Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
UMA PRENDA DE NATAL DA ANTÍGONA - 1

 

A Antígona (1) ofereceu aos seus leitores as primeiras páginas do romance para sempre inacabado de Albert Cossery, que morreu aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde vivia há mais de sessenta anos.

Estas páginas manuscritas foram encontradas no seu quarto e constituem o princípio de um romance sobre o qual o escritor trabalhava, escrevendo, segundo ele, uma linha por semana…

De Albert Cossery, a Antígona publicou todos os seus títulos:

A Casa da Morte Certa

A Violência e o Escárnio

As Cores da Infâmia

Mandriões no Vale Fértil

Mendigos e Altivos

Os Homens Esquecidos de Deus

Uma Ambição no Deserto

Uma Conjura de Saltimbancos

E, de Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery.

 

Uma época de filhos de cães – 1

 

Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem que os olhos se lhe marejassem de lágrimas.

A esta hora matinal, para além de um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à reflexão.

Evidentemente, não estava nas suas intenções reflectir de novo sobre a perenidade da estupidez humana, nem vituperar os lastimáveis dirigentes deste mundo, pois todos estes indivíduos se encontravam há muito esgotados e não eram merecedores de qualquer outra crítica mais aprofundada. Numa palavra, o que ele desejava de imediato era um recanto tranquilo onde pudesse recordar – antes que perdesse todo o sabor – o incidente burlesco que precipitara o seu despedimento do lugar de professor de uma escola de um bairro popular da cidade costeira, considerada histórica, a que chamam Alexandria.

Tudo começara por uma discussão sem motivo aparente com o director do estabelecimento escolar, um homem pleno de ignorância e, ainda por cima, casado com uma mulher feia. Esta dupla particularidade tornava-o detestável e intolerante nas suas relações com as pessoas inteligentes e solteiras.

Após algumas insinuações pérfidas acerca da concupiscência ligada ao celibato, este gerador de crianças degeneradas acusara-o de ter feito esquecer aos seus alunos, no espaço de alguns meses, o que eles haviam demorado muitos anos a aprender.

Mokhtar, nada surpreendido com este elogio que considerava absolutamente merecido, não pôde resistir à tentação de dar uma estocada definitiva e global na hierarquia, mesmo que esta fosse de medíocre qualidade. Respondeu com um tom de comiseração, como se estivesse a dar os pêsames a um viúvo amargurado, que os seus alunos tinham mesmo assim aprendido uma coisa muito importante para o futuro: que o director desta escola era um burro, e que era preciso substitui-lo por um burro de verdade, certamente mais agradável de contemplar.

Para qualquer espírito livre dos preconceitos seculares de sacralização do homem, era evidente que tratar um humano de burro constituía um insulto para o burro. Mas o director, incapaz de assimilar uma doutrina tão audaciosa, pôs-se a gritar que um louco estava a querer degolá-lo, atraindo com os seus berros uma matilha de salvadores benévolos que agarraram Mokhtar e o atiraram, com as imprecações habituais, para fora da escola.

(continua)

Albert Cossery

Tradução: Luís Leitão

Revisão: Carla da Silva Pereira

 

Antígona

1979_2009

Trinta anos de minoria absoluta

Trinta anos de insolências

(1) AntígonaRua da Trindade, 5 – 2º fte; 1200-467 Lisboa | Portugal; Tel. (+351) 21 324 41 70



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:39
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 11 de Dezembro de 2009 às 08:39
RECEBIDO POR E-MAIL:

Ainda bem que o livro não foi concluído. Parece-me um humor grosseiro e banal, de um narrador que provavelmente se considera acima do comum. Lembra-me o filme "Clube dos Poetas Mortos", onde o professor progressista rasga as páginas do livro usado no colégio conservador e disciplinado, com o fim de levar os alunos a "pensar por si". É um pouco a nossa história educativa dos últimos anos, querendo fabricar seres pensantes independentes, na convicção de que o universo adulto é todo "burro" e que os meninos é que são inteligentes "por serem rebeldes", ou por aprenderem uns chavões de doutrinação pseudo-política. Lembro bem 1976, num determinado liceu, com os alunos boicotando aulas, julgando os professores "resistentes", empenhados em "plataformas de entendimento"... Estamos cada vez mais afastados, quer da plataforma, quer do entendimento.
Berta Brás


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