Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
QUINTANARES

 

 
Foi ontem que Carlos Drummond de Andrade me disse que não fora ele mas sim Cecília Meireles a inventar esse enigmático verbo «quintanar». E logo nasceu o substantivo «quintanar» cujo plural só pode ser «quintanares».
 
E do que se trata? Tão simplesmente do modo como Mário Quintana fazia poesia: vivendo e sonhando. Por isso a forma não é certa. Tanto pode ser métrica como livre e até pode mesmo ser prosa. Mas é sempre poesia.
 
Mário Quintana
(1906 - 1994)
 
 
AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida, a verdadeira,
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém, ao voltar a si da vida,
acaso lhes indaga que horas são...
 
 
Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve e o amor mais breve ainda...
 
 
O SILÊNCIO
Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...
 
E para quem foi por três vezes rejeitado pela Academia Brasileira de Letras, não espanta que à quarta vez tenha sido a própria Academia a convidá-lo e ele a rejeitar o convite.
 
Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro Mário Quintana
 
Se Mário Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida ou sua obra. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia – Luís Fernando Veríssimo
 
 
QUINTANARES  - Augusto Meyer e Manuel Bandeira
 
Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas, luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares,
Quer no horror dos lupanares,
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.


Afinal, a autoria da expressão «quintanar» não tem importância nenhuma pois o que conta é a obra de Mário Quintana, esse poeta tão desconhecido fora do Brasil até há relativamente pouco tempo. Eu, por exemplo, só o conheci por volta dos meus 60 anos de idade em vez de o ter lido quando frequentava o ensino secundário.
 
Mas ainda estou a tempo… Espero!
 
Lisboa, 27 de Novembro de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 
Bio-bibliografia
 
 
Mário Quintana, poeta gaúcho nascido em Alegrete a 30 de Julho de 1906, morreu a 5 de Maio de 1994, em Porto Alegre. Trabalhou em vários jornais gaúchos. Traduziu Proust, Conrad, Balzac e outros autores de importância. Em 1940, lançou a Rua dos Cataventos, seu Primeiro livro de poesias. Ao que seguiram Canções (1946), Sapato Florido (1948), O aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986), Preparativos de Viagem (1987), além de varias antologias.
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
Carlos Drummond de Andrade – Auto-retrato e outras crónicas – Ed. RECORD, Brasil
Wikipedia – http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Quintana
Jornal da Poesia – http://www.jornaldepoesia.jor.br/quinta.html#biografia
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:16
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 9 de Dezembro de 2009 às 19:18
RECEBIDO POR E-MAIL:

Desconhecia completamente a poesia de Mário Quintana, de grande originalidade, que reflecte vida, beleza e um pensamento profundo e sintético do mundo no modo sentido de os sublimar, com simplicidade e magia.
Berta Brás


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