Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
burricadas 62

 

Much ado about nothinG. or NOT?
 
v        Começo por esclarecer que a vida sexual dos outros não me interessa absolutamente nada. Nem nas capas das revistas “cor-de-rosa” reparo.
v        Por outro lado, não deixam de me fazer alguma espécie situações como aquelas que (não) se vêem no centro de Luanda: raríssimas foram as vezes em que me cruzei com um parzinho a namorar.
v        Mas, confesso, toda esta polémica em torno do casamento entre duas pessoas do mesmo género (ah! língua portuguesa, como és rebuscada) não cessa de me surpreender. [Só o pudor me levou à redundância de juntar “duas” e “casamento”; reconheço, porém, que não tenho argumento que se aguente contra a poligamia de uns tantos adultos conscientes, capazes e apetentes]
v        Surpreende-me, primeiro, que tenham sido as vozes mais canoras contra o “casamento”, essa bafienta instituição burguesa, a virem propugnar agora (com invejável pertinácia, reconheço) pelo casamento homossexual.
v        Porque, uma de duas: (1) ou o casamento, enquanto instituição, já não está conforme os cânones da modernidade – e isso nada tem a ver, obviamente, com o género de cada um dos cônjuges; (2) ou está – e não haverá nenhuma razão para, no plano da ideologia, arrumar o casamento heterossexual no sótão dos trapos démodés.
v        Em boa verdade, deveria eu ter escrito “uma de três”. E a terceira possibilidade é justamente a mais rotunda incoerência no pensamento dos quadrantes que apareceram a advogar o casamento homossexual. Apenas isto: querem levar a deles avante, sem se dar sequer ao incómodo de honrar os adversários com argumentos, se não convincentes, pelo menos lógicos.
v        Uma vez que a convivência democrática assenta, também, na lógica dos argumentos trocados e no respeito mútuo entre todos os que nela participem, este “quero porque quero” deixa-me esclarecido sobre o que posso esperar de uns quantos dos meus concidadãos.
v        Surpreende-me, depois, que haja quem, nos dias de hoje, queira por força estar casado, quando nada obriga a tal. Ou seja, ao stress dos afectos junta-se, alegremente, a sujeição voluntária a um emaranhado de vínculos jurídicos que não é nada fácil desatar.
v        Ou talvez não me surpreenda, se o que se pretende é estender ao parceiro todas as regalias (nomeadamente, nos planos fiscal e assistencial) que o Estado Providência reservava, até agora, aos cônjuges heterossexuais. E, convenhamos, não é isso a igualdade perante a Lei?
v        Mas porquê, então, pôr como condição (a qual só poderá ser uma condição para ornamentar, que se presume sempre verificada – a menos que se regresse à presença de testemunhas independentes na câmara nupcial, ou à prova do lençol) a prática sexual? Não será isto, ainda, discriminar sob novas formas?
v        E fica no ar a pergunta incómoda: porque é que o Estado Providência tratava com tamanho desvelo o casamento heterossexual? Alguém cuidou de averiguar porquê?
v        E menos me surpreenderá se o que se quer é usar subtilmente a Lei para calar o escárnio com que a nossa cultura, cruel, sempre mimoseou a homossexualidade – apesar de esta não ser tão rara assim ao longo da História Pátria.
v        Com a devida vénia, penso que: (1) assumir livremente obrigações cujo cumprimento pode ser imposto por via judicial é coisa que só aos próprios deverá interessar; (2) acolher sob o manto protector do Estado Providência novas situações é matéria de contas e de governação, não de ideologia (e, ou me engano muito, ou mal se sentirão o acréscimo de despesa e a quebra de receita que tudo isto vai implicar).
v        Contudo, o que me surpreende deveras é que o problema de fundo continua ignorado, como se não existisse. E qual é esse problema?
v        É este, tem um sabor algo darwiniano e passa cada vez menos pelo casamento “de lei”: Como evitar o colapso demográfico? Como evitar que o número de indivíduos que nascem e crescem portugueses diminua progressivamente até à extinção?
v        Dito de outro modo: como é que a Nação (enquanto grupo social com uma língua e uma cultura próprias, e ainda capaz de exercer uns vestígios de soberania) vai perdurar por uns tempos mais?
v        Ou a geração actual, num alarde de egotismo extremo, não quer gerações vindouras, consumindo e desbaratando, hoje, num ambiente de fim de festa tudo o que foi sendo acumulado ao longo de quase 9 séculos?
v        Eis um problema político por excelência, que se prende com o modo como a comunidade se pensa e se organiza em Estado. Ou, numa expressão tão em voga, se auto-estima.
 
Janeiro de 2010
 
 A. Palhinha Machado
 

tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:35
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 23 de Janeiro de 2010 às 09:09
É uma pena que esses que atacavam o casamento "hetero" e agora defendem o "homo" sem razões de peso, não leiam este texto de A. Palhinha Machado para sentirem a inanidade e a pobreza dos seus tolos argumentos que só pretendem borrar cada vez mais a figura da mãe pátria ou da nação, sem respeito pelos seus próprios progenitores.
Berta Brás


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


artigos recentes

ADEUS

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

DONALD TRUMP – 3

DONALD TRUMP - 2

DONALD TRUMP - 1

ENCONTROS DE ESCRITORES

arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds