Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
REINANDO EM WALL STREET

 

 
 
Elizabeth Warren
 
Os problemas de Wall Street chamaram a atenção do Congresso, da Casa Branca e dos meios de comunicação. Mas o homem da rua, os empregados, os pequenos empresários e as famílias endividadas anseiam por saber se alguém pensa neles.
 
O conservador Joe Scarborough considera que ela, Elizabeth Warren, devia ser Secretária do Tesouro e o esquerdista Matt Taibbi considera que ela se deveria candidatar à presidência.Coloquemo-nos em qualquer posição do espectro político e é sempre claro que Elizabeth Warren, professora de Direito em Harvard, crítica das ajudas governamentais ao sistema financeiro, criou um certo nervosismo com o seu discurso populista.E foi mesmo buscar tempo ao que habitualmente dedica aos alunos para criticar os esforços da Administração Obama no sentido de parar as execuções hipotecárias e para dizer à Newsweek o que pensa ser a solução realista para a actual confusão financeira.
 
Tim Fernholz, da Newsweek, à conversa com Elizabeth Warren, conselheira de Obama para a regulamentação financeira
 
Excertos:
 
Fala-se numa recuperação económica mas ainda não resolvemos o problema dos Bancos. O que é mais urgente?
As subidas na bolsa convenceram algumas pessoas de que a crise está ultrapassada. Eu faço uma leitura diferente: as famílias estão hoje numa situação mais difícil do que há um ano e uma parte do boom de Wall Street resulta das garantias governamentais. Isso não é recuperação real.
 
O Congresso está a tentar reformar a regulamentação financeira mas isso pode redundar em algo de abstrato. Em que matérias é que essa reforma deve incidir?
Para reintroduzir alguma sanidade no sistema financeiro, precisamos de duas alterações fundamentais:recuperar os mercados do crédito ao consumo que estão destruidos e acabar com as garantias dadas aos grandes operadores no mercado financeiro geral que ameaçam todo o nosso sistema económico. Se conseguirmos fazer estas duas alterações, ainda poderemos gerir o resto da regulamentação conforme as necessidades que vão ocorrendo.
 
Deve o governo actuar energicamente e partir os grandes bancos?
Há muitos modos de regulamentar as instituições financeiras «demasiado grandes para que possam falir»: dividindo-as, controlando-as de um modo mais apertado, tributando-as mais agressivamente, securitizando-as, etc. Eu sou totalmente favorável ao aperto da regulamentação desses bancos. Mas isso são tudo instrumentos da regulamentação propriamente dita e, com o tempo, tudo isso falha. Eu quero ver o Congresso mais concentrado na construção de um sistema credivel que permita a liquidação desses bancos que são considerados demasiado grandes para poderem falir. Os pequenos não são imortais, pagam pelos erros que cometem. Os grandes também não podem ser imortais. Um mercado livre não pode funcionar mum mundo em que há quem seja «demasiado grande para poder falir».
 
O Departamento do Tesouro acaba de anunciar que está a aumentar a pressão sobre os bancos na elaboração dos respectivos planos anti-execuções hipotecárias, o que o seu Painel criticou.
Os dados são muito desanimadores. As preocupações que o Painel referiu na Primavera passada transformaram-se entretanto em sérios problemas. A intervenção governamental na questão das execuções hipotecárias não foi suficientemente forte para ultrapassar o problema.
 
Há gente em Washington que argumenta contra as medidas que ajudem os clientes à custa dos bancos.
Quem usa esse tipo de argumentos quer certamente utilizar vendas para não ver o impacto que as execuções hipotecárias provocam na economia. Podemos ser apanhados num ciclo vicioso: as execuções hipotecárias baixam o valor das casas e o abaixamento desse valor provocar maior número de execuções. 
 
A Administração foi relutante na pressão a exercer sobre os bancos porque dizem precisar da colaboração do sistema financeiro na execução das políticas de relançamento da economia.
A noção de que precisamos pedir autorização aos grandes bancos sobre que tipo de actuações devemos fazer é um erro. Quem pergunta à Família Americana sobre quais as medidas que lhes são favoráveis? Eu compreendo que precisamos recuperar a economia de um modo equilibrado e destruir grandes instituições financeiras não contribui para isso mas também não será destruindo a classe média americana que tal se conseguirá.
 
(tradução de Henrique Salles da Fonseca)
 
In Newsweek, 28 de Dezembro de 2009 – 4 de Janeiro de 2010, pág. 15
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:08
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Janeiro de 2010 às 09:18
RECEBIDO POR E-MAIL:

A reinar é que a gente se entende. Não é só em Wall Street- Um texto bem elucidativo.
Berta Brás


De Adriano Lima a 9 de Janeiro de 2010 às 00:09
Ou seja, a discussão sobre a crise continua e as respostas estão longe de concitar unanimidade, na UE ou nos EUA, em Espanha ou em Portugal. Foi bom ler este texto.


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