Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
O TEOREMA DE A CANÇÃO DE LISBOA

 

 
 
Portugal está em crise. Mas qual crise? Estamos em crise há dez anos e esta é nova.
 
Para compreender isto temos de separar duas coisas diferentes. A nossa primeira doença é a obesidade. Esta é a crise antiga, que vem da década de 90 e nunca mais se resolve. Portugal está balofo. Comeu mais do que devia e tem problemas de coração, digestão e locomoção por excesso de peso. Perdeu competitividade, empolou o orçamento, divergiu da Europa. A dívida total do país ao exterior (posição de investimento internacional) era de 8% do produto nacional em 1996. Em 2008 atingiu os 100%, sendo metade dívida pública. Isto é viver acima das posses, comendo mais do que devia!
 
O problema já fez fugir dois primeiros-ministros, o terceiro não teve tempo de fugir e o actual ainda não se sabe se fugirá. A história é fácil de contar. Com o Eng. Guterres, que entrou em 1995, o País comeu à farta e engordou à grande. Em 2001, com a dívida já nos 50% do PIB, ele foi ao médico, recebeu o diagnóstico e... fugiu para a ONU. Depois veio o Dr. Barroso, que leu a dieta e comprou fruta, mas em 2004, com a dívida nos 65%, fugiu para a UE. O Dr. Santana Lopes disse que "gordura é formosura" e puseram-no fora. Tão depressa que nem mudou os 65%. O Eng. Sócrates prometeu jejum, fez lipoaspiração, mas continuou a comer. Chegou-se aos 100%.
 
O nosso principal problema é esta terrível obesidade. Ou melhor, era. Porque de repente aconteceu algo que trouxe novos sintomas. O que sucedeu foi uma coisa impossível: uma epidemia mundial de tuberculose infecciosa, uma doença que não se via desde anos 1930. De repente, a tísica tornou-se tão dominante que temos de comer muito para ganhar forças. Para um país como Portugal isto dá a confusão. Agora o cardiologista exige dieta enquanto o pneumologista aconselha refeições reforçadas para curar a fraqueza. Que podemos fazer?
 
A resposta política é evidente. A prioridade neste momento tem de ser o emprego e para isso devemos usar dois instrumentos principais: orçamento e salários. Na despesa pública é preciso gastar, mas com cuidado. Devemos ajudar desempregados, empresas e pobres e é preciso salvar empregos viáveis. Mas tudo isto com o mínimo de gastos, por causa da obesidade. Relativamente aos salários é preciso moderação para enfrentar a crise, recuperar competitividade e fazer partilha justa dos sacrifícios. O Dr. Silva Lopes, em conferência recente, chegou a recomendar congelamento salarial.
 
Tudo isto é muito bonito mas completamente fictício. Porque a real prioridade política este ano não será o emprego mas as eleições. A questão obsessiva serão três sufrágios. Por isso a política, nos dois instrumentos referidos, será muito diferente. Na despesa pública o que se fará é gastar, gastar, gastar, principalmente no que der votos. Nos salários, nos salários... bem... eh... vamos casar os homossexuais e pode ser que isso nos distraia.
 
Quer dizer que estamos perdidos? Claro que não. Apenas significa que não podemos contar com os políticos, coisa que sabemos desde a primeira dinastia. Entretanto, a economia e a sociedade terão de ir fazendo o necessário. Nesse sentido, a tuberculose até cria condições favoráveis para combater a obesidade. O novo rating e as taxas de juro superiores da dívida nacional implicam que a dieta será feita, quer se queira, quer não. É verdade que vem na pior altura, porque agrava as dificuldades da crise conjuntural. Mas isso também é algo que sabemos desde sempre. Quando as coisas são fáceis, metemo-nos em sarilhos e só pomos a casa em ordem quando não há alternativa.
 
Este é o "teorema d'A Canção de Lisboa", formulado brilhantemente no primeiro filme sonoro português de 1933 de José Cottinelli Telmo. O "Vasquinho da Anatomia" só começou a estudar quando perdeu a mesada das tias. Nessa altura, quando tudo parecia perdido, deu a volta por cima e, com fado e um copo de tinto, até aprendeu o esternocleidomastoideu.
 
É assim Portugal. Este teorema, aplicado em 1383, 1640, 1755, 1851, 1917, 1977 e 1983, será renovado em 2009.
 
joao cesar das neves full ...  João César das Neves
Professor universitário
 
(Diário de Notícias, início de 2009)
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:11
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 14 de Dezembro de 2009 às 17:06
RECEBIDO POR E-MAIL:

Mas o Vasquinho teve a sorte de saber cantar e de ter amigos que o apoiaram. Não sei se será esse o remédio na nossa crise actual, com o ensino e a indisciplina como estão, e os professores derreados no vazio de tantas obrigações tão cruelmente impostas por quem não se interessa minimamente na formação real da juventude.
Berta Brás


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