Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
OS BENEFÍCIOS DO PROTECCIONISMO EUROPEU – 2

 

 

Crise do comércio livre global: como sair?

 


Proteccionismo e Teoria Económica

A crise actual coloca a questão da regulação do comércio: o livre comércio não pode mais ser um dogma inquestionável pois não se adapta à situação actual que se caracteriza pelo surgimento de países com alta capacidade tecnológica mas baixos salários e com o preço dos transportes e das telecomunicações a diminuir drasticamente. De repente, a concorrência de empregados de diversas origens tem sido possível e com ela a estagnação dos salários... e o desenvolvimento da dívida para resolver a crise na procura doméstica.

Maurice Allais, Prémio Nobel de Economia em 1988, recorda: "a plena liberalização do comércio e dos fluxos de capitais só é possível e só é desejável no contexto de agrupamentos regionais com países económica e politicamente associados e desenvolvimento económico e social comparável. (Globalização, Paris, 1999)[1].

Como afirma Bruno Aimable (Colloque Fondation Res Publica, Mondialisation régulée des échanges, 28 de Novembro de 2005), A teoria económica diz que há benefícios para o comércio livre, desde que preencham determinadas condições.
Em particular, pode haver benefícios do livre comércio se permitir uma melhor realocação dos factores de produção. O problema é que, se o livre comércio leva a que num país os factores de produção não sejam redistribuídos mas desempregados – e isso são pessoas sem trabalho - é claro que fica de fora dos benefícios do livre comércio. Se houver dificuldades na reabilitação de mão-de-obra para outras actividades, é evidente que a protecção não é apenas desejável mas legítima do ponto de vista da teoria económica.


O horizonte europeu

Não se trata de reconstruir muros intransponíveis e imaginar autarquias absurdas. Não se trata de tentar um proteccionismo nacional absolutamente desadaptado à perspectiva económica actual global. Trata-se de regular o comércio imaginando áreas geográficas suficientemente grandes para evitar a criação de deseconomias de escala – os riscos de proteccionismo. Trata-se de organizar o mundo a nível europeu ou norte-americano ou asiático. Deste ponto de vista, as reacções proteccionistas de alguns líderes europeus que desejam estabelecer uma regulamentação do comércio dentro da Europa são perigosas: em primeiro lugar porque são ineficientes (o mercado é muito desenvolvido para as permitir), depois porque poderia pôr em causa o projecto europeu (vejam-se as reacções dos países da Europa Oriental ao plano automóvel francês) quando o que precisamos é de pensar na recomposição da economia global.

A Europa dos 27 não é certamente uma área ideal regional: tem dentro de si disparidades salariais que não reflectem diferenças de competitividade o que causou uma onda muito grande de deslocalizações: primeiro a alemã e depois a da Europa Ocidental. Mas o conjunto europeu é o mais relevante porque seria impraticável regular os fluxos comerciais dentro de Europa. A União Política não resistiria e esses fluxos comerciais são necessários para a resistência à escala do mundo. Em segundo lugar, as disparidades salariais, quando razoáveis, são boas para a economia: incentivam a inovação e limitam a criação de deseconomias de escala que são um pesadelo para os consumidores.

Finalmente, a história da integração europeia, a seis, a dez e quinze, a 27, é a prova do que o comércio livre pode operar a uma escala regional se for regulamentado, organizado e se fizer convergir actores económicos, tecnológicos e demográficos comparáveis. Espanha, Portugal e, em menor medida a Grécia, podem atestar isso.
Uma unidade de forte crescimento económico, com a concorrência interna a incentivar a inovação, é a condição necessária para a eficácia da regulação do comércio internacional, sabendo que esses grandes grupos já existem, o NAFTA e a América Norte e Sul, a China e o Japão em vias de integração acelerada irrigando o seu poder em todo o Sudeste Asiático.

E talvez amanhã, a entidade europeia possa integrar o Sul do Mediterrâneo ou subsaariano para a reorganização de grandes áreas regionais. Na verdade, é escandaloso que o proteccionismo agrícola, por exemplo, ligue quase sem distinção de aliados naturais e históricos da África e países com os quais não temos grandes interesses. Entenda-se que o proteccionismo é uma arma política e económica que permite definir zona de influência.

Não se trata de nos escondermos atrás de muros que ninguém vai aceitar numa economia mundial integrada, mas sim definir comportas de comum acordo: uma comporta não é um obstáculo – uma muralha da China – é um dispositivo que permite o fluxo de água (e continua a globalização), em níveis diferentes. A regulação do comércio a nível europeu pode oferecer protecção por um tempo, dando tempo para actualizar a Ásia: se a actualização da Ásia levar muito tempo, a comporta continua. Queriam regulação económica? Aqui está uma: por que não usá-la?
(continua)
27 de Abril de 2009
 Hakim El Karoui
(banqueiro de investimento, autor de L'avenir d'une exception ed. Flammarion, 2006; para saber mais, ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Hakim_El_Karoui)


[1] - Ver também Clément Jugla, 1999. Globalização: a destruição de empregos e crescimento

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:42
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2 comentários:
De Zé da Burra o Alentejano a 30 de Outubro de 2009 às 16:56
O FIM DE DO OCIDENTE
A Globalização, tal como foi concebida, vai determinar o fim da prosperidade do ocidente que passará para segundo plano e será ultrapassado pelas as novas superpotências que esta "globalização selvagem" ajudou a criar: a China, a Índia...
O Ocidente caiu na armadilha da globalização que interessava às grandes Companhias, que pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no oriente. Todos sabem que o custo da mão de obra é insignificante no valor dos bens produzidos nos países do oriente, em virtude dos baixos salários e da inexistência de quaisquer obrigações sociais.
Como os bens produzidos nesses países se destinam sobretudo à exportação para ocidente; quando a população do ocidente perde poder de compra, a crise acaba por atingir também as novas potências. Mas a crise nesses países é e será sempre um menor crescimento económico: há poucos anos era de dois dígitos e agora deverá ficar-se por 6 ou 7%, e a isso não se poderá chamar de “crise”. A crise atinge o ocidente e quando passar o centro económico do mundo estará a oriente, pois terá chegado o fim dos anos de ouro do ocidente. Os EUA serão também ultrapassados.
Ao aderirem ao desafio da "globalização selvagem", os países ocidentais ajudaram à mudança porque não exigiram aos países do oriente que prestassem às suas populações melhores condições sociais, como: criar regras laborais, melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice para poderem aceder livremente aos mercados do ocidente. Não, o ocidente optou simplesmente por abrir as portas à importação sem condições, criando assim uma "concorrência desleal e selvagem” de que sairá sempre a perder. Restará às unidades de produção ocidentais três alternativas: 1ª) Mudam-se para oriente; 2ª) Fecham portas antes da falência; 3ª) Não resistem à concorrência que lhes foi imposta e vão à falência. A única alternativa seria a de nivelar os salários e demais condições sociais pelas do oriente. E não é a isso que estamos a assistir neste momento? Nalguns desses países existe mesmo escravatura no literal significado da palavra e trabalho infantil (não de jovens de 14,15 anos mas de meninos/as de 6,7 anos). Assim, o ocidente e a UE ditou a sua própria “sentença de morte económica”: enquanto algumas empresas não resistem à concorrência e fecham as portas para sempre, outras irão deslocar-se mesmo para a China ou para a Índia para assegurar a sua própria sobrevivência o que provocará o definhar da economia ocidental e o desemprego. E os trabalhadores: será que depois do razoável nível social que atingiram vão aceitar trabalhar a troco de um ou dois quilos de arroz por dia sem direito a descanso semanal, sem férias, sem reforma na velhice, etc...? Não! por isso o ocidente está já a iniciar um penoso caminhar em direcção ao caos: a indigência e o crime mais ou menos violentos irão crescer e atingir níveis inimagináveis apenas vistos em filmes de ficção que nos põem à beira do fim dos tempos como consta nos escritos bíblicos. A Segurança Social, cada vez mais suportada pelos próprios trabalhadores (como incentivo à deslocalização), não poderá em breve suportar o esforço para minimizar os problemas que irão crescer sempre: a época áurea do ocidente já é coisa do passado e em breve encher-se-á de grupos de salteadores desesperados, sobrevivendo à custa do saque. Regressaremos a uma nova “Idade Média”, se é que poderei chamar assim: A classe média desaparecerá e existirão uns (poucos) muito ricos, alguns à custa do crime violento e/ou económico, e que habitarão autênticas fortalezas protegidas por todo o tipo de protecções e que apenas sairão rodeados por guarda-costas dispostos a matar ou a morrer pelo seu “senhor”; haverá, em simultâneo, uma enorme mole de gente desesperada de mendigos e de salteadores que lutam pela sobrevivência a todo o custo e cuja protecção apenas poderá ser conseguida agrupando-se, pois as ruas serão dominadas pelos marginais, ficando as polícias confinadas aos seus espaços próprios e reservadas para reprimir as “explosões” sociais que possam surgir.
PS e PSD são os dois fiéis representantes em Portugal desta globalização, por isso não podem enjeitar os resultados que estão a surgir.


De Henrique Salles da Fonseca a 30 de Outubro de 2009 às 19:52
Num blog como o "A bem da Nação" não faz sentido alguém ocultar a sua identidade pois não há que temer assumir opiniões, mesmo as politicamente fora de moda. Sobretudo essas!
Estou totalmente de acordo com o conteúdo do comentário anterior e só não o transformo em artigo autónomo por se tratar de Autor não devidamente identificado.
Henrique Salles da Fonseca


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