Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010
O CENTRO DO MUNDO

 

 
 
 
Tempos houve quando para os “ocidentais” outras terras e povos eram desconhecidos, o seu mundo, pequenino, centrava-se à volta dum pequeno mar, que por essa razão era conhecido como “Medium Terram”, o Mediterrâneo.
 
Foi à volta deste mar que se desenvolveu o conhecimento ocidental, vindo do Egipto e da Mesopotâmia, depois da Grécia, tendo a seguir se alastrado pelas orlas deste mar.
 
Os homens viviam com a crença que todos os males e eventuais bens que lhes chegavam eram dádivas de Deus, dum Deus qualquer, e todos os governantes não só lhe rendiam homenagens e templos, como não permitiam que alguém duvidasse das suas características divinas.
 
Esse “governo da divindade” um dia estabeleceu-se em Roma, e mesmo com a destruição do Império Romano os religiosos cristãos conseguiram segurar um pouco do conhecimento antigo, infelizmente não permitindo a sua divulgação e, pior ainda, da discussão dos princípios de que tudo seria ou não obra de Deus. Um dia surgiu um génio que decidiu pôr em causa a sacralidade de muitos “fenómenos”, estudou e pintou o homem nos seus mais ínfimos detalhes, dissecou cadáveres de crianças e adultos, gordos e magros, para procurar entender como funcionava o corpo humano que ele tanto admirava.
 
Os detalhes a que desceu foram de tal forma minuciosos que ainda hoje a anatomia lhe deve desenhos e descobertas maravilhosas, e há até quem lhe chame gay pela beleza e detalhes das suas pinturas. Leonardo da Vinci.
 
Até Freud e sua psicose de que tudo estava subjugado ao sexo, interpretou um sonho de Leonardo com um abutre, afirmando que Leonardo da Vinci havia sido um homossexual latente!
 
Tu quoque, Freud?
 
Contemporâneo deste génio, outra figura ímpar que se apercebe que os homens não recebem o mando das mãos de Deus, e que só alguns conseguem impor-se e governar. “O Príncipe” que serviu e serve de bíblia para todos os governantes do mundo, até hoje. Ensina-lhes como governar pela força, a tirania, desprezando a justiça e humanidade. Afirma que um homem bom se por acaso chega ao poder, e se aí se quer manter, vira um homem mau, enquanto um mau, mesmo que alcance o mando, jamais será um homem bom. Ensina ainda que a grande arte de governar é fazer o menos possível e representar o máximo perante o público, com ostentação, porque o povo não quer no topo um homem modesto, humilde e fraco.
 
Ainda hoje, por todo o mundo vimos que é o Império de Maquiavel que manda e sobretudo desmanda, raros, se algum há, a lutar pelo bem-estar da sociedade. As forças do mal são muito mais fortes que as do bem…
 
Parecem de Maquiavel as seguintes palavras mas foram proferidas meio século antes por Aeneas Silvio Poccolomini, mais tarde Pio II (1458-64), “um ‘príncipe’ que não sabe ler as lições da história, é uma presa irremediável da lisonja e da integridade”!
 
Em contraponto ao despotismo, ao “príncipe do mal” aparece um sonhador, um “babaca” como eu, com a errada ideia de que “o amor ao próximo” é que resolve os problemas do mundo, e que essa maravilha se viveria “em lugar nenhum do mundo”: em Utopia! Quinze séculos antes já Alguém nos havia prometido o Reino dos Céus, desde que amássemos o próximo como a nós mesmos. Este foi logo crucificado e o utópico Thomas More, do mesmo modo, e por benevolente “consideração do rei” foi simplesmente decapitado!
 
Aparece “A Loucura”; ela nos diz tudo aquilo que normalmente já deveríamos saber e na maioria das vezes “disfarçamos”! Que os príncipes parecem infelizes mesmo com toda a exibição de esplendor, por nunca ouvirem a verdade, como os que subornam a lisonja de um orador para ouvir louvores, puras mentiras. Como diz o provérbio “Se ninguém te louva, louva-te a ti próprio”!
 
As pessoas ouvem com prazer maior o que não entendem, pois a sua vaidade está nisso interessada. E continua a Loucura a mostrar-nos que a ignorância e a irreflexão fazem esquecer as misérias e dão a esperança de alcançar a felicidade. A estes a vida deixa de lhes ser aborrecida, como aos velhos que atingiram idades avançadas e perderam todos os traços humanos, balbuciando, dizendo disparates, calvos, desdentados, sujos, curvados, tudo fazendo para rejuvenescer, pintando o cabelo, usando peruca ou dentaduras postiças, por vezes de dentes de porcos. Outras vezes apaixonando-se por menininhas e por elas fazendo maiores loucuras que um jovem, sabendo que essas garotas serão as mulheres de outros.
 
Ou ver as velhas que repetem que “A vida é bela”. Mulheres quentes que farejam o bode, que se pintam incessantemente, estão sempre em frente do espelho, depilam as partes secretas, estendem as mamas flácidas, e solicitam com gritinhos o desejo dos seus amantes e por algumas moedas seduzem jovens.
 
Que aqueles que as acham ridículas pensem se não valerá mais deixar correr a vida nessa loucura do que procurar lenha para a forca!
 
É verdade que não lhes importa a desonra que a sua conduta lhes traz aos olhos dos outros; não a sentem ou não lhes dão atenção. A vergonha, o opróbrio, a infâmia, o insulto, só são males quando se sentem.
 
E assim a Loucura, a deusa, coloca o homem acima da ciência e do jugo do mundo. O homem e a mulher, são o Centro do Mundo.
 
Com esta ideia um homem, nascido humilde, mas génio indomável, fogoso, insurge-se contra a vergonha da vida do papado, vida de ostentação e despesa nessa altura com Leão X que decide mandar vender pela Europa indulgências para angariar dinheiro para a Basílica de São Pedro! Lutero nega-se a cumprir as instruções de Roma e faz nascer o grande movimento da Reforma da Igreja, de que tão necessitada estava.
 
E se já em causa estava a tal sacralidade dos reis e chefes, e do próprio papado pela vida dissoluta em que vivia e se exibia, os pensadores viraram-se para o intrínseco valor do homem e para as ciências.
 
Calvino, teólogo e revoltado, trocou a ordem que parecia natural. Impôs a sua opinião em estilo maquiavélico e medieval, e valorizou o dinheiro face ao homem. Nascia o capitalismo.
 
Adam Smith vem novamente dar valor ao homem e sobretudo ao seu trabalho, através do qual se deviam quantificar os valores das mercadorias. A mão de obra era abundante, e o capital mandava. Foi preciso aparecer um escocês também de humilde origem para dar valor ao ser humano, procurando resolver os seus problemas através de associações, de cooperativas, quase um tipo do “amai-vos uns aos outros”, ou quando muito respeitai-vos e amparai-vos, e ninguém quis seguir o exemplo de Robert Owen!
 
Mas falava cada vez mais alto o capital, a exploração, as manobras financeiras, a mentira, e ninguém parece amar-se mais.
 
A Loucura do Amor não tem lugar num mundo atómico em que se gasta mais em equipamentos de matar do que em alimentos.
 
De repente olha para o Haiti porque parece mal ficar de fora, mas logo será abandonará à sua incapacidade e miséria.
 
Foi no “Medium Terram” que tudo para nós, ocidentais, começou. Só em Utopia poderia ter sido melhor. Com homens, não. Os homens não têm solução. É com se este mundo fosse o inferno de outro planeta! Aldous Huxley disse-o claramente.
 
Acabei de ver um filme comovente: “Hachiko – a Dog’s Story” estrelado por um cão Akita e Richard Gere. Que maravilha a amizade do cão, que me faz terminar este apontamento com um dito de Shopenhauer: “Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães”!
 
Rio de Janeiro, 5 de Fevereiro de 2010
 
 Francisco Gomes de Amorim


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:30
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 26 de Fevereiro de 2010 às 10:02
RECEBIDO POR E-MAIL:

Uma bela análise histórica, filosófica, psicológica sobre o "homem" que se posicionou em torno do mar centro do mundo. O certo é que agora não é mais centro. Esse homem construiu navios e aviões para gradualmente criar outros centros de outros mundos, e mesmo no espaço, as naves espaciais levarão as sementes do que somos. É bem um "roseau pensant", esse homem, cheio de defeitos e cheio de capacidades extraordinárias. Mas é de tal modo rápida a actual evolução - no sentido da técnica e da ciência e no sentido da destruição moral - que assusta. Pelos que nos seguem. É preciso ter esperança e confiança ainda. O Bem e o Mal sempre se deram mãos, afinal. E um dos bens é, de facto, poder tapar os cabelos brancos da nossa decadência física.
Berta Brás


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