Domingo, 24 de Janeiro de 2010
UM PORTUGUÊS NA ANTÁRCTICA - 3

 

Mesmo!  
 
Depois de uma tarde e uma noite em Punta Arenas, levantar bem cedo, vestir tudo quanto for possível, porque se já está frio por aqui, lá, para baixo dos 62° de latitude Sul, a “coisa” vai pegar!
De ónibus directos para a porta do avião, uma bela manhã de sol, lá vamos no nosso confortável “aerolulão”, quase três horas de vôo, com os pés gelados, a caminho da Antárctica.
Chagados. À saída do avião, à nossa volta tudo branco! Tudo. Uns leves laivos da rocha aparecendo além e mais além ainda, para nos dar a certeza (?!) de que não tínhamos pousado em cima de nenhum iceberg, e uns poucos telhados de algumas instalações da Base Frei.   
A pista, e os arredores, tudo coberto de gelo e neve, e os nossos hábeis pilotos fizeram um pouso impecável. Palmas para eles, tanto mais que o comandante era o Ten. Cor. Portugal!
Primeira sensação nem foi de beleza ou espanto. Eu, senti-me o Capitão Scott! Apesar de bastante gente à volta, os parceiros da viagem e mais o pessoal da Base, a impressão é de um isolamento feroz! E de êxtase perante tamanha grandeza!
Tudo neve e gelo à nossa volta, uma “agradável” temperatura de -14°C, mas sensação de -500° por causa do ventinho e da neve que intermitentemente teimava em cair.
Recebidos na Base chilena Presidente Frei, por simpáticos oficiais chilenos, num pavilhão que chamam de hotel, mas que não tem acomodações para dormir. Só para receber os que por ali passam. Um cafezinho e... olhe lá!
Esta base chilena, bem com a russa, polonesa e brasileira ficam na Ilha Rei Jorge, pertencente ao arquipélago das Shetlands do Sul.
Um pouco de história: há muitos anos começou a briga internacional pela posse do continente antárctico. Estas ilhas são reivindicadas pelo Reino Unido desde 1908, pelo Chile desde 1940 e pela Argentina desde 1943. Com o Tratado da Antárctica, assinado em Washington, 1959, as reivindicações de soberania foram paralisadas, porque todos os países, além dos primeiros, queriam uma fatia do continente gelado. Sobretudo os do hemisfério sul, que argumentavam que seria como que o prolongamento do seu território continental. Depois estabeleceu-se que seria de quem para lá mandasse missões científicas, e, pelo tal Tratado se congelaram disputas territoriais. Na Antárctica, enquanto o Tratado for mantido não haverá exploração comercial de espécie alguma, e servirá apenas para pesquisa científica. Hoje são 27 os países que lá têm missões, mas poucos as têm ocupadas o ano inteiro, como o Chile e o Brasil.
O Chile, à espera que um dia aquilo tudo acabe em briga, o que é próprio dos homens, mantém a sua Base “habitada” o ano todo! Aliás cinco bases permanentes, o ano todo, e mais doze no verão, uma delas no paralelo 80°! Os oficiais que para lá vão levam mulheres e filhos, por dois anos, têm escola para as crianças, igreja, e isso poderá servir um dia para aquele papo do “uti possedetis” que já lhes deu o Canal de Beagle! Aliás em 1941 o Presidente chileno Don Pedro Aguirre Cerda, decretou, unilateralmente, a posse de parte da Antártida, compreendida entre os meridianos 53° e 90° W, terminando no Pólo Sul.
Parece que ninguém aceitou aquele papo dos chilenos, mas a verdade é que eles consideram aquela área seu próprio território, a Província Antárctica Chilena, e para aí chegar há que obter o visto de entrada no Chile! A verdade também é que o Tratado da Antárctica, o tal de 1959, não nega as reivindicações territoriais já existentes, para poder começar a haver algum entendimento entre as partes.
Desta Base é que se sai para a brasileira, Estação Antárctica Comandante Ferraz. Toda aquela área, este ano estava com muito mais neve do que parece ser habitual.
Ambas as Bases estão localizadas na Ilha do Rei George, afastadas, em linha reta, cerca de 17 milhas (náuticas!) ou 32 kms., uma da outra, cada uma em sua baía, o que dá, navegando, cerca de 27 milhas, sempre náuticas, visto que estamos no mar!
O tempo encoberto e o mar cheio de icebergs atrasaram a chegada do nosso navio “Ari Rongel” e o mau tempo a conveniente utilização do helicóptero – Hélibras UH-12/13 Esquilo – que só leva três passageiros por vez. Havia que transportar bastante gente de e para o navio. Os que haviam passado dezoito meses na Estação em vez dos doze previstos, loucos para voltar para casa, mais as suas bagagens, e os que tinham que para lá ir proceder a manutenções diversas. Teve que se utilizar também o bote do navio, mas as condições do tempo, com a grande altura de gelo e neve, tornavam o embarque e desembarque no bote uma operação de risco e malabarismo. A praia estava com dois metros de altura de gelo e neve! E furar um bote de borracha, por muito bom que ele seja, para o gelo... é piada! Perguntem ao Titanic!
O tempo ia passando e era preciso que o Hércules retornasse a Punta Arenas; havia que descarregar o navio com os “retornados” e suas “imbambas”. Após uma série de voos foi necessário reabastecer, a bordo, o helicóptero! Nevava, e os técnicos negaram-se a fazê-lo para evitar que um ou outro floco de neve entrasse no tanque! Poucos convidados pernoitariam na Estação, e foram os últimos a embarcar. Os mais novos nas primeiras viagens do helicóptero e no bote, este uns poucos minutos ziguezagueando entre o gelo, e por último, acompanhados do Sub Chefe do PROANTAR, os três “menos jovens”! Para ir do “hotel” chileno ao ponto de embarque, um a um, carregados nas moto-neves – snowmobiles – lá fomos, agarrados que nem preguiça em árvore, aos saltos, até onde deveria ser a praia! O bote estava lá sim... dois metros abaixo, e o caminho até ele, mesmo que tivéssemos andado só uma meia dúzia de metros, foi uma aventura! O gelo escorrega como manteiga e a possibilidade de uma queda ali...
Enquanto não entrávamos no bote o meu amigo apontou para o mar porque ali estaria a “passear” uma foca leopardo, das que não pedem autorização para comer um pinguim de uma só vez ou um pedaço de perna de gente. Com todo o equipamento de frio em cima da cabeça e mais os óculos, a verdade é que podiam lá estar mais de quinhentas focas que eu não via nada!
Por fim embarcados no bote de borracha. E novamente bem agarrados aos cabos laterais. O bote devagar por entre o gelo. E o gelo?
No meio da baía flutuavam, entre largas centenas, de todos os tamanhos, dois icebergs espectaculares, um imenso, todo plano por cima, parecia um enorme porta-aviões. O outro, talvez uns 30 a 40 metros de comprido e uma meia dúzia de altura, azul. Lindo. Lindo é pouco. Passámos bem junto a este e o espectáculo é deslumbrante. O azul, de intensidades diferentes, autêntica “água marinha”, coberto com uma bonita camada de neve ainda branca, é uma obra de arte maravilhosa, cheia de cavernas que lhe davam um efeito especial. A camada de gelo e neve na Antárctica tem uma espessura média de 2.750 metros de altura, chegando em alguns lugares a mais de 4.000. A compressão é enorme, e quanto mais se comprime, mais azul se torna o gelo. Estes icebergs vêm dos glaciares, muitos deles com mais de 2.000 anos! E é só com esse gelo brilhante que se pode saborear o autêntico whisky de 2.012 anos!
Pronto. Chegamos ao navio. Os últimos convidados, os jovens com uma média de idade de 72 anos, com aquele friozinho de fazer rachar o pensamento, mesmo através de luvas, gorro etc. vão ter que subir a bordo por escada exterior que começa com uma parte em corda e o resto com uns ferros molhados e escorregadios. Mas saímo-nos muito bem do teste e todos fomos louvados pela nossa juventude.
Finalmente a bordo, eram quase dez horas da noite, aliás dia, sem ter almoçado, recebidos pelo comandante e uma variedade de aperitivos de todas as qualidades na “Praça de Armas” do navio. Estômago confortado e o tal whisky que, se não tinha 2.012 anos, estava óptimo.
Entretanto a noite avançava, quase às 24 horas, e, para descer a terra e pernoitar na Estação, voltar a descer aquela escada horrível, sem ver nada... não era o que mais nos estava a sorrir, e houve quem sugerisse que dormíssemos a bordo! Sugestão aceite, o Imediato providenciou acomodações para todos.
Meia-noite e meia quando nos fomos deitar. Para mim demorou um pouco mais porque entrar naquele beliche exigiu um exercício de contorcionismo para o que não ia preparado. Ao fim de várias tentativas finalmente consegui enfiar as pernas pelo beliche e entrar nos braços de Morfeu!
No próximo texto visitaremos a EACF, faremos a viagem de retorno e... algo mais.
 
Rio de Janeiro, 22 de Novembro de 2009
 Francisco Gomes de Amorim

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:05
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 24 de Janeiro de 2010 às 22:23
A aventura de Amundsen e a de Scott tiveram outros riscos e dificuldades próprias de pioneiros, Mas os descritos no texto, de temperaturas incríveis, deslizes escorregadios, e gelo e solidão, também exigem uma coragem e resistência que merecem entusiástico bravo, tanto mais por se tratar de pessoas com "idade para terem juízo". Ainda bem que o não tiveram, para vivermos e gozarmos as maravilhas descritas que o cinema já mostrou, mas que o texto de Gomes de Amorim ajuda a reviver no mesmo deslumbramento. Berta Brás


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