Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
A GRANDE BIRRA

 

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres
 
 
Em breve iremos assistir, no nosso país, a um conflito explosivo entre o Governo e uma parte da sociedade. De um lado a necessidade do Governo aprovar um orçamento de austeridade que contrarie o crescente défice público – aumentando provavelmente os impostos e reduzindo a despesa pública –, o que irá obrigar a novos sacrifícios. Do outro lado temos uma parte da população que, nos últimos anos, se habituou a consumir facilmente, vivendo na ilusão de que a riqueza não provém do esforço e do trabalho. Este conflito não surge por acaso, uma vez que se criou a fantasia de que o bem-estar e a felicidade, em lugar de serem procurados pelo indivíduo, deveriam ser reivindicados ao Estado; tratando-se de um direito. Dito de outro modo, a sociedade infantilizou-se e o Estado assumiu um papel paternalista de quem tudo se espera.

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres. Ao longo do tempo criou-se, no inconsciente colectivo, a ideia errada de que qualquer frustração do indivíduo se devia a um direito que ainda não estava conquistado e a solução libertadora residia em reivindicá-lo. Confunde-se, pois, direitos com aspirações. E, mesmo que sejam dadas todas as oportunidades, se porventura houver alguém que não alcança uma aspiração, isso raramente é atribuído a um fracasso pessoal, mas a uma discriminação, mesmo que muitas vezes nem sequer tenha havido qualquer esforço para se obter sucesso.

O profundo desequilíbrio que se criou entre direitos e deveres é uma das causas do nosso atraso e da falta de competitividade. Porém, raramente se ouve no discurso político o elogio do dever: o dever de valorizar o trabalho, ser justo, solidário, cumpridor, honesto, responsável, etc. Estas são virtudes associadas a uma visão do mundo antiquada, ultrapassada e opressora do homem. Mas, ao contrário do que se pensa, estes são os alicerces de uma sociedade madura, responsável e que se projecta não apenas no presente, mas também no futuro.

O paternalismo patológico, por parte do Estado, é inimigo da solidariedade, tornando as pessoas excessivamente auto-centradas, preocupando-se mais em exigir o que merecem do que com o que podem oferecer aos outros. Somos confrontados com uma camada social cada vez mais infantilizada, dependente de subsídios do Estado, incapaz de se bastar a si própria e de criar riqueza que possa ser partilhada com os outros. Em vez de se incitar a ambição positiva e autonomia, fomenta-se a miséria e a regressão a um estado de dependência.

A nossa sociedade não tem vindo a ser preparada para os sacrifícios que a presente crise económica irá obrigar. Pelo contrário, foi iludida com um consumismo desenfreado, sustentado por um crédito abundante que agora acabou. Com isto, disseminou-se uma síndrome de baixa tolerância à frustração, surgindo a percepção de que tudo se poderia alcançar de forma fácil e instantânea.

Diante da nossa actual realidade económica e social, é fundamental que haja coragem política para se explicar ao povo que a riqueza, a justiça e o progresso não podem ser alcançados apenas com o esforço de alguns. Todos devem participar nesse projecto; todos temos a obrigação e o dever de lutar para que Portugal se torne num país mais rico e desenvolvido. Não obstante este facto, alguém terá de reverter esta hipnose colectiva. Alguém terá de explicar que tudo foi uma fantasia; tudo foi um engano. Chegou a altura de abandonar o discurso alicerçado na esperança pueril de que tudo irá melhorar. É tempo de fazer sacrifícios. Mas, se a sociedade foi infantilizada, isso não se aceita facilmente sem que haja uma grande birra.
 
 Pedro Afonso
Médico psiquiatra


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:12
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 25 de Janeiro de 2010 às 23:21
É uma pena que nós, os economistas, não consigamos tratar da psiquiatria com a clareza com que este psiquiatra trata da economia.
Estará a economia necessitada de tratamento psiquiátrico? Já tive mais dúvidas...


De apmachado a 26 de Janeiro de 2010 às 11:36
Bela reflexão. Como estranhar que venha pela mão de um psiquiatra? É alguém que se treinou para observar e compreender o que observa a fim de lhe descobrir um sentido. Todo o contrário dos economistas. Começam eles, não por observar, mas por empinar umas tantas teorias construídas por outros que, também eles, começaram por ler sem observar, numa cadeia ininterrupta que se perde pelo séc. XIX. Depois, filiam-se numa teoria e combatem todas as restantes, enquanto a realidade lhes passa ao lado. Por fim, crêem que a realidade é aquilo que leram e lhes ficou no goto. Qualquer um cuja mente não tivesse ficado embotada por uns quantos Manuais de Economia, veria sem esforço: que, entre nós, a partir de 1997, as despesas familiares dependiam cada vez mais do endividamento; que as dívidas das Famílias se empilhavam, juntando-se às das Empresas, estas tradicionalmente sobre-endividadas (ou descapitalizadas); que o grosso da receita fiscal provinha da tributação sobre a fileira das despesas familiares e, por isso, dependia cada vez mais do ritmo a que as Famílias se endividavam; que eram os Bancos a financiar em crescendo essas despesas; que a componente importada dessas despesas era cada vez maior; que eram os Bancos que tinham, por sua vez, de se endividar junto de uns, poucos, Bancos estrangeiros para pagar as compras que iam sendo feitas no exterior; que os Bancos não possuíam Capital que suportasse, nem o que deviam lá fora, nem o risco a que estavam expostos cá dentro; que o actual ordálio poderia, e deveria, ter sido evitado se a bolha de crédito bancário tivesse sido esvaziada a tempo; que nenhum governante o faria, pois consumidores satisfeitos são votantes no papo, e o nível da cobrança fiscal é sempre visto como prova de boa governação; que temos hoje Famílias endividadas aos Bancos, Empresas endividadas aos Bancos, Bancos endividados ao estrangeiro, um Governo com receitas à míngua e o crédito externo quase esgotado. Tradicionalmente, este puzzle seria resolvido através de duas medidas simples e bastante democráticas (é certo que só num primeiro momento): desvalorização cambial (para inverter o sinal do saldo da BTC) e inflação interna (para dissolver o endividamento interno). E a boa governação consistiria em evitar que a inflação interna anulasse os efeitos da desvalorização cambial. Agora, porém, a desvalorização cambial não é mais uma opção, até porque muito do endividamento é ao exterior e denominado em moeda estrangeira (e lá permaneceria denominado em EUR ou em USD, mesmo que Portugal saísse da UEM). Que fazer? perguntava V. I. Ulianov. Alguma resposta a pergunta há de ter.


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