Quinta-feira, 18 de Março de 2010
INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

A saga das avaliações

 
De vez em quando anuncia-se que vai haver (novamente!) avaliações dos Laboratórios de Investigação pertencentes ao Estado, em diferentes ministérios.
A investigação científica é algo relativamente fácil de avaliar, seja ao nível dum grande laboratório, ou dum departamento ou dum simples investigador. Uma instituição de investigação é uma “fábrica” de ciência. Basta olhar para o “produto”, que no caso vertente são os escritos científicos (designados na gíria internacional por “papers”) e, às vezes, algo material que, no entanto, também deverá ter o “paper” que o descreve. Se a instituição, ou o departamento ou o investigador apresentam numerosos “papers”, em revistas de categoria, não precisamos dum “avaliador externo” para nos dizer que a investigação é boa. O segundo elemento de avaliação – também internacionalmente reconhecido – é a repercussão desses escritos na ciência mundial, medida pelas citações que deles aparecem nas revistas de bom nível e, mais ainda, nos livros texto da especialidade.
Se há poucos desses elementos de avaliação também não precisamos que um estrangeiro nos venha dizer que a investigação é má. Poderá ser conveniente encontrar as causas, muitas vezes com origem no nível governamental. Como já escrevi algures,
“Quando a Laboratórios do Estado, com grande curriculum científico e grandes contribuições para o progresso do País, se reduz o seu pessoal; se lhes cortam os meios de trabalho (chegando ao cúmulo dos cúmulos de suprimir a assinatura de quase todas as revistas científicas!); quando se nomeiam chefias de escassos curricula e capacidades ou que para ali vão para que a instituição não progrida, numa espantosa inversão de valores; quando os Ministros e Secretários de Estado que os tutelam (de várias cores políticas) ostensivamente fazem por "esquecer" que eles existem; quando se desviam verbas avultadas a eles em princípio destinadas, para fazer outros laboratórios a quem se dá tudo e mais alguma coisa e depois se entregam, em comodato, a outro ministério; quando avaliações externas, encomendadas pelos governos, denunciam erros (aliás elementares!) e esses mesmo governos, em vez de os corrigirem, os agravam enormemente...”,
temos aí a causa primeira da sua fraca produção científica. Com esses males perfeitamente identificados, alguns descaradamente denunciadores do propósito de destruir tais laboratórios, com enormes danos para a ciência e a economia do Pais, é legítimo perguntar se se deseja uma avaliação para corrigir os males (aliás já sobejamente identificados...) ou apenas para fingir. Justifico esta dúvida com o que já sucedeu no passado.
Em 1986, com um governo PSD, foi mandado avaliar um desses laboratórios. O relatório foi arrasador e identificou uma série de males, praticamente todos da responsabilidade do mais alto nível, nomeadamente o governo. Nada foi corrigido e vários males agravados.
Dez anos depois, em 1996, com um governo PS, foi o mesmo laboratório avaliado e da comissão avaliadora faziam parte alguns elementos da anterior, um deles estrangeiro. Novamente o relatório foi arrasador, encontrando agravados muitos dos males elementares já anteriormente denunciados, da responsabilidade do governo, assim colocando em muito má posição os governantes responsáveis. E com isto se gastou dinheiro, que não deve ter sido pouco e que bem podia ser usado a colmatar as deficiências que tanto entravam o trabalho.
*
Qualquer avaliação, para ser correcta, não pode ignorar os meios de trabalho (normalmente verbas...) postos à disposição dos investigadores. Já em tempos propus a criação dum “coeficiente” de forma que, ao avaliar uma instituição, um departamento ou um investigador, se entre em linha de conta com o dinheiro de que ele pôde dispor. É óbvio que, se ao longo de cinco, dez ou vinte anos pôde dispor de abundantes meios de trabalho, tem obrigação de ter produzido muito mais do que aqueles que viveram com imensas limitações. Claro que ter cientistas, que já deram provas de serem capazes de produzir boa ciência, a trabalhar em condições de penúria é um dos mais elementares erros de gestão de ciência. E esses casos abundam no nosso Pais.
São erros tão primários que é ridículo mandar “avaliar” e, particularmente, por estrangeiros. Provavelmente irão para os seus países dizer quão primitivos são os governantes que precisam de pedir a estrangeiros para lá irem avaliar esses casos, que eles não são capazes de detectar e corrigir. E digo os dirigentes porque, nos seus contactos com os cientistas portugueses, eles bem se aperceberam que, a par duns quantos incapazes, por vezes em posições de mando, encontraram cientistas perfeitamente qualificados que só não produziam mais ciência pelas deficientes condições em que eram obrigados a trabalhar.
Não me esqueço, entre outras acções ridículas, do caso que se passou quando recebi a visita dum importante comité científico internacional ao Departamento que eu então dirigia. Pois um senhor, em altas funções, o que queria à força é que eu fosse mostrar o microscópio electrónico. E por mais que eu lhe dissesse que aqueles senhores estavam fartos de ver microscópios electrónicos e que o que lhes interessava era ver os trabalhos realizados e que eu estava a mostrar, insistia, com muita pena que os estrangeiros não vissem um aparelho tão bonito... para mostrar às visitas!
 
 Miguel Mota

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:37
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