Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
TEOTÓNIO SAIU À RUA

 

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Terá sido a partir de Leiria que D. Afonso Henriques decidiu fazer uma surtida contra Sevilha em retaliação contra as permanentes investidas muçulmanas sobre o território português que frequentemente chegavam tão longe como os campos do Mondego.

 

Desse fossado [1] resultaram grandes ganhos materiais para os cristãos pelo que os muçulmanos se decidiram por perseguir as forças de Ibn al-Rink, o filho de Henrique, a fim de recuperarem os bens de que tinham sido espoliados.

 

Lançada a perseguição, escolheram atacar em território aberto e vazio – a que então se chamava «ourique» – para que os cristãos não dispusessem de defesas naturais a que se pudessem acoitar.

 

Mas as evoluções no terreno e a sorte da batalha determinaram que os muçulmanos deviam fugir de volta a Sevilha deixando mortos espalhados pelo campo da luta e ali mesmo abandonando os peões moçárabes que os haviam acompanhado. Constituindo famílias inteiras, logo foram estes aprisionados por D. Afonso Henriques que dali mesmo marchou até à sua capital nas margens do Mondego.

 

Chegados às proximidades de Coimbra, logo a notícia se espalhou de que eram cativos moçárabes, os cristãos de rito visigótico.

 

Avisado na sua clausura, Teotónio saiu de rompante à rua em direcção ao cortejo que seguia o rei e ao encontrá-lo bradou-lhe rijas palavras em defesa dos cristãos que trazia assim cativos. Logo ali foram os cristãos libertados e Teotónio regressou à clausura em Santa Cruz.

 

Bernardo, Bispo de Coimbra, acérrimo defensor das reformas gregorianas, não terá gostado assim tanto dessa libertação e foi a partir daí que nunca mais houve paz perfeita entre a Ordem de Santa Cruz e a Sé de Coimbra que tanto se empenhou na instauração do novo «Império Romano».

 

Mas no final, foi Teotónio que subiu aos altares.

 

Abril de 2010

 

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - Incursão militar para saque mas sem intenção de conquista territorial

 

BIBLIOGRAFIA: Mattoso, José – D. Afonso Henriques, pág. 128 e seg. - Círculo de Leitores, Ed. 2006



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:28
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7 comentários:
De apmachado a 23 de Abril de 2010 às 12:01
Para esclarecer um pouco este episódio da batalha de Ourique (que aparece pela primeira vez referido numa crónica de Alcobaça do séc. XIV) há três fontes fundamentais: os cronistas muçulmanos da época, factos coevos, e lendas semelhantes, mas mais antigas, que circulavam já no séc. XII pelo Norte peninsular. Por esse tempo, Afonso VII de Leão atacava, ele-próprio, a taifa tributária de Badajoz, no contexto de uma campanha para subjugar a taifa de Sevilha que seu avô (Afonso VI) havia submetido ao pagamento de parias (extorsões regulares sob o pretexto de apoio militar face a taifas rivais), a qual pretendia pôr fim a esse pesado encargo. Dadas as dificuldades logísticas da época - e à luz da expedição em tudo semelhante que Sancho, ainda príncipe, conduziu sobre Sevilha décadas mais tarde - hoje falar-se-ia de um raid de "comandos": poucos homens muito experientes na arte do fossado, disciplinados e bem treinados. Os cronistas muçulmanos (e há-os de grande qualidade) não falam de uma só batalha de Ourique, mas de várias, desde os tempos em que Henrique de Borgonha era Condestável dos exércitos leoneses, servindo a sua cunhada Urraca. Aliás, Ourique sugere fortemente a versão romanizada de Arrik e ibn Arrik, referindo-se aquela ao pai Henrique e esta última ao filho Afonso Henriques. Tratar-se-ia, então, de um episódio conhecido a partir de crónicas muçulmanas - o que, a ser verdade, levaria a concluir que teria tido fraca importância, dado que dele não restara memória directa nos reinos cristãos. Quanto a lendas semelhantes, elas não faltam, algumas reportando-se mesmo aos tempos meio lendários de Pelayo e Covadonga, mas em que têm sempre Santiago por protagonista. Pelos vistos, o cronista de Alcobaça, conhecedor da História mística do Reino de Leão e Castela (e das perturbações que este Reino então atravessava com as lutas civis entre Pedro o Crú e os Trastamaras), não quis fazer as coisas por menos e, aproveitando as novas correntes teológicas que atravessavam o Cristianismo, despediu o Santo e optou pelas Chagas de Cristo. Um facto curioso, para se ver como, já então, a Península Ibérica era cenário onde tudo se repetia, geração após geração, estes Trastamaras eram os descendentes (por linha bastarda, embora) dos poderosos condes galegos de Trava, logo, aparentados com os nossos Reis, através de uma irmã de Afonso Henriques que se casou com Bermudo de Trava (irmão do Fernão Peres), casamento que terá estado, aliás, na origem da revolta das grandes famílias portucalenses e da justa de S. Mamede.


De Filipe Azevedo a 27 de Maio de 2010 às 14:03
Por favor, apmachado, poderias me citar a fonte de tua hipótese de que o topônimo Ourique seja derivado do árabe Arrik ou Ibn Arrik ? Estou pensando em utilizar isto em minha monografia sobre História Medieval Portuguesa.


De apmachado a 27 de Maio de 2010 às 16:42
"Cronica Anonima de Los Reyes de las Taifas", Frederico Maillo Salgado, Akal Universitaria ISBN: 84-7600-730-2. "Historia de España Musulmana" Anwar G. Chejne, Catedra, ISBN: 84-376-0225-4 (principalmente, Cap. XV, onde poderá encontrar excelentes referências bibliográficas, quer de autores musulmanos primitivos, quer de historiadores modernos que se têm interessado pelo tema).
Interessante para o tema é também "Crónicas Morisca. Leyendas de la conquista de España", Washington Irving, Biblioteca de Escritores y Temas Granadinos, ISBN: 84-7169-029-2


De Filipe Azevedo a 27 de Maio de 2010 às 17:49
Muito Obrigado!!!


De apmachado a 27 de Maio de 2010 às 19:31
Faltava ainda: "Entre el feudalismo y el Islam, Umar ibn Hafsun en los historiadores, en las fuentes y en la Historia", Manuel Alcién Almansa, Universidad de Jaen ISBN: 84-88942-04-4 y sus Notas Bibliograficas. Trata de um período muito anterior à batalha de Ourique (finais do séc IX, princípios do séc. X), o do Califado, mas dá uma ideia viva do que acontecia no Al Andalus.
Ao Islam Peninsular aplica-se com propriedade a boutade polaca: um mussulmano, um encanto; dois mussulmanos, uma discussão sem fim; três mussulmanos, uma guerra fratricida.
A Livraria Universitas, em Badajoz, costuma ter uma excelente estante de livros sobre a Idade Média na Península.
Escusado referir Borges Coelho, J. Mattoso, L. Krus e a actual escola portuguesa de medievalistas.


De Adriano Miranda Lima a 24 de Abril de 2010 às 00:44
Obrigado, Dr. Salles da Fonseca, por trazer este episódio.
A chamada batalha de Ourique está rodeada de lendas, para não dizer que em si mesma ela não passa de uma lenda, como afirmou Alexandre Herculano, o que lhe valeu a hostilização dos homens da Igreja, que não lhe perdoaram a ousadia de secularizar as origens da nacionalidade, ao rejeitar claramente a alegada intervenção divina nessa batalha. Aliás, historiadores contemporâneos, entre eles José Hermano Saraiva, voltaram a reinterpretar o acontecimento, embarcando na tese de Herculano.
Quando a história oficial de outros tempos nos falava dessa e doutras batalhas medievais dos primórdios da nacionalidade, construíam-se quadros mentais em que os exércitos eram idealizados como forças organizadas, uniformizadas e solenizadas, que se batiam com rigor táctico, com os seus pendões tremulando ao vento.
Mas a realidade está mais próxima dos “fossados”, isto é, incursões de surpresa que se faziam pelo território inimigo, com efectivos organizados à pressa, mal equipados e em que só os nobres e os senhores tinham o privilégio da boa montada e da armadura, porque o Zé, esse, normalmente ia a pé e levava armas improvisadas, muitas vezes instrumentos agrícolas adaptados. Basta lembrar que esta seria ainda a táctica do Nuno Álvares 2 séculos mais tarde. Podemos então pensar, e com razão, que o português, com parcos recursos, tirava o melhor partido possível do improviso e do desenrascanço e também da sua rusticidade. Se relembrarmos a nossa última Guerra do Ultramar, vemos que chegou ainda aos tempos actuais essa nossa capacidade de improviso, porque não dizê-lo, dos “fossados”, mas já mais evoluídos e correspondendo grosso modo ao que no jargão militar se designa por “guerra de guerrilha”. Aliás, há quem diga que nenhum outro povo europeu teria aguentado tanto tempo uma guerra de guerrilha em 3 teatros de operações, com meios que nada se actualizaram ao longo dos 13 anos em que o conflito se arrastou. A rusticidade e o espírito de sacrifício e de obediência do nosso soldado permitiram que se chegasse a tanto.
Voltando a falar de Nuno Álvares, não tenhamos dúvidas, era um guerrilheiro. Podemos embrulhá-lo em vestes solenes no seu ascetismo, mas aquele corpo era rústico, e, durante, os “fossados”, dormia no chão duro ao lado dos seus homens e, tal como eles, enganava o estômago com uma broa e umas azeitonas.
Mas afinal de contas o herói desta crónica é S. Teotónio e estou a gastar o verbo com os “fossados” e a rusticidade do soldado português. Essa rusticidade talvez já seja coisa do passado, pois é bem possível que os hábitos e estilos de vida da modernidade tenham desalojado aquelas características genéticas.
Mas, S. Teotónio saiu à rua, sim, e foi um verdadeiro soldado de Cristo, em toda a largura da palavra. Muitas vezes, pensamos na trajectória histórica da Igreja Católica e execramos muito do seu comportamento que atropelava o exemplo e a doutrina de Cristo. Hoje, escandalizamo-nos com as notícias horríveis sobre os actos de pedofilia de alguns servidores da Igreja. E temos a tendência, no nosso asco, de querer meter tudo no mesmo saco, esquecendo Homens como Teotónio e outros. Para terminar, é falso concebermos uma rigorosa linha religiosa separadora entre os cristãos e muçulmanos que se batiam na Península. O primado do interesse muitas vezes nada tinha a ver com a coisa religiosa. Frequentemente, alinhavam cristãos nas forças muçulmanas e o inverso era também verdadeiro, e quem fala de cristãos e muçulmanos fala também de moçárabes (o caso desta crónica) e judeus. Teotónio sabia certamente que a pureza do ideal cristão andava naqueles tempos muito corrompido por interesses que não eram do reino dos céus.






De Henrique Salles da Fonseca a 24 de Abril de 2010 às 19:06
RECEBIDO POR E-MAIL:

É bom mergulhar assim no passado histórico ou lendário, através de estudiosos que, trazendo-o à tona, e aproximando-o do passado próximo, ajudam a aclarar características nossas, como povo que vai atamancando a vida.
Berta Brás


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