Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO

 

 
 
 
O trágico terramoto no Haiti atraiu as atenções mundiais para a história daquele martirizado povo. Os pobres haitianos não precisavam de mais esta tortura;  já sofriam desmesuradamente antes do abalo os ter privado em muitos casos de vida e noutros  das sua casas e dos seus haveres terrenos. E porque tem sofrido tanto tal povo?
 
Mark Danner, na sua obra intitulada Haiti, look to History, not to Nature,   diz-nos algo sobre o assunto. No século XVIII, o Haiti, então chamado de Saint-Domingue, era governado pelos franceses e constituía a mais próspera colónia no Novo Mundo. Dotado de solo altamente fértil produzia regularmente abundantes colheitas de açúcar de excelente qualidade e tinha-se constituído em pólo de atracção de milhares de colonizadores franceses. O país tornou-se independente em 1804 por obra de uma revolta de escravos comandada por Toussaint Louverture que derrotou as tropas de Napoleão. Spartacus foi finalmente vingado, enquanto a França perdia a sua melhor fonte de abastecimento de açúcar. Napoleão resignado optou pela promoção doméstica da cultura da beterraba. Os EUA – ao tempo de cultura esclavagista –,   receosos de contágios psicológicos impôs  o isolamento da nova república. (O reconhecimento só viria com Lincoln em 1862 mas as relações comerciais continuaram até hoje fortemente condicionadas). Os revoltados ficaram pois donos de riquíssimas terras mas privados de mercados para o seu produto, ou seja, condenados à pobreza. Na circunstância, a  elite mulata que tinha comandado a  revolução valeu-se de outro meio: apossou-se do estado e pôs a máquina fiscal e o aparelho repressivo a trabalharem para seu benefício.   (Lá, como noutras paragens e noutros tempos). O resultado local foi a violência perpétua; a pilhagem passou a ser a actividade económica determinante. Como fundo cultural a nova sociedade adoptou o vodoísmo - culto do fatalismo,  da futilidade e da irresponsabilidade - entendido por todos. O primeiro presidente, Dessalines, auto proclamado "imperador Jacques I", tinha uma máxima: -"depena a galinha mas não a faças gritar". O  desenvolvimento não aconteceu.
 
 A primeira intervenção americana, sob forma de um desembarque de marines, veio em 1915 para exigir o pagamento de dívidas contraídas nos bancos americanos (e para impedir também que os alemães se aproveitassem da desordem ali reinante para instalar uma base militar na vizinhança do território americano). Em 1957, o Presidente Duvalier conseguiu impor a sua autoridade internamente  e, aproveitando a revolução cubana de 1959, manobrou os americanos em termos de anticomunismo e conseguiu criar um fluxo de ajuda externa que tornou o Haiti o maior recipiente de ajuda externa americana  na região. Todavia dessa ajuda nada chegou às mãos do povo e pouco ou nada foi usado em projectos susceptíveis de criar riqueza interna (lá, como noutras paragens e noutra épocas).   A tendência predadora do estado haitiano acentuou-se. Já antes do terramoto a  economia se encontrava destroçada. O país permanecia extremamente pobre, sendo o mais pobre da América e de todo Hemisfério Ocidental. 50,2% da população é analfabeta e a expectativa de vida não ia além dos 51 anos. A renda per capita local equivalia a  cerca de um terço da renda da favela da Rocinha, do Rio de Janeiro. Mas isso não deprimia os haitianos graças ao  orgulho que o  seu passado lhes inspirava.
 
Para melhor apreciação fornecem-se alguns índices da economia haitiana antes do terramoto.
 
 
Economia do Haiti
 
 
 
 
 
 
Banco Central
 
Bolsa de Valores
 
 
US$ 11,59 biliões ( (2008)
% de cresc. do PIB
2,3% (2008)
PIB per capita
US$ 1300 (2007)
 
 
 
 
População abaixo da linha de pobreza
80% (2004)
Força de trabalho
3,6 milhões (1995)
 
 
Desemprego
2/3 da população no desemprego ou subemprego[1] (2008)
 
 
 
554,8 milhões f.o.b. (2007)
 
 
 
 
1 844 milhões (2007)
 
 
 
 
Finanças públicas
Dívida externa
US$ 1463 milhões (2008)
Receitas totais (US$)
330,2 milhões (2004)
Despesas (US$)
529,6 milhões (2004)
 
 
 
 
Ajuda económica anual recebida
US$ 150 milhões (2004)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
+++
 
Parece interessante comparar estes dados com os relativos a outras economias da região, como a do Haiti, inicialmente fundadas na monocultura do açúcar.
 
Cuba foi colónia de Espanha até 1898, esteve depois sob ocupação americana e tornou-se independente em 1902. Em 1959, optou pelo marxismo e sofreu  imediatamente o embargo norte-americano. A república marxista  viveu desde então sustentada pelos subsídios de Moscovo em volume que se estima da ordem dos US$ 300 milhões/ano.   Com a queda do muro de Berlim em 1989, o auxílio russo extinguiu-se  e o governo cubano  viu-se obrigado a abrir gradualmente economia à iniciativa privada. Esta responde hoje por cerca de 20% do PIB. O  produto  per capita dos cubanos atingiu em 2006, US$ 4.100 ou seja um nível mais de 3 vezes superior ao do Haiti.   O índice de pobreza em Cuba era então o sexto menor dentre os 102 países em desenvolvimento pesquisados pela PNUD, organização especializada da ONU.
 
A República Dominicana, que partilha com o Haiti a ilha Hispaniola, esteve sob ocupação espanhola até 1865 e longo tempo depois  sujeita a intervenções americanas ou a ditaduras apoiadas por Washington, atingiu finalmente o estágio democrático em 1978, ano em que tomou posse o primeiro governo eleito pelo voto popular. A propriedade encontra-se parcelada. O catolicismo tem forte implantação popular e inspirou  ali a vontade de "criar confiança" que caracteriza o comportamento dos dominicanos.   Com uma força de trabalho sensivelmente igual à do Haiti, a economia dominicana apresentava em 2007 um per capita de US$ 9200 ou seja 7 vezes superior ao do seu vizinho vodoo instalado a Oeste da ilha e duas vezes superior ao do cubano marxista. A população abaixo da linha de pobreza situava-se em 42% (2004),   portanto cerca de metade do índice haitiano. A ajuda externa recebida totalizou em 2005, US$ 79 milhões, ou seja menos de metade da ajuda "doada" ao Haiti. Não há pois relação directa entre ajuda concedida e resultados obtidos.
 
O Barbados, membros da Comunidade Britânica, constituiu-se em regime parlamentar em 1966, regime que se tem mantido estável desde então.   A cultura local é de cunho protestante – sentido de responsabilidade, respeito pela propriedade e iniciativa privada.   O país regista o maior índice de desenvolvimento da região. O PIB per capita situava-se, em 2007, nos  US$19 700[1] (mais de 10 vezes superior ao do Haiti) e o PIB total registava um crescimento anual de 4% (o dobro daquele). O desemprego cifrava-se nessa data em 10,3 % da população activa (oito vezes menos do que o índice haitiano). O sector mais desenvolvido da economia era o dos serviços que absorvia 75% da mão de obra. Esta era a única economia da região em que o turismo já produzia mais receita do que  o açúcar. Gradualmente, o país tornou-se auto-suficiente em petróleo e criou uma pequena indústria para abastecimento local. Em Barbados, a população abaixo do nível de pobreza é não existente.  
 
Verifica-se pois que o Haiti, apesar de ter sido o primeiro a tornar-se independente, de ser dotado da melhor terra da região  e de receber maior ajuda per capita do que qualquer  dos outros territórios insulares das Caraíbas, não se desenvolve. É o mais pobre de todos e, ao que tudo indica, continuará a sê-lo. Por seu turno, o Barbados, menos dotado de recursos agrícolas e que tardou a descolonizar mas aprendeu a dar liberdade à iniciativa privada, é o mais evoluído de todos e continuará a sê-lo.  Temos portanto que não são a ajuda externa e a abundância de recursos naturais  os factores que respondem pelo desenvolvimento e felicidade dos povos. Obstáculos de outra natureza neutralizam tais vantagens.
 


[1] Em 2008 o PIB per capita português era de US$ 23.041,00
 
Estoril, 27 Janeiro 2010
 
 Luís Soares de Oliveira

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:53
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3 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Janeiro de 2010 às 09:09
É mais um a ter que pedir contas aos genes.
Berta Brás


De Henrique Salles da Fonseca a 30 de Janeiro de 2010 às 13:31
O tema daria para um Tratado mas o Autor conseguiu exemplificar de tal modo que fez luz sobre questões que me parecem essenciais para o desenvolvimento. A começar pela História que induz uma Cultura que é a essência de um povo.
Considero marginal a problemática genética mas não esqueço – como terá demonstrado o neurologista Professor Damásio – que a estrutura do cérebro de um analfabeto é claramente diferente (por deficiência) da do letrado e, mais ainda, da do cientista. Só depois de constatada essa Cultura é que se podem imaginar os remédios para a falta de desenvolvimento. Porque sendo o desenvolvimento medido por padrões gerados na Cultura Ocidental, um dos problemas que se podem detectar será a eventual incompatibilidade entre a Cultura estudada e esses tais padrões que definem o que consideramos desenvolvimento.
Será o nosso conceito aplicável ao povo estudado? Teremos nós o direito de interferir?
É claro que respondo afirmativamente às duas questões anteriores mas duvido que se consiga chegar a consenso sobre a terapêutica de longo prazo a aplicar, por exemplo, ao povo haitiano.
E a questão poderia/deveria colocar-se em relação a outras sociedades. Não me esqueço de todos esses «pobres países ricos» que pululam um pouco por todo o terceiro mundo e sobretudo o que se passa de parecido no mundo lusófono onde temos exemplos muito positivos como Cabo Verde e Moçambique mas onde também temos outros exemplos...
Coloquemo-nos uma questão: foi Duvalier causa ou consequência da miséria haitiana?
A bons entendeurs...
Henrique Salles da Fonseca




De Henrique Salles da Fonseca a 31 de Janeiro de 2010 às 23:47
RECEBIDO POR E-MAIL:

Caro Henrique

Só agora, de regresso de uma curta viagem, tomei conhecimento dos comentários suscitados pela observações feitas acerca das economias das Caraíbas. Em relação aos ditos comentários gostaria de esclarecer que também me inclino a acreditar que é no domino cultural - e não no genético - que se poderá encontrar explicação para as diferenças de resultados registadas nas vária ilhas, até porque, no caso, as diferenças genéticas são praticamente inexistentes. A miscigenação deu-se igualmente em toda a região. Por outro lado, tenho boas razões para não acreditar que a cultura esteja subordinada aos genes pois constatei no Extremo Oriente que aspetos importantes das culturas locais se alteraram (radicalmente) sem que tivesse ocorrido qualquer variação significativa de cunho étnico. O que se verificou foi que, assimilada a nova cultura, o desenvolvimento económico aconteceu. E como !

Luís Soares de Oliveira




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