Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
Rio de Janeiro

 

Um pouco de história
 
 
Faz o que ele diz, não faças o que ele faz! Bem tenho prometido, quase jurado e trejurado que não falaria mais de política, mas volta e meia a agonia pela vergonha e descalabro é tão grande que acabo expulsando uns quantos vitupérios, sem nada ganhar com isso.
Qualquer dia vou escrever sobre maquiavélicos e utópicos, ou babacas, como eu, somente para filosofar um pouco e acabar por me certificar, uma vez mais, que o mundo não é dos bonzinhos, mas dos f.d.m., i.é, dos gangsters.
Entretanto creio ser mais interessante pesquisar e divulgar um pouco a história desta cidade “maravilhosa”. E tem muita história, apesar de, por esse mundo fora, do Rio, quase só se ter notícia das suas praias, do Corcovado, Pão de Açúcar e das mulatas do Carnaval que, convenhamos, são monumentos às carnes humanas, algumas com longa história, muita “reforma” e plástica, mas, e a história da cidade?
Vamos nessa, apesar de haver bastante literatura sobre a história do Rio, sempre há lugar para mais uma ou outra passagem. Mas para não soltar lorotas ou simplesmente copiar o que se encontra por aí escrito, vá de sair em “excursão histórica” pelo Rio.
Como é de calcular não encontramos os primeiros europeus que se estabeleceram nestas bandas, na Baía da Guanabara, uns quantos franceses huguenotes que, fugidos à acesa intolerância religiosa no seu país, decidiram vir, em 1555, criar, em lugar tranquilo – paradisíaco – a França Antártica. Comandados pelo senhor Nicolas Durand de Villegagnon, estabeleceram-se numa pequena ilha aparentemente segura, um pouco afastada da praia, a que deram o nome de Forte Coligny, homenagem ao Almirante Coligny, líder dos huguenotes em França, conhecida antes como ilha Sergipe, e mais tarde rebaptizada com o nome de Villegagnon, onde hoje se encontra a Escola Naval.
 
Governava o Brasil, a partir da Bahia, Mem de Sá, que não gostou de intrusos em “terras d’El rei de Portugal”, e ao fim de algum tempo organizou uma expedição que veio ao Rio dar uns tapas nos franceses. Venceu-os e mais aos seus (poucos) aliados nativos e regressou à Bahia. Não tardou a saber que os franceses continuavam instaladões no Forte Coligny. Nessa altura Mem de Sá achou que tinha que dar mais umas pauladas nos “hereges” franceses e organizou nova expedição que entregou ao comando do seu sobrinho Estácio de Sá.
Mem de Sá
Desembarca este na Baía da Guanabara em 1565, onde, na base do morro do Pão de Açúcar, lançou os fundamentos duma nova cidade, a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, dia 1° de Março daquele ano.
Começa por fincar no chão um marco de pedra, um padrão com as armas de Portugal em um dos lados e uma cruz no lado oposto, marca da posse e da fundação da cidade, ergue uma ermida de pau a pique e cobertura de palha, dedicada ao santo do nome do rei de Portugal, organiza os serviços da “cidade”, distribui terras e cargos, e dá um monte de bordoada nos franceses e seus amigos.
Entretanto Mem de Sá volta ao Rio para dar uma mão na luta contra o “invasor” e decide mudar a “cidade” para um morro, acima do rio da Carioca, que se chamou o Castelo.
Na frente o Morro do Castelo
 
 
Visto do alto do Morro. Na frente a Ilha de Villegagnon,
hoje encostada ao Aeroporto Santos Dumont
 
Dois anos depois, em 1567, morre Estácio de Sá, tal como o santo que deu o nome à cidade, vítima duma flechada num olho recebida na batalha em Uruçu-Mirim, hoje a área da praia do Flamengo!
Assume o “governo” da cidade seu primo Salvador Corrêa de Sá – o Velho, para não confundir com o neto Salvador Corrêa se Sá e Benevides – que manda erguer nova ermida, desta vez em taipa, no alto do morro do Castelo, e para lá transfere os restos mortais do fundador da cidade, colocando sobre a campa uma lápide com os dizeres:
 
“AQUI IAZ ESTÁCIO DE / SÀA Pr° CAPITÃO E CÔ/QVISTADOR DESTA TERRA E/ CIDADE E A CAMPA MÂ/DOV FAZER SALVADOR CORÊA DE SÀA SEV P/RIMO SEGD.° CAPITÃO/ E GRDº, CÔ SVAS ARMAS/ E ESTA CAPELLA ACA/BOV NO ANO DE 1583”.
 
Placa em latão que cobre a lápide original
Em 1569 já a ermida era elevada a Matriz da Freguesia de S. Sebastião, a primeira criada na cidade, e 107 anos depois a Igreja Catedral, entregue aos jesuítas.
A Igreja de São Sebastião no alto do Morro do Castelo
O Castelo ficava lá.... lá no alto do morro e a subida era braba!. Aos poucos os habitantes da cidade foram-se instalando nas áreas planas circunvizinhas, misturadas muitas delas a alagadiços doentios, e não tardou a que a Igreja de São Sebastião ficasse abandonada.
Em 1729 chegaram ao Rio dois monges capuchinhos que iam para a Missão em S. Tomé (e Príncipe). Uma vez aqui, onde o navio fazia escala, decidiram ficar e foram residir na Ermida do Bom Jesus, donde foram despejados quando esta ermida foi comprada pela Irmandade dos Homens Pardos. Passaram ao Palácio Episcopal na altura vago por morte do bispo. À chegada do sucessor do bispo, lá foram os capuchinhos corridos, para a Ermida do Desterro, que estava muito arruinada, e autorizaram-nos então a residir na Ermida da Senhora da Ajuda. Mas o povo não gostou desta intromissão e novamente vão os capuchinhos para uma casa próxima à Igreja da Conceição! Mas esta casa fora cedida para ali se criar um seminário (de S. José) e outra vez os capuchinhos são postos a andar! Dezanove anos depois, em 1739, continuam os “padres barbadinhos” peregrinando para um pobre e humilde hospício, com sua capelinha de invocação da Senhora da Oliveira.
Ajudados com esmolas do povo, concluíram o hospício em 1742, e finalmente foi dada posse desta casa aos frades capuchinhos!
Foi na horta destes frades que se plantaram os dois primeiros cafezeiros trazidos do Pará em 1761!
O que foi o convento dos jesuitas e depois Observatório,
tudo com ar de abandono
Com o passar do tempo a Igreja de São Sebastião, lá no alto do morro continuava abandonada; foram caindo telhado e paredes e só no governo do Conde de Resende, 1796-1801, com esmolas do povo, é que se procedeu à reconstrução do que não era mais do que um monte de ruínas, evitando que o antigo edifício desaparecesse de vez.
Com a chegada da família real mudaram-se os frades carmelitas para o Hospício dos Barbadinhos, e certamente por estarem já de “saco cheio” de andarem de Heródes para Pilatos, em 1831 os capuchinhos, aliás o único que restava, Frei António de Génova, entregou a Igreja e foi-se para a Europa.
Mas... em 1842 chegam novos frades desta congregação e o governo e o bispo deram-lhes então a Igreja de S. Sebastião, no alto do morro do Castelo, que mais uma vez estava abandonada ameaçando desmoronar! Madeiramento podre, a ruir, rachas nas paredes, etc. Reconstruíram-na, edificaram outro hospício, e ali ficaram até que o morro do Castelo foi desmontado em 1922!
Exumados os ossos do fundador da cidade, foram levados em solene procissão até ao Convento provisório dos Capuchinhos, de onde passaram para a nova Igreja de São Sebastião, na rua Haddock Lobo, acabada de construir em 1931, e onde descansam até hoje!
A "nova" igreja de São Sebastião, na rua Haddock Lobo, Tijuca.
"Nova"! É exactamente da minha idade!
 
Detalhe da nova Igreja, com a alegoria a Estácio de Sá
A arquitectura desta Igreja é de gosto discutível, mas ali repousam os ossos do fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, cobertos com a mesma lápide que lhe mandou fazer seu primo e segundo governador do Rio, lápide esta hoje coberta por outra igual, fundida em latão, que jaz em frente ao altar mor da Igreja. Na mesma Igreja, de lado, está também o padrão original, que aquele mandara fazer para simbolizar a fundação da cidade que viria a ser maravilhosa.
O padrão da "Cidade Maravilhosa"!
Vale a pena a visita. E lembrar o ato heróico daquele que, de acordo com o estudo da ossada feita quando se restaurou a sua campa, em 1862/63, seria um típico português de 1,74 m de altura!
Como se vê há uma profunda ligação entre Estácio de Sá, os frades capuchinhos, o Morro do Castelo, e tudo quanto deste sobra, dos primórdios deste Rio, maravilhoso, a Ladeira da Misericórdia, o único acesso ao topo do Morro, e que subsiste, encostada ao edifício da Santa Casa da Misericórdia, para que os cariocas, os brasileiros, e os portugueses também, porque não?, não esqueçam como seria este Rio há quatro séculos e meio!
 
O que "sobra" do Morro do Castelo: a Ladeira da Misericórdia!
 
A Ladeira que não leva a lugar algum, mas que é a mais antiga remeniscência da velha cidade.

Rio de Janeiro, 15 de Janeiro de 2010
 Francisco Gomes de Amorim

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:25
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Fevereiro de 2010 às 09:03
RECEBIDO POR E-MAIL:

Uma bela história, com fotos alusivas, a ajudar-nos a levantar o ânimo, no pensamento de que, por muito que o presente português se revele apagado, algures no passado portugueses houve que puseram a primeira pedra no desenvolvimento do mundo.
Berta Brás


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