Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
O ALENTEJO, A ÁGUA E A DESERTIFICAÇÃO

  

Alqueva

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2a/Alqueva_dam_portugal.jpg

 

 

 

O artigo de Ventura Trindade no Linhas de Elvas de 22-4-2010 chama a atenção para alguns problemas do Alentejo e do Algarve, nomeadamente a água e a desertificação. São problemas importantes e confrange-me ver o que Portugal não tem feito, especialmente através do seu Ministério da Agricultura, para se defender de algo que é fundamental para a nossa economia e para o bem estar dos cidadãos.

 

Repetidamente tenho lembrado a urgente necessidade dum grande projecto de florestação da serra do Algarve. Porque ela afecta as duas vertentes desse longo conjunto de serras, os benefícios resultantes são directamente recebidos pelo Algarve e pelo Baixo Alentejo. E recordo sempre o meu colega Professor Eng.º Silvicultor Manuel Gomes Guerreiro, que também tratou intensamente esse problema e cujos escritos, de há mais de cinquenta anos, deviam ser lidos e aprendidos.

 

Também tenho insistido na importância de duas técnicas agrícolas de particular interesse para o Alentejo, as rotações das culturas - que até podem tornar mais rentável a cultura dos cereais, incluindo o trigo - e a drenagem das terras, esta ainda, mais uma vez, no Linhas de Elvas de 18-3-2010. As rotações de culturas, com inclusão de mais leguminosas (importantes para o enriquecimento dos solos) exigem investigação muito mais ampla do que tem sido feito. Recordo o trabalho realizado há mais de cinquenta anos na Estação de Melhoramento de Plantas, aqui em Elvas, pelo meu colega José de Almeida Alves. Embora em escala reduzida, esse trabalho mostrava resultados espectaculares, da maior importância para a agricultura, bem patentes em alguns talhões de ensaio, na Herdade da Gramicha, onde a Estação tinha o trabalho de melhoramento de forragens. Infelizmente, essa investigação não teve a continuidade que devia ter. A investigação agronómica, que teve um excelente impulso nas décadas de 1930, 1940 e ainda algo na de 1950, com dirigentes de bom nível, em que avultava o nome desse grande agrónomo que foi o Professor António Câmara e alguns dos seus colaboradores, tem desde então sofrido graves deficiências de comando, especialmente aos mais altos níveis, que atingiram aspectos de calamidade com o Ministro da Agricultura que há meses deixou de o ser. Ao longo dos anos e com mais intensidade - e sempre em crescendo - nas últimas duas décadas, os erros de comando na investigação agronómica não só entravaram muito trabalho que podia ser feito, como (deliberadamente?) causaram a destruição de muita investigação, alguma em fase final. Sofri, enquanto estava ao serviço, muita dessa destruição, incluindo trabalho que nesta altura já muito teria dado à economia portuguesa. O que hoje ainda resta é, em quantidade e qualidade, uma sombra do que já foi. Elvas certamente compreende o que aqui existia dantes - e tanto deu à agricultura alentejana, desde os tempos do trigo Pirana e do Grão da Gramicha - e o que há hoje. Ou o Ministério da Agricultura inverte urgentemente a política que tem sido seguida (como referi em anterior artigo) ou Portugal vai continuar ainda mais a afundar-se e o Alentejo poderá vir a sofrer a desertificação de que tanto se fala e tão pouco se faz.

 

 Miguel Mota

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 13 de Maio de 2010


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:23
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