Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
O NOSSO PRESENTE E O NOSSO FUTURO – 10

 

ALGUMAS QUESTÕES PREMENTES
 
15 de Julho de 2009
 
COMO VÊEM PARTIDOS O FUTURO DO ENSINO SUPERIOR?
 
7. Política Cultural
 
Na maioria das sociedades ocidentais, e não só, deparamos hoje com uma rede de complexidades de diferente natureza, que vão das económico-financeiras e étnico-culturais (estas acentuadas pelo fenómeno das migrações) a muitas outras, resultantes dos novos modos de comunicação virtual e do cruzamento de diversificadas realidades e visões do mundo. Tudo isto traz à política cultural de qualquer país ingredientes que em muito a distanciam do modo de pensá-la há uma ou mais décadas. A eles há que responder com propostas ajustadas.
 
Por um lado, há que fazer face a um modelo cultural uniformizador da vida, que vai rasurando ou diluindo diversidades, contribuindo para uma “desumanização” e descaracterização do mundo. Ao pretender dirigir-se ao grande público, a cultura dominante caracteriza-se por uma “ética pragmática” que elimina um dos traços caracterizadores do humano: a dimensão simbólica.
 
Vemo-lo a muitas dimensões, nomeadamente em programas de entretenimento da TV, reality shows e outras produções congéneres, como na literatura light, ou no cinema popular destinados igualmente a uma sociedade massificada, e onde se cristaliza a banalidade quotidiana, com a reprodução do real empírico sem perguntas, em linguagens directas, esvaziadas de dimensão simbólica e sem brechas para um sentido mais profundo da existência.
 
Por outro lado, presenciamos – ao arrepio dessa cultura dominante – uma nova complexidade na própria produção cultural e artística, com um trabalho de pensamento e de laboração sofisticada, compósita, tantas vezes miscigenada, o que torna difícil o acesso do grande público a muitas das obras e espectáculos.
 
É necessária uma inteligência cultural que permita lidar com estas discrepâncias de modos desafiadores, criando pontes de comunicação entre os diversos níveis de percepção e assimilação de conteúdos, mas proporcionando ao mesmo tempo uma exigência estética e intelectual eficaz cada vez mais alargada, o que supõe uma continuada articulação entre cultura, educação e meios de comunicação social.
 
Nada disto pode ser ignorado por parte dos responsáveis pela política cultural. É preciso que esta seja entendida como plano estratégico e estruturado de desenvolvimento, seja assumida pelos responsáveis políticos do País, para que ganhe existência de direito próprio e permanente em qualquer projecto de governação, como fundamento que deve ser de uma identidade nacional e de um posicionamento global, como fundamento que é de qualquer desígnio de crescimento e de prosperidade.
 
Só se pode avaliar o custo da cultura pelo custo da sua inexistência, pelo custo da ignorância, pelo custo do tipo de isolamento que não se resolve com auto estradas.
 
Da parte dos responsáveis pela cultura, exige-se, antes de mais, um conhecimento e uma convivência com os instrumentos conceptuais do nosso tempo, o acolhimento inteligente dessa contemporânea diversidade criativa, a fim de poderem accionar planos intersectoriais fecundos, com políticas a médio e longo prazo, com propostas e apoios que contribuam para uma sociedade criativa, crítica e exigente.
 
Garantido isto, será necessário que a política cultural:
  • Considere a cultura um objectivo estratégico de formação e afirmação nacionais (no país e no estrangeiro), de produtividade e rentabilidade económicas significativas, de intersecção e complementaridade activas entre Governo, Autarquias e Privados;
  • Assuma uma visão cosmopolita e uma abertura transcultural que valorize todas as manifestações culturais, sem hierarquizar em moldes tradicionais as clássicas em detrimento das que rompem com padrões vigentes, sem valorizar as hegemónicas em detrimento de outras que surgem de vozes culturais não-hegemónicas;
  • Promova a interculturalidade, com políticas claramente orientadas para a dinamização social das diversidades presentes no território, como aposta no enriquecimento de todos e na redução de potenciais conflitos;
  • Garanta total isenção e transparência em todos os concursos públicos e no acesso aos subsídios para a produção cultural e artística e crie mecanismos que, no termo de cada ciclo eleitoral, impeçam a substituição de quadros superiores ou intermédios das instituições públicas de acordo com a cor política governamental, independentemente da sua comprovada competência e seriedade;
  • Estimule espaços “entre-saberes” e relações inovadoras entre diferentes áreas do conhecimento e entre as diversas artes;
  • Proponha experiências concretas de convivência com o património, distanciadas de um modelo meramente reverencial;
  • Multiplique os agentes e os instrumentos para a produção artística em todo o país, de forma a constituir-se uma sociedade culturalmentemultipolar, do norte ao sul, do litoral ao interior, das ilhas ao continente;
  • Estabeleça uma articulação entre ministérios, de modo a ser possível a integração do ensino artístico, musical e outro, nos vários graus de ensino; e que, como acontece com a literatura, também os filmes portugueses sejam ensinados e matéria de exame;
  • Dê novo impulso às trocas culturais e artísticas entre os PALOP, fomentando mobilidades de grupos e rentabilização das actuais presenças africanas em Portugal, promovendo experiências de diálogo entre culturas e incitando ao conhecimento das culturas que hoje convivem com a nossa bem como à aprendizagem de algumas das suas línguas, contribuindo assim para a optimização de um respeito mútuo.
 
(continua)
 
See full size imageAUTORES:
Ana Luísa Amaral, Ana Maria Pereirinha, António Pinto Ribeiro, Clara Macedo Cabral, Isabel Allegro de Magalhães, Isabel Hub Faria, Jean Barrocas, Joana Rigatto, João Ferreira do Amaral, João Sedas Nunes, Laura Ferreira dos Santos, Luís Filipe Rocha, Luís Moita, Luís Mourão, Margarida Gil, Maria do Céu Tostão, Maria Eduarda Gonçalves, Maria Helena Mira Mateus, Maria Manuela Silva, Mário Murteira, Mário Ruivo, Miguel Caetano, Philipp Barnstorf, Teresa Pizarro Beleza, Viriato Soromenho Marques.
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:42
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2 comentários:
De Miguel Mota a 15 de Fevereiro de 2010 às 23:44
Da pergunta que a vossa interessante série faz, "como vêem os partidos..." julgo que se pode depreender algo que considero muito mau e que é aceitar a ditadura partidocrática - para a qual cunhei a palavra partidismo ", para estar de acordo com os outros ismos " políticos - a que estamos submetidos. Bem gostaria que em vez de perguntar "como vêem os partidos..." a pergunta fosse "como vêem as pessoas...", pelo menos as que se têm ocupado dos temas em questão. Mas como, na situação actual, em que a opinião das pessoas, por mais sábias que sejam, nada conta, o que vale e decide é a opinião dos partidos... talvez se justifique a pergunta. É muito triste, especialmente quando os partidos dizem uma coisa e prometem muitas coisas quando são oposição e fazem exactamente o contrário quando são poder. Vimos recentemente na televisão excertos da actuação de Sócrates quando estava na bancada da oposição. Foi muito elucidativo.
Não se depreenda destas palavras que eu sou contra a existência dos partidos políticos. Sou, sim contra o facto dos partidos serem órgãos de poder e muito mais contra o facto - que, lamentavelmente, é o que temos em Portugal - dos partidos serem órgãos de poder tão ditatorial que meia dúzia de pessoas dizem a 8 milhões de eleitores em quem é que eles têm "licença" de votar. Transcrevo as palavras com que terminei um artigo publicado no Expresso em 1979 ( Partidofobia e partidocratite "): "Partidos como congregações de cidadãos com o mesmo credo político, sim! Partidos como órgãos de poder paralelo, não! E partidos como órgãos de poder ditatorial, três vezes não!" Numa democracia, órgãos de poder são apenas os que são eleitos - livremente - ou destes derivados.
Quanto ao ensino superior, sobre o qual muito tenho escrito, já não há aqui espaço para o que poderia dizer. Enviei ao nosso comum Amigo Prof. Viriato Soromenho Marques alguns desses escritos.
Miguel Mota


De Henrique Salles da Fonseca a 15 de Fevereiro de 2010 às 23:58
Senhor Professor Miguel Mota:
Pode não haver espaço aqui nos comentários mas há muito à sua disposição no local dos artigos propriamente ditos.
De certeza que as suas opiniões também sobre esses temas não hão-de interessar a todos.
Continuemos...
Henrique Salles da Fonseca


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