Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010
TRIPPING POINT

 

 
 
Os EUA e a Europa, estandartes do mundo ocidental, conduziram o sistema financeiro internacional a um estado patológico que expõe de forma clara as fragilidades do seu próprio paradigma económico. A ideia de riqueza a crédito para usufruto no presente sem consideração pela sustentabilidade do futuro. A crise que se agrava corre o risco de por em marcha uma teoria de dominó de desfalecimento dos Estados, fundeados na dívida soberana. A União Europeia é posta à prova de forma intensa desde a proclamação da sua comunidade de identidade civilizacional, dos critérios de convergência e da noção de solidariedade. Pela primeira vez a conveniência de uma moeda única é desafiada pela desaparecida possibilidade de desvalorização cambial em nome da vantagem económica. As liras, os escudos, as pesetas e outras ex-divisas porventura serão agora lembradas com saudosismo. O Euro respresenta um enlace definitivo, para o bem e para o mal. A Grécia resiste à possibilidade de ser salva, e Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, entre outros debilitados, sabem se a mão fôr estendida à Acrópole também terão de ser contemplados com um benefício extra. Os cortes orçamentais, a redução de salários, o prolongamento da vida laboral, o aumento de imposto são acendalhas eficazes para deflagrar o caos económico e social na totalidade do espaço europeu manchado com taxas de desemprego perigosas.
 
Os EUA padecendo do mesmo mal do endividamento e excessos orçamentais detêm uma pequena vantagem federal executiva extensível aos 55 estados. A federação existe de facto, mas simultaneamente exige entendimentos para desempatar as câmaras representativas. Encontramo-nos deste modo no reino da não confissão dos pecados – a situação é muito mais grave do que se julga e porventura não encontrará solução sistémica. Os antídotos disseminados de forma esbanjadora apenas adiarão o dia do juízo. A expansão monetária sem precedentes, declarada como inofensiva no contexto da reduzida utilização da capacidade produtiva, é uma velha receita conhecida na Weimar dos anos 30 e nos EUA dos anos 70. Faltará muito pouco para desequilibrar os pratos da balança. O dólar e o euro, deixaram de ser proactivos, para se converterem em amostras infelizes do estado insalúbre das respectivas economias que lhes dizem respeito.
 
A caminhada para a recuperação deixará de a ser. No seu lugar assistiremos ao emergir de outros conceitos económicos que não se equivalem necessariamente à ideia de Estado, representatividade ou governo. O poder ávido para repôr os mesmos actores, pertençerá a entidades híbridas desprovidas de ideologia, mas sedentas por encontrar as mesmas ferramentas de extracção de valor, quem sabe à custa dos mesmos desejos de materialismo e vaidade humana.
 
 
A revolução que esperamos talvez nunca venha a acontecer. Ou talvez nunca tenha sido sonhada.
 
 John Wolf


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:50
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Fevereiro de 2010 às 09:59
Sublinhados meus.
O Autor que me perdoe a inconfidência mas o título original deste texto era TIPPING POINT, o que também era MUITO apropriado.
Sim, vamos ter que encontrar um novo modelo de desenvolvimento pois este, o da ganância e desconhecimento da ética, já mostrou do que é capaz.
Para mim, democrata-cristão (não religioso), é fácil falar pois há muito que assumi uma Doutrina que tem remédio para grande parte dos males actuais.
A solução doutrinária terá que ser encontrada pois não há grades suficientemente grandes para enjaular os que tanto mal fizeram ao abrigo do «laissez faire-laissez passer» que tanto nos molestou.
Meditemos...
Henrique Salles da Fonseca


De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Fevereiro de 2010 às 23:01
RECEBIDO POR E-MAIL:

Desde que iniciei a minha marcha de provedora da minha própria manutenção e do meu agregado familiar, usei e abusei do processo do "leve agora e pague depois", que me forneceu alegrias inesperadas, na possibilidade de alindar a casa, sobretudo, ou de comprar os livros das minhas ambições. O próprio carro também surgiu da possibilidade de crédito. Por isso vivi sempre mais ou menos empenhada, cada mês repartido em prestações e no resto das despesas diárias. Ganhei bom nome com isso, eu era das que mensalmente me desfazia religiosamente das prestações do mês. Para as pagar recorri a explicações, mas cada nova possibilidade criava-me novas ambições. Desconhecia que devia isso às técnicas financeiras dos E. Unidos conjugados com os Estados da Europa, que forneciam dessas felicidades que eu vivi em cheio, seguidas, é certo, dos pesadelos do controlo posterior, impeditivo de mais derrapagens. Confrontava essas minhas ânsias de felicidade imediata com as de outras pessoas mais cautelosas e sensatas. Mas se devo essas alegrias aos modelos financeiros americanos, eu agradeço aos seus economistas os prazeres que me possibilitaram. Lamento que tais teorias económicas tenham descambado assim. Como diz Salles da Fonseca, a questão moral sobrepôs-se, com as facilidades permitidas. Houve quem não resistisse, cada vez se resiste menos aos apelos do prazer, da ambição e do egoísmo. E as derrapagens tombam sobre as vítimas disso. Algum dia a esperança voltará?
Berta Brás


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