Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016
DE COMO NASCI E FUI CRESCENDO...

 

Este texto é dedicado aos curiosos. Àqueles que gostam de saber tudo da vida alheia, sobretudo aos que conhecem o “cara” desde há... uma porrada de anos.

Tenho escrito sobre muita coisa, metido o nariz até onde só aos GRANDES cientistas e professores seria admitido, aproveitando para dizer entre algumas verdades, certamente muita bobagem, e também sobre passagens da vida, minha e de amigos, cujas peripécias, ao trazê-las à memória são um bálsamo para a saudade que deixaram.

Depois de mais de 70.000 visitas ao meu site, desde há pouco mais de 7 anos (alguns milhares devem ser de idas minhas, xeretar quem viu ou leu!) começo a ter dificuldade em encontrar novos assuntos sobre os quais escrever.

Devem lá estar talvez uns setecentos textos, o que não é grande coisa, mas a idade começa a bloquear-me as meninges e, de repente (não tão de repente assim!), sinto o vazio a crescer dentro da cabeça!

Podia escrever sobre política, finanças e segurança, no Brasil e até no mundo, como muita vez fiz, mas creio que a grande maioria das pessoas está cansada destes assuntos, bem como eu.

Escrever sobre o quê?

Sobre mim. Contar algo que penso ainda não terei divulgado, e que não vai interessar a muita gente. Mas... quem não quiser não lê. Vamos nessa.

Nasci numa segunda-feira, eram 9 horas da manhã, segundo documento escrito pela minha mãe. Já estava a preparar-me para enfrentar o batente da vida, logo no comecinho da semana. E surgi com mais de 3 kilos e tal, para aguentar o tranco, e dizia a minha mãe que me deu de mamar durante um ano! Por isso tenho aguentado, até hoje! Terceiro filho.

Inverno, lá fora devia fazer um frio do cão e o “chalé” onde vivíamos na ocasião, na Rua das Valas, na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto,

FGA-Brasão do Porto.png

freguesia de Cedofeita, a mais antiga, seria certamente do século XIX, teria algum aquecimento (talvez uma braseira!) porque não consta que alguém tivesse enregelado, mas não era lá aquelas coisas porque:

- um dia a casa foi a baixo e fizeram um prédio bem desajeitado com cinco andares, que já está com ar de podre;

- mudaram o nome da rua para Nossa Senhora de Fátima, depois que em 1933, um pouco mais adiante e na mesma rua, construíram a igreja dedicada à Mãe de Portugal e do mundo. Mas o nome de Rua das Valas aguentou-se até 20 de Agosto de 1942! Porque se chamou assim, ainda não descobri!

 

Mas a família não ficou muito tempo por ali. Mudou-se para a Rua de Faria Guimarães, para uma casa bem melhor, que nunca mais consegui identificar qual será! Mas o senhor Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães foi um importante empresário oitocentista do Porto. Criou a Fábrica de Lanifícios do Lordelo, era proprietário da tipografia onde se fazia a impressão de vários periódicos (O Athleta, A Coallisão e O Nacional), geriu a Fundição do Bolhão, fundada pelo seu pai, e desempenhou cargos em várias instituições. Foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto e o primeiro presidente da Associação Industrial Portuense.

 

Para quem sai das valas, não há dúvida que foi uma bela promoção... habitacional.

 

Aqui, um belo pátio atrás, só vizinhos nos lados, casa desafogada, entrada para carro. Óptima, tanto quanto lembro. E foi ocasião para se arranjar um cão.

 

Um fox terrier, pelo duro, o Boby (assim se deviam chamar metade dos cães em Portugal), que os irmãos mais velhos adoravam, que volta e meia ficava encarregado de tomar conta de mim, que teria um a dois anos. Se fosse a mãe a dizer “toma conta do bebé”, o meu pai, ao aproximar-se ouvia um rosnar! O contrário também era válido.

 

FGA-Mãe e filhos.png

A mãe e os três primeiros filhos: Luis, Helena e o “autor” do texto

 

Reza a história que um dia foram dar com o tal “bebé” a cuspir pelos do cão! Alguém tinha visto a cena: a criança estava a comer um biscoito e o Boby não resistiu ao agradável aroma e mordeu metade do tal biscoito. O lesado, como vingança, mordeu o seu fiel amigo, que não deve ter-se incomodado muito porque engoliu o seu biscoito sem mais nada dizer!

 

É evidente que tínhamos de mudar de casa: logo foram nascendo mais irmãos, primeiro uma irmã, alfacinha, e depois outro tripeiro. Cinco filhos, o mais velho com seis anos e, este que vos escreve, remexido, não tardou a ser mandado para um colégio infantil, perto da nossa casa.

 

Lembra pouco desse estabelecimento de ensino superior! Um dia entrou em casa, correu para a mãe a pedir dinheiro. Para quê? Para comprar flores para pôr na cama da dona... (nome...?) A mãe averiguou. Tinha morrido a esposa do Director da escolinha e as flores eram para a campa!

 

Desde cedo que à chegada do tempo quente uma forte alergia lhe deixava as curvas dos braços e das pernas com uma enorme coceira, ao ponto de sangrar. E isto durava todo o Verão.

 

O médico, o Dr. Vasco Nogueira de Oliveira, quase me adoptou como neto! Muita vez telefonava aos meus pais a perguntar se eu podia dormir lá em casa dele, e que, sem falta me devolveria bem cedo no dia seguinte. Mais velho do que o meu pai, o doutor Vasco era uma figura simpática. Tinha um filho na marinha e vivia só com a mulher, de modo que uma criança em sua casa dava uma sobrevida ao casal.

 

Numa das vezes que ia devolver a criança parou numa loja de brinquedos para me comprar um qualquer. A tal criança, aí com cinco anos, ficou à porta da loja, onde estavam exposto um monte de bonecos. Bonequinhos ou carrinhos, coisa pequena. Lembrou-se dos irmãos e deitou a mão a outros quatro que levou para casa e distribuiu à irmandade.

 

Os pais pensaram que tinha sido amabilidade do Dr. Vasco, que à tarde telefona a perguntar se eu tinha levado para casa mais do que um brinquedo. A mãe, que atendeu o telefone (já havia telefone nesse tempo, ou pensam o que?) disse que sim, que tinha dado um a cada irmão. Porque? – É que telefonou o homem da loja a dizer que o menino tinha levado uns brinquedos e que eu não tinha pago!

 

Ladrão em casa! Quase um pânico! Começava cedo (Para os devidos efeitos afirmo que nunca fui para a política, e só me lembro de outro furto, consciente, aí por 1972, mas contarei na devida época!).

 

Mas o bom do Dr. Vasco até achou graça, disse que não tinha a menor importância, chegando a louvar a atitude social do seu “neto” e cliente, e pagou o valor do valioso furto!

 

O tratamento para aquela irritação da alergia, como se pode imaginar era à moda antiga.

 

Colocavam a coitada da criança em cima de uma mesa, só de cuequinha e, com um daqueles pincéis, brocha de pintar paredes, pincelavam-lhe as curvas dos braços e das pernas, com uma mistureba de álcool puro, oxido de zinco, talco, nitrato de chumbo, flor de enxofre e, às vezes, para dar um cheirinho... água de rosas!

Não é difícil imaginar que em cima de áreas feridas aquelas pinceladas ardiam bem, e o coitado não tinha outra alternativa se não chorar! Mas creio que me deve ter feito muito bem. O álcool hoje é consumido sobretudo para uso interno e proveniente de uvas boas. O óxido de zinco, agente secante não deixou que a barriga crescesse... até há meia dúzia de anos, a flor de enxofre entre outras coisas afastou o demo, e dizem que é também responsável por manter a entrada necessária de oxigénio no cérebro, o que me tem permitido escrever tanta coisa. O chumbo é que é o pior: cada vez estou mais preguiçoso; deve ser o peso!

 

Em 1936 ou 37 a família regressou a Lisboa, e instalaram-se na rua Padre António Vieira, num prédio de esquina, esquina arredondada, no primeiro andar (ou era no rés-do-chão?), do número 20, à porta do qual o motorista da Câmara, todas as manhãs parava o carrão, de trabalho, que vinha buscar o nosso pai. Ao domingo não tinha carro.

 

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Tinha uma placa que jamais esquecemos: BI -10-?? Era o bidés!

 

Terá sido a estadia na rua de Vieira que viera (largas décadas mais tarde) a suscitar-me o interesse para ler a História do Futuro, para chegar à conclusão que esse tal de futuro só existiu na privilegiada cabeça desse senhor! Passado, nós imaginamos que houve, porque garantir, mesmo com documentos ditos irrefutáveis, como o que se encontra em arqueologia, escritos, fotos, etc., têm sempre algo de duvidoso. Presente, todos sabemos o que é, mas futuro?

 

Futuro só existe na verborreia dos políticos. Veja-se o Brasil, o país do futuro! Qual futuro? Quando? Como?

 

Todos os impérios ruíram e de alguns a história já nem sabe se existiram. Os que agora crescem não tarda encontram o mesmo futuro.

 

O Padre António Vieira entusiasmou muita gente, sobretudo o grande Mestre George Agostinho da Silva, mas onde agora estão podem calmamente esquecer esse futuro, visto que lá no etéreo tudo é presente e não existe passado nem futuro. Se não princípio nem fim, como vai ter futuro?

 

Continua no próximo “capítulo”!

 

29/11/2016

Francisco Gomes de Amorim, 1954

Feancisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:06
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Domingo, 20 de Novembro de 2016
ONU – CPI – NATO – UE – BREXIT

 

BREXIT.jpg

 

e outras vigarices

 

Comecemos com a ONU: tem feito algumas intervenções pouco positivas e muito desastre. Ajuda os amigos nos combates internos dos países, mas com o modo como é constituído o Conselho de Segurança, composto por 15 Estados-membros, sendo cinco membros permanentes - China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos - metidos “a besta” com direito a veto e dez membros temporários que nada mandam, este tal de Conselho de Segurança, teoricamente responsável por manter a paz e a segurança entre as nações, jamais será uma força de paz efectiva.

 

Se não tivesse os 5 membros com direito a veto... ninguém para lá iria. Assim ficam os poderosos SEMPRE a dar sentenças aos mais fracos, mas PAZ, que é bom, nada.

 

A Rússia dividiu a Ucrânia e... a Geórgia e... marcou as fronteiras que quis no fim da URSS, abateu um avião de passageiros da Malásia e... vetou que os outros lhe enchessem o saco.

 

O Bush inventou armas de destruição em massa no Iraque, foi lá destruiu tudo, criou o ISIS e... nada!

 

O King Kong atira foguetes nucleares para todo o lado e... nada. A China ocupou os mares da Coreia, Japão, Filipinas e... nada. Para que serve a droga da ONU? Custa muitíssimo dinheiro e não resolve nada.

 

A ONU tem algumas áreas bem mais válidas: UNESCO, FAO, UNICEF, o PAM (Programa Alimentar contra a Fome) e mais um monte de outras entre elas o famigerado FMI, e Agencia Internacional de Energia Atómica que faz tudo para que só os poderosíssimos tenham a bomba... Mas...

 

Vamos ver a CPI, a corte dos magníficos que se arvoraram em julgadores internacionais: a infeliz Corte Penal Internacional.

 

Acusada agora pelos países africanos, com a argumentação que a corte só julga pretos, que estão a ser descriminados pela corte de brancos (o que é quase verdade 13 a 2 africanos), a África do Sul, Gambia e Burundi já saíram fora do acordo, o Quénia e Namíbia estudam a saída e a Rússia que desde o primeiro dia ficou em cima do muro, agora também quer sair da fogueira, bem como o seu comparsa da Síria.

 

Não é bem verdade que só se tenham julgado africanos, mesmo considerando que o Gaddafi seja africano (ele era magrebino que é outra coisa), mas na realidade, excepção feita a um da Sérvia e dois da Bósnia, a maioria, nove, eram de países africanos: quatro do Ruanda (e foram poucos), dois do Sudão, (pouquíssimos) um do Quénia e outro do Congo RDC.

 

Haveria que julgar, à revelia, mais uma montanha deles: os grandes ladrões dos países africanos, que deixam milhões ou morrerem de fome ou viver na maior miséria – Angola, Guiné Equatorial, Zimbabwe, Uganda, Gabão, Camarões, África do Sul e buakamúkua – novamente os assassinos do Burundi, e do Sudão, o iconoclasta da Venezuela (que está a acabar de destruir não só a imagem como o próprio país), o rei do Marrocos que esmaga as populações do Sahara Ocidental, o Fidel que deixou o povo na miséria durante 60 anos e não larga, o megalómano King Kong da Coreia do Norte, o super assassino Al-Bagdathi, e o similar Assad, sem esquecer o frio, gelado e super matador Putin (Crimeia, Geórgia, Síria, Chechénia, etc.) e seu parceiro G. W. Mato!

 

Mas nem um destes está preocupado com a CPI. Para eles é mentirinha de europeus e não serve para nada, nem para ser respeitada!

 

Manter a CPI? A que custo? Para julgar quem? Brincadeira, que dá a ganhar, BEM, a MUITA gente.

 

E depois, como pertence à ONU, se quiserem julgar o Putin... lá vem o veto e eles metem o processo no...

 

E a NATO/OTAN? Viu a Rússia mamar uma parte da Ucrânia e como os russos são machos... nada! Fazem lindas manobras navais, os navios jogam esguichos de água para o ar, e no fim tudo acaba em pizza.

 

Juntam-se e decidem que vão dar cabo dos c... (e a dizer cornos, mas não digo) do Baghdati ou do Assad, mas depois um não vai porque... o outro aproveita para dizer que a mulher o não deixa ir para a guerra, e mais um outro, diz não sei o que. Muita falta faz o nosso querido e saudoso Solnado, para explicar como funcionam as guerras da OTAN!

 

Agora até o Trump já diz que pensa em sair da NATO. A NATO é coisa dos europeus, e eles que lá se entendam, tanto mais que o Putin também tem uma otanzona, chamada Pacto de Varsóvia, e o Trump que ainda nem assumiu já não sabe o que fazer. Parece que aliás ele nunca pensou nisso, nem se sabe se vai pensar.

 

É preciso não esquecer a UNIÃO EUROPEIA, que se está a desmantelar. Reino Unido, Grécia, Espanha, Hungria, Roménia e o que mais audiante se verá. Não admira. Tem vários parlamentos, milhares de deputedos, perdão, deputados, entretêm-se a legislar sobre assuntos importantíssimos como obrigar as fábricas de electrodomésticos a fazerem um secador de cabelo mais económico, para depois de terem gasto milhões em horas, impressos, etc., dizerem que afinal não é preciso, porque as pessoas usam esse treco alguns minutos por dia, há uns anos quiseram obrigar os portugueses a juntarem ao mosto do vinho açúcar de beterraba que estava em excesso na Holanda e Alemanha, e brincam, como garotos dementes com a vida de meio bilhão de pessoas!

 

Uma ideia brilhante, a União Europeia, mais antiga que o próprio Napoleão. Quando as ideias são brilhantes precisam de gente brilhante para as executar. Aí é ca porca troce o rabo!

 

Uma ideia razoável o €uro, que toda a gente aplaudiu, mas poucos foram ao fundo das consequências futuras, face à desigualdade de capacidade de produção dos vários membros.

 

Como moeda hoje não existe mais, é coisa barata – só o papel para a imprimir é que é caro – os membros ricos mandaram logo bilhões, trilhões para os pobrezinhos que se embebedaram com tanta grana que parecia caída milagrosamente do ar. Não, não foi a Senhora de Fátima, que nem sequer foi para isso consultada.

 

Agora querem que os pobres paguem. Vão pagar NUNCA. NUNCA!

 

Ameaçam sair da EU e do €uro. Sem pagar o que lhes “ofereceram” como presente autenticamente de grego.

 

Como? Há sempre uma solução, e quem viver, verá!

 

Depois deste texto escrito, não foi preciso viver muito!!! A UE declarou há dois dias que não vai mais encher o saco dos países que estão com as contas todas estropiadas! É evidente estavam todos a abandonar o barco que afundava... e vai afundar mais!

 

Os ingleses, menos de 50% dos que pensam, exultaram com o BREXIT. Os mentores e apoiadores desse golpe, foram para o governo e nomearam uma prima ministra parecida, por fora, com a Mulher de Ferro. Parece macha, mas neste momento a Dona May, o despenteado Boris Johnson, ex-mayor e agora Foreing Office, e o maior badalador pró Brexit, Nigel Farage (que entretanto usou 400.000 libras dos fundos comunitários para se eleger para o Parlamento... e não conseguiu e vai ter que os devolver!) os três obreiros responsáveis pela saída da UE não se entendem em como sair da EU! Brilhante políticos! A Inglaterra já perdeu larguíssimos bilhões não só com a desvalorização da sua moeda como com a saída do país de empresas gigantes. E o mais piadético de tudo é que já dizem que para repor tudo a andar fora da Europa precisam de mais 30.000 novos servidores públicos.

 

Tudo isto é uma lindeza... macabra.

 

Moral de todas estas histórias: o mundo está entregue a mentecaptos, assassinos, aváros e ladrões.

 

Ukuembo ua petu, moxi isuta

(Luxo por fora, lixo por dentro)

Provérbio quimbundo – “Missosso” – Oscar Ribas

 

Recomendo muito que assistam a este vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=Y4cqymfU_Nk

 

De Luanda. Uma lição que não se pode resumir, mas de que fica aqui uma ideia:

Quem já viu pobres, camponeses, os que vivem na marginalidade social a fazerem projectos megalómanos? E sobrevivem e sobreviveram através dos milénios, sem os crânios dos deputados a roubarem, a pensar que legislam e a destruírem o que o homem (e a mulher...) construíram com sua sabedoria humilde, com vontade e verdade?

 

17 e 19/11/2016

Francisco Gomes de Amorim, 2016

Francisco Gomes de Amorim

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:15
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016
A LUSOFONIA E... OS OUTROS

 

Há poucos dias reuniram-se os ilustres (?!) presidentes dos países de língua portuguesa, e não só, e a memória foi rebuscar alguns textos escritos sobre lusofonia, nos idos de 2003, e que parece estarem ainda up-to-date. (Desculpem o texto um pouco longo. Em 2003 deu 3 ou 4 textos separados!).

 

Lusofonia deveria significar simplesmente o uso da língua portuguesa, como simples deveriam ser as pessoas que pensam, para que o pensamento saísse mais puro, menos rebuscado; dentro deste conceito, Lusofonia deveria facilitar e sobretudo promover a troca de informações e de culturas, o enriquecimento mútuo, a maior aproximação e compreensão entre as pessoas, as tais que seriam lusófonas, enfim um considerável instrumento de Paz, e até de progresso.

 

O que é estranho é que tanto se fala de Lusofonia, e a maioria dos dicionários não traz essa palavra! Nem cá nem lá! Só o bom e “velho” Aurélio diz ser “a adoção da língua portuguesa como língua de cultura ou língua franca por quem a não tem como vernácula”!

 

Se os dicionários a não trazem é porque se trata de vocábulo novo! E os mendicantes vocábulos novos chegam e logo são carregados de conotações políticas e até político-imperialistas! Entram os mestres a discutir-lhes o valor, as atitudes, os problemas causados por tão ingénuo aglomerado de nove letras, e num instante, ao invés de se promover uma maior aproximação entre gentes remotas, sustentam-se discussões assexuadas que aprofundam as divergências entre os povos lusófonos, sejam eles do vernáculo, da cultura ou da franca.

 

A Língua Portuguesa ainda é uma língua viva. Vivíssima. Continuam a entrar vocábulos novos, vindos dos mais diversos lugares, populares ou eruditos, adoptados pelos lusófonos em tantas partes deste mundo, como estes mesmos, lusofonia ou embasar, sem que haja o cuidado de os receber, cuidando unicamente da sua etimologia infantil, porque pura, com carinho e entusiasmo, tal como se recebe com alegria a chegada de um novo ser ao seio da família.

 

A famosa frase de Fernando Pessoa, língua/pátria, com que se incham os peitos e enchem os ouvidos, começa a fazer pouco sentido para aqueles a quem a tal Lusofonia não mais lhes aparece do que sob a forma de uma imposição.

 

Tudo isto sem que a etimologia seja posta em causa! O que está em causa não é a causa, mas os efeitos!

 

A pergunta que fica para que cada um pense bem, e é simples: - Afinal o que é Lusofonia?

 

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Em que língua se canta a alegria do samba?

 

Vários amigos e mestres acorreram em meu auxílio, e correram inúmeros dicionários. Só se encontrou uma “definição razoável” na enciclopédia Universalis, francesa, e a partir da ideia “mãe”, francofonia, que terá sido criada em 1880, mas só posta ao serviço do país a partir de 1960, quando a França deixa de ser potência colonial.

 

Portugal... acorda para isso bem mais tarde, depois de ter reconhecido todos os seus, profundos, erros da descolonização, de que deveria ter mais experiência do que qualquer outro. Não falando em Bombaim que “amavelmente” ofereceu aos ingleses, já em 1822 tinha passado pelo vexame de não querer reconhecer a independência do seu “maior” e mais querido filho!

 

Corre “atrás do prejuízo”, cria os PALOP´s e com eles nasce a tal Lusofonia.

 

Se nos limitarmos à ideia simplória do que seja Lusofonia = entendimento, por oposto ao que seria, e talvez ainda seja, uma Babel, um diálogo de surdos, o desenvolvimento desta comunidade pode ser uma maravilha.

 

Para isso é fundamental não permitir que se crie no espírito dos Outros, aqueles que têm a língua portuguesa com língua de cultura ou franca, o que se passou, e talvez ainda se passe, nas ex-colónias francesas, que começaram por recusar a francofonia que lhes surgia “como uma máquina de guerra visando manter as possessões francesas amarradas a uma dependência linguística e colonial”.

 

O Brasil já decretou que a segunda língua a ser ensinada nas escolas vai ser o castelhano. Não admira, porque está rodeado de países castelhanófilos por quase todo o lado. Deveria ter decretado que fosse uma das línguas vernáculas, como o tupi ou nheengatu. Não o fez, o que é pena, mas...

 

Nada disto o vai afastar da língua portuguesa, como alguns velhos do Restelo já manifestaram, de forma tão caricata e egoísta que perde todo o senso de verdade. Se o Brasil trocasse a língua, o que não acontece porque não é exactamente uma mercadoria que se pode tornar obsoleta e descartável, Portugal choraria no seu orgulho ferido, no seu isolamento, mesmo dentro da UE. Como isso não deve acontecer, ainda insiste em olhar os Outros umbiculatus às caravelas!

 

Chegam a sorrir do alto das suas baixas cátedras quando se dão conta que alguns dos tais Outros, soberanos povos, escrevem registro ou embasar, porque Camões talvez preferisse registo ou basear.

 

Entendimento sim. Mas primeiro o respeito. E por fim... aproveitar o que os jovens têm para nos enriquecer a todos. Sempre.

 

Mas Lusofonia? Com os olhos de quem? Do venturoso Manuel I°, rei de Portugal, dos Algarves, d´Aquém, d´Além Taprobana e do que mais au diante s´ouvirá?

 

Portugal há muito, muito, deixou de ser o pai, o irmão mais velho, o guardião dos “bons costumes”. Houve um período, de crucial importância, em que esse pai parece ter ele próprio imigrado, deixando os “filhos” abandonados a si próprios; um dia repara que os filhos tinham crescido, estavam feitos, independentes, com o seu próprio esforço e a graça de Deus. Então o “velho pai” reaparece e quer reentrar para o seio da família. Entrou e trouxe madrasta atrás, a UE.

Quer reassumir as funções de condutor! As barbas dos Vascos da Gama e outros ilustres, do alto do seus conhecimentos, tremeram! As barbas dos avós, mais experientes, mais sensatos, que sem terem o que perder, reconhecem de imediato a maioridade daqueles que passaram a ter que dar satisfações unicamente aos seus, às suas casas. O “pai” não aceitou isso com facilidade. Teimoso, acaba por afastar os filhos, que podem até respeitá-lo, mas não admitem interferências. Se quiserem conselhos eles os irão solicitar.

 

Nas festas dos seus aniversários estes comemoram o terem nascido, crescido, vingado. Aquele quer lembrar-se do que fez para o nascimento.

 

Estes erram, quando em vez, tropeçam, levantam-se e querem seguir em frente com toda a força da sua juventude. Aquele esquece os erros que cometeu e as palmadas que lhes deu, quanta vez sem razão!

 

Não se pode ficar sentado em cima de ruínas do passado, olhando para baixo, nem na cabeceira das mesas de reuniões! Ninguém mais lidera ninguém.

 

Se queremos todos a Lusofonia, se queremos permanecer unidos, só o conseguiremos desde que se olhe para qualquer um de “nós” como exatamente igual.

 

O Brasil não é só samba, como Angola não é só fome e diamantes, nem os Outros são só... assim como Portugal também não é o dono da verdade.

 

Em primeiro lugar somos todos gente. Nenhum pode pensar de outro jeito.

 

Se o fizer, ou ainda não assimilou que o neocolonialismo, como qualquer outro complexo, que são vírus a eliminar.

 

E, entre irmãos, vamos acabar com os vírus ou... nos afastamos.

 

É sabido que no Brasil se fala e escreve de forma diferente de Portugal. E em Angola. E em Moçambique e em Cabo Verde, e em... Eu acho isso óptimo, desde que não se deturpe ou se estropie a concordância o que prejudicaria o entendimento.

 

Nos casos, por exemplo: "se casou" ou "casou-se"; para mim é igual (tal como escreveu o grande Mestre Agostinho da Silva) e assim uso indiferentemente uma "fórmula" ou outra de acordo com a situação que, no momento, me soa (soa-me?) melhor ao ouvido.

 

Sou um intransigente defensor do que considero (pelo meu prisma/ bitola de educação e conhecimentos) da verdade e correção (aqui já se tirou o "c" mudo que, teoricamente, abria a vogal antecedente).

 

Fazem-se acordos ortográficos com uma dúzia de mestres jarretas e depois, mesmo admitindo que chegam a acordo, entra em vigor por Lei e pouca gente disso toma conhecimento. E por fim revoga-se a lei, o acordo e tudo que seja complicar o que é tão simples.

 

Mas o que vejo com imenso gosto é que o enriquecimento da língua portuguesa, com todos estes detalhes, muitos deles que nem técnicos são, mas somente diletantes, é inegável. Entram vocábulos, continuam a entrar, de todos os cantos do mundo, criam-se novos com gente como José Luandino Vieira, Mia Couto e o grande brasileiro João Guimarães Rosa, e em vez de os desprezarmos devíamos agarrá-los, todos, com unhas e dentes.

 

Garrett foi censurado pelos seus anglicismos.

 

Em vez de juntarmos os sábios no Olimpo, devíamos andar a catar por todos os cantos da tal Lusofonia as palavras que em todos esses cantos fazem parte do vocabulário corrente, popular, e introduzi-las num dicionário único para o conhecimento dos tais 250 milhões.

 

Não deveria, nem poderia chamar-se (olha o "se" depois!) Dicionário de Português, mas com humildade, ou antes, com verdade: Dicionário da, e não de, Lusofonia. Teria talvez mais de 3.000 páginas, e pelo menos um comprador: eu!

 

Aí entraria: garina, molecagem, cachupa, maximbombo, treco, machamba, putos, como há séculos entrou o caqui, que vem do hindu e que significa exatamente aquela cor amarelada... do caqui, e entrou o tanque, vindo do mesmo povo!

 

Também era bom que explicasse coisas como: no Brasil talho é açougue mas todos os açougues têm um talho!!! E que a palavra troço, no Brasil pode ser um monte coisas, como por exemplo: um sujeito cai para o lado com um ataque e o povo diz: Deu-lhe um troço! ou então o sujeito engasga-se, tosse e por fim: "entrou-me aqui um troço...".

 

E ainda poderia explicar que bolsos e algibeiras são, mais ou menos, a mesma coisa. Com a diferença que ninguém no Brasil tem algibeiras na roupa! Só tem bolsos!

 

A conversa está bâoa, mas vou ficar por aqui. Este assunto continua no próximo número!

 

Com o aumento do turismo imagnemos o seguinte diálogo. Qualquer aeroporto no Brasil. Chega uma excursão de portugueses a visitar este Novo Mundo. É recebida por um simpático agente de viagens, Severino.

 

- Seu Severino?! Ora venha lá esse bacalhau!

(! ? ! ? Severino ter-se-á esquecido de levar balhau para o aeroporto?)

- Seu Joaquim, estimo que o siô tenha feito uma ótima viagem.

- Muito boa. Viemos na brasa. Olhe, trouxe uma chusma da minha confraria p´ra ver o que o nosso primo descobriu.

- Ahhh! O siô tem aqui um primo?

- O Cabral, rapaz. O Cabral é que descobriu! Queremos ver o que aquele gajo descobriu com os balúrdios que lhe deram p´rá biage. Vamos lá na mecha entrar nessa caminete.

- Olhe bem, oh! seu Joaquim. Vamos por partes: a chusma que o siô diz que traz aí, vai ter que declarar na alfândega, p´ra não ter póbremas. Depois o seu Cabral não descobriu quase nada porque mal esteve onde é hoje Porto Seguro, e por fim não consta que ele tivesse deixado por aí qualquer balúrdio. Mas podemos indagar. Ainda mais uma coisinha, só. Se querem ir para a Mecha, vamos ter de perguntar onde isso fica, que eu, há 50 anos aqui... não conheço. E ir de caminete... é muito incomodo. Só pau de arara.

- Não é nada disso amigo Severino. E isso de ir na mecha quer dizer nas gáspeas, na ponta da unha. E trazemos nas algibeiras um bocado de carcanhóis p´ra gozar.

- ?!?!?

- Nós queremos é ver as maravilhas desta terra.

- Ah! Isso tem p´ra chuchu.

- Qual chuchu qual carapuça. Ninguém daqui quer chuchu, mas vamos todos ficar à coca a ver se passa alguma rapariga atiradiça.

- ? ! ? !

- P´ra começar, amigo Severino não me arranja aí uma malga d´áuga?

- Ai! Que me vai dar um troço! Esta profissão é uma choça!

 

Neste momento Severino dá-se por vencido. Arrasado. Por azar nem sequer traz consigo um dicionário de português Lá-Cá-Vice-Versa. De qualquer modo coca é assunto tabu, e ele, agente de viagens credenciado, não quer entrar nos domínios do narcotráfico. Pior ainda com raparigas e ainda por cima atiradiças. E terá que se haver com mechas, gáspeas e pontas de unha. É macumba. Que Deus o livre e mais o Senhor do Bonfim sem faltar o “padim Ciço”!

 

Linguagem bonita, variegada, mas incompreensível. Balúrdio p´ra cá, chuchu p´ra lá, coca e chusma., e etcs..

 

Joaquim insiste:

- Amigo Severino! Onde é que posso arrear o calhau? Estou à rasca e ainda por cima vim no avião no meio duns bifes, parvos, armados em carapaus de corrida! Nem consegui matabichar em condições.

 

E chamam a isto Lusofonia.

 

Severino chora, desespera-se, e sonha com clientes chineses. Muito mais fácil. Muito “xin” e muito “fun” mas com a grande vantagem do gesto que explica tudo.

 

Finalmente, bagagens despachadas, a chusma à porta do aeroporto aparece seu Severino no ônibus para os levar ao hotel.

 

Joaquim, ao seu lado não perde por continuar a conversa. Aliás o monólogo.

 

- Sabe? Eu aldrabei os meus compadres e disse-lhes que íamos ficar num hotel que só tem burros! E por isso era mais em conta.

- ! ? ! ? ! ? !

- Mas como eles são todos uns carolas, sabe?, dois são chúis e um é cabo de esquadra, afeitos a topar qualquer léria, não se preocuparam. Só um é que não devia ter vindo. É um rabeta, todo do reviralho, que no tempo do António da calçada levou umas sarrafadas boas e agora está meio xarope!

- ! ? ! ? ! ?

- Seu Joaquim! O siô por acaso não sabe falar português?

 

A (des)conversa deixara-o demasiado encucado. Aqueles caras falam uma língua estranha entremeada de português. Deviam ser, no mínimo do Pralàquestão.

 

Pois é sim do “Pra lá que estão”, feitos donos da língua, quando eles mesmo têm dificuldade em unificá-la e entender-se.

 

Viatura automóvel de transporte coletivo, de 20 ou 40 lugares pode chamar-se, nos países lusófonos, autocarro, tócar quando se está apressado, caminete, ônibus, maximbombo, chapa cem (ou duzentos, agora que está mais caro!) e talvez ainda mais nomes, sobretudo hoje aos de menor capacidade, como lotação, van e kombi!.

 

Queremos Lusofonia? Então temos que fazer alguma coisa por isso. Alguma coisa, não. Muita coisa.

 

Lusofonia não são carcanhóis, chusma de balúrdios nem malga d´áuga. Mas é também tudo isso. Entram ainda os sarrafeiros do reviralho, as garinas e os maximbombos, uma boa larada e uma brasa, quer esta seja uma mulher, uma boa sesta, velocidade alta ou uma criança remexida como cantava o Adoniran Barbosa.

 

Mas, por favor, entendamo-nos. Não custa muito. É só, todos, querermos.

 

Vamos fazer um dicionário da LUSOFONIA?

 

02/09/03

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Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:19
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016
YE OLDE EUROPE

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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016
YE OLDE EUROPE

EURO002.jpg

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:49
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ALFABETIZAÇÃO FALHADA!

 

Moçambique – 1973-74

 

Aí por 1973, em Lourenço Marques. Apareceu no banco onde eu trabalhava, o BCCI, um professor, cujo nome há muito esqueci, infelizmente, que há anos andava a estudar um método de alfabetização das massas populares, sem que estas tivessem necessidade de frequentar escolas. O ensino seria feito através da rádio!

 

Pela explicação que o professor deu, o método parecia extremamente bem arquitectado, o assunto mereceu o maior interesse do banco e começámos a discuti-lo com mais profundidade, para ver da possibilidade de pôr o plano em funcionamento.

 

Não me lembro que técnica o professor usaria, mas alguma coisa estaria baseada no que o missionário americano Franck C. Laubach (1884 – 1970), um missionário protestante conhecido nos EUA e nas Filipinas como "O apóstolo dos analfabetos", ensaiara com grande sucesso e o educador brasileiro Paulo Freire havia experimentado com muito êxito no Brasil, de onde, após a instalação da ditadura militar teve que sair para se exilar no exterior, por considerarem que o método era politicamente revolucionário. Também era, como é qualquer método que leve as populações a terem acesso à informação, ao conhecimento, à cultura, e saibam assim exigir aquilo a que têm direito.

 

FGA-Laubach.jpg

 Franck C. Laubach

 

Aprovado o projecto, que se deveria circunscrever inicialmente à capital e sua cintura populacional, para que se pudesse acompanhar a evolução do ensino e, eventualmente introduzir as necessárias alterações ou correcções, partimos para a sua execução.

 

Ficou bem assente que se os textos envolvessem tendências políticas, logo a PIDE, além de proibir a sua utilização, ainda nos trancafiava a todos atrás das grades. Tipo Inquisição perfeita e sofisticada, que lá mais nos antigamentes chegou até a querer destruir Luís de Camões, que esteve em risco de ser proibido de editar “Os Lusíadas”!

 

O sistema, ou método, compunha-se basicamente de três pontos:

- Impressão de um livro/caderno, e sua distribuição gratuita entre a população interessada;

- Programa de rádio, diário, que explicaria aos alunos como associar o que viam escrito nos cadernos a letras do alfabeto;

- Exames periódicos, sem a necessidade da presença do interessado, através de uma ou mais folhas destacáveis do caderno a serem entregues em locais pré-estabelecidos, as quais depois de analisadas informariam o aluno do seu aproveitamento.

 

Pelos cálculos do professor, cada turma não demoraria mais do que três meses a aprender a ler e começar a escrever. Era um método surpreendente! Num instante a grande maioria da população poderia estar, no mínimo, a ler!

 

Previa-se, para a primeira rodada a distribuição de uma ou duas dezenas de milhares de cadernos, calculando-se que de início o aproveitamento final seria de trinta a quarenta por cento.

 

As rádios contactadas puseram os seus microfones à disposição do programa, sem qualquer custo, o que não era nenhuma gentileza porque se previa que a grande maioria da população, pobre e/ou analfabeta, com uma imensa fome de aprender, ia sintonizar, de manhã bem cedo, os seus rádios na emissora escolhida!

 

Orçamentos de impressão e divulgação do programa, prontos. Os interessados só teriam que ir a uma das agências do nosso banco solicitar a entrega de um caderno, oferecido, como é óbvio, e deixar o seu nome inscrito para controle dos resultados. Podiam até dar nome falso que ninguém iria conferir.

 

O professor revisava os textos a serem entregues na gráfica, para não cair ingenuamente, ou quem sabe, deliberadamente, nas garras dos pides, e nós, no banco, entusiasmados com o resultado social que esperávamos alcançar.

 

Chegou a revolução dos cravos, e como se está mesmo a ver ficou tudo encravado! Suspendeu-se o programa até se poder ver um pouco do que estava à frente para vir. Não demorou que o governo, português, anunciasse que ia entrar um novo governo de transição, até à entrega definitiva do país após a sua independência.

 

Logo que assentou um pouco a poeira dos novos sovietizados governantes provisórios/transitórios, pedimos uma audiência ao provisório ministro da educação. Jovem, alto, quase não falava português, formado numa universidade de non whites em Durban, na África do Sul, compreensivelmente racista, encarando os brancos, todos, como inimigos, recebeu-me com uma frieza polar. A seu lado uma directora de serviços, moçambicana, formada na Universidade de Coimbra, cultura com que podíamos dialogar, jovem, bonita (já tinha marcado a sua bela presença na cidade!) e simpática. Mas o ministro não era ela.

 

Expus, detalhadamente o programa que tínhamos levado quase um ano a montar, e que estava pronto a ser posto em funcionamento.

 

Como era evidente o novo governo deveria rever os textos e dar-lhe o sentido que entendesse. O professor estava pronto a fazer as necessárias alterações. Tudo quanto faltava era mandar imprimir os cadernos, o que o banco continuava disposto a fazer a seu cargo, distribui-los e começar.

 

O ministro, ouviu, ouviu, sua cara imóvel como uma máscara maconde.

- Porque é que o banco, sendo uma empresa capitalista, quer alfabetizar as populações?

 

Já faltava mesmo uma perguntinha de caráter vermelhusco!

- O senhor sabe que em qualquer parte do mundo todas as empresas visam um lucro. Mesmo no bloco soviético. Se não tiverem lucro quem arca com as despesas é o povo! No mundo ocidental é o mesmo. A única coisa que há a fazer é controlar as margens para que não sejam abusivas. Além disso o banco ao pensar neste projecto, olhou para o futuro, e como tudo quanto um banco tem para oferecer, qualquer outro banco também tem, aos mesmos custos, imaginámos que este investimento nos poderia trazer um dia, bem mais tarde, a simpatia da população e assim termos mais facilidade em cativar clientes.

- Mas porque é que o banco, sendo uma empresa capitalista quer alfabetizar as populações?

 

A mesma pergunta! Ou estava a gozar comigo ou algo novo estava a aparecer-lhe pela frente, coisa que ele nem imaginava que pudesse existir.

 

Respondi dentro da mesma tónica e rebuscava no fundo das minhas capacidades, argumentos que o convencessem que, da parte do banco, não havia jogo escondido, político, de branco contra negro, ou anti independência, sei lá! Sei que suei para tentar arrancar daquela cara fechada a sete chaves algo que pudesse permitir uma troca de ideias mais normal.

 

A mocinha, lindona, de vez em quando, sem que o chefe visse, ia assentindo, naturalmente, com a cabeça, parecendo concordar que o programa só poderia trazer vantagens até para o novo governo, dentro da medida em que a revisão dos textos levasse a introduzir frases de nova mentalização, o que era fácil. Tudo isto expus ao ministro. Ao fim de uma hora de muita luta verbal aquela máscara moveu um pequeno músculo! Aleluia! Começava a sair detrás de todo aquele gelo e a ser só gente.

 

Nessa altura descontraí um pouco a conversa e, glória minha, desculpem a imodéstia, consegui fazer sorrir aquele homem, inteligente, mas certamente também traumatizado, o que permitiu que a troca de ideias fluísse mais naturalmente.

 

Saí de lá com a certeza de que o diálogo estava estabelecido. A primeira hora tinha sido unicamente um extenuante monólogo. À despedida disse-me que tinha pela frente uma tarefa imensa e dificílima, o que eu sabia ser verdade, ia pensar nisso e na próxima semana voltaríamos a falar.

- A doutora... lhe telefonará.

 

Aguardei, e lá veio um dia o telefonema marcando outra reunião. O ministro já não trouxe a máscara. Vinha com cara de gente. Infelizmente tantas eram as suas preocupações, e tão pouca a gente disponível para montar toda uma nova estrutura educacional, num país novo, não podiam comprometer-se em lançar esse programa durante os primeiros tempos.

- Talvez mais tarde.

 

Não houve, nunca mais, esse mais tarde. Tive muita pena que não tivessem aceite. Estava tudo feito, pronto, e teria sido uma tremenda ajuda ao novo país, totalmente desinteressada. O trabalho deve ter-se perdido, mas quem mais perdeu foram aqueles que não se alfabetizaram.

 

Escrito em 2001. Revisto em 5-nov-16

 

Francisco Gomes de Amorim, 2016

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:41
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Domingo, 6 de Novembro de 2016
YE OLDE EUROPE

EURO001.jpg

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:25
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016
DO BRASIL E DO VATICANO

 

 

Cheio de boas intenções está o inferno! E assim estou eu, que já prometi a mim mesmo e aos que têm coragem de ler o que escrevo para o blog, que não falaria mais sobre as “coisas brasilienses”. Mas é difícil ficar muito tempo com a garganta cheia de podridão e não a poder pôr para fora.

 

Nada de falar em política porque então a boca enche-se de trampa, para não usar outra palavra de tonalidade mais sonante e malcheirosa.

 

Vamos só a “pequenos detalhes” da vida quotidiana.

 

O juro anual do cartão de crédito atingiu os píncaros da insanidade: 480% ao ano! Façam as contas. Quem estiver um ano devendo dez mil reais e finalmente tiver a sorte de arranjar alguma graninha para pagar, vai ao banco e recebe uma notícia esplendorosa: afinal você SÓ deve $ 58.000! Beleza, né?

 

O cliente diz logo que não paga e deixa correr. Ao fim de um, dois, três anos, o banco quer resolver a situação e propõe um descontinho, quando a dívida já vai, especulativamente em centenas (58 mil no 1° ano, 116 no 2°, e 570 mil no 5°). Melhor negócio do que isto, só abrir uma igreja e fazer milagres aos domingos e dias de feriado!

 

Há dias, precisei de uma moto serra. Pequena, eléctrica. Pesquisei e, por acaso, fui parar a um site em Portugal. Achei estranho o preço 29,90! Só depois reparei que era em Euros, o equivalente por estas bandas a cerca de cem Reais. Depois, encontrei a mesma máquina, no Brasil, só que o precinho era um quanto diferente: $ 195,00. O dobro. Mas também não é para admirar. O Brasil é mais de 100 vezes maior que Portugal, deve vender milhares de moto-serras mais do que em Portugal e paga, de certeza, muito mais impostos.

 

O jornal de hoje traz mais uma notícia surpreendente: em 2015 foram cobrados a mais, por engano, SÓ mais de R$ 1.825.000.000, – isso mesmo um bilhão oitocentos e vinte cinco milhões de reais – nas contas de energia eléctrica dos consumidores. Engano curioso! Nunca mais vão devolver esse dinheiro extorquido ao zé-pagante!

 

Só mais uma: na semana passada, a Petrobrás, a “senhora” do maior escândalo de corrupção da história da humanidez, anunciou que ia baixar o preço da gasolina, já que o preço no Brasil é igual aos mais altos níveis do mundo! E temos petróleo. Magnífico.

 

No dia seguinte as distribuidoras informaram que iam aumentar 3% nos postos. Ora digam lá se isto não é sincronia perfeita. Eu disse sim, CORNIA! Um baixa, o outro sobe e assim se mantém o desequilíbrio deste insano desgoverno.

 

País tropical... abençoado coqueiro...

 

Maledetti!

 

# # #

 

Agora vamos ao Vaticano e começo por reafirmar que sou fã do Papa Francisco e procuro seguir, tanto quanto a minha fraqueza mo permite, a palavra de Cristo.

 

Mas algo de estranho se passa no Reino da Dinamarca, perdão no Reino do Vaticano, quando a

 

Igreja Católica proíbe fiéis de jogar as cinzas dos mortos ou guardá-las em casa.

 

O descumprimento da medida pode impedir funeral do falecido!

 

A Igreja Católica ainda prefere enterrar os mortos, mas quando — por razões de higiene ou por vontade expressa do finado — se optar pela cremação, proíbe (!) a partir desta terça-feira, que as cinzas sejam espalhadas, distribuídas entre os familiares ou conservadas em casa. Segundo um documento escrito pela Congregação para a Doutrina da Fé – o famigerado e maldito para sempre, o antigo Santo Oficio – e assinado pelo Papa Francisco, a proibição destina-se a evitar qualquer “mal-entendido panteísta, naturalista ou niilista”.

 

FGA-Gerhard, Cardinal Müller.jpg

 

O ultra-conservador líder da Congregação, o cardeal alemão Gerhard Müller, chegou a dizer durante a apresentação do documento: “Os mortos não são propriedade da família, são filhos de Deus, fazem parte de Deus e esperam em um campo santo a ressurreição”.

 

Que terrível engano ou presunção. Quem pensa o cardeal Müller que é? O próprio Deus? Torquemada? Ou já está senil? Deve ter feito contacto, profundo, com o seu parente Alzheimer!

 

Deus cedeu-nos um corpo, corrupto, corrompível, para aí depositar o seu Espírito. O Espírito pertence a Deus, o corpo às cinzas. Nós somos pó, viemos do pó e ao pó retornaremos.

 

O documento aprovado, intitulado Instrução Ad resurgendum cum Christo e que substitui um anterior de 1963, adverte que “não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou em qualquer outra forma, ou a transformação das cinzas em lembranças comemorativas, peças de jóias ou outros artigos” (1). E o documento vai mais longe: “No caso em que o falecido tenha sido submetido à cremação e ocorra a dispersão de suas cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã (2), o seu funeral será negado”. A Congregação para a Doutrina da Fé justifica a elaboração de um documento tão drástico como reacção às novas práticas na sepultura e na cremação “contrárias à fé da Igreja”.

Segundo esta Congregação, as cinzas devem ser mantidas “como regra geral, em um lugar sagrado, ou seja, no cemitério, ou, se for o caso, em uma igreja ou em uma área especialmente dedicada para tal fim por autoridade eclesiástica competente”. Embora a Igreja admita que “não vê razões doutrinais” para proibir a cremação – “a cremação do cadáver não toca a alma e não impede a omnipotência divina de ressuscitar o corpo” (3) –, o Secretário da Comissão Teológica Internacional, Serge-Thomas Bonino, descreveu-a como “algo brutal”, por se tratar de “um processo que não é natural, no qual intervém a técnica e que também não permite que pessoas próximas se acostumem com a falta de um ente querido”.

Serge-Thomas-Bonino-OP.jpg

 

Parece estranho que o Papa Francisco tenha pactuado com tamanho absurdo.

 

Onde assinalado com (1), a frase parece outra piada. Aliás de muito mau gosto. Desde os primórdios, a Igreja tem feito milhões na venda de relicários, 99,999% falsos, como um pedaço do lenho da Cruz, que todos juntos devem ter alcançado milhares de toneladas de madeira, ossos de alguns santos, que tanto poderiam ser do santo como de um cachorro ou de uma vaca, pedacinhos da roupa usada por alguma santa, que ninguém sabe se ela a usou ou se foram comprados a metro num tecelão, e muitos desses relicários as pessoas usavam e ainda usam como uma jóia, pendurada no pescoço ou no pulso, numa caixa, num altar, etc. E agora vem dizer que não pode! Esgotou o stock? Ou esqueceu de se desculpar, perante os incautos, sobre as toneladas de dinheiro que através dos séculos embolsou com essas falsidades?

 

No ponto (2) o que será que os Alzheimers do Vaticano consideram “dispersar as cinzas na natureza por razões contrárias à fé da Igreja? Para já a Igreja não tem fé. Quem tem fé ou pode tê-la são os fiéis, e não há igreja nenhuma no mundo, nem haverá, que possa impor uma fé. Fé não se adquire como um relicário. Nem o relicário protege dos ataques e tentações do demo.

 

E acrescenta que pode negar o funeral. Absurdo, e crime contra a consciência e fé de cada um.

 

Eu já vivi este problema. Não perdi a fé em Cristo, mas abominei a hierarquia que se julga ainda com direito de queimar qualquer Joana d’Arc ou Jacques de Molay!

 

O que terão feito com as suas cinzas?

 

No ponto (3) vem um choradinho que hoje já só é aceite por... por quem?

 

A ressurreição dos mortos, queimados, cinzas espalhadas ou não, o que eventualmente, um dia, “ressuscitará” será o Espírito que se unirá ao TODO e NADA. Nada de corpos. Do pó viestes...

 

Por fim, o senhor Bonino a descreveu, a cremação como “algo brutal” por se tratar de “um processo que não é natural, no qual intervém a técnica e que não permite que pessoas próximas se acostumem com a falta de um ente querido”.

 

O tal Bonino acha que a cremação é algo brutal, que não é natural, onde intervém a técnica, etc. Seria bom que ele se explicasse melhor, dizendo qual técnica usou a Inquisição na fogueira da Joana d’Arc e de milhares e milhares de outros e outras infelizes, que tiveram, ou não, a coragem de não dizerem sempre amém, técnicas da Igreja assistidas e aplaudidas por reis, cardeais, bispos e babacas em geral.

 

Nunca imaginei que o pensamento medieval continuasse a imperar no Vaticano e que obriguem o bom Papa a assinar absurdos.

 

Seria melhor que o cardeal Alzheimer e o secretário Bonino respeitassem o luto de cada um.

 

Não é por dispersar as cinzas que vamos esquecer os entes queridos. Eu sei bem disso.

 

Jamais seria capaz de erigir um Mausoléu em mármore e esculturas de Michelangelo para depositar o corpo de qualquer dos meus entes mais queridos, só para exibir perante a sociedade o meu, imaginário, padrão financeiro.

 

Papa Francisco, a minha consideração por si não diminuiu. Mas deixou-me triste.

 

Pior, as igrejas dissidentes vão dar risada.

 

27/10/2016

 

Francisco Gomes de Amorim, 2016

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:07
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016
ÁFRICA

 

Vida Vivida – 2

 

Mais algumas memórias, rebuscadas com saudade e tristeza. O trazê-las de novo à vida faz que não desapareçam.

 

Num dos últimos textos falei de um grande amigo, o Renato Lima, e só me faz bem relembrar mais uma pequena passagem da sua vida. Como já disse o Renato era um bom garfo e um razoável copo. Nada demais, e sobretudo um grande e alegre companheiro.

 

No tempo em que ainda se caçava, com disciplina e sem destruir o meio ambiente, lá fomos, num fim-de-semana, um grupo normalmente “capitaneado por outro Grande Amigo, o Zé Neto – José Ferreira Neto – grande caçador e também um magnífico companheiro.

 

Tanto o Renato como o Zé Neto teriam uns 15 a 17 anos mais do que eu, mas considerávamo-nos como irmãos.

 

FGA-Renato Lima.jpg

Renato Lima aí por 1960 e... tal

 

Nesse dia, depois de muito penar, caçou-se um antílope, talvez um Sembo ou Nunce (Redunca arundinum), macho solitário, bem grandinho, que devia pesar uns 65 a 70 kilos. E sempre a carne destes antílopes era coisa de reis. Melhor, de imperadores!

 

De Portugal, por navio, um amigo tinha mandado ao Zé Neto dois garrafões dum vinho, safra “especial” da sua propriedade! Então, face a essa gulosa perspectiva, assentou-se que seria em sua casa que se faria a almoçarada acompanhada da viajada preciosidade.

 

Como eu era parte do espólio cinegético, propus levar mais um convidado, o Renato, que não conhecia os donos da casa.

 

A dona da casa, Arlete, era uma excelente pessoa. Nunca a vi reclamar de nada e sempre recebia os amigos com uma especial lhaneza. Uma senhora e mãe de família que sempre admirei e muito estimei. E tinha um óptimo cozinheiro.

 

FGA-Zé Neto.jpg

Zé Neto, grande amigo e grande caçador

 

Antes do almoço chegar à mesa, abre-se o primeiro garrafão... estragado! E o segundo. As rolhas não aguentaram a viagem e o tal “magnífico”... azedou. (Por isso o bom vinho de garrafão seguia de Portugal para África com um grande capacete de gesso). A garrafeira da casa supria esse lamentável prejuízo, além das Cucas que eu podia providenciar. Entretanto, avança sala dentro o magnífico Sembo, assado, lindas batatas bem coradas à ilharga, que se foi sempre regando, indirectamente, com uns quantos copos de vinho ou de cerveja.

 

No fim do pantagruélico repasto, o Renato, com os seus 90 ou mais kilos estava com um tremendo peso nas pálpebras e só conseguiu dizer que precisava dormir um pouco. Ninguém causou problema.

 

- Nesta casa está à vontade.

 

Foi-se deitar na cama de um dos quatro filhos e roncou umas boas duas horas! Quando acordou estava envergonhadíssimo. Mas fazer cerimónia, em Angola, entre amigos, era coisa inexistente, apesar de ir dormir a sesta quando se vai pela primeira vez a casa de alguém...

 

Voltemos ao meu secretário, o famoso António

 

Como disse em texto anterior, o António era o guardião da minha casa quando eu me ausentava de Benguela, antes da minha mulher lá ter ido.

 

E também contei que tinha ido fazer um estágio numa fábrica na África do Sul. No final do estágio e do jantar de despedida, a fábrica entregou a cada um seu diploma, constando que tinha feito o estágio, de tal a tal dia, assinado por dois diretores, e autenticado, como era de praxe, com um selo de lacre e duas fitinhas de gorgorão (também sei coisas femininas!) nas cores vermelha e amarela, as cores das máquinas. Muito bonitinho.

 

Um mês ou dois depois do regresso, da sede da Lusolanda, em Luanda, o patrão mandou dizer-me que devia emoldurar o diploma e colocá-lo na loja para valorizar a nossa organização perante os clientes. Tudo bem.

 

Como a casa era espaçosa para um jovem casal, um dos quartos serviu durante muito tempo para guardar as tralhas que aos poucos se iam arrumando. Em casa, dei volta a tudo, sobretudo nesse quarto da arrumação, que era uma desarrumação, com o pouco que tínhamos no princípio da nossa vida, mas o tal de diploma, aparecer é que nada. A minha mulher já estava lá em casa e nada sabia do bendito diploma. Mistério!

 

Mesmo com a dona de casa em casa, no início da sua estadia, quase todos os dias, depois do trabalho, o António ia até lá para ajudar a arrumar caixas e minudências, ganhando assim mais um trocado.

 

O António era um tipo sensacional.

 

Foi ele que me ajudou a desencaixotar os trastes, idos de Lisboa, que em Angola viraram imbambas ou bicuatas.

 

Bom a conversa está muito boa, mas e o diploma? Cadê o diploma?

 

É verdade. Depois de me certificar que não o encontrava, conclui que só o António poderia saber do seu paradeiro, visto ser a única pessoa, além do casal, que tinha acesso a nossa casa e àquele quarto, donde nunca, nunca, tirou uma migalha. Já tínhamos contratado um cozinheiro, mas além de mim e da minha mulher só ele entrava no quarto que tinha espalhado no chão um monte de coisas, como louças, livros, bibelôs, etc. Não só não tínhamos móveis suficientes onde os guardar, precisavam de ser separados e arrumados, mesmo que ficassem no chão.

 

Ali, algures, por cima daquela tralha, daquela bagulhada, tinha sido guardado o diploma.

 

O António quando lhe falei nisso fez-se vermelho (é verdade, sim, os pretos também coram, lá por terem a pele escura, vê-se muito bem) e quase jurou que não tinha visto o tal papel bonitinho.

 

Cacei o mistério!

 

- António! Eu quero esse diploma aqui, amanhã! Sem falta.

 

No amanhã o diploma estava lá! Um pouco amarrotado com a viagem de ida e volta até casa do António, claro, mas... o lacre e as fitinhas de gorgorão não regressaram!

 

Aquelas fitinhas e o lacre foram mais fortes do que a resistência do António contra tentações! Pratos, copos e outros quejandos ele conhecia bem, havia visto muitos toda a sua vida, mas um papel com aquele enfeite bonito...

 

Resultado: não se emoldurou o diploma, não voltei a falar nele ao pobre homem que caíra naquela terrível tentação, guardei-o por muito tempo, amarrotado e sujo, porque a história me enternecia e por culpa agora das nossas muitas outras viagens mundo fora, com a casa às costas, o diploma... sumiu!

 

Ficou a saudade. Grande António! Saravá António!

 

--- * ---

O cozinheiro e as pescadinhas

 

Como não é difícil de imaginar, a dona da casa... não demorou a ficar à espera do primeiro filho. E passou por aquela clássica fase do enjoo!

 

Um dia chego a casa para almoçar, mamãe deitada, enjoada, nem sequer podia ouvir falar em comida! Almocinho, que é bom, nada!

 

O cozinheiro aguardava instruções, paciente, sentado na mureta exterior da entrada da cozinha, em equilíbrio de fazer inveja ao Cirque du Soleil, e a uns 4 ou 5 metros de altura dormia que nem um justo, que era.

 

Passo-lhe a mão por fora, para que ele não se assustasse quando o chamasse, não fosse cair dali abaixo, dou um grito (meio grito!) perto do ouvido dele, que em vez de se assustar, abriu tranquilamente os olhos.

 

- Sebastião (faz de conta que ele se chamava assim), não tem almoço!

- Não, patrão.

- E agora?

- Se o patrão quiser eu vou ali ao mercado e compro umas pescadinhas.

- Quando custam?

- Um e quinhenta, seis.

 

Achei um disparate. Seis pescadinhas por um angolar e meio! Dei-lhe meia cinco, isto é, dois e cinquenta, e lá foi ele. E eu fiquei à espera que ele voltasse a dizer que o dinheiro não tinha chegado.

 

O mercado era perto da nossa casa. Não tardou muito o Sebastião voltou com as seis pescadinhas, lindas, fresquinhas, enfiadas num junco e... um angolar de troco!

 

Fê-las de “rabo na boca”, batatinhas cozinhas, eu almocei correndinho e voltei para o trabalho.

 

Mamãe, mesmo o cheiro, magnífico, das pescadinhas não quis testar!

 

Ah! Como eram lindos aqueles tempos!

 

E como era, e ainda é, maravilhoso o peixe daquelas águas!

 

23/10/2016

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 06:27
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016
ÁFRICA

 

VIDA VIVIDA

 

Quando dizíamos à nossa primeira neta para ela “puxar pela cabeça”, ela tentava, com as mãos, puxar a cabeça para cima!

 

Agora sou eu que puxo pela cabeça para ver o que ainda lá dentro encontro de historinhas “daquele tempo”, quando o mundo girava à nossa volta, visto que agora somos nós que giramos à volta da canalhice institucionalizada!

 

Eram bons tempos? Eram, sim, sem dúvida.

 

Sem computadores, Internet, desenfreada especulação financeira, os povos primitivos, alguns, ainda felizes e sem fome, ignorados pelos “simpáticos” exploradores/cooperantes, havia alguns resquícios de escravidão, como hoje continuam, enfim, mas quer parecer que havia mais respeito, mais ética, mais hombridade nas relações, individuais e mundiais.

 

Mas vamos às historinhas.

 

A primeira galinha “à cafreal”!

 

Chegado a Angola, Luanda, começo de Agosto de 1954, quinze dias depois fui levado pelo meu colega, e chefe (!), a uma volta pelo interior para conhecer e me acostumar àquela terra.

 

Primeira visita na Quibala.

 

Uns irmãos, transmontanos, cujos nomes já estão fora do meu arquivo cerebral, estavam a montar, ou organizar, uma fazenda. O mais novo assumiu essa tarefa enquanto os dois mais velhos continuavam a trabalhar para arranjarem o necessário dinheiro. A visita baseava-se numa consulta para a compra de um tractor, e implicava uma demonstração.

 

FGA - Quibala 1954.jpg

1954 – Com o Soba da Quibala

 

De manhã, tractor a postos, um pouco de terreno arado, discussão sobre os mais indicados implementos, condições de pagamento e outros assuntos chatos, chegou entretanto o meio-dia e todos com os estômagos a reclamar.

 

O proposto cliente tinha um único ajudante angolano para todas as tarefas necessárias, inclusive cozinhar. Era o Lisboa.

 

Enquanto o fazendeiro foi à “cidade” buscar uns garrafões de vinho, o meu chefe e eu ficámos a colaborar com o “mestre” Lisboa para apanhar uma das muitas galinhas que já ali criavam, à solta. Foi uma festa! O Lisboa fazia de goleiro enquanto nós corríamos atrás delas e as encaminhávamos para que ele as apanhasse. Lisboa voava, mas as ladinas aves sempre “metiam” golo. Eu já chorava de tanto rir, quando finalmente ele cai em cima de uma penosa, mete-lhe a indispensável faca na goela, depena-a e começa a assar, sempre com um punhado de penas na mão, que mergulhava num copo cheio de gindungo (piripiri) e pincelava a dita.

 

Entretanto o fazendeiro chegara com o vinho, fomo-nos sentar dentro da cubata improvisada, mas que, à boa moda transmontana, tinha pendurado do tecto um magnífico presunto! Talvez até de Chaves.

 

Lisboa, junto ao lume virando e pincelando a galinha e nós confortavelmente sentados em caixotes ou pedaços de árvores, cortando pequenas lascas do presunto, uns pedaços de pão (bom) e bebendo uns tragos.

 

Chegou a galinha! Linda. Gorda. Bem assada. Rapidamente destroçada e dividida, parte entregue ao artista da cozinha, e vá de saborear aquela maravilha.

 

O gindungo fora generosamente aplicado. As beiças ardiam desde perto do nariz até quase ao queixo, como se fossem elas que tivessem estado no fogo. O vinho, tinto de garrafão de capacete, num instante secou.

 

Já não lembro se o meu chefe fechou negócio. O Norte de Angola era área dele. A minha ficou o Sul.

 

Mas o que até hoje lembro com uma saudade imensa é do Lisboa e da galinha. A melhor galinha que comi em toda a minha vida!

 

* * *

O meu “ajudante”

 

Na Lusolanda, o meu primeiro trabalho em Angola, em Benguela (terra de tanta saudade), eu era o responsável pelo departamento de máquinas agrícola na metade sul de Angola.

 

Na loja, que incluía, no stand de vendas, o meu lugar de trabalho (mesa e um pequeno armário com catálogos e arquivos), depósito de peças lá atrás e mais um pátio para outras máquinas e caixotes ainda por abrir, além de mim, agora “chefe”, trabalhava o encarregado do depósito, o Mário Brás, um pseudo comunista, que me divertia em filosofias e discussões políticas, e o ajudante, António, super humilde, atencioso, sempre pronto a atender qualquer pedido que lhe fizesse.

 

FGA - António.jpg

O António (ao fundo, a minha mesa e a estante)

 

Volta e meia precisava duma ferramenta, chamava o António, e dizia:

- Vai lá dentro e traz-me...

 

Não tinha tempo de dizer o resto. António, prestimoso, corria lá dentro para ir buscar... o quê?

 

Apanhava a primeira coisa que lhe viesse à mão e voltava então, ar envergonhado, mãos atrás das costas, segurando qualquer objecto! Eu tentava ver o que ele trazia e quando descobria, dizia-lhe

- António: você nem ouviu o que disse “Eu queria um martelo!”

 

António, sorrindo, feliz, mostrava então que tinha trazido “o” martelo! Mas não era o que eu precisava.

- Muito bem. Agora escuta e não vai embora. Traz-me um alicate (ou qualquer outra coisa).

 

Vapt, vupt, António em poucos segundos estava de volta com o requerido alicate!

 

Esta cena repetiu-se inúmeras vezes, mas o António nunca deixou de querer resolver tudo a correr.

 

António, secretário particular

 

Os primeiros quase três meses em África, vivi-os “solteiro”. Já casado, tive que para lá seguir sozinho porque nos planos da empresa havia, além de uma estadia de duas semanas na África do Sul, num estágio na fábrica da Massey-Harris em Vereeniging, cerca de 50 kms a sul de Johannesburg, e percorrer parte do interior que me estava atribuído, para começar a conhecer o país, e, óbvio, alguns agricultores.

 

De Portugal levara uns quantos móveis, tinha alugado casa, que fui montando com a ajuda do “secretário particular” que nas minhas ausências dormia lá para “tomar conta”.

 

Estando em Benguela, o programa era simples. No fim do dia de trabalho, montava na minha bicicleta, António sentado no quadro e lá íamos até casa.

 

À noite saíamos, na mesma condição veicular, levava o António até perto da casa dele e eu ia jantar.

 

FGA-O Chefe.jpg

O “chefe”, sua viatura (de dois lugares e um “cavalo” de força) e a casa alugada (o andar de cima – óptimo!)

 

Uma noite, cortando caminho por ruas pouco frequentadas (eram todas assim, mas...) o farol da bicicleta aceso, surge no meio da rua uma cobra! Imensa! Aí com um metro e pouco? Talvez. António saltou logo fora e afastou-se como se tivesse visto o demo! Eu aproximei-me com a bicicleta. Consegui pôr-lhe a roda da frente em cima, atrás da cabeça, e... e depois? Ah! E depois disse ao António para arranjar alguma coisa, um pau, por exemplo, para matar a dita e aterrorizante serpente, que ninguém sabia se era venenosa ou não!

 

António lá encontrou a conveniente arma, mas não era capaz de se aproximar!

 

Naquele tempo o traje para andar em África era simples: calção e bota grossa, daquelas que se ensebavam com sebo de carneiro... e eram magníficas. Como a cabeça da bichinha estava imobilizada não foi difícil resolver o “perigo” com uma forte pisadela.

 

Só então, e depois de atirarmos o cadáver para um canto, António se aproximou, entrou no seu lugar na “viatura” e seguiu até casa!

 

Ainda tem outra história com o António, já contada no meu livro “Se as minhas Imbambas falassem”, escrito entre 1999 e 2000, mas vou deixar para a próxima!

 

17/10/2016

Francisco G. Amorim-IRA.bmp

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:11
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