Terça-feira, 6 de Abril de 2010
Da Guerra no Iraque

 

 

Segundo a imprensa oportunamente relatou, em plena Guerra do Iraque, um grupo de soldados americanos realizou uma missão espontânea (solo mission). Entrou numa casa de iraquianos suspeitos e liquidou uma família inteira que ali residia. Posteriormente, ao depor num inquérito sobre o assunto, um dos soldados que integrava o grupo declarou que "foi porreiro" (it was cool). Isto mostra como a guerra – esta ou qualquer outra – é um acto de violência e crueldade praticado contra gente inocente, tanto americanos como não americanos. E esta – a do Iraque – não só não foi necessária como representa pesada responsabilidade assumida pelos EUA pois que envolve alto risco em termos de vidas humanas, dinheiro e segurança mundial.

 

Na minha maneira de sentir, o Exército rouba a individualidade às pessoas. Considero inaceitável que um indivíduo armado de uma metralhadora se sinta no direito de abater todos os que não pensam, procedem ou falam como ele. Todos nós temos o direito, se não mesmo o dever, de seguir as nossas aspirações. O exército é perigoso pois pode servir como meio de que gente ambiciosa lança mão para impor os seus pontos de vista e defender os seus interesses pessoais. No momento em que se alistam, os recrutas renunciam à sua própria personalidade. Com o tempo, acabam por perder também o sentido de auto preservação, o que os leva a arriscar a vida em defesa de causas que não avaliam nem criticam. É nossa obrigação trabalhar e melhorar a nossa própria integridade e nunca devemos consentir que nos conduzam como peões num jogo de xadrez. Waldo Emerson disse: "Cada coração vibra como a corda de aço. Confia em ti. Ouve o som da tua corda e segue-o".

 

Milhares de milhões de dólares são anualmente gastos para custear guerras. Seria caso para pensar nos problemas na frente interna que requerem atenção. Não será absurdo gastar milhões e milhões de preciosos dólares no estrangeiro para matar americanos e gentes de outras nacionalidades, destruir cidades e famílias, praticar actos que só trazem má fama entre as nações do mundo, quando tais recursos poderiam ser aplicados na solução de problemas, tanto internos como internacionais, que contribuiriam efectivamente para a salvação de vidas humanas e para a criação de possibilidades e oportunidades para povos menos favorecidos?

 

A sociedade manipulou a nossa maneira de pensar. O medo foi disseminado e apoderou-se dos espíritos. Isso preparou-nos para abdicarmos do nosso auto controlo a favor de terceiros que se nos apresentam como elite. A partir desse momento, a nossa lista de prioridades altera-se. Voltando a Emerson, este previne-nos que " a sociedade por toda a parte é uma conspiração contra a humanidade e contra cada um dos seus membros".

 

Os primeiros governantes americanos ensinaram o povo a não se envolver em questões alheias. Eles sabiam o que diziam, mas os dirigentes de hoje não assimilaram correctamente tais ensinamentos. Os chamados "pequenos envolvimentos" americanos no Médio Oriente são causa de grande perturbação na política mundial. Sendo membros das Nações Unidas, uma guerra contra o terror (leia-se petróleo) com 10 anos de duração não favorece a imagem dos EUA. Além disso indispõe o Irão, a Coreia do Norte e a China que já de si não serão os nossos maiores amigões (biggest buddies), e prejudica a reputação americana, tanto na Europa como no resto do Mundo. Dir-se-ia que os EUA estão a juntar lenha para uma fogueira onde se podem queimar. Sendo os EUA o principal super-poder mundial, cabe-lhes a obrigação de dar o exemplo e esforçar-se por estabelecer a paz e a harmonia entre os seres humanos. Note-se: - não entre Chineses, Católicos, Americanos, Iraquianos, Turcos, Gregos, Britânicos, Gays, Pretos ou Brancos, mas entre Humanos. E, a propósito, lembro de novo palavras de Emerson: " A inveja é o produto da ignorância."

 

Nós vimos como se tomam as decisões erradas, como se desperdiçam vidas inestimáveis e dinheiro precioso para aumentar a confusão no mundo em que vivemos. Assassinam-se milhares de seres, de um e outro lado da barricada; desviam-se atenções e recursos para aplicações erradas e assim incrementa-se a perturbação das mentes dos povos e a inerente possibilidade – ainda que remota – de uma III Guerra Mundial. E tudo isto por causa do petróleo.

 

Eu peço-vos que escutem a vossa consciência interior e confiem no que ela vos diz em vez de confiar nesses políticos que se dirigem a vós, com um sorriso fascinante, aberto de orelha a orelha, que mal disfarça um evidente sentimento de culpa.

 

Lembrem-se de um episódio famoso. Há perto de cento e cinquenta anos, Henry Thoreau, poeta, discípulo de Emerson, recusou-se a pagar impostos porque o governo americano se envolveu numa guerra contra o México. Por mor dessa atitude, foi preso e, na cadeia, escreveu o seu famoso ensaio "Da Desobediência Civil" que inspirou Léon Tolstoi e, por via deste, Mahatma Gandhi. Ali proclamou que "governa melhor quem menos governa", ou seja, quem menos constrange os cidadãos e lhes tolhe a iniciativa.

 

 Toledo, Ohio, 27 de Março de 2010

 

 Guilherme Oliveira

 

Tradução do ensaio apresentado por um estudante português, agora a finalizar o seu curso liceal numa High School americana, e ali discutido em aula.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:18
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De Adriano Lima a 7 de Abril de 2010 às 00:45
Bom seria que o ideal deste jovem se tornasse realidade num futuro qualquer, mas se calhar não estará nas nossas mãos mudar os genes que nos fazem olhar para o nosso semelhante como alguém que ameaça o espaço que ocupamos. Entretanto, teorizamos, fazemos leis, acordos e tratados mas pouco avançamos porque o problema de fundo persiste - o da nossa natureza.


De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Abril de 2010 às 23:25
RECEBIDO POR E-MAIL:

Caro Primo Henrique

Desculpe atraso resposta mas tive aqui problemas com a internet. Fiquei muito contente pelo meu trabalho ter sido exposto aos olhos de pessoas que se interessam por melhorar o mundo em que queremos viver. Espero que venham mais comentários. O único que lá está até agora é o típico, "it's human nature." Este argumento nega a realidade que o homem pode modificar a sua natureza. Aprendemos que de facto o homem tem um instinto violento de auto defesa mas que, noutro aspecto, é o ser vivo mais hábil em se adaptar a novos meios, costumes e maneiras de pensar. Desde sempre, tivemos de dominar os nossos instintos para poder sobreviver. Logo no início da evolução, passamos de vegetarianos a omnívoros. Ai está um grande exemplo de como podemos adaptarmo-nos a novas maneiras de viver. Agora, no ponto em que estamos da pequena história do ser humano como ser racional, penso que atingimos num nível de inteligência suficiente para nos adaptarmos à ideia de um mundo livre de conflito violento. Estou certo que isso acontecerá.

Agradeço publicação deste comentário se ainda for a tempo.

Guilherme Oliveira.




Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


artigos recentes

PERU – 6

PERU – 5

PERU – 4

PERU – 3

PERU – 2

PERU – 1

ESCRITORES ESQUECIDOS

LIDO COM INTERESSE - 19

LIDO COM INTERESSE – 73

ESTAREMOS TRAMADOS ENQUAN...

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds