Quinta-feira, 25 de Março de 2010
E afinal o Império Romano acabou?

Há dias, numa reunião de amigos apreciadores da cozinha italiana, alguém trouxe à baila a queda do Império Romano. Dizem os italianos que a "pasta" deve ser preparada por forma a corresponder ao estado de espírito de quem a vai comer; aqui deu-se o contrário, foi a massa cinzenta que se adaptou ao sabor latino da "pasta". Isto fez-me procurar nos escaninhos da memória lembranças dos tempos - já muito idos - em que devorei Gibbon, por tal sinal numa tradução francesa. E, enquanto saboreava o fettuccine fui dizendo:

- "O Cristianismo acabou como o Império Romano".

- "Nada disso", afirmou peremptoriamente um ilustre catedrático jubilado que ocupava a cabeceira da mesa.

Apanhado de surpresa, invoquei em meu auxílio a autoridade de Gibbon.

O catedrático não se impressionou. - "O Império Romano – assim como os outros – desfez-se em obediência a leis históricas que determinam o advento, crescimento e decadência dos impérios ", sustentou.

Fim de papo, diriam os brasileiros. Mas para mim não. O professor obrigou-me a vigília. Estive até às 4 da manhã a rever minhas notas e enviei-lhe o seguinte apontamento.

 

"A queda do Império Romano Ocidental oferece um exemplo pouco comum da dissolução de um império sem intervenção ou pressão de qualquer outro de força superior. O caso não configura uma sucessão de hegemonias – o que é relativamente frequente – mas o desmoronar de uma hegemonia sem sucessor imediato, salvo o caos, facto que tem intrigado os historiadores de todos os tempos. O primeiro que tratou o tema fundado em textos da época foi, no final do século XVIII, o inglês Edward Gibbon. Ele dedicou toda a sua vida adulta ao estudo da questão e deixou-nos seis volumes cobrindo a história do Declínio e Queda do Império Romano cujo início situa em Marco Aurélio. Por via desta obra, tornou-se mentor do século e meio da expansão colonial britânica. Todos os neo-imperialistas leram o "Declínio e Queda".

Disse o Gibbon : - "Ao discutir o Barbarismo e a Cristandade eu tenho na realidade vindo a discutir a queda de Roma". E não tinha a menor dúvida: "O Cristianismo criou a crença numa vida melhor além túmulo e assim precipitou entre os Romanos uma atitude de indiferença perante a realidade vivencial que lhes enfraqueceu a vontade de lutar pelo Império". Também admitiu que o relativo pacifismo próprio do Cristianismo ajudara a minar "o espírito marcial de Roma".

Gibbon mostra que a oficialização da religião cristã provocou desentendimentos constantes no centro do poder do Império Ocidental. Ora o Papa, ora o Imperador tinham a influência dominante, o que não aconteceu no Império Bizantino (ortodoxo) onde se criou a figura do Papa-César. A esta rivalidade fracturante acresciam as lutas pelo poder entre facções religiosas que vieram complicar as que sempre tinham existido entre caudilhos militares. O Cristianismo não trouxe a unidade de comando nem sequer a unidade cultural. As seitas religiosas guerreavam-se constantemente.

Mais importante, porém: - o Império instituído por Augusto visava enquadrar politico-administrativamente um regime económico fundado no despojo de guerra, na pilhagem e no trabalho escravo. Gibbon admitia que a convergência de interesses em torno da exploração da mão de obra a custo próximo do zero – ao tempo, a principal fonte de energia – teria sido o factor que sustentou o Império. O Cristianismo veio contrariar tal prática. Portanto, o Cristianismo desmantelou a moralidade até aí prevalecente, dividiu e enfraqueceu a autoridade central, reduziu o valor marcial dos legionários e tornou o negócio imperial desinteressante. Daí que atribuir-lhe a queda do Império ganhe justificação.

No século XX, surgiram vários autores que estudaram o mesmo tema. Nenhum contesta o rigor factual de Gibbon, se bem que muitos discordem da leitura dos factos por ele feita. E foram tantos os novos teóricos que, em 1984, o professor alemão Alexander Demandt pôde publicar uma colecção de 210 teorias elaboradas sobre a queda de Roma. Algumas destas teorias são – como a do meu interlocutor – historicistas. Admitem que o fenómeno do surgimento, crescimento e posterior colapso dos impérios se rege por leis históricas. O historicismo porém tem sido objecto de duras criticas, a começar pelas de Popper e de Wittgenstein. Para estes, nada nos autoriza a deduzir leis de factos históricos. Cada processo tem a sua índole específica.

 

Hoje, nem sequer sabemos se o Império Romano desapareceu, pois há quem mantenha que sobreviveu sob outras formas: - latente ou subjacente estaria aí pronto a manifestar-se se e quando necessário.

 

Uma última observação: Não sei se Gandhi leu Gibbon, mas não tenho dúvidas de que o libertador da Índia admitiu como Gibbon que a forma mais eficaz de acabar com um império consiste em desacreditar a moralidade que o justificou.

 

Estoril, 22 de Março de 2010

 

 Luís Soares de Oliveira


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:25
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3 comentários:
De apmachado a 25 de Março de 2010 às 20:22
Perdoe-me o atrevimento, mas as condições materiais que estavam na base, primeiro, da República e, mais tarde, do Império desempenharam o seu papel. Uma prática que se tornou regra; uma regra que se tornou Lei; uma Lei que esteve na origem de uma luta social (sem as características da luta de classes, à moda de K. Marx). Refiro-me ao facto de os cidadãos de Roma-cidade (e de algumas outras cidades romanas, à imagem de Roma) terem direito à sua ração gratuita de trigo. A dinâmica imperial atraia a Roma "as mais desvairadas gentes" e as querelas políticas convertiam essas gentes em cidadãos. A obrigação de alimentar 1 milhão ou mais de bocas (com mecanismos de controlo rudimentares e vulneráveis à corrupção) fez o resto. Ou seja, Roma terá caído pela convergência de muitas causas, mas a subsídio-dependência não terá sido a menor delas - ela é o vestígio do Império entre nós. A servidão (o commendatio, que ainda hoje conhecemos na expressão "encomendar-se aos Santinhos"), não a escravatura (que tem uma origem completamente diferente), começou precisamente como resposta dos cidadãos (não dos povos conquistados) à insegurança generalizada que tinha por causa maior a subsídio-dependência insatisfeita.


De Henrique Salles da Fonseca a 26 de Março de 2010 às 19:03
RECEBIDO POR E-MAIL:

Estamos a entrar em terrenos difíceis. Sem dúvida que os fenómenos apontados pelo dr Palhinha Machado ocorreram antes da queda do Império Romano Ocidental e foram objecto de estudo pelos historiadores, sobretudo o historiadores-económicos, como por exemplo o controverso e famoso Prof. Bruce Bartlett. A dificuldade porém está em distinguir causa e efeito. O aparecimento de novas formas espontâneas, tanto da organização social como da padronização económica, foi a causa da ruína da ordem e da economia oficiais ou consequência da inoperância das mesmas? Parece a história do ovo e da galinha, mas não é tanto assim.

O Prof. John Gray da London School of Economics ajuda-nos neste particular quando descreve uma situação algo paralela. Diz ele[1] que já nos início dos anos de 60, a economia soviética não respondia ás necessidades básicas da população. Por essa altura, surgiram ali duas novas modalidades económicas espontâneas e clandestinas, designadamente os mercados negro e cinzento. Uns dizem que estes mercados paralelos "capitalistas" arruinaram a URSS; outros são de opinião contrária: - tais mercados clandestinos permitiram que a URSS durasse ainda mais três décadas. O professor Gray admite que os segundos tem razão.

Luís Soares de Oliveira

1. J. Gray, Does Free Market Corrode Moral Character?, John Templeton Foundation,



--------------------------------------------------------------------------------

[1] Em Does free Market corrode moral character? publicado pela John Temple Foundation


De Henrique Salles da Fonseca a 26 de Março de 2010 às 14:04
RECEBIDO POR E-MAIL:

E chegamos assim à moralidade dos que contestaram o nosso e o de outros povos, alguns dos quais mais previdentes, pois que deram aos seus territórios uma independência prévia, que permitiu a miscigenação. E um maior desenvolvimento, dentro dessa. Como o Brasil, de resto. Mas a miscigenação far-se-á cá, não lá nas Áfricas, que o racismo africano é mais radical que o nosso, ou seja o do extinto império português. Nós não nos importamos de ser os colonizados da era moderna, já que o império se foi. Nem de desacreditar a moral que ditou tal colonização recente que se está a efectuar paulatinamente. Basta que creiamos na eficácia do seu poder económico, se nos faltar o biberon europeu.
Berta Brás


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