Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Aerodinâmica – 4

 

A página alojada no terraço enfrentava a espera do dia, separada das suas companheiras deixadas na esplanada ventosa. Sobre o papel encontrávamos estilhaços de algo mais amplo. Como se as palavras fossem cacos de um vidro cortante, penetrando na celulose da folha para extrair a seiva de todos os livros escritos, ou o sangue de todos os escritores alguma vez procurados. Ideias chave com poder para desvendar mistérios, derrubar ministros ou sentir o derradeiro homem. O autor, desconcertado pelo extravio das suas ideias, tinha assente uma noção importante na folha perdida e fazia-lhe falta na sua vida pessoal. O assalto do vento naquele dia flatulento não vinha mesmo a calhar. O germe de uma obra substancial, um ensaio para qualquer coisa maior era agora um resquício na sua memória. Aquilo que tinha ido pelos ares era uma tatuagem irreversível mas ao mesmo tempo um tema por acabar, uma discussão com uma mulher bela ou um tira-teimas irrelevante. Uma mensagem incompleta, como todas as outras, mas pejada de revelações que poderia comprometer a humanidade. Confidências sobre a condição de alma e a frustração, redigidos num estilo apelativo para qualquer leitor independentemente da sua vontade ou idade. Esta pequena dissertação poderia tornar-se perigosa se publicada fora de contexto. O vento tinha estragado os planos de alguém com planos de algo majestoso, naquele Domingo vulgar como qualquer outro dia da semana.
 
O cronista chegou tarde. Eram duas da manhã quando rodou a chave. Largou a pasta sobre o sofá e tirou o sapato esquerdo com a ajuda do direito. Notava-se facilmente o desgaste mais acentuado no calcanhar da sapatilha esquerda. Despiu o sobretudo como se mais nada trouxesse sobre o corpo e suspirou de alívio. Cheirava a suor e tabaco. Tinha sido um dia e meio comprido, e ainda não tinha conseguido resumir os seus pensamentos a matéria que cativasse os leitores. Neste momento, estava diminuído pela opressão anónima de milhares de compradores do semanário e não tomou um duche. Sentia na pele essa tensão como se fosse um corretor na bolsa, sempre perto de um desfecho trágico e próximo de um pequeno ganho. A publicação que lhe dava emprego era o escaparate preferencial para os diferentes moldes de pensamento. As secções literárias permitiam arrumar as elocubrações por categorias. Ficção, história política, biografias ou actualidades. O caminho estava facilitado para os leitores, que não se tinham de preocupar com questões de ordem logística de pensamento. A maior ameaça residia na possibilidade do inclassificável. Um texto híbrido, indecifrável pela racionalidade, mas igualmente insondável pela alma, que atordoa o leitor deixando-o em estado de choque, paralisado ou surpreendido pela sua incontinência. A página que poderia corresponder a essa descrição continuava ao relento sem poder manifestar-se ou ser accionada à distância. O cronista que arrendara este apartamento adormecia na sala infestada de tabaco, ignorando os riscos e os perigos que espreitavam do terraço.
 
O telefone tocou às dez e quarenta e cinco da manhã seguinte. Tocou três vezes. O cronista acordou de sobressalto. Já sabia o que o esperava. Do outro lado da linha o director editorial ameaçava o cronista com palavras duras. O cuspo alojado no canto da boca revelava a ânsia e uma brancura raivosa. Faltava pouco tempo para o fecho da edição dessa semana, e a coluna deveria ser preenchida com um texto, mas nada havia a oferecer. O cronista estava a atravessar um momento difícil na sua vida, mas esse facto não servia para dirimir a sua insolvência literária.
 
Ou entrega a merda do texto ou está arrumado...
 
(continua)
 
 
  John Wolf


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:56
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