios e montenegrinos depois da débâcle por que passaram com a desintegração da sociedade jugoslava.

 

Concluo que a Europa ganhará com a adesão plena destas três repúblicas mas duvido que elas ganhem muito ao aderirem ao nihilismo por cá reinante.

 

E a questão é: estará o Ocidente ainda a tempo de arrepiar caminho?

 

Quero acreditar que sim.

 

Finalmente, perguntarão os meus companheiros de viagem que lerem este escrito se foi isto que por lá andei a fazer. E a resposta é: sim, foi; até porque nem só de pedras se faz o turismo.

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

O Regresso da Princesa Europa, Rob Riemen – ed. Bizâncio, 1ª edição – Setembro de 2016

 

[1] - https://fr.wikipedia.org/wiki/Rob_Riemen

[2] - http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/educando-1733196

[3] - http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/428177.html

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:46
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017
DALMÁCIA – 2

 

 

Never ever forget 93 – pequeno graffiti numa caixa de electricidade na rua que segue para além da ponte de Mostar. Vi-o por acaso mas, no regresso, voltei a vê-lo do lado de cá da ponte.

 

Ponte de Mostar.jpg

 

E se, de Mostar, não guardo nenhuma imagem da guerra, lembro-me nitidamente do horror que nessa época foi Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina.

 

Guerra em Sarajevo.jpg

 

Então, apesar de não ter sido nada comigo, também eu jamais esquecerei 93. Sim, pelas mesmas razões que os bósnios recordam mas, no meu caso, de modo apenas metafísico.

 

Mostar 1993.jpg

 Mostar 1993

 

Não quero estabelecer paralelos sobre os locais em que a sanha de Milosevic se fez mais rude mas esse personagem foi, de facto, o maior responsável pela desintegração da Jugoslávia. Bem sei que não visitei a Sérvia e, portanto, tenho uma visão parcial da questão global mas nos três Estados que visitei (Croácia, Bósnia-Herzegovina e Montenegro), ouvi dizer bem e menos-bem de Tito mas em todos apenas ouvi dizer mal de Milosevic. Maldito projecto da «Grande Sérvia» que tanta desgraça semeou durante esse pandemónio que começou em 1991 para só acabar em 1995. É que, com Tito, não havia um Estado integrado na Jugoslávia que oficialmente se sobrepusesse aos demais enquanto que, com Milosevic, o projecto da «Grande Sérvia» não deixava quaisquer dúvidas sobre quem mandaria em alguém. E estes «alguém» não queriam passar de iguais a subalternos dos «quem». E como quem tudo quer, tudo perde, o projecto da «Grande Sérvia» chumbou e a Jugoslávia desintegrou-se.

 

Tito.jpg

 

Perguntada, a nossa guia croata fez uma comparação entre o durante e o depois de Tito (croata, também ele) que me encantou pela síntese: com Tito, não tínhamos quaisquer luxos e não podíamos dizer mal do Regime mas tínhamos emprego, a barriga praticamente cheia e a casa era quase gratuita; agora, somos todos livres, independentes e prósperos mas temos que puxar muito para nos aguentarmos no balanço. Foi já no seguimento da conversa que ela acrescentou o ensino e a saúde como gratuitos no antigamente. Uma vez que nada referiu quanto ao hoje, deduzo que actualmente possa haver “taxas moderadoras” e propinas escolares.

 

E então, quem é que «se aguenta no balanço»? Já lá iremos...

 

Janeiro de 2017

Henrique, 30DEZ16, Mostar, Bósnia-Herz..jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Mostar, Bósnia-Herzegovina, 30DEZ16, frente a parede de fuzilamentos, para memória futura)

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:24
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Domingo, 25 de Dezembro de 2016
VIAGEM DE FIM DE SEMANA – 4

 

Perguntou-me um amigo o que é que eu fui fazer ao Porto. Respondi-lhe que fui ao jardim da Celeste, giroflé, giroflá... Como se, para ir ao Porto, fosse necessário lá ir fazer alguma coisa. Mas sim, fui lá propalar umas «coisas» e buscar outras – disse eu. O quê? – perguntou. Coisas – respondi. O meu amigo estava a perder a paciência com tanto enigma e eu soube que aquele era o momento de «arrear os suspensórios». Coisas? - perguntou. Então, levantei a ponta do véu e disse-lhe que fui levar um paralítico e um rei e trouxe outro rei e um caixote com grilos. E a conversa ameaçava enfadar-se com o non sense dos grilos e a enigmática transacção real. OK! Se não queres contar, passamos para outra... E, então, contei...

 

grilo.jpg

 

Fui fazer uma palestra na Quinta da Bonjóia a convite duma Associação de que sou amigo e que, como eu, se dedica à lusofonia. A quinta é propriedade da Câmara do Porto que a herdou de um benemérito. Ali instalou uma Fundação com propósitos culturais para toda a cidade e sociais para a problemática população envolvente. A Associação minha amiga utiliza o magnífico auditório uma vez por mês para exteriorizar as suas actividades. E neste mês de Dezembro fui eu o convidado. Mas não falei de lusofonia e sim de lusofilia. Qué isso? - perguntou o meu amigo. Lusófono é aquele que fala português; lusófilo é aquele que gosta de Portugal. E eu dedico-me a trazer ao convívio com o Portugal pós colonial todos aqueles a quem chamo os «portugueses abandonados», ou seja, os descendentes daqueles que algures na História e algures no mundo foram administrados por nós e que ficaram nas suas terras após a nossa saída mais ou menos abrupta, defendendo os Valores que lhes legámos – religião, língua e genes – rodeados de hostilidade ou, no mínimo, por desdenhosa indiferença. E, nalguns casos, passados séculos da nossa saída, continuam a dizer-se portugueses manifestando sentimentos lusófilos tão sentidos como esse de quando Portugal ganha um jogo de futebol internacional virem para a rua desfraldando a nossa Bandeira aos gritos de Ganhámos!!! Sim, tanto a mim como aos meus amigos dessa Associação se nos faz um nó na garganta quando vemos tais manifestações de lusofilia. E rezo com fervor para que esses bravos não vejam um dos nossos temíveis telejornais e se lhes quebre o mito sobre aquele país distante cuja aura de grandeza o faz ser ainda maior que todos os sonhos por eles sonhados. E disto não têm as grandes potências materiais. Mas Portugal tem esta aura e eu – não propalando mentiras sobre um eldorado irreal – tudo faço para que ela não se desvaneça e digo aos abandonados que, afinal, há por cá quem se lembre deles e os queira confirmar na Lusitânia Armilar.

 

- Vou ter que me levantar para cantarmos o Hino Nacional – disse ele.

- Não – disse eu. Devo ser o pior cantor do nosso Hino.

- Porquê, não sabes a letra?

- Sei, sei! Mas treme-me o queixo e embarga-se-me a voz.

- E é nesse mundo que vives?

- Sim, é nesta utopia que vivo e, para mim, Portugal é um dogma.

- E, afinal, quem foi o paralítico e para que trouxeste um caixote com grilos?

- O paralítico era nascido em Odemira e governou metade do mundo.

- Como assim?

- Chamava-se Francisco Rodrigues, era Padre e em Goa foi Provincial do Oriente da Companhia de Jesus com jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança até Nagasáki.

- E o caixote de grilos?

- Essa foi uma boca em sentido figurado para te aguçar o apetite.

- Mas eu não como grilos nem tenho apetite por eles.

- Tratou-se de trazer para casa a notícia sobre os frades grilos que deram o nome à Igreja de S. Lourenço, no Porto. Mas sobre isso falei numa crónica anterior. Vai lá ler.

- E disseste que levaste um rei para o Porto e que trouxeste outro de lá.

- Para lá levei a história do lisboeta Filipe de Brito e Nicote que foi Rei da Birmânia e do Porto trouxe a história de Carlos Alberto de Sabóia que foi Rei da Sardenha e que, para minha grande vergonha, tinha por ter sido algum actor de vaudeville. Mas sobre este também já falei noutra crónica anterior. Vai lá ler.

- Sim, sim, irei de certeza. Estou a gostar da conversa. E os teus ouvintes gostaram da palestra?

- Bateram palmas porque gostam do tema. Se gostaram da minha palestra, não sei. Mas como me convidaram para lá voltar em Fevereiro...

- Olha: vou ter que sair para ir buscar a minha mulher ao cabeleireiro. Vamos ter que continuar a falar destas coisas.

- OK, quando quiseres. Inté!

 FIM

Dezembro de 2016

 

HSF-Majestic, DEZ16-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:16
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016
VIAGEM DE FIM DE SEMANA - 3

 

 

 

Invicta cidade do Porto, entrando na Praça Carlos Alberto...

 

Ah, esta falsa cultura! O «Teatro Carlos Alberto» levou-me a pensar durante muitos anos que tal personagem teria sido um actor e foi necessário entrar na Praça com o seu nome para que a nossa anfitriã, perguntada, me dissesse que era um Rei italiano que se exilara no Porto.

 

Mas na Praça havia uma feirinha de velharias e outras curiosidades pelo que não fiz mais perguntas, deixei as Senhoras entreterem-se e aprazei comigo próprio alguma investigação internética sobre o tal Rei.

 

E fiquei a saber que residiu no Palacete dos Viscondes de Balsemão (na actual Praça Carlos Alberto) e morreu na Quinta da Macieirinha (onde funciona actualmente o Museu Romântico). Mas, ao todo, entre a chegada e a morte, esteve por cá apenas três meses.

 

carlo_alberto.jpg

 Carlos Alberto de Sabóia, rei da Sardenha

 

Nascido em Turim no ano de 1798, ficou conhecido por "o Hesitante", foi Rei da Sardenha de 1831 até que abdicou em 1849 a favor do filho (Victor Emanuel II) após a derrota na Batalha de Novara contra os austríacos. Foi avô de Humberto de Sabóia, último Rei de Itália que também se exilou em Portugal, cá viveu muitos anos em Cascais e cá morreu.

 

Ainda hei-de vir a saber como é que «o Hesitante» conseguiu em três meses impressionar a sociedade portuense a ponto de lhe terem dado o nome a uma Praça e a um teatro, facécia que não conseguiu na sua própria terra durante os dezoito anos que reinou.

 

Mas foi mesmo no final das buscas internéticas que me deparei com o pequeno parágrafo que transcrevo de seguida:

O seu rápido fim causou um halo de benévola simpatia (que nunca recebeu quando em vida), corrente que cresceu até rasar a hagiografia.

 

Admito que tenha sido este halo hagiológico que tenha suscitado tanta admiração por parte dos portuenses. A ser assim, gosto.

 

O seu corpo foi trasladado para o Panteão dos Sabóia em Itália mas a sua meia-irmã, Frederica Augusta de Montléart, mandou construir uma capela nos terrenos da Quinta da Macieirinha actualmente incorporados nos jardins do Palácio de Cristal.

 

Capela_de_Carlos_Alberto_da_Sardenha.jpg

 

 

Armoiries_Sardaigne_1831.png

 Armas do Rei da Sardenha

 

Dezembro de 2016

 

HSF-Café Magestic, Porto DEZ16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:29
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2016
VIAGEM DE FIM DE SEMANA – 2

 

 

Regressada ao seu Porto natal depois de longa estadia em Lisboa, a nossa anfitriã organizou-nos uma estadia cultural de primeira qualidade mas que foi quase mono temática. Sim, tudo girou à volta de um tema fundamental da Cultura tipicamente portuguesa, a gastronomia. Mas como, sem se dar ares, é pessoa de elevadíssima cultura, todos os recantos por que passávamos de um restaurante para outro eram pretexto para uma explicação histórica ou uma nota social.

 

Três referências à gastronomia que experimentámos: a qualidade, a simplicidade, a barateza. Mas ficámos chocados com as quantidades que nos serviam pois, mesmo pedindo meias doses, poderíamos ser o dobro dos compinchas que ainda sobraria. Num almoço que fizemos em Matosinhos, as quantidades foram tão anormais (para a nossa bitola lisboeta) que pedimos o «dog’s bag» e fizemos um lauto jantar para nós os 7 num dos apartamentos que a nossa anfitriã nos disponibilizou.

 

E foi depois desse jantar doméstico que tivemos que sair a dar um passeio para «esmoermos a bacalhausada».

 

Mas o passeio foi curto pois o prédio da nossa amiga situa-se no «Caminho de Santiago» que ali bem próximo começa na Sé do Porto, desce por escadaria de 100 degraus até à Igreja dos Grilos, continua a descer por ruelas medievais e, passando à porta da nossa amiga e anfitriã, segue até desaguar na Rua Mouzinho da Silveira continuando por rumo que perdi mas que, obviamente, há-de levar os peregrinos ao destino galego. Nós não fizemos peregrinação pois apenas pusemos uma vela pelos nossos netos actuais e futuros na orada de Sant’Ana (a padroeira dos avós), que se situa a dez passos da porta do prédio em que estivemos aboletados. E da orada, subimos por cenário medieval do Porto primitivo (primorosamente recuperado depois de décadas e décadas de abandono) até uma igreja de frontaria monumental e muito bem iluminada. E de que igreja se trata? A dos Grilos. Mas a surpresa estava para vir quando tornejámos uma esquina fronteira à dita igreja e se nos deparou um espectáculo de cortar o fôlego com o Douro a nossos pés, Gaia na outra banda e tudo a regurgitar de vida por ali fora... Recordando o café afrancesado da crónica anterior, fiquei «bouche bée».

 

HSF-Douro e Gaia, do miradouro da Igreja dos Grilo

 

Vistas as vistas, voltei-me para a igreja e admirei a imponência de uma frontaria imperial que só pode ser admirada em todo o seu esplendor se adentrarmos a ruela por que subíramos vindos da orada onde puséramos a tal vela. Quase me apeteceria dizer que ali, sim, «meteram o Rossio na Betesga», tal a imponência contida num quase beco.

 

Igreja dos Grilos, Porto.jpg

Igreja de São Lourenço ou "dos Grilos"

 

Igreja e Colégio de São Lourenço, popularmente conhecida por Igreja dos Grilos, é um conjunto de edifícios construído pelos jesuítas em 1577 e financiado por doações de fiéis assim como por D. Frei Luís Álvaro de Távora (Ordem de Malta), ali sepultado.

D. Frei Luís Álvaro de Távora (Ordem de Malta).

 

Túmulo de D. Frei Luís Álvaro de Távora.jpg

Túmulo do benemérito com o apelido apagado

 

Tudo foi erguido com forte oposição (da Câmara e da população) não dirigida aos jesuítas mas sim ao colégio que pretendiam instituir devido à previsível permanência de filhos de nobres dentro da cidade por períodos superiores a três dias, o que era proibido.

 

Contudo, alguma diplomacia resolveu o diferendo – nomeadamente com aulas gratuitas para os filhos dos plebeus – e o colégio abriu portas. Até que em 1759, com a expulsão dos jesuítas, a igreja foi doada à Universidade de Coimbra em cuja posse se manteve até ter sido comprada pelos Frades Descalços de Santo Agostinho que ali ficaram de 1780 a 1832.

 

Instalados em Lisboa no Sítio do Grilo (zona oriental da cidade, ao Beato) desde 1663, estes frades ganharam a simpatia da população que os apelidou de "frades-grilos". Daí, o nome desta igreja no Porto.

 

Durante o Cerco do Porto, os frades viram-se obrigados a abandonar o convento, tendo este sido ocupado pelas tropas liberais de D. Pedro. O Batalhão Académico, integrando Almeida Garrett, instalou-se lá. Desde 1834, o conjunto pertence ao Seminário Maior.

 

Continuemos...

 

Dezembro de 2016

HSF-Café Magestic, Porto DEZ16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

  • Wikipédia (Igreja dos Grilos; Frades Grilos)
  • Câmara Municipal de Lisboa (Sítio do Grilo)


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:43
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016
VIAGEM DE FIM-DE-SEMANA -1

 

Na quinta-feira, 15 de Dezembro, fui ao Porto propalar umas «coisas» e decidimos ficar durante o fim-de-semana.

 

De muito boa companhia tanto alfacinha como tripeira, fizemos turismo. E no Sábado de manhã fomos ao «Café Majestic» tomar um dito cujo. Um quê? Pois isso mesmo, um café. Não sei até que ponto é típico ou não do «chic endroit» mas eu comi um pastel de nata. Tudo bom mas carote.

 

Majestic.jpg

 

Na mesa ao lado, uma mãezinha e seu infante pré-adolescente. Ela a ensinar, o petiz a aprender o estilo da decoração e como eram os tempos de antigamente. Material de estudo, os dizeres que constavam da toalha de papel que põem a quem pede mais do que um café simples (sem açúcar) e um folhado redondo com nata no meio.

 

Mas como eu ando cá nesta vida mais para aprender do que para propalar «coisas» aos ouvintes, perguntei à empregada se podia ter uma dessas toalhas ou se teria que encomendar algo mais que justificasse a disponibilização dos instrutivos dizeres. Que não, ela tinha todo o gosto em me oferecer (em nome e às custas do patrão, está visto) um «toalhete» como se apressou a corrigir.

 

E foi então que fiquei a saber tanto como o petiz da mesa ao lado:

 

1923

A «Illustração Portugueza» escrevia, em crónica de André de Moura: «Os cafés em Portugal têm sido até agora exclusivamente alfobre de revolucionários, ponto de reunião transaccional de comerciantes milicianos ou apagado espairecimento do caturrismo da velhice.

Acaba de dar-se entre nós o exemplo do que deva ser um café. Trata-se do novo estabelecimento desta classe que vem de inaugurar-se num dos grandes pontos centrais do Porto, à entrada da Rua de Santa Catarina. É um dos mais nobremente sumptuosos que conhecemos pelo que se justifica bem o seu título: Majestic. (...) As senhoras da melhor sociedade portuense frequentam-no e aqui está o exemplo aberto para uma nova e grata função do café no nosso país

 

Que função? Não percebi à primeira mas depois de pensar um bocado, admito que as Senhoras da melhor sociedade não iam a locais daquele género e logo me lembrei de vários episódios semelhantes.

 

cafe-suica.jpg

 

Por exemplo, durante a guerra de 39-45, as refugiadas judias frequentavam em Lisboa a «Pastelaria Suiça» em cuja esplanada se deliciavam com o Sol a bater-lhes nas pernas e nos decotes enquanto fumavam saborosas cigarradas para grande escândalo das sorumbáticas beatas portuguesas vestidas do pescoço aos pés, ainda imbuídas da mentalidade medieval de submissão ao omnipotente marido e tementes a um Deus castigador e vingativo que considerava pecaminoso dar a entender que possuíam calcanhares, quanto mais pernas ao léu a bronzear. E foi com alguma hesitação que as portuguesas começaram a ir à dita pastelaria sem, contudo, puxarem de cigarradas em público e muito menos exporem pernas ou decotes ao Sol.

 

 

Arcada, Évora.JPG

 

Muito mais tarde, quando em Outubro de 1964 fui para Évora cursar Economia, no «Café Arcada» só entravam Senhoras quando acompanhadas do marido e na «Pastelaria Bijou» só entravam homens para acompanharem as respectivas “esposas”. A frequência universitária da cidade ainda demorou 2 ou 3 anos a corrigir essa anormalidade mas nem pensar em fumaradas e muito menos na exposição dos membros inferiores ou das «poitrines» aos «malévolos e cobiçosos» olhares alheios. Árabe, no seu «pire» (para condizer com o nome francês do café portuense e com as partes arredondadas sobre a zona respiratória das «madames»).

 

Ou seja, em 1923 o «Majestic» proporcionou uma autêntica revolução nos usos e costumes portugueses. Mas essa revolução demorou “só” 17 ou 18 anos a percorrer os cerca de 333 quilómetros que então distavam entre a portuense Rua de Santa Catarina e o Rossio lisboeta enquanto demorou pouco menos de 30 anos a percorrer os escassos 150 quilómetros que nessa época iam de Lisboa a Évora.

 

Extrapolando, quanto tempo demorará essa revolução a chegar a Marrakesh? E muito menos falo em Nouakchott, Riade ou outras paragens que tais...

 

Dezembro de 2016

HSF-Majestic, DEZ16-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Café «Majestic», Dezembro de 2016)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:16
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016
MEDITANDO...

Integridade é fazer a coisa certa, mesmo quando ninguém está a ver.

Frase atribuida a

C. S. Lewis.jpgC. S. Lewis

 

Clive Staples Lewis (Belfast, 1898 - Oxford, 1963)
Escritor
Clive Staples Lewis, comummente mais referido como C. S. Lewis, foi um professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta e apologista cristão britânico. 
Wikipédia 
 
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:34
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016
EXPRESSÕES CURIOSAS NA LÍNGUA PORTUGUESA

 

HSF-torturas.jpg

 

«JURAR DE PÉS JUNTOS»


- Mãe, eu juro de pés juntos que não fui eu.

A expressão surgiu através das torturas executadas pela "Santa" Inquisição, nas quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado para dizer nada além da verdade. Até hoje o termo é usado para expressar a veracidade de algo que uma pessoa diz.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:00
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016
CITANDO...

Contemporizador é aquele que alimenta o crocodilo na esperança de que ele o coma em último lugar

Frase atribuida a

Islão-Churchill.png Sir Winston Churchill



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:43
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016
LIDO COM INTERESSE – 71

JNP-O Islão e o Ocidente.jpg

 

Título – O ISLÃO E O OCIDENTE

Autor – Jaime Nogueira Pinto

Editora – D. QUIXOTE

Edição – 2ª, Junho de 2015

 

 

Da contracapa extraio que o ataque ao semanário Charlie Hebdo, em 7 de Janeiro de 2015, comoveu mais os europeus do que a chacina das crianças e jovens do Colégio Militar de Peshawar {Paquistão}, do que as mulheres escravizadas por Boko Haram na Nigéria, do que os egípcios coptas decapitados ritualmente, do que os cristãos crucificados às centenas no Iraque e na Síria pelo ISIS.

 

Da badana consta que na Primavera de 2014, o Estado Islâmico se alargou como uma maré equinocial, dominando de repente 100 mil quilómetros quadrados com mais de 5 milhões de habitantes. Para crescer, os radicais do Califado exploram o descontentamento das populações com a discriminação e as perseguições a que foram submetidas pelos governos xiitas de Bashar-al-Assad e de Al-Maliki. E agora estão no centro do furacão perturbando o Ocidente e quase todo o Médio Oriente, recebendo a adesão de milhares de muçulmanos espalhados por esse mundo fora.

 

E voltando à contracapa, a pergunta é a de saber como é que uma religião monoteísta, que defende o Bem e a Justiça, que produziu no passado longínquo uma civilização que se estendeu em maravilhas de Bagdad a Córdova, que inventou a Álgebra e transmitiu a Filosofia grega à Europa cristã, está hoje reduzida a este grande desatino de destruição e medo?

 

Das inúmeras páginas com informação relevante, respigo apenas as que mais chamaram a minha atenção:

 

A história do conflito entre o sunismo e o xiismo é (...) a história da «Grande Discórdia», da Fitna (luta no interior da comunidade), que vai dividir os crentes. Morto Maomé em Junho de 632 e devendo a sucessão cair sobre um seu «mais próximo», sucede-lhe o seu companheiro Abu Bakr cujo califado dura apenas dois anos; Abu Bakr escolhe para sucessor Omar, outro companheiro do Profeta e Omar, nos dez anos do seu califado, conquista a Síria, a Palestina, o Egipto e a Mesopotâmia.

Quando Omar morreu, foi um conselho de seis membros que se decidiu por Osman, do clã dos omíadas de Meca.

Ali, primeiro direito, companheiro e genro do Profeta, fazia parte do conselho que escolheu Osman. Não o confrontou mas não terá gostado da escolha. Osman, (...), era membro da elite urbana de Meca que inicialmente perseguira Maomé e resistira ao Islão. (...) Da luta que depois se travou, resultou o assassínio de Osman (...) e a aclamação de Ali como califa, em Junho de 656. Para os seus partidários, os xiitas, Ali era o sucessor natural de Maomé, o primeiro e único sucessor natural do Profeta; e os três califas – Abu Bakr, Omar e Osman – meros usurpadores. Assim, a seguir à morte de Osman, o povo de Medina aclamou Ali, «reparando o erro» e entregando o poder ao «verdadeiro sucessor de Maomé» – por parentesco, companheirismo e virtudes pessoais.

Pág. 26 – Não discuto a fé mas temo a proibição da exegese sunita.

 

Imperialismo oitocentista: o regresso dos «cruzados»

As grandes somas recebidas para os projectos de desenvolvimento tornaram os Estados islâmicos – o Império Otomano, o Egipto, a Tunísia – devedores dos bancos europeus que os tinham financiado, passando o serviço da dívida a consumir as suas receitas económicas e financeiras. Assim, a mais importante ameaça à independência do Médio Oriente não eram os exércitos europeus, mas os seus bancos.

Pág. 47 – Onde é que eu já ouvi falar deste modo? A diferença está em que então, os Estados islâmicos se devem ter entretido a erigir «elefantes brancos» enquanto que hoje o recurso a capitais alheios é sobretudo para cobrir défices excessivos das contas públicas.

 

Os wahabitas defendem como dogma o poder infinito de Deus, a predestinação, a obediência cega aos chefes da comunidade e ao poder legal (mesmo que este seja imoral e ímpio) e rejeitam toda e qualquer interferência da razão humana na interpretação e consideração da fé.

Pág. 106 A renúncia à liberdade de opinião teológica e cívica só a posso equiparar ao fascismo.

 

Educado numa cultura de força, bin Laden desprezava os fracos e via os EUA como uma nação fraca corrompida pelo materialismo e pela luxúria.

Pág. 139 – Na minha opinião, esta é uma apreciação boçal.

 

O Islão (...) não conheceu, não conhece nem talvez venha a conhecer o seu tempo de separação entre o que é de César e o que é de Deus.

Pág. 183Eu costumo dizer que ao mundo islâmico falta uma «Revolução Francesa».

 

Gilles Lipovetsky caracteriza esta nova era como a da pós-modernidade, (...) uma segunda revolução individualista, marcada pelo desaparecimento dos «ideais sacrificiais» e pelo advento de uma ética «indolor e circunstancial, plural e emocional».

Pág. 288 – Como eu próprio já afirmei, a ética contemporânea da felicidade é apenas consumista pretendendo optimizar as potencialidades do mercado que se deseja cada vez mais amplo, global. In http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/o-ser-pelo-ter-1216587

 

Os jovens muçulmanos, perdidos e marginalizados na Europa cristã – ou pós-cristã – atirados para a periferia suburbana dos pequenos empregos, dos pequenos gangues e dos pequenos prazeres, desintegrados das suas raízes originais e de lugares que os não acolhem plenamente, encontram bruscamente a aventura, o risco, a suposta identidade e a glória nas bandeiras negras do Profeta (...). Por isso partem para a nova terra prometida ou ficam na Europa, mas disponíveis para matar os sacrílegos do «Charlie Hebdo» (...)

Pág. 300 – Bela síntese.

 

Nas caricaturas do «Charlie» havia uma clara intenção de agredir, de ofender, de chocar (...)

Pág. 323 – Eis por que nos dias seguintes me distanciei da emoção francesa e afirmei que «je ne suis pas Charlie». E houve quem cortasse relações comigo.

 

Dezembro de 2016

 

Henrique no barco-Israel.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(navegando de Limassol para Haifa, Março de 2014)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:51
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