Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
Curtinhas nº 74

 

 
 
v      Desta vez foi um tornado que destruiu estufas e arruinou culturas, com o costumeiro day after: agricultores a reclamarem mais apoios públicos; o Governo a não perder o ensejo para distribuir uns dinheirinhos, como se vasculhasse no seu próprio bolso; políticos à boleia das circunstâncias; e o preço de tudo o que seja primor da horta a disparar.
v      Ano após ano, por causa da chuva ou do vento, da seca ou do granizo, da geada ou de pragas várias, o guião é sempre o mesmo. E todos, sem excepção, dizem-se apanhados de surpresa, como se estes fenómenos (moderadamente) extremos da Natureza fossem, entre nós, raridades: Quem diria? Como poderíamos prever? Pobres de nós, que perdemos tudo!
v      Não ocorre a ninguém juntar as pontas e tirar a evidente conclusão: se uns sofrem perdas, os outros, aqueles que a Natureza poupou, aproveitam a oportunidade, tiram partido da escassez ocasional, sobem os preços e arrecadam mais uns patacos - estes sim, completamente inesperados (apenas, porque, nesta lotaria anual, foram eles agora os poupados).
v      São, porém, comerciantes por grosso, distribuidores e retalhistas quem mais lucra com tudo isto.
v      E, como não é menos evidente, lá está o cidadão comum a pagar em dobro: enquanto consumidor, paga os frescos mais caros; enquanto contribuinte, vê voar em subsídios alguns dos seus impostos.
v      Tabelar preços? Como, se a escassez da oferta é um facto, ainda que temporário, e do tabelamento nenhum benefício resultará para os agricultores atingidos (mas vai alimentar o mercado paralelo que, ingrato, continuará a não pagar impostos)?
v      Liberalizar importações? Mas se elas já estão totalmente liberalizadas (e encontrar quem substitua de pronto a produção perdida não se faz de um dia para o outro)?
v      Lamentar a fatalidade e cruzar os braços até à próxima? Certamente que sim, pois quem acaba por pagar tudo (o cidadão consumidor e contribuinte) nunca aparece a barafustar nos telejornais.
v      E que tal pôr um pouco de ordem neste desacerto a que a Natureza, estou em crer, deve assistir com ar galhofeiro? Por exemplo, instituindo uma Seguradora dedicada (captive):
-             Para cobrir danos emergentes (as estruturas destruídas) e lucros cessantes (a produção perdida) que os agricultores (e só esses, porque o seguro seria voluntário; os restantes ficariam por sua conta e risco), Segurados e Tomadores do Seguro, registassem por efeito directo de condições meteorológicas adversas (tecnicamente caracterizadas);
-             Com os agricultores Segurados e os 1ºs Compradores destes produtos (incluindo Importadores, Cadeias de Distribuição e a Indústria da 1ª transformação) também como Tomadores do Seguro (isto é, a pagarem prémios) por serem estes que, ao que tudo indica, mais proveito tiram dos sobressaltos da Natureza;
-             Com o Governo a fazer o que lhe compete: organizar um mercado para a 1ª transacção dos produtos agrícolas (isto é a venda do produtor aos canais de comercialização);
-             Com o Estado, hélàs! a assumir o papel de financiador de último recurso (através de dotações reembolsáveis) nas indemnizações por prejuízos considerados catastróficos (tecnicamente caracterizados).
v      Uma Seguradora capaz de supervisionar as estruturas agrícolas e as técnicas agrícolas dos agricultores Segurados, de modo a elevar o patamar das condições meteorológicas consideradas adversas e catastróficas.
v      Estou ciente de que o prémio deste Seguro não deixaria de se reflectir no preço final das frutas e legumes, (e, porque não? dos cereais, da carne, do peixe, etc.). Mas o grosso do esforço financeiro com indemnizar recairia sobre o consumidor e seria diluído ao longo do ano (e dos anos); não de uma só vez, e de supetão, sobre o Orçamento do Estado.
v      E também não ignoro que esta solução, para ter um mínimo de eficiência, teria de ser construída sobre Mercados da 1ª Transacção dos Produtos Agrícolas bem organizados – coisa que não existe e que ninguém parece sentir-lhe a falta.
 
Fevereiro de 2010
 
 a. palhinha machado


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:52
link do post | comentar | favorito
|

4 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 5 de Fevereiro de 2010 às 13:23
Mais uma vez se confirma que Portugal não tem um problema agrícola (ou de pescas).
O que nos toilhe é apenas e só um problema comercial.
Onde não há transparência de mercados nem método lógico de formação de preços tudo passa pela especulação pejorativa como é, mais uma vez, o caso.
Henrique Salles da Fonseca


De Miguel Mota a 6 de Fevereiro de 2010 às 20:08
Vi hoje, pela primeira vez, este Blog e o que aqui se diz sobre a agricultura. Começo por dizer ao Dr. Henrique Salles da Fonseca que, embora a agricultura portuguesa tenha, realmente, um problema comercial - basta ver que o consumidor paga por qualquer produto muitas vezes mais do que o produtor recebeu - o seu maior problema têm sido os péssimos ministros da agricultura que temos tido, cuja acção tem sido de absoluta destruição daquilo que, por definição, tinham obrigação de desenvolver, como em numerosos escritos tenho denunciado. O prejuízo que com essa acção deram à economia nacional é astronómico.
Não sei ainda o que vai fazer o actual Ministro da Agricultura. Mas se não arrepiar caminho e fizer tudo ao contrário do que fez o seu antecessor - como, aliás, têm andar a fazer todos os novos ministros do governo Sócrates II em relação aos seus homólogos do governo Sócrates I... - Portugal pode ter a certeza de continuar na penúria económica em que está.
Para desenvolver uma agricultura pobre e atrasada como a que, com raras excepções, temos em Portugal, é necessário que o Ministério da Agricultura disponha duma bem desenvolvida e de alto nível investigação agronómica (que, em última análise, descubra constantemente formas de agricultar melhor, no seu sentido mais lato) e dum eficiente serviço que hoje no mundo se designa de extensão agrícola, cuja função é levar até aos agricultores os conhecimentos de que necessitam, incluído aqueles que vão sendo obtidos pela investigação agronómica. Tenho muitas dezenas de anos a dizer e demonstrar esta afirmação, a última, em público, numa conferência na Universidade de Évora, há menos de um ano. Mas é preciso cuidado pois se ninguém, em seu perfeito juízo, diria à investigação médica que se deixasse de querer saber como funcionam os mitocôndria do fígado e tratasse apenas de arranjar umas pílulas para curar doenças, é algo semelhante que pessoas de mentalidade tacanha têm feito em relação à investigação agronómica.
O quem sido feito nas últimas décadas é precisamente uma enorme destruição da investigação agronómica existente e que tanto já tinha dado ao país e do pouco que havia dos serviços de extensão agrícola. Diga-se de passagem que não foi apenas a investigação agronómica a sofrer essa destruição. Há alguns anos que está em vigor uma "lei" não escrita mas religiosamente seguida que pretende extinguir toda a investigação que não seja feita nas universidades. Tal lei só pode ter sido decretada por alguns medíocres a quem essa investigação fazia sombra. Como Professor Catedrático Jubilado não posso deixar de protestar contra essa destruição que já custou ao país fortunas fabulosas. As destruições feitas à Estação Agronómica Nacional - agora "extinta" oficialmente, pela segunda vez, esperando que não tarde a sua segunda ressurreição - e ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil, hoje uma sombra do que já foi, além de outros organismos oficiais de investigação, são responsáveis por uma parte importante do estado miserável da nossa economia e, por tabela, das finanças.
Os subsídios à agricultura, especialmente estando a Europa como está, são importantes, mas apenas um paliativo. Nalguns casos, como no do girassídio " (os agricultores sabem o que isso é...), até podem ser muito prejudiciais.
Para recuperar o mais rapidamente possível do atraso da nossa agricultura e torná-la uma actividade económica florescente (com muito benéfica influência no PIB, no desemprego, na inflação, na balança comercial e até na indústria e no comércio, a montante e a jusante) será preciso iniciar com urgência um "Programa Intensivo de Investigação Agronómica e de Extensão Agrícola", que já propus mas não foi aceite.
Portugal tem todas as condições para estar na lista dos países mais desenvolvidos, com grandes benefícios para a vida de todos os portugueses.
Miguel Mota

Se alguém está interessado em conhecer alguns dos muitos escritos que tenho publicado sobre o assunto pode mandar-me o seu nome e e-mail para miguel.eugenio.mota@clix.pt





De Henrique Salles da Fonseca a 6 de Fevereiro de 2010 às 23:39
Muito obrigado por comentário tão interessante.
Tem V. Exª as «páginas» deste blog à sua total disposição para apresentação de textos curtos (não mais que 5000 caracteres pois o Servidor «não gosta» de textos grandes; textos mais longos devem ser seccionados pelo Autor de modo a que eu faça publicações sucessivas).
Creio que deste modo os interessados (eu, por exemplo) poderão aceder aos textos que o Senhor Professor nos ofereça de forma ampla e de utilidade geral.
Neste blog debatem-se ideias; referem-se factos para ilustração dessas ideias; nunca se referem Pessoas, sobretudo se vivas.
Cá ficamos à espera.
Atenciosamente,
Henrique Salles da Fonseca


De Miguel Mota a 7 de Fevereiro de 2010 às 00:53
Caro Dr. Henrique Salles da Fonseca,
O único comentário que posso fazer é agradecer, muito penhorado, as palavras muito amáveis e a oferta da possibilidade de colaborar em tão interessante Blog. Procurarei corresponder sempre que me for possível.
Apresento os meus melhores cumprimentos e renovados agradecimentos.
Miguel Mota


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


artigos recentes

O FILHO DAS SALSAS ERVAS

FRASE DO DIA

RESTAURADORES DA SOBERANI...

OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

FRASE DO DIA

CARTA DE UN MINISTRO AL R...

LIDO COM INTERESSE – 74

PERU – 12

PERU – 11

PERU – 10

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds