Sábado, 8 de Maio de 2010
LÉXICON DA CRISE

 

 

Dívida soberana - Termo enganador. Quanto maior a dívida menor a soberania.

 

O subsídio externo fomenta o desenvolvimento - Falácia. A ajuda externa estimula sobretudo o consumo, a corrupção e a dependência (1).

 

Não temos que andar atrás da turbulência dos mercados financeiros - Afirmação gratuita. Quem manda hoje é o especulador e este governa-se pela margem de lucro previsível. Se a margem prometida for maior do lado do short, ele opta pelo short e empurra-nos para o buraco com a maior sem-cerimónia. Não pede licença e nem sequer avisa.

 

A Grécia não é Portugal -  Verdadeiro. Grécia e Portugal só se assemelham em termos de efetivo populacional: - pouco mais de 10 milhões num caso e noutro. No resto é tudo diferente.

Na Grécia, o estado é pobre e está endividadíssimo, mas os cidadãos são ricos e solventes. O nível de poupança é elevado; a economia tem vitalidade. O PIB grego é de US$339.2 mil milhões; o português fica-se pelos US$ 232 mil milhões. O per capita grego é de $29,881, enquanto o português não ultrapassa os $21,700. Na Grécia, menos de 2% da população vive abaixo da linha pobreza; o índice equivalente português é de 14%.

A força de trabalho grega - 4,9 milhões - é a segunda mais industriosa dos países filiados à OCDE (2). Só fica atrás da sul-coreana. Entre 1995 e 2005, os gregos trabalharam a uma média de 1900 horas por ano, enquanto o português se ficou pelas 1800. Apesar dos altos índices de produtividade alcançados na sucursais portuguesas de companhias estrangeiras, o Global Competitiveness Report 2008-2009 coloca Portugal na posição de 5ª país europeu e 43º mundial com mais baixa qualidade de trabalho. Maria da Conceição Cerdeira, autora de um estudo publicado pelo ISEG, concluiu que "de uma maneira geral não se verifica em Portugal alta intensidade de trabalho ou pressão psicológica exercida nesse sentido." Na Grécia é diferente: eles governam-se mal mas trabalham bem.

 

Estoril, 7 de Maio de 2010.

 

 Luís Soares de Oliveira

 

[1] Em 1966, com forte oposição do Professor  Marcello Caetano, defendi em concurso público a tese de que a ajuda externa era instrumento subtil de ingerência deletéria nos negócios internos dos Estados. Hoje não teria oposição: o efeito é patente. 

 

[2]  Dados coligidos pelo  Groningen Growth & Development Centre


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:32
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1 comentário:
De Luis Santiago a 8 de Maio de 2010 às 15:56
Meu Caro Dr., Sempre apreciei a clareza e a precisão técnica dos seus textos. O que nos deram, - salientando-se a nossa tradicional veia para o desenrascanço e ronceirice - , foi o vício pelos subsídios para não trabalhar, a nível interno e a nível europeu, por isso, como povo, vergonhosamente, aceitamos tudo desde que não nos chateiem muito. Até quando esta nacional predisposição se manterá? Provavelmente, até cairmos no abismo... quando já for tarde demais. De facto, não somos gregos, nem atenienses e duvido que sejamos cidadãos do mundo, pela falta de cultura, de vontade de trabalhar e de iniciativa de que padecemos... Cada povo tem os políticos e os dirigentes que merece. O meu solidário abraço, Luís Santiago


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