Terça-feira, 23 de Março de 2010
Aviação Portuguesa

Aviation: The Early Years: The Hutton Getty Picture Collection (Early Years (Konemann))

 

Recentemente tive oportunidade de ver um livro, "Aviation. The early years" (Aviação. Os primeiros anos), de Peter Almond, um jornalista, filho dum oficial da RAF, que trabalhou para diversos jornais, principalmente em assuntos de aviação. O livro é editado por "The Hutton Getty, Picture Collection", que indica possuir cerca de 15 milhões de fotos de tempos antigos, e foi publicado na Alemanha em 1997. As fotos têm as legendas em inglês, alemão e francês.

 

O livro tem uma excelente colecção de fotos dos pioneiros da aviação, muitas delas certamente desconhecidas, mesmo de pessoas razoavelmente informadas sobre os primeiros tempos da aviação. É interessante ver tantas fotos desses tempos antigos. O livro seria magnífico se...

 

Este "se" é o facciosismo, infelizmente frequente, dos autores que fazem por ignorar um dos maiores feitos da aviação mundial, a I Travessia Aérea do Atlântico Sul, em 1922, por dois aviadores portugueses, Sacadura Cabral e Gago Coutinho. A falta é tanto mais vergonhosa porque o livro refere e mostra fotografias do voo de Lindberg, em 1927.

 

Não é de crer que nos 15 milhões de fotos da "Utton Getty Picture Collection", tão rica de fotos da aviação, não haja abundante documentação do feito dos portugueses. Sem tirar mérito a Lindberg, a superioridade do feito de Sacadura Cabral e Gago Coutinho é evidente. Lindberg não fez propriamente navegação. Apenas utilizou a bússola e, saindo dos Estados Unidos e apontando a Leste, se o motor não parar, chega-se ao lado de cá. O voo dos portugueses foi cinco anos antes, numa época em que a evolução dos aviões era comparável ao que actualmente se passa com os computadores. Mas, principalmente, o que torna esse feito simultaneamente heróico e científico, é o facto de ter demonstrado, pela primeira vez, depois dum primeiro voo de ensaio, no ano anterior, de Lisboa à Ilha da Madeira, como era possível navegar pelo ar com a mesma precisão com que se navegava no mar, com instrumentos por eles inventados e que a aviação mundial posteriormente adoptou. A excelência do método foi magistralmente demonstrada nessa espantosa etapa de Cabo Verde aos Penedos de S. Pedro, pequenas ilhotas, a maior das quais tem uns 200 metros de comprimento, atingidos com a maior precisão ao fim de mais de 11 horas de voo sobre o mar.

 

Todo o mundo conhece o feito de Lindberg porque os americanos não cessam, desde a sua realização, de o apregoar e glorificar. O feito de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que na altura teve grande repercussão internacional (os dois aviadores até foram convidados a fazer uma conferência na Sorbonne, a famosa universidade de Paris), é desconhecido no mundo porque os portugueses e especialmente os seus dirigentes mostram uma enorme ignorância em relação à importância da Travessia e nada fazem para a divulgar. O cúmulo dessa ignorância foi demonstrado pelos responsáveis de Expo que, até sendo o tema os oceanos, ignoraram totalmente a mais fantástica oportunidade para mostrar ao mundo o que esses dois portugueses fizeram. Além do hidroavião Santa Cruz em lugar de grande destaque, deveria ter havido uma série de grandes painéis com fotos e o mapa do trajecto, vídeos com filmes da época, conferências por entidades qualificadas e reedição, com traduções em diferentes línguas, de muitas publicações, principalmente esse magnífico nº 254, de Dezembro de 1959, da “Revista do Ar” (do Aero Club de Portugal), um completíssimo relato.

 

Em tempos bem recentes, outra grande prova dessa ignorância foi a destruição do edifício da antiga Aviação Naval (de que foi fundador e seu primeiro Director o Comandante Sacadura Cabral) e até do guindaste então usado para tirar os hidroaviões da rampa, na Doca do Bom Sucesso, donde partiram os aviadores. Em vez dum local de peregrinação, que mostrasse aos visitantes, nacionais e estrangeiros, o que foi esse feito enorme... construíram ali um hotel!

 

 Miguel Mota

 

Publicado no Linhas de Elvas de 4 de Março de 2010



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:13
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4 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 24 de Março de 2010 às 00:50
RECEBIDO POR E-MAIL:

Não é de espantar a construção de um hotel num sítio que poderia servir de glória nacional - a rampa de lançamento dos hidroaviões das nossas glórias aéreas. É que as nossas rampas de lançamento mudaram de objectivo, dirigem-se mais para a satisfação do ventre.
Berta Brás


De Miguel Mota a 29 de Março de 2010 às 01:43
E, lamentavelmente, a grande massa dos portugueses, ou continua a apoiar quem tão más acções pratica ou mostra uma total indiferença e incapacidade de raciocínio. Os maus não teriam possibilidade de continuar a destruir Portugal se os "bons" não consentissem. Infelizmente, não me posso queixar apenas dos maus.
Miguel Mota


De Costa Pinto a 12 de Maio de 2010 às 00:37
Mas não será esquecido


De carlos sotero a 16 de Julho de 2012 às 14:29
olá boas, é verdade que o património histórico nacional sempre foi votado ao desprezo e abandono não bastando o facto da destruição total dos bens históricos das nossas aviações militar quer a naval, destruição essa conforme interesses particulares ou outros sempre com a desculpa do desenvolvimento ou seja com as coisas modernas ou novas, que de novas nada eram pois sempre recebemos material de segunda ou mesmo terceira mão de quem nos fornecia, não bastando sermos nos a destruir o nosso património houve depois quem desse de mão beijada muito desse património a outros países que por sinal já os cobiçavam, não culpo a maioria mas sim alguns dos responsáveis, pondo a frente sempre outros interesses que não os nacionais, e aqui relembro a década de 1950 a mais famosa por ter sido de maior destruição do nosso património histórico (da aviação) sem que ninguém mete-se travão a tal situação, e até já estava em plena preparação o futuro museu do ar ainda assim nada foi feito para preservar o que poderia ser nos dias de hoje um dos maiores espólios da nossa aviação no museu do ar em quantidade e qualidade, provavelmente igual ou melhor do que os principais museus mundiais na matéria, foi mais fácil mandar tudo para as sucatas e destruir tudo, atreveria-me a dizer que afinal o que ouvimos e lemos nas noticias sobre a máfia dos sucateiros será que também aconteceu isso a 50/60 anos na nossa aviação? pois fica por esclarecer isso do porquê se ter deixado destruir tantos e tantos aviões uns mais velhos outros mais novos, alguém lucrou com isso mas não foi o pais nem a historia da nossa aviação com certeza certo?


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