Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
LUSOFONIA – 5

 

 UM CONVITE AO SIGNIFICADO
 
O DESTINO – 1
 
Se a diáspora é o preço que temos a pagar pela sobrevivência do nosso Centro, isso resulta de cá dentro não termos a dimensão suficiente para alcançarmos a viabilização no âmbito deste segundo processo de globalização.
 
Mas quando fizemos a primeira globalização do mundo, fomos nós que lhe definimos os contornos, as condições; hoje não controlamos o modo como esta segunda globalização se processa. Da primeira fomos os donos; na segunda pertencemos ao grupo das vítimas.
 
Foi o Império que nos salvaguardou da cobiça vizinha e chagámos a 1974 com um modelo mercantilista que diluiu por completo o esforço material de guerra; foi em 1975 que por exaustão política entregámos o Império a quem mais o cobiçava e, de regresso aos limites europeus, encetámos um processo de distribuição de riqueza … sem cuidarmos de saber se riqueza existia.
 
E que riqueza poderia existir? Despojados do materialismo imperial e herdeiros de uma situação aviltante no que respeita à valorização humana (estimando-se o analfabetismo adulto em 1910 nos 90% e contando em 1974 com uma taxa ainda de 25%), não se via que desse modo pudesse existir forte estrutura intelectual, profissional e produtiva para que alguma coisa sobrasse e pudesse ser distribuída.
 

 

E quando tudo indicava que primeiro haveria que fazer crescer o bolo, logo as bandeiras acenaram para a distribuição do que não existia, para o desequilíbrio comercial com o exterior, para o endividamento externo. Se a isto somarmos o encerramento da fraca estrutura produtiva abalada pelas canções revolucionárias, eis que a Administração Pública surge como o local certo para conseguir uma colocação vitalícia. E se a doutrina então vigente se compatibilizava com a tutela pública sobre as mais recônditas partículas da vida nacional, eis que o funcionalismo público cresce desmesuradamente alcandorando-se a um dos principais pilares do desequilíbrio das Contas Públicas e da geração de importantes tensões inflacionistas.
 
Estrangulado o Ocidente das matérias prima africanas, foi o líder comunista português condecorado Herói Soviético mas havia ainda que cercear a liberal Europa da sua franja atlântica pelo que foi nesta “parte mais fraca” que rufaram os tambores do colectivismo e da solidariedade proletária. E se desta última perspectiva nos libertámos imediatamente sem ajuda externa, já na perspectiva do longo prazo nos foi apontada a Europa como a tábua de salvação contra mais misérias e desgraças. Corriam os tempos em que o Ministro das Finanças passava diariamente pelo Banco central a saber qual a disponibilidade momentânea de divisas e perspectivando desse modo o seu dia de trabalho; desvalorização monetária como artifício para a salvaguarda da competitividade nacional, espiral inflacionista, “cabazes de compras” com preços controlados, descrédito no sistema, incredulidade na viabilidade nacional, recurso ao Fundo Monetário Internacional. E no meio de tudo isso a mulher do então Primeiro-ministro a telefonar indignada ao Ministro do Comércio queixando-se de que no Chiado não encontrara uma única gravata de seda para o marido … A ser verdade o que se conta, Maria Antonieta também terá sugerido ao povo que comesse croissants, já que não havia pão …
(continua)
 
Bragança, 5 de Outubro de 2007 – VI Encontro da Lusofonia
 
 Henrique Salles da Fonseca

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:43
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 1 de Dezembro de 2009 às 09:02
Todos os factores que aponta são muito pertinentes. O problema mais grave, quanto a mim é a falta de gente capaz em quantidade, de gente que respeite e se respeite, que ame a pátria e não só o bolso próprio, de gente profissional, que trabalhe e estude, que não se deixe corromper facilmente e saiba impor valores dignos de homens, de raça humana racional. E isso, não temos, desde sempre que não temos. Não construímos uma nação que se imponha, não digo pela força mas pela intelectualidade, pela organização, pela disciplina, pela orientação. Fomos um país de trapalhadas, somos um país de trapalhões.
Não tenho esperança, Dr. Salles da Fonseca.
Berta Brás


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