Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
POBRE BICHO DA TERRA

 

 Lá longe é a Machava...
 
Veio muito triste hoje, a Marta. Deram à família ordem de despejo e em troca da casita e do terreno que era deles, necessário, ao que parece, para a construção de uma escola, ofereceram-lhe outro terreno lá muito longe, na Machava, e mais cento e cinquenta escudos por conta do caniço.
 
O caso não se passava só com ela. A mesma ordem fora dada a uma série de famílias do bairro do caniço, obrigadas a agarrar nas trouxas e abalar.
 
A Marta vive com os pais e dois irmãos e como todos trabalham fora, excepto a mãe, conseguiram comprar um terreno distante ainda do aeroporto, mas em todo o caso num local mais próximo da cidade do que aquele para onde os queriam expatriar, absolutamente incompatível com os seus horários de trabalho e com a despesa (e escassez) de transporte que tão grande dist\ância implica.
 
Mas se a Marta pôde comprar o seu terreno, o mesmo se não dará com outros, certamente, menos abonados e que terão mesmo que partir para tão longe – mudar de terra, afinal.
 
Esta imposição pouco honesta, porque de modo algum compensadora, sugere-nos reflexão melancólica sobre o “bicho da terra vil e tão pequeno” que não só o destino mas o próprio homem, mais cruel do que aquele, se esmeram em reduzir ainda mais.
 
Para fazerem as suas casas, aqueles negros trabalharam, talvez, bastante, a fim de obterem a quantia que lho permitisse.
 
Não compreendemos como se pode, tão cavilosamente, despojá-los do que é seu, embarcando-os para longe sem sequer os indemnizar devidamente e sem se atender aos seus interesses e necessidades.
 
Obrigará o progresso a ser-se menos justo com os seus semelhantes? Concordamos que se torne necessário tal êxodo, necessidade que já vem nos livros, do Júlio Dinis pelo menos, onde o velho herbanário foi sacrificado no mesmo objectivo de desenvolvimento, já que era também o mais débil, quer economicamente, quer politicamente, ou socialmente.
Com o que não concordamos é com o logro, sobretudo quando os logrados são os tais seres inferiores que se não podem defender e nem sequer podem pagar ao advogado que os defenda, o que lhes sairia, evidentemente, bastante mais caro do que aquilo que perdem pela casa de que, friamente, os despojaram.
 
Berta Brás
 
In PROSAS ALEGRES E NÃO – Lourenço Marques, 1973


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:25
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 2 de Novembro de 2009 às 14:50
É meu costume publicar textos de quem me ajuda a fazer o blog e não tecer comentários. Mas desta vez não resisto pois creio que este texto, publicado em livro em Lourenço Marques no ano de 1973 por compilação de textos publicados anteriormente pela Autora no «Jornal de Notícias», revela às mentes limpas que a propaganda posterior a 1974 é tendenciosa no sentido de que a crítica política era proibida.
Aqui está um exemplo de crítica a uma política e - não restem dúvidas - a Autora não foi seviciada por ter tecido tal crítica. Mais: a Autora saiu em defesa de gente claramente desfavorecida mas para tal não necessitou de pôr Portugal em causa. O que os outros - os que eram censurados - evidentemente faziam!!!
Calem-se com a longa noite fascista pois isso não passou duma rude e grotesca expressão comunista, tipo de puro fascismo e campo livre para o capricho de ditadores.
Henrique Salles da Fonseca


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