Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
UM PORTUGUÊS NA ANTÁRTICA – 4

 

Finalmentes e considerandos
 
Despertar, no “Ari Rongel” às sete e pouco, porque nos esperavam em terra (fria!) para o “matabicho” – café da manhã no Brasil e na Antárctica! Noite bem dormida, por todas as razões e até porque a véspera havia sido pesada!
 
Visão da nossa estação quase integralmente coberta de neve! Pouco mais que telhados de fora, lá vamos escada abaixo para o bote nos levar a terra. Físico recomposto, a descer, foi fácil.
 
Recebidos pelo chefe da Estação, Comandante Glénio e sua equipa, a visita às instalações foi um refrigério, passe a temperatura do clima, até porque lá dentro não havia frio. Refrigério porque é muito bom vermos que no Brasil tanta coisa funciona de modo impecável. Não me consigo conter sem dizer que isto só se passa à revelia do governo. Deo Gratias!
 
 
A Estação Comandante Ferraz como deveria estar (a neve)
 
... e como estava!
 
A sala, os dormitórios, os laboratórios, as oficinas, o ginásio, a casa de máquinas, o “supermercado”, um tanto desfalcado ao fim de quase um ano, mas onde estavam agora a chegar os convenientes reforços, tudo muito bem arrumado e organizado. O sistema de esgotos impecável. Dá prazer e orgulho ver tudo ali funcionar em magníficas condições, mais ainda sabendo do trabalho e sacrifício que isso exige.
 
Nesta altura do ano a neve deveria já ter baixado ao nível dos alicerces dos edifícios, mas, tal como na Base chilena, praticamente cobria os telhados. A entrada principal tinha uma espécie de poço cavado em escada para se poder entrar! Basta ver o ar tranquilo desta skua, deitada mesmo em frente da porta, e que à nossa passagem, a menos de um metro de distância, nem se dignou olhar para nós!
 
 
A skua... numa boa!
 
Esta skua vive à custa da Estação. Bela ave – catharata skua – chega a ter 1,40 de envergadura de asas, e voa facilmente no meio de tempestades, mas sem vento tem dificuldade em levantar vôo! Na Estação sempre aproveita um ou outro pedaço de comida que lhe dão, e então, cansar-se a pescar ou roubar ovos... para quê? Deve ser também da família do Zelaia!
 
 
Quando ela voa, é imponente!
 
Os pinguins deveriam estar de férias porque nem unzinho se dignou aparecer, assim como baleias ou focas.
 
 
Quando da instalação da Estação, lá estava um pinguim inspeccionando os trabalhos!
 
Pássaros, raros, a não ser esta hóspede skua, e leões marinhos um só de quem tentei me aproximar para o ver mais de perto, mas além do gelo estar extremamente escorregadio e irregular, o que me ia fazendo levar um tombo, fui aconselhado a não incomodar sua excelência, porque quando se zangam correm atrás da gente. E 300 quilos a pegar no meu pé... O tranquilão levantou a cabeça como a dizer-me “não vem encher”, e eu, não fui!
 
 
Ao fundo, à direita, o tranquilão!
 
Foi muito gratificante a visita à Estação Antárctica Comandante Ferraz, de quem trouxemos uma recordação de simpática atitude do Comandante.
 
Antes do almoço reembarque no navio, só que desta vez de helicóptero. Outra mordomia, que tem ainda a vantagem de se dar, mesmo pequena, uma volta por cima daquela área. Tudo é uma beleza.
 
E agora o “Ari Rongel”. Navio com 73 metros de comprimento e 70 tripulantes, do comando do CMG Capetti, tudo gente atenciosa, além da boa capacidade de carga e do transporte do helicóptero ainda tem acomodações para 22 pesquisadores, e lá estava uma leva deles, da UFRJ com seu professor.
 
 
O navio "Ari Rongel"
 
Viagem de retorno até à Base chilena cerca de 3 horas, por vezes abrindo caminho no gelo, durante a qual tivemos o prazer de compartilhar um belo almoço, com vinho, é evidente, e novamente o desembarque foi feito de helicóptero. Bem melhor do que na ida!
 
 
O helicóptero, ainda a bordo, já a aquecer os motores, vendo-se a esteira deixada no gelo
 
Durante este dia o “nosso” Hércules tinha andado a fazer treinamento de novos pilotos para se habituarem àquele magnífico aeroporto congelado, e com o dia a chegar ao fim, embarque de volta a Punta Arenas, onde ficaríamos todo o dia seguinte para que o mesmo avião estivesse a abastecer a Estação.
 
 
Despedida!
 
O avião correu mais uma vez por aquela pista gelada, seguro, e em poucos minutos já nada mais se via daquele continente!
 
Essa noite e mais todo o seguinte “dia livre” trouxe algumas vantagens: as que já referi, como a visita a La Pinguinera e à própria cidade, e o tempo que dispusemos para melhor nos conhecermos. E foi muito gratificante.
 
Não posso lembrar aqui todos os companheiros de viagem com quem mais me identifiquei, mas também não posso deixar de agradecer a todos aqueles que mais me sensibilizaram pelas suas personalidades fortes, conhecimento e sobretudo simpatia, que essa foi geral.
 
Recordo com amizade o Ministro Flávio Bierrenbach e suas oportunas intervenções sempre cheias de um delicioso veneninho e de profundos conhecimentos, em todas as áreas sobre que conversávamos, mormente na área da aviação de que é um experimentado piloto com mais de 6.000 horas de vôo, e continuando a voar, o General Aléssio Ribeiro Couto, pára-quedista, uma bela folha de serviços, modesto, porém muito culto, alegre e muito atencioso, o Dr. Paulo Leite Lacerda para quem tudo parece estar sempre bem e é uma agradabilíssima companhia, o Reitor de UFRR Professor Roberto Santos Ramos com quem tive bela troca de impressões, algumas delas enquanto voávamos com os pés congelados, mas que me fez saber o trabalho sensacional que a sua Universidade está a fazer com os índios da região, alguns deles já diplomados, e que me desafiou a assistir à próxima graduação a que eu não irei só se estiver já louco de todo (deve faltar pouco!), a Assessora Parlamentar Stephania Serzaninck, sua simpatia e seu sorriso ao ouvir os meus ácidos comentários sobre políticos, o Comandante Paulo também Assessor Parlamentar, o engenheiro Rómulo Barreto Mello, Presidente do Instituto Chico Mendes, com quem me confundiram, o tranquilo André Cabral de Sousa, a Joana da Oi que me emprestou o seu telefone para dizer para a minha família que ainda estava vivo, e, evidente os que me proporcionaram esta aventura inesquecível.
 
Vou começar pelo CMG Parpagnoli, o único que conseguia dormir dentro do avião durante todas as horas de vôo, aconchegado no seu revestimento natural um pouco inflado, mas que a todos tratava com lhaneza e amizade de longa data, o Almirante e meu xará Francisco Ortiz, Chefe do PROANTAR, outro companheiro alegre e simpático, e para terminar o responsável directo da minha participação, um amigo de há uma dúzia de anos, co-autor de um livro que ainda não escrevemos, mas que está “muito pensado”, que considero hoje da minha família, o Comandante José Robson Medeiros.
 
A este em primeiro lugar e a todos os outros, mesmo aqueles que não referi, obrigado pela aventura e pelas amizades, que são dons preciosos.
 
Ficou uma imensa vontade de repetir a dose! O que vale é que sonhar ainda é barato, e a vida em qualquer momento nos pode trazer outra surpresa! Porque não?
 

Rio de Janeiro, 26 de Novembro de 2009
 
Francisco Gomes de Amorim

tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:36
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 25 de Janeiro de 2010 às 23:16
Afinal há mais neve do que o habitual. Como irão os alarmistas do «aquecimento global» explicar esta realidade?
Henrique Salles da Fonseca


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


artigos recentes

ADEUS

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

DONALD TRUMP – 3

DONALD TRUMP - 2

DONALD TRUMP - 1

ENCONTROS DE ESCRITORES

arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds