Sábado, 27 de Março de 2010
TU E O MEU BOLO DE CHOCOLATE

 

Quando é que já se viu eu comer um bolo de chocolate e não lamber os dedos? Sim, quando? NUNCA! Era o que faltava eu deixar aqueles bocadinhos de gula desperdiçados num qualquer pano de resguardo de sebências ou afogá-los num frio lavatório e mandá-los pelo cano a baixo como se faz aos abortos. ERA O QUE FALTAVA! Os guardanapos são para limpar cerimónias; os lavatórios para excomungar porcarias. Chocolate, não… esse merece lambidela.

 

Mas diz a Tia Alzira que é feio lamber os dedos. Ah! E eu ralado. Feio é desperdiçar. Isso, sim, é que é muito feio! - Pois fique a Tia sabendo: eu lambo o chocolate dos dedos! E se for uma Bola de Berlim, também lambo o açúcar dos dedos!

 

- Olha, Caramelo! Tu sabes que o chocolate te faz mal, não sabes? E o Caramelo dá ao rabo porque eu estou a falar com ele. E porque vê o chocolate nos meus dedos e concorda comigo que tal preciosidade não deve ir pelo cano a baixo como alguém fez aos irmãos dele quando nasceram. E esses não eram abortos: eram cãezinhos completos e sãos… Então, sem os adultos verem, deixo a minha mão descair até à altura da boca do Caramelo e logo sinto a língua gulosa a lamber o chocolate…

 

Mas cão não tem rabo discreto e logo se põe a abanar o apêndice a pedir mais. E os adultos reparam que o Caramelo pede mais porque alguém o iniciou na lambarice. E esse alguém só posso ser eu. E então é a mim que zurzem… Porque isto e porque aquilo!!!, não têm mais nada que fazer do que chatear criança e cão por causa duns restos de chocolate nos dedos de um guloso amigo de um cão tão guloso como o dono dos dedos.

 

E sabem que mais? O Caramelo dá ao rabo de satisfação e eu não faço isso porque não tenho rabo mas também o faria se o tivesse e fosse cão.

 

Uma pergunta: como fazem os cães que não têm rabo? Deve ser muito triste. Acho que deve ser como a gargalhada que o mudo não dá.

 

Lamber os dedos é feio… E fazer abortos e deitar cãezinhos pelo cano a baixo é bonito?

 

Lisboa, 17 de Março de 2010

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

 

NOTA: texto escrito para o Clube de Escritores (Porto) cujo 1º Encontro se realizou em 20 de Março de 2010; o mote era “Tu e o meu bolo de chocolate” e os textos teriam que caber numa página A4; não estive presente e alguém o terá lido alto para a audiência; não tenho informação sobre a dimensão da pateada...


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:19
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5 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Março de 2010 às 10:06
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História alegre de dois amigos lambareiros, em desatenção com as práticas educativas convencionais dos adultos, contra cujo mundo de "desordem moral" um deles se rebela, à maneira da crítica "Mafalda"... Um bom aproveitamento do tema imposto, o "Tu" abstracto, sinónimo do tal mundo convencional das tias bem educadas, o segundo sintagma reivindicando o egoísmo, na liberdade em rebeldia, do universo infantil.
Berta Brás


De Luis Santiago a 30 de Março de 2010 às 08:20
No meu tempo da idade contestatária fiz um poema que versava assim:

As gargalhadas ultra sónicas ,
só ouvidas pelos cães,
ecoam intemporais,
na arena do Mundo.
E nós, os Clowns,
recebemos aplausos,
em gestos insonoros.


De Henrique Salles da Fonseca a 2 de Abril de 2010 às 18:21
RECEBIDO POR E-MAIL:

Achei o seu conto bastante triste. Não percebo por que razão um conto sobre o bolo de chocolate se transforma numa história triste sobre a morte de criancinhas e cachorrinhos inocentes. Eu nem sou especial apreciadora de chocolate, mas devo confessar que a única situação que posso conceber em que um bolo me faça ficar triste, é no caso de não o poder comer!!! lol

Tenho consciência de que os contos são, na sua generalidade, histórias um pouco deprimentes. Lembro-me sempre dos "Bichos", onde Miguel Torga consegue convencer-nos de que não há nenhum animal de estimação satisfeito no mundo... ou da "menina dos fósforos"... nem me lembro quem o escreveu, mas sei que, de certa forma me traumatizou, quando percebi que a pobre menina estava mortinha de frio na manhã seguinte.

Sei que é mais fácil escrever sobre assuntos sérios. As alegrias da vida têm uma habilidade especial para se tornarem infantis e até um pouco ridículas, quando transferidas para o papel. Mas nesta vida já há tantas tristezas que somos obrigados a engolir, que acho que vale a pena tentar. Em última análise, escrevemos sempre para os outros. Então porque não escrever um texto alegre? Por que não tentar levar aos outros qualquer coisa de leve, para aliviar os pesos do dia a dia? Acho que seria mais o seu género!

Não gosto do seu "lado lunar", como diz o Rui Veloso!!! Cheer up, please!

Maria do Canto Tavares


De Henrique Salles da Fonseca a 21 de Abril de 2010 às 09:19


De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Abril de 2010 às 09:31
RECEBIDO POR E-MAIL:

Gostei da maneira original como contestou a hipocrisia do mundo, quando atribui valores morais e educacionais equivocados.
Que sociedade perversa, paradoxal, recrimina um ato simples, reflexo, talvez não muito higiênico, é certo, mas natural, e é totalmente insensível à vida, e à sua manifestação, seja humana ou animal, aceitando que se descarte seres como se fossem lixo.

Maria Eduarda Fagundes


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