Sábado, 17 de Abril de 2010
CARDEAL JACINTO

 

 

Pretendendo Afonso VII de Leão e Castela que o Arcebispo de Braga se submetesse ao Arcebispo de Toledo que se intitulava Primaz de toda a Hispânia, conseguiu que o Papa enviasse o Cardeal Jacinto como seu legado a fim de impor essa hierarquia.

 

Contudo, nem o Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, nem o seu amigo D. João Peculiar, Arcebispo de Braga, aceitavam qualquer submissão que não directamente ao Papa.

 

Depois de várias negociações na Galiza e em Castela que saíram goradas, o Cardeal decidiu entrar em Portugal e dirigir-se a Coimbra para impor ao Rei a decisão do Papa (leia-se de Afonso VII de Leão e Castela).

 

Os factos poderão não ter ocorrido exactamente como consta da Crónica do inglês Mestre Rogério de Hoveden que acompanhou os cruzados ingleses na conquista de Lisboa aos mouros:

 

Nesse mesmo ano [1187], o Cardeal Jacinto, então legado papal para toda a Hispânia, depôs muitos abades, quer por causa dos seus méritos, quer pelo seu comportamento temerário. Querendo também destituir o Bispo de Coimbra, Afonso, Rei de Portugal, não permitiu que ele o destituísse. Pelo contrário, mandou que o dito Cardeal abandonasse a sua terra imediatamente porque, de contrário, cortar-lhe-ia um pé. Ouvindo isto, esse legado regressou imediatamente a Roma e o Bispo de Coimbra ficou com a sua Diocese em paz.

In Chronica magistri Rogeri de Hoveden (Londres, finais do séc. XII)

 

A lenda popular homóloga era bastante mais extensa:

 

E o papa lhe enviou uu cardeal que lhe demonstrasse a fé. Aqueste cardeal veo per casas dos reis de Espanha e honrárom-no muito e dissérom: “Senhor, aqui vos vem uu cardeal de Roma, porque sodes miscrado com o papa, por este bispo que assi fezestes”. El-rei disse: “Nom me arrepeesco”. E dissérom-lhe: “Todos os reis o vêem receber e lhe beijam a mão”. Disse El-rei estonce: “Nom seeria tanto honrado cardeal nem apostólico se i veesse, que me desse a mão a beijar, que lha eu nom cortasse o braço polo côvado, e desto el nom podia falecer.”

 

E aquestas parávoas houve-as de saber o cardeal, quando chegou a Coimbra, e houve grande medo. El-rei nom quis sair a recebê-lo, e ali teve o cardeal que era mal. E o cardeal, que chegou, foi-se pêra o Alcácer d’el-rei. E el-rei recebeu-o estonces mui bem em seus paaços, e disse-lhe logo: “Cardeal, que veestes aqui fazer, ca de Roma nunca me veo bem senom mal? E qual riqueza me enviou de Roma pêra estas hostes que faço sempre, que nunca quedo de dia nem de noute de guerrear com mouros? E, dom cardeal, se trazedes algo, que me dedes, se nom ide-vos vossa via”. E o cardeal disse: “Eu soo viido por vos demostrar a fé de Jesu Cristo”. El-rei disse: “Tam boos livros temos nos acá, como vós em Roma. E tam bem sabemos que veo Deus em na Virgem Santa Maria, como vós alá, os Romãos. E nom queremos outra cousa de Roma. Mais dem-vos agora todas aquelas cosas que fazem mester, e elas e nós veremos, eu e vós, se Deus quiser”.

 

E o cardeal se foi estonce pêra sua pousada, e mandou logo dar cevada aas sãs bestas e enviou por tôdolos clérigos da cidade quando cantava o galo. E excomungou toda a cidade e cavalgou e foi-se sa carreira. E quando foi a luz andara já ele duas léguas. E el-rei levantou-se de menhãa e disse: “Vamos veer o cardeal”. E os vassalos lhe dissérom: “Senhor, ido é já sa via, e excomungou-vos e todo vosso reino.” E el disse: “Dade-me o meu cavalo e irei após o cardeal”. E dérom-lhe entom o cavalo. E vistiu sa pele e cingiu sa espada e foi depôs ele e alcançou-o em uu lugar que dizem Santa Maria da Vimieira. E deitou-lhe a mão no cabeçam, e sacou a espada e quisera-lhe talhar a cabeça. E dissérom quatro cavaleiros que chegárom: “Senhor, por Deus nom façades, ca, se o cardeal matades, terom os de Roma que de todo em todo sodes herege”. E estonce disse el-rei esta parávoa: “Vós dades a cabeça ao cardeal, ca senom eu a levara dele”. E o cardeal lhe disse: “Rei, nom me façades mal. E qual preito vós quiserdes tal porei convosco”. El-rei disse estonce: “Pois quero que em todos meus dias nom seja Portugal excomungado e que nom levedes daqui ouro nem prata, nem bestas senom três”. E estonce lhe filhou quanto haver lhe achou, e ouro e prata e tôdalas bestas senom três. E disse el-rei: “Esto quero de vós em serviço”. E disse el-rei ao cardeal: “Quero que vós me enviedes carta de Roma que nunca Portugal seja excomungado em todos meus dias, que eu o ganhei com esta minha espada. E quero que me leixêes aquele vosso sobrinho, filho de vossa irmãa, em penhor, atá que seja aqui a carta. E, se a quatro meses aqui nom for a carta, que eu talhe a cabeça a vosso sobrinho”. E veo-lhe a carta aos quatro meses.

 

E dês ali adiante ele foi bispo e arcebispo. E em todos seus dias nem uu nom fez al em toda sa terra senom o que ele quis”.

 In “D. Afonso Henriques”, José Mattoso, pág. 198 e seg.

 

Cardeal Jacinto Borboni-Orsini

(Papa Celestino III)

 

Eis mais um episódio de espada que conduziu ao reconhecimento da independência de Portugal.

 

Abril de 2010 

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:01
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2 comentários:
De Francisco a 17 de Abril de 2010 às 15:27
Sempre adorei esta história contada também por Alexandre Herculano.
É pena mas já não se fazem mais "machos" como antigamente!
Mesmo sem vir a propósito: perdi o seu contato de email!
Um abraço
Francisco Amorim propó


De Henrique Salles da Fonseca a 19 de Abril de 2010 às 20:57
RECEBIDO POR E-MAIL:

É sempre bom ler um bom escrito sobre a História de Portugal.
Muito agradecida,
Vera Santana


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