Domingo, 6 de Dezembro de 2009
A BATALHA DE MONTES CLAROS ...

 

... E O SEU SIGNIFICADO NA ESTRATÉGIA DA RECONQUISTA DA NOSSA INDEPENDÊNCIA
                                                     
                                                     
 
      A batalha de Montes Claros, ferida em 1665 no lugar alentejano conhecido por esse nome, foi a cartada final da estratégia militar portuguesa para a defesa da independência nacional. Longo fora o percurso iniciado no Terreiro do Paço em 1 de Dezembro de 1640, mas a decisiva vitória alcançada em Montes Claros conduziria ao acordo de paz entre os beligerantes.
 
      A vitória obtida nesta batalha foi, assim, o corolário de toda uma estratégia geral iniciada por D. João IV que, em crescendo, e tendo mais tarde à frente o 3º conde de Castelo Melhor e o conde de Schomberg, viria a aprontar Portugal com as condições necessárias para se poder opor, decisiva e energicamente, aos desígnios unificadores da Espanha.
 
      No âmbito da estratégia política interna, foi decisiva a política de afirmação da autoridade do monarca restaurador, em simultâneo com a recuperação económica e financeira do país levada a cabo com o lançamento do imposto de guerra e outras medidas paralelas. Não foi fácil vencer a oposição de indecisos, oportunistas e prosélitos remanescentes do rei de Espanha, que se manifestaram nos primeiros anos da Restauração, congeminando erupções conspiratórias. Por vezes, foi preciso usar de pertinácia e ductilidade táctica na relação com os sectores sociais mais influentes, em especial com a Igreja e a Inquisição, quando as prioridades do Estado colidiam perigosamente com interesses particulares ou quando a finalidade da repressão religiosa se confundia sub-repticiamente com objectivos inconfessáveis
 
      Reorganizou-se a estrutura de direcção política do Estado, na metrópole e no ultramar e retomou-se gradualmente o controlo militar e administrativo de todos os domínios, à excepção de Ceuta, que nunca se recuperou. Se tivermos em conta a diferença abismal entre as tecnologias do mundo de hoje (projecção de meios militares em teatros de operações distantes, comunicações, transportes, etc) e os recursos disponíveis no século XVII, a acção empreendida por Portugal foi algo de verdadeiramente colossal, o que nos impele a reflectir sobre a tibieza e a frouxidão de ânimo que às vezes parecem tolher os nossos passos nos desafios da actualidade, tanto mais quando, ontem como hoje, éramos um país de bem menor capacidade demográfica que os seus opositores, na disputa dos mesmos interesses.
 
      Mas a estratégia militar é seguramente a menina bonita do esforço realizado por Portugal ao longo da trajectória da Restauração. Partindo de uma situação de manifesta vulnerabilidade e de potencialidades diminuídas, foi preciso mobilizar a nação para pegar em armas e defender a sua independência contra um dos mais poderosos, experimentados e modernos exércitos da Europa. Portugal não possuía praticamente exército em 1640, pelo que foi preciso recuperar os alicerces das antigas estruturas institucionais para obrar um aprontamento militar à altura das circunstâncias. A luta pela defesa da independência foi um continuum de esforço e de vontade que atingiram o cume quando o notável estadista, conde de Castelo Melhor, tomou nas suas mãos as rédeas do país. Uma das cartadas decisivas foi a escolha do Alentejo como o teatro de operações onde tudo se decidiria, bem como a percepção da importância fundamental dos serviços do conde de Schomberg, cujo papel foi decisivo na modernização e actualização doutrinária do exército e na condução das batalhas finais e decisivas.
 
      É certo que a Restauração ficou decisivamente a dever-se às elites sociais que nunca sentiram estiolar o seu amor pátrioe que, junto do seu Rei, fizeram a balança pender para o lado do Portugal livre, nos momentos em que alguns quiseram lançar a dúvida e semear o descrédito. Mas o povo anónimo, tal como já acontecera na revolução de 1385, foi uma constante de patriotismo e generosidade em todas as horas críticas, desde o Terreiro do Paço em 1 de Dezembro de 1640 ao campo de batalha em Montes Claros em 1665. O patriotismo pode, em certas conjunturas, andar aos baldões no coração de certas classes sociais, mas na alma do povo é nas horas difíceis que esse sentimento ressuscita com mais vigor e energia.
 
      Neste novo século, os desafios que enfrentamos são incomparavelmente menos espinhosos do que os que arrostámos naqueles tempos dramáticos de outrora, quando o preço a pagar pela nossa indiferença ou pusilanimidade seria por certo a perda da independência.Hoje, as armas que queremos utilizar são para um campo de batalha diferente, porventura benigno mas nem por isso menos exigente, pois a vitória que almejamos é sobre a pobreza, a doença e a ignorância. Hoje, a Espanha é um país vizinho com o qual não rivalizamos senão na porfia da inovação, do querer e da determinação, para construirmos, cada um a seu modo, sociedades humanas tão dignas e tão prósperas como as mais avançadas. Contudo, nesta encruzilhada para a construção do futuro, é importante ter sempre presente que as armas podem ser diferentes, mas a alma com que as brandimos em nada pode diferir daquela que agigantou os nossos antepassados naquele dia 17 de Junho de 1665 em Montes Claros.  
 
 
Adriano Miranda Lima

tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:39
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 7 de Dezembro de 2009 às 09:02
RECEBIDO POR E-MAIL:

Mas a população envelheceu, a tropa desapareceu, aos jovens creio que falta o sentido pátrio, manifestam-no, sim, nos jogos de futebol, mas sem a alma que encontramos noutros, como ouvi a uns, há dias, creio que da Bósnia, explicando bem que eles tiveram a guerra, sabiam o que queriam, iriam ganhar. Parece que perderam, mas o entusiasmo e a sua expressão provou que é preciso educar os jovens e lá fora fazem-no melhor do que nós, não sei porquê.
Berta Brás


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


artigos recentes

O FILHO DAS SALSAS ERVAS

FRASE DO DIA

RESTAURADORES DA SOBERANI...

OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

FRASE DO DIA

CARTA DE UN MINISTRO AL R...

LIDO COM INTERESSE – 74

PERU – 12

PERU – 11

PERU – 10

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds