Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
MARTIM BEHAIM – SOB UM OLHAR AÇORIANO

 

 

Marcelino Lima, historiador e pesquisador açoriano, no seu livro Famílias Faialenses – Subsídios para a História da Ilha do Faial, faz uma breve história sobre Martim Behaim.

 

Segundo ele, o famoso construtor do mais antigo globo terrestre conhecido nasceu em Nuremberga entre 1430 e 1436. Seus pais, Martim Behaim e Agnes Schopper, provinham da remota Boémia e enriqueceram com o comércio na cidade de Nuremberga.

 

Martim Behaim filho recebeu uma das melhores educações que podia haver na época. Foi discípulo de Camille Jean Müller de Monte Régio (Regiomontano) célebre matemático e astrónomo. Aos 17 anos saiu de sua cidade natal e foi para Mechelen. Viajou como comerciante por Veneza, Anvers, Malines, Frankfurt, Viena. Sem muito sucesso nessa actividade, empregou-se em casa de mercadores e tintureiros de panos.

 

Em 1484, em Anvers, tomou contacto com flamengos que mantinham relações comerciais com Lisboa. Possivelmente impressionado pelas façanhas marítimas dos portugueses, resolveu visitar Portugal. Nessa época, a escola de navegação de Sagres recebia muitos homens, como Perestrello, Cadamosto, Colombo, Vespúcio, navegantes que ofereciam seu engenho e arte a quem quisesse descobrir os mistérios do mar. Todos buscavam fortuna, fama e reconhecimento. No começou supõe-se que chegou como especulador mas naquele meio náutico seu génio aflorou e a vocação para obras maiores levaram-no a ser reconhecido por D. João II, grande rei português, impulsionador dos grandes descobrimentos marítimos. Foi acolhido à célebre junta do aperfeiçoamento do astrolábio em que, entre outros, faziam parte os judeus médicos do Paço Mestre Rodrigo e Jusepe, facto contestado pelo historiador Joaquim Bensaúde (Legendes Allemandes). Acompanhou Diogo Cão na segunda viagem de exploração da costa africana (atingindo o rio Zaire). Foi premiado pelo rei que o fez Cavaleiro da Ordem de Cristo. Fez trabalhos valiosos para a navegação. Fernão Magalhães descobre o estreito a que deu o nome observando uma carta desenhada por ele. Colombo fortalece a sua ideia de viajar para o ocidente para atingir as Índias. Mas os portugueses já tinham fortes indícios de lá chegar navegando pelo oriente.

 

Numa das viagens que fazia com frequência a Lisboa, onde tinha também residência, o flamengo Josse Hurtere (Jorge Dutra), donatário das ilhas do Faial e Pico, travou conhecimento e relacionamento com Martim Behaim. Desta ligação surgiu o casamento dele com Joana de Macedo, filha do donatário das ilhas com a dama da corte portuguesa Brites de Macedo. O casamento provavelmente foi negociado, pois a noiva tinha de 13 a 14 anos e Martim Behaim já passava dos 40. Casado foi morar no Faial, na cidade da Horta. Em 1490 viaja à sua terra natal para receber a herança de sua mãe falecida a 1487.

 

Durante a permanência de dois anos em Nuremberga, construiu o famoso globo terrestre que lhe eternizou o nome e sobre o qual muito se escreveu de louvor, crítica, análise e controvérsia. Para a época, foi uma obra interessantíssima baseada à luz dos conhecimentos clássicos de Ptolomeu, Estrabão, Plínio, Marco Pólo e pelas novidades das descobertas portuguesas de que ele tinha conhecimento através das próprias experiências adquiridas nas viagens que fez.

 

Martim Behaim e o seu globo

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A obra de Martim Behaim, o globo terrestre, tinha 7,5 m de diâmetro, era revestido por pergaminho sobre o qual escreveu e desenhou o que se conhecia na época. É trabalhado em ricas iluminuras, contendo legendas explicativas. Os nomes dos lugares foram assinalados a tinta vermelha e amarela. A nacionalidade de cada país é indicada pela bandeira e brasão de armas respectivos a cores vendo-se também, referentes a cada região, os modelos de moradas e figuras de habitantes com os seus trajes típicos. É interessante notar que ele colocou as ilhas do Faial e Pico assinaladas sob bandeira das armas dos Behains.

 

O Faial é designado Nova Flandres em razão de serem de Flandres os primeiros colonos e o donatário Josse Hurtere, seu sogro. O Globo foi concluído em 1492 e oferecido a Nuremberga, sua cidade natal. Na Academia de Ciências de Lisboa há uma reprodução.

 

Voltando a Portugal, Martim Behaim vai para o Faial, onde ficou pouco tempo, pois o rei D. João II incumbiu-o de, em missão secreta junto a Maximiliano, rei dos romanos, para que este intercedesse junto à Santa Sé para legitimar D. Jorge (filho natural de D. João), que o rei se empenhava em habilitar para o suceder na Coroa. Porém, a caminho da missão, em alto mar, o navio de Martim foi tomado por um corsário que o levou para Inglaterra. Lá ficou três meses. Retido, adoeceu, mas mesmo assim conseguiu fugir a bordo de um navio pirata que o levou até França. De lá foi à Flandres. Em 1495 já se encontrava de volta a Lisboa. Lá ficou na obscuridade até ao seu falecimento, muito pobre, num hospital.

 

Num documento da época, da Chancelaria Real, conta-se que a sua jovem esposa tinha um relacionamento amoroso com um escudeiro de nome Fernão de Évora que foi expulso do Faial pelo irmão de Joana de Macedo e enviado a ferros para Lisboa. Em Cabo de São Vicente conseguiu escapar. Procurou e conseguiu o perdão do rei. Mas esse homem, desafiando a autoridade do donatário da ilha, confiando na carta de seguro que o rei lhe dera, tornou a voltar ao Faial. Ignorando a carta de seguro, autoritário e de maus bofes, desta vez prendeu o escudeiro e enviou-o para a Ilha da Terceira onde ficou retido.

 

Com pedidos de familiares junto à Corte, Fernão de Évora conseguiu junto à Coroa, um indulto. Liberto nunca mais se soube dele. Quanto a Joana de Macedo ficou-lhe a fama. Supõe-se que o marido ficou ciente do ocorrido, e por isso se isolou sozinho em Lisboa até morrer a 29 de Julho de 1507, onde foi sepultado na Igreja de São Domingos.

 

Em 1519, seu filho português do mesmo nome, mandou colocar em Nuremberg, na Igreja de Santa Catarina, uma lápide comemorativa em memória do pai. Na Praça Tereza há uma estátua de bronze dele com as armas de Portugal.

 

Joana de Macedo voltou a se casar desta vez com D. Henrique de Noronha (quarto neto de D. Henrique II de Castela), e foi viver na ilha da Madeira. Martim Behaim filho passava tempos em Lisboa, na casa de uma tia e na Madeira com a mãe. Numa das viagens entre a Madeira e Lisboa matou um homem, em legitima defesa. Foi solto devido à intervenção do legado pontifício que o considerava bom cristão e rapaz polido.

 

 

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Em 1520 Behaim neto vai a Nuremberg receber a herança que lhe pertencia pelo falecimento de seu tio Wolf. Na volta a Portugal trazia uma carta de recomendação do Senado de Nuremberg para D. Manuel pedindo que o empregasse no seu serviço, em atenção aos merecimentos do pai e da sua ilustre estirpe. Dessa data em diante não se tem mais nada relatado sobre a vida de Martim Behaim filho.

 

Uberaba, 3 de Março de 2010

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Dados e notas retiradas e resumidas do livro de Marcelino Lima FAMILIAS FAIALENSES. (Subsídios para a história da Ilha do Faial)


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:04
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