Sábado, 7 de Novembro de 2009
PORTUGAL, UM ÍCONE MUNDIAL - 2

 

UM PAÍS DE MISSÃO
 
 
PARADIGMAS DE UM POVO PREDESTINADO?
 
3. Neste universo multidimensional, às vezes pergunto-me: Por quê Portugal? Qual o sentido de um carinho tão privilegiado que muitos têm por este país no contexto de nosso universo complexo, global e plural?
 
Como muita gente culta, pelo mundo afora, em todos os tempos, vejo e sempre vi, em Portugal, um espaço muito especial; um espaço que tem carisma, tem uma atracção mística, quase espiritual. Muita gente assim sente e pensa.
Para além do que nossos fracos sentidos captam, há uma outra realidade que os olhos “profanos” não conseguem ver.
Vale a frase de Saint Exupéry:
O essencial é invisível aos olhos”.
 
Eu sinto, canto, cultivo e difundo, em espaços adequados, o Portugal que Camões cantou, que Vieira exaltou e nele profetizou e que Fernando Pessoa amou e propagou. E também o Portugal de Teixeira de Pascoaes, Agostinho da Silva, Jaime Cortesão, Antero de Quental e outros mais.
 
4. A relação de muitos, com Portugal, é mais mística do que geográfica. A base territorial é um ponto de referência. Portugal existe, tanto no continente europeu, como nas ilhas e na diáspora. É um país Uno e múltiplo.
Pela sua actuação na história, Portugal sente-se um povo de missão: um povo predestinado, como o povo de Israel.
 
Essa mítica de povo predestinado, talhado para uma grande missão, foi-lhe atribuída desde a fundação da nação, há 850 anos.
Este país é um espaço que tem vida e energia que escapam ao comum dos mortais. Escapam aos que vivem envoltos e absortos num cotidiano trivial, sem ir às raízes das forças que presidem à vida e á harmonização universal.
 
Nem todos sabem sentir a alma, o espírito e o sentido da vida e da nação.
Não conhecem as forças motriciais que tudo movem, para além do espaço geográfico.
Quem vive só do pão, fruto do trigo, que verdeja em nossos campos, quem vive só para comer e ter sucesso, já foi observado e fotografado por Fernando Pessoa:
“Sem a loucura o que é o homem,
mais que a besta sadia,
cadáver adiado que procria?”
 
            Portugal é impregnado de uma espiritualidade própria que foge um pouco dos padrões habituais. É uma espiritualidade comprometida com a humanidade.
 
5. Muitas vezes, enquanto penso neste país vem-me um sentimento paradoxal: penso que seria mais estimulante não ter nascido português. Mas por quê?!
            Sim, já sei. Se não tivesse nascido português, admiraria Portugal pelo que ele é, em si, sem levar em conta o que ele é, em mim. Olharia o país como um estrangeiro que, de repente, descobre um manancial muito especial
         Talvez o admiraria mais. Talvez me sentisse mais livre. Mas eu sou um homem livre, nos parâmetros em que a liberdade existe para os humanos.
Ser português é um modo de ver e viver, de pensar e sentir as coisas; um modo de ser e de estar no mundo. É o modo pelo qual a mente e o coração humano articulam o seu diálogo permanente, consigo mesmo e com o mundo.
Ser português é compartilhar conhecimentos, sentimentos e compromissos com esta terra, com esta gente, com a sua história e a sua cultura; seu passado, seu presente e seu futuro. É semear sementes espirituais em campos férteis. É olhar, juntos, para o futuro, cuidando, com esmero, do presente.
Ser português é pensar no outro, ser solidário e pensar no mundo todo como uma família universal. É sentir-se como tendo compromisso com um povo de missão para difundir a fraternidade. É dispor-se a descobrir novos mundos, no âmago das coisas e das pessoas.
Ainda bem que a perspectiva espiritualista, ainda que não vinculada a uma religião específica, está na ordem do dia.
Numa sociedade utilitária e consumista, este é um passo privilegiado, num mundo que se renova.
 
(continua)
 
Setembro de 2009
 
 José Jorge Peralta

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:30
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 9 de Novembro de 2009 às 10:09
RECEBIDO POR E-MAIL:

As palavras do prof. José Jorge Peralta não poderiam ser mais representativas do sentimento da diáspora portuguesa. Seu discurso em defesa do acordo ortográfico é claro, contundente,” cientificamente” embasado. Estou com ele e não abro precedentes.

Parabéns senhor professor, mostrou o que é ser português.

Maria Eduarda Fagundes.

Uberaba, 7 de novembro de 2009


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