Sábado, 26 de Dezembro de 2009
VISÃO GLOBAL

 Visão Global

 

José Cutileiro e Ricardo Alexandre,   no recente livro Visão Global ([1]), escrito em estilo descontraído, tipo "parada-resposta", fazem o ponto das relações internacionais e levantam questões de grande interesse  das quais  refiro  algumas escolhidas a esmo.
 
A páginas 122, JC  indaga  o significado da expressão  "comunidade internacional" usada pelo jornalista.   "É uma expressão que  acho sempre curiosa", observa. Constata  que o significado que lhe é atribuído varia em função da situação geográfica do observador e conclui que por tal se designa efectivamente os EUA e  mais uma ou outra  potência com condições de – e disposição para -  intervir em determinadas  ocorrências na área geográfica em que se situa o observador, o que acontece  cada vez  com menos frequência. Nenhuma referência às Nações Unidas e outros areópagos onde fala toda a gente ([2]).
 
E tem razão. Não se pode com rigor chamar comunidade a uma colecção de estados e nações que prezam mais as suas diferenças do que qualquer eventual  semelhança. A comunidade tem cultura  própria que inspira aos seus membros a prática da solidariedade  entre os vivos e entre estes e os mortos (respeito pela história). Ora, os estados nacionais que têm   passado comum são excepção e mesmo esses lêem a história de modos diferentes. O sentimento que se reflecte no comportamento dos estados – com excepção dos europeus e só há alguns anos a esta parte – é o medo que inspiram uns aos outros. Nada menos comunitário. Tão pouco se pode falar de "sistema internacional" pois não se trata - nem se aproxima -  de um corpo organizado em função de uma finalidade geral. Poderíamos talvez falar  de sociedade dos estados uma vez que, a partir do iluminismo, os estados se tem esforçado por submeter o relacionamento entre si a regras de  direito. O direito  internacional porém, é facultativo e, raras vezes prevê meios de execução.
 
A UE tende a omitir-se em questões de segurança. A segurança  fundada no MAD extinguiu-se com o muro de Berlim. O caso da Coreia do Norte mostra uma vez mais que os "regionais" não conseguem impedir a proliferação.   A consciência de interdependência resultante da globalização da economia é ainda mais recente e não inspirou modelos de gestão integrada.    O atraso é ainda maior no que toca ao ambiente,   como infelizmente a Conferência de Copenhaga demonstrou agora mesmo.
 
 
 
A predominância persistente de situações reguladas  pela  relação de forças leva a admitir que os estados nacionais formam um agregado  próximo  de um modelo social graduado e hierarquizado em  termos de poderio (capacidade de controlo) e influência (talento comunicador) dos seus membros. Ou seja, a realidade do universo das relações internacionais é a hegemonia e esta continua a ser o sustentáculo da ordem e a única forma de chegar ao direito.
 
+++
 
A problemática da  hegemonia é conhecida. Assim:
- A hegemonia só subsiste se eliminar rivais  mesmo os de dimensão meramente regional. Por isso, numa sociedade hegemónica, o relacionamento entre o primeiro e os seus imediatos domina todos os quadrantes, deixando pouco ou nulo espaço para exercício de  autonomia por parte dos restantes membros.
- A hegemonia exige agentes obedientes nos vários estados subordinados.   Daqui resultam dois tipos de situações: (1)   o chefe local fiel à lógica hegemónica desentende-se com os seus e, se persiste, descamba em tirano sem escrúpulos e o seu regime torna-se "cleptocrático"  ou (2) o "chefe" trai o seu protector hegemónico e identifica-se com a lógica local, caso em que  a hegemonia se vê forçada a intervir para o corrigir, afastar  ou eliminar. Estes dilemas nunca foram resolvidos.
- O  problema vital das hegemonias é contudo o seu custo. O sacrifício que impõe é pesadíssimo, tanto em termos humanos como físicos.   As mudanças hegemónicas deram-se mais vezes por cansaço do hegemónico do que por obra de émulos portadores de energias novas.   A hegemonia americana, no que toca aos sacrifícios humanos, ainda não encontrou os seus mamelucos;   no que toca aos custos financeiros, distribui o mal pelas aldeias e pelas gerações mediante inflação e desvalorização do dólar, prática  que tem limites. George W Bush e os seus apoiantes não pareciam conscientes de tais limites e favoreceram uma hegemonia intervencionista; já  a eleição de Obama – opção pelo estilo conciliador – denota  cansaço.
 

 

Quanto ao destino político de Obama, admite Cutileiro que ainda não chegaram os dias dos testes cruciais e decisivos.   Teremos que aguardar.
 
+++
 
O papel dos BRIC, sobretudo a China e o Brasil de Lula – a grande novidade do dia – é tema que os autores tratam em profundidade. E justificadamente o fazem.   No Brasil prevalece o "bom senso" – de resto, sempre prevaleceu ou não fosse povo de extracto cultural lusitano. A relação Brasil--EUA resultará naturalmente em apoio da democracia – mais humana, sem dúvida. Já a relação China-EUA encerra problemas potenciais que poderão afectar o futuro da humanidade.
 
+++
 
No último capítulo os autores fazem uma avaliação da posição de Portugal no mundo. Reconhecem que o país, por força da sua história,   dispõe de uma gama de trunfos mais vasta do que a que se oferece a quase todos os outros países;  admitem também que a visibilidade portuguesa teria aumentado como resultado de  ocuparmos agora lugar na carruagem da UE. JC  manifesta contudo a opinião de que no quadro europeu,   os pequenos  são  irrelevantes – a Europa a doze ou a vinte e sete será sempre a Europa dos três e meio (agora com mais um meio que é a Polónia).
 
JC aprova o uso que demos à ajuda recebida da UE, afirmação que não deixará de constituir surpresa para alguns dos meus colegas economistas com os quais me solidarizo neste particular. Por fim,   reconhece que estamos fortemente condicionados pela nossa posição ibérica ([3]).
 
+++
 
Vale sempre a pena ler um  livro  que nos ensina  muito sobre o mundo em que vivemos, sobretudo quando os autores se mostram conscientes da enorme complexidade dos fenómenos internacionais  e cientes da insuficiência própria do espírito humano para abarcar e relacionar coerentemente todos os dados inerentes à fenomenologia sociopolítica mundial. Para os que pensam que os problemas do mundo se resolvem pelo pacifismo, pela aposta nos direitos do homem e pelas manifestações explosivas em prol da conservação da natureza – as  "almas piedosas", com lhes chama J. C.  -   o livro constituirá desapontamento. Porém, para os queapreciam um pensamento escorreito, isento de historicismo oco e de construtivismos perniciosos, a leitura do "Visão Global" é altamente recomendável. Além do mais, mostra-nos que  a consciência dos limites do nosso conhecimento é ainda a melhor  esperança  de um progresso científico e social saudável.
 
Estoril 23 de Dezembro de 2009
 
 Luís Soares de Oliveira


 
 
[1] José Cutileiro e Ricardo Alexandre, Visão Global, Prime Books, Lisboa, Novembro 2009
[2] Página 167. Cutileiro afirma que o que sai (resoluções) das NU "revela grande falta de noção de como é que o mundo funciona e .. poderia ter sido enunciado por um grupo de senhoras vicentinas durante um chá em Alcobaça"
 
[3] Cimeira das Lajes (página 236)


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:51
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Dezembro de 2009 às 21:31
RECEBIDO POR E-MAIL:

O texto aumenta a minha "aguada" em relação ao livro, até porque me faz lembrar o Robert Kagan em "The Return of History and the End of Dreams" de que julgo existir edição portuguesa.

JC em relação às UN presta homenagem ao extraordinário Charles de Gaulle - "l'ONU, ce machin-lá"

Hegemonia : toda a comunidade exige um chefe, da familiar à internacional. E também a palmatória caiu em desuso ... com os inconvenientes resultados. Dizes que a hegemonia é a única forma de chegar ao direito. Não será entre nós a palmatória a única forma de fazer rapazinhos direitos ?

O "bom senso" (?) brasileiro terá sido herdado na totalidade sem que nós nem uma pequena parte guardássemos. Aquele bom senso do D.João V e que nos faltou no Tratado de Lisboa e na Reunião Ibero-americana. Até porque já muito pouco rendem as esmolas das Almas e há muito "nos connaturalisamos com as máximas francesas" e outras".

Pacificus


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
18
19

21
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

ADESÃO DA GUINÉ-EQUATORIA...

«GRANA PADANO»

17 HOSPITAIS NA ROTA DA Í...

LIDO COM INTERESSE - 11

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

DONALD TRUMP – 3

arquivos

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds