Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
OUTROS MUNDOS

  

... mas, afinal, o que é a verdade?
 
Eis uma questão de resposta múltipla: se nos referirmos à verdade no sentido policial, trata-se da conformidade com os factos ocorridos numa certa circunstância que interessa à Polícia apurar; se nos referimos à verdade histórica, trata-se da que corresponde à hermenêutica; se nos referimos à verdade científica, por exemplo nas ciências da Natureza, trata-se de um ponto no infinito.
 
Uma palavra só e, contudo, suficiente para abarcarmos de uma única vez os três mundos coexistentes: o mundo das coisas; o dos estados de espírito, sentimentos; o das congeminações humanas, ou seja, das teorias.
 
No mundo das coisas não merece grande discussão o que é uma cadeira; a verdade histórica pode despertar sentimentos antagónicos tão fracturantes como os que estiveram na origem dos acontecimentos em análise e dar perspectivas diferentes da verdade conforme o lado em que se coloque cada observador; a verdade científica sobre a mecânica celeste foi uma novidade com a teoria de Newton mas passou a ser outra quando Einstein formulou as suas teorias sobre o espaço-tempo – e, mesmo assim, Einstein teve o cuidado de dizer que as suas teorias seriam válidas enquanto não aparecessem outras que as invalidassem…
 
Ou seja, temos três tipos de verdade: a material, axiomática; as do mundo espiritual, dos sentimentos; as que resultam da congeminação humana.
 
Mas da congeminação humana não resultam apenas bichos-de-sete-cabeças como essas teorias do espaço-tempo e outras que tais. Muito prosaicamente, a linguagem é o resultado da congeminação humana e, portanto, pertencente a essa terceira dimensão com que todos contactamos (os surdo-mudos têm a língua gestual que pertence ao mesmo mundo da língua oral – congeminação humana).
 
E como cada um de nós tem uma percepção relativamente exacta do mundo material que o rodeia, uma ideia aproximada dos seus próprios sentimentos e uma ideia mais ou menos objectiva ou mais ou menos vaga das teorias que toma como certas até prova em contrário, então temos que concluir ser cada um de nós o núcleo de três mundos concêntricos de dimensões tão limitadas ou infinitas quanto a teoria do espaço-tempo de Einstein permite conceber…
 
Mas as congeminações humanas são feitas em busca da verdade e, portanto, temos que reconhecer que essa verdade – por muito distante que possa estar do nosso alcance – existe de facto. Ou seja, as congeminações resultam de um esforço na busca da verdade final e, portanto, não são invenções mas apenas descobertas: a verdade existe por si e não pelo conceito que dela fazemos. Daqui resulta que os conceitos são transitórios e só a verdade é definitiva.
 
Cada mundo correspondendo ao tipo de conteúdo que encerra mas tendo como referência essencial a concepção subjectiva que o núcleo (cada pessoa) deles faz; com o desaparecimento físico do núcleo desaparece também a inerente concepção subjectiva e, assim, deixam também de existir as três dimensões a que o núcleo se referia. A menos que permaneça uma outra dimensão meramente espiritual, desencarnada, num outro mundo para que não dispomos de outra verdade que não a da Fé.
 
 
Lisboa, Fevereiro de 2010
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
POPPER, Karl R. – EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR, Editorial Fragmentos, Ldª, 3ª edição, Novembro de 1992


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:31
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5 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 21 de Fevereiro de 2010 às 20:58
RECEBIDO POR E-MAIL:

Caro Henrique:
Gostei muito da sua reflexão sobre a verdade. É deveras interessante.
Convído-o a aprofundar mais sobre a "verdade histórica" vista na dimensão do universo e não na dos ideólogos, mas restrita ao pensamento e conhecimento humano.
Para mim é extremamente difícil ultrapassar a metafísica, pois assumo plenamente a condição de criatura de um sistema superior que na essência é o amor, a justiça e o belo, um triunvirato responsável pela gestão do universo, o que implica poder criador., configurando a verdade na vida a que chamo Deus. Desde a minha redescoberta, andava pelos dezassete anos, percebi que aquele velhinho de barbas brancas, ar austero e carrancudo, procurando significar o poderoso castigador de pecados, nada tinha de Deus..., contudo também fui percebendo que cada um tem a sua própria concepção; Parece pois existir um Deus para cada pessoa e nada, nem mesmo as religiões, conseguem definir os seus contornos. Aí está a mais importante vertente da minha fé, que consiste em acreditar e amar o amor doativo, a justiça para lá da conveniência e o sempre surpreendente belo para lá do homem.
Este subjectivo e tão pessoal triunvirato, configura-se-me como a verdade na vida, pois cada um terá a sua, afastando à partida o absolutismo de uma doutrina.
É presunção da minha parte ter certezas acabadas e nesta matéria seria mesmo alienação, mas desconfio muito sinceramente, que Deus é, em última análise, como dizia Sto Agostinho, a verdade e a vida.
Um abraço
João Bilstein Sequeira


De Henrique Salles da Fonseca a 21 de Fevereiro de 2010 às 21:14
Caro Amigo,

Sobre a verdade da História, como já comecei por dizer, é o resultado da hermenêutica possível em cada momento… até que aparece um documento que estava desaparecido e eis que a verdade pode dar uma reviravolta. Ou seja, na História a verdade é quase tão provisória como na Ciência.

Mas aceito o seu desafio e vou estudar mais um bocado para desenvolver a questão.

Abraço,

Henrique Salles da Fonseca




De Henrique Salles da Fonseca a 21 de Fevereiro de 2010 às 21:45
RECEBIDO POR E-MAIL:

O Homem é um ser de tal modo extraordinário que fez tudo isso, criando nomes convencionais para as coisas, criando termos de absoluto, relativamente aos conceitos de sentidos opostos - o Bem e o Mal, o Belo e o Feio, o Justo e o Injusto, a Sinceridade, a Falsidade - criando explicações científicas como verdades em movimento... Conseguiu, assim, pensar em termos de abstracções de sentido universal, que codificou nos mitos, nas religiões... Acho espantoso isso, essas verdades do espírito, criadas desde as origens, que ajudaram a formar a razão humana num sentido de respeito - ou desprezo - pelos valores absolutos, dificilmente definíveis, mas que intuímos como algo a atingir ou a banir. Há quem apode ironicamente isso de radicalismo, de maniqueísmo, e semeie outras hipóteses mais confortáveis, de negação e fuga, por conveniência própria, semeando a dúvida, criando a incerteza, conduzindo à anarquia, à perda de dignidade, à opção de recusa dos tais valores que definiam o honnête homme clássico, porque os valores da materialidade se impuseram, a espiritualidade foi eliminada pela brutalidade, pela aceleração, pela ambição e o egoísmo...
Berta Brás


De Luis Santiago a 21 de Fevereiro de 2010 às 22:30
Belo texto!
Luís


De Adriano Lima a 22 de Fevereiro de 2010 às 17:25
O Sr. Dr. traz-nos de novo ao terreno da epistemologia com este seu entusiasmante artigo. Esforço-me por arranjar um comentário à altura do seu escrito e só me vejo a boiar no legado teórico que vai de Platão a Hume, Leibniz, Newton, Hume, Kant e Einstein. Entre o empirismo e o racionalismo, passando pelo “idealismo transcendental de Kant” e a sua metafísica, especulamos à procura de pontos de apoio interiores na nossa sensibilidade e entendimento e acabamos por confirmar as suas palavras: “os conceitos são transitórios e só a verdade é definitiva”. Mas a verdade tem apenas o valor e o significado forjados à medida da nossa capacidade cognitiva. Esta não existia antes de nos tornarmos seres dotados de razão. E voltará à mesma inexistência ou vácuo quando nos extinguirmos como espécie, o que provavelmente vai ocorrer num qualquer futuro cósmico. Nessa altura, todas as nossas representações mentais, juízos e concepções serão reduzidos a nada, e, no entanto, o universo continuará igual a si próprio, resguardando no seu seio as suas verdades eternas e imutáveis. Quem sabe se outros seres conscientes, neste ou noutro mundo, não venham também a formular os seus próprios conceitos filosóficos na busca da solução dos mesmos enigmas.
Como diz Kant, o nosso conhecimento não reflecte uma realidade objectiva em si porque é o resultado de simples representações construídas pelas estruturas da razão. E, assim sendo, existirão, admite-se, outras vias conducentes à verdade que estão fora das estruturas da mente, possivelmente localizadas ou oscilando na fronteira entre a razão que conhecemos nos seus limites e outras capacidades que se expandem numa dimensão inapreensível. Mas pergunta-se se o nosso cérebro continuará a evoluir numa relação de causa-efeito entre as potencialidades neuroniais e a crescente complexidade dos desafios do espírito, como admite Edgar Morim. É essa dimensão desconhecida que abrange o campo das especulações estéreis e perpétuas, como é a metafísica, e/ou será onde a consciência se rende resignada, refugiando-se na fé, como se interroga no fim o Sr. Dr. Salles da Fonseca.
Entretanto, sem encontrar respostas para o que nos intriga, contentamo-nos com a tese socrática de que nada sabemos, como se esta constatação já constitua em si mesma a única verdade garantida pela razão, como se o reconhecimento da nossa humildade e insignificância fosse a única convergência possível com “o ponto do infinito” que o Sr. Dr. refere.



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