Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
“Olhai os lírios do campo”

 

 

O texto é de António Cerveira Pinto. Saído no blog “A Bem da Nação”. Um texto extremamente bem escrito sobre o problema da Educação, a propósito do programa “Plano Inclinado” da SIC, que Cerveira Pinto considera arrastado, com alguma pertinência. Também me parece a mim, mas pela inutilidade de uma chamada à razão de uma Nação que cada vez mais vai petrificando numa irracional bestialidade de mau agoiro, comandada por dirigentes que tudo fizeram para estilhaçar o sentido nobre do termo, de formação do espírito, instrução, reduzindo-o ao sentido primeiro, de criação dos animais, cultivo das plantas.

 

Cerveira Pinto acentua duas tendências no ensino, desde a década de setenta, o da “massificação” e o da “qualidade”, este “diversificado, cada vez mais especializado e sujeito a critérios exigentes de avaliação”.

 

O primeiro “orientado para as estatísticas e para a ocupação de exércitos crescentes de indivíduos sem lugar no mercado de trabalho, nem sequer nas actividades de diversa índole, burocrática, educativa, médica, social, ambiental, etc, que os governos têm vindo a promover... Um ensino tolerante, sobretudo destinado a ocupar os tempos livres da juventude enquanto cresce, proporcionando-lhes ambientes cognitivos e criativos tendencialmente imersivos... Tudo o que as mais recentes e escandalosas reformas educativas têm vindo a introduzir no nosso sistema de ensino...”.

 

“Mas também houve, há e haverá sempre um ensino reservado à formação das elites dirigentes e à produção efectiva do saber, onde a exigência e a competição são cada vez maiores...”.

 

Em tempos passados havia também duas espécies de ensino: o técnico, mais voltado para as técnicas comerciais ou industriais, dizia-se mais tolerante do ponto de vista cultural, o liceal sendo um ensino direccionado para os quadros futuros, naturalmente de formação cultural mais exigente.

 

Dei aulas no ensino liceal e no ensino técnico, nunca soube distinguir tais disparidades, e ajudei a formar brilhantes alunos na Escola Comercial que, ingressados na Secção Preparatória, correspondente ao 6º e 7º anos do liceu, puderam singrar pelo ensino superior.

 

Sei quanto a unificação do ensino, concomitante com a massificação geral, técnicas e liceus reduzidos à designação genérica de escolas secundárias, conduziram ao estado caótico que a tal tolerância pedagógica, acompanhada que foi pela permissividade a todas as indisciplinas propostas pelas “mais recentes reformas pedagógicas” contribuiu para fortalecer.

 

Não vejo é como, num país com tais parâmetros educativos, se pode falar em ensino dirigido às elites, como afirma Cerveira Pinto. Sabemos o modo de formação apadrinhado de algumas dessas elites governativas ou outras. Por altura da Queima das Fitas vemos a falta de compostura de tanta dessa mocidade de futuros educadores, saída das universidades. Não vemos razão para acreditar nela, a não ser naqueles que, vivendo à margem desses desconchavos educacionais, por motivos vários – interesse cultural, acompanhamento familiar, bom nível educativo, etc – podem formar as tais elites referidas.

 

Transcrevo os dois parágrafos finais deste enigmático texto:

 

“Enquanto não formos capazes de pensar numa sociedade pós-capitalista, onde a actividade humana substitua a exploração do trabalho, ou pelo menos possa caminhar a seu lado como horizonte possível de libertação sem se ver castigada por regimes irracionais e improdutivos de sujeição disciplinar ao Estado fiscal, a discussão sobre a crise educativa será sempre um tumulto de vozes sem sentido.

 

"Olhai para os artistas livres, apreciai o perfume de um botão de rosa prestes a desabrochar e só depois falai de educação. Não é trabalho aquilo de que precisamos no futuro. Mas sim de arte, de partilha de bens e serviços, de festas e de um novo horizonte amoroso. É muito mais difícil do que disputar as migalhas minguantes dos orçamentos. Mas é sem dúvida muito mais estimulante para a nossa sensibilidade e para a nossa inteligência”.

 

Decididamente, não compreendemos a tese de Cerveira Pinto. Podemos aceitar a discordância sobre um programa condenatório, dum modo geral, do que vai mal no ensino, ou no país, atribuindo tal discordância a uma visão cegamente chauvinista, ou, como neste caso, a um entendimento superior e vaidoso de um problema já sem solução, e cuja discussão na praça pública fere os nervos desse alguém superior.

 

Mas após uma análise pertinente do ensino, em que se parece condenar as políticas educativas, concluir com observações utópicas sobre as transformações sociais que implicam uma mudança radical das estruturas mentais humanas referentes aos interesses que têm regido o evoluir das sociedades – a luta natural pelo capital, o esforço de cada um para alcançar o seu bem-estar, passando embora pelos atropelos de quem consegue alcançar mais, para finalizar com o apelo a uma vivência na liberdade sem sujeições, nem a princípios nem a convenções, parece isso antes uma proposta de troça, uma inesperada consideração anárquica bastante desonesta.

 

Em boa verdade vos digo que longe vão os tempos em que Cristo pregava esses desprendimentos materialistas, ou, segundo o Evangelho de S. Mateus (6. 34): “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”.

 

Por isso finalizo este comentário alargado com o breve comentário que nesse texto apus, com a indignação de quem discorda destas formas perversas orientadoras da opinião pública com a autoridade de um pseudo-saber que não é mais do que armadilha para converter inocentes. Ou idiotas.

 

“Parece-me bem leviana a forma como se avalia o actual sistema educativo português. Para docentes briosos, para discentes também, que vivem actualmente as misérias de uma contínua degradação nos saberes e nos comportamentos escolares, para os portugueses que desejariam para o seu país um desenvolvimento que não lhes pode ser proporcionado no actual estado de coisas, sujeitos sempre à infâmia de serem considerados os últimos a nível europeu e não só, considerar que arte é do que se precisa para a resolução das nossas misérias culturais, morais, económicas etc, creio que só para rir. Se é que não se esteve a rir de todos o senhor que subscreve o texto.

 

Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:45
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De ruy a 12 de Maio de 2010 às 10:44
Vivemos numa democracia cada vez mais medíocre e limitada.
Compreende-se contudo, a insistência, o não recuo, deste projecto educativo que, a todo o custo, o governo quer implantar. Trata-se na verdade de uma “mudança” na Educação, como Portugal não via desde que se “democratizou”, e que Sócrates não se cansa de repetir sempre que é entrevistado. Uma triste, uma lamentável “mudança”, mas segura e inequivocamente uma profunda mudança. A mudança da Escola Pública, solidária, humanista, universalista, plural, critica, emancipadora, comprometida com a realidade social que a rodeia, para uma Escola de Mercado, pseudo democrática, pseudo moderna, que procura impor uma visão da educação como se de uma mercadoria se tratasse, esvaziada de conteúdo social, tecnicista, desumanizada, onde os problemas sociais, económicos, políticos e culturais da educação se convertem em problemas administrativos, técnicos, de reengenharia. Um “novo projecto educativo” que utiliza a Educação como veículo, com o papel estratégico de transmissão das ideias que proclamam as excelências do livre mercado.
Onde a acção do Estado se reduz a garantir, apenas, uma educação básica geral e o extremo individualismo nele exaltado se manifesta contrário às políticas democráticas de participação e compromisso com a realidade social.

Trata-se na verdade de uma profunda contra-revolução cultural e educativa, uma profunda reforma ideológica da sociedade.

Ao mesmo tempo que se desvalorizam e humilham os serviços prestados pelo estado na sua função social, os serviços do sector público, a escola pública, os professores são acusados de preguiçosos e de lutarem por interesses meramente corporativos.
O que irrita e preocupa verdadeiramente os nossos governantes é que os professores assumem um papel de intelectuais transformadores, tratam os seus estudantes como agentes críticos, questionam a produção e a distribuição do conhecimento, utilizam o diálogo, e tornam o conhecimento crítico e emancipador.

Os professores tornam-se perigosos porque estão intimamente ligados à produção, fornecendo aos estudantes técnicas, conhecimentos, atitudes e qualidades pessoais que são expressas e utilizadas no processo produtiva empresarial. Os professores são os guardiães da qualidade da força de trabalho. Esta potencial, este poder latente que têm os professores é a razão porque os governantes tanto se preocupam com o seu papel.
É que o “novo projecto educativo ” neoliberal exige que seja assegurado que as escolas produzam trabalhadores eficientes, submissos, ideologicamente doutrinados e adeptos do livre mercado.

Neste sentido, a Educação, torna-se no sector público mais fundamental e indispensável à concretização da reforma ideológica da sociedade, da reforma cultural da sociedade, da implantação do projecto social do neoliberalismo. Por esta razão não haverá recuos nem mudanças de ministros. O sector público da Saúde não atinge minimamente a importância que à Educação é exigida na implantação e consolidação do modelo social neoliberal.



De Henrique Salles da Fonseca a 13 de Maio de 2010 às 08:00
RECEBIDO POR E-MAIL:

Mas a ser como diz o Ruy, com essa implantação neoliberal de depravação educacional, em breve também os serviços de saúde, que estão cada vez mais deficientes, não serão precisos para nada. Cada um com as suas dores. Estoicamente.
Berta Brás


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


artigos recentes

O FILHO DAS SALSAS ERVAS

FRASE DO DIA

RESTAURADORES DA SOBERANI...

OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

FRASE DO DIA

CARTA DE UN MINISTRO AL R...

LIDO COM INTERESSE – 74

PERU – 12

PERU – 11

PERU – 10

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds