Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
OS BENEFÍCIOS DO PROTECCIONISMO EUROPEU – 1

 

Crise do comércio livre global: como sair?
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A origem da crise é a estagnação da procura interna

Diz-se, ao examinar a crise de 2008, que é uma crise financeira causada em parte pela crise da habitação nos EUA – particularmente pelas famílias menos dignas de crédito (subprime) – e pelos excessos de gananciosos e dos efeitos do slogan populista "todos proprietários!».
 
Quanto ao agravamento em 2009, foi devido à propagação da crise financeira na economia real, expressão muito estranha…

Esta interpretação não está errada mas é parcial pois ignora a verdadeira origem da crise: a dívida das famílias americanas e, mais genericamente, ocidentais.
 
Porquê a dívida, se celebramos os últimos quinze anos de enorme crescimento dos EUA? Devido ao optimismo ilimitado dos americanos, à sua história de crédito, à sofisticação dos “produtos” financeiros disponíveis para as famílias cujo risco foi dividido quase por infinito e em seguida distribuído através de securitização. Mas principalmente porque os salários dos americanos da classe média e baixa não aumentaram com rapidez suficiente para suprir às necessidades de consumo. E o que é verdade nos Estados Unidos é também na Grã-Bretanha, Espanha, Alemanha – onde os salários reais caíram, entre 2000 e 2005 – e até certo ponto em França. Quando se compara a curva do endividamento das famílias com a balança corrente americana percebe-se que o desequilíbrio comercial se amplia à medida que cresce o endividamento familiar [1].

A taxa de crescimento é a conjunção de dois factores: a capacidade tecnológica para aumentar a oferta de bens e serviços; a capacidade sociológica de alargar a procura desses bens e serviços. Esta capacidade sociológica falhou. Num nível estritamente identificado e nacional, em particular, uma empresa não assume a prioridade de reduzir os vencimentos dos seus empregados (v.g. o "compromisso fordista" de aumentar os trabalhadores para que possam comprar carros).
No entanto, no contexto da globalização, os salários são vistos apenas como um custo e, portanto, estagnam. O herdeiro da Ford hoje poderia dizer "Eu não aumento o meu trabalhador porque vai comprar carros no exterior, onde eles são mais baratos porque os salários são mais baixos", é o argumento do Governo francês, para se recusar a fazer um plano de relançamento.

Mas esta estagnação comprime a procura interna e, consequentemente, a procura agregada e o crescimento da economia: o desemprego aumenta em seguida. Aqui reside o problema fundamental: a procura externa não é maior em relação à procura doméstica. Um aumento dos salários e do consumo permitido por um certo retraimento aos produtos estrangeiros pode mais do que compensar as perdas após o fecho de alguns mercados externos.

Embora todos os políticos tenham a boca cheia de palavras relativas a normas regulamentares internas, é urgente regulamentar o comércio mundial e as finanças globais lançando luz sobre os seus efeitos: é moralmente injustificável não lançar na agenda política estas questões que influenciam as vidas de milhões dos nossos concidadãos.
 
(continua)
 
27 de Abril de 2009
 Hakim El Karoui
(banqueiro de investimento, autor de L'avenir d'une exception, ed. Flammarion, 2006; para saber mais, ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Hakim_El_Karoui)
 


[1] - Jean-Luc Gréau, L'Avenir du capitalisme , Gallimard, Le Débat, 2005. Ver também: Emmanuel Todd  L'illusion économique , Gallimard, 1999; Après la démocratie, Gallimard 2009 e prefácio de  Système national l'économie politique , de Friedrich List, ed. Poche. Paperback,

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:09
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1 comentário:
De Zé da Burra o Alentejano a 3 de Novembro de 2009 às 13:55
Agora é a Qimonda depois a Delphi, a seguir virá outra, e outra e outra, enfim, é um não mais acabar de dramas que nos atingem! A globalização, tal como foi concebida, vai determinar a derrocada económica do ocidente que passará para segundo plano e será ultrapassado pelas as novas superpotências que a globalização ajudou a criar: a China, a Índia e outros países. O Ocidente caiu na armadilha da globalização que interessava às grandes Companhias que pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no oriente. Todos sabem que o custo da mão de obra é insignificante no valor dos bens aí produzidos, em virtude dos baixos salários e da inexistência de quaisquer obrigações sociais. Como os bens produzidos se destinavam è exportação para o ocidente, como o ocidente perde poder de compra, a crise acaba por tocar também as novas potências, mas a crise nesses países é e será sempre um menor crescimento económico: há poucos anos era de dois dígitos e agora deverá ficar-se por 6 ou 7%, mas a isso não se poderá chamar de “crise”.
Os países ocidentais perderam a aposta quando aceitaram a actual "globalização selvagem" sem exigirem aos países do oriente que prestassem às suas populações melhores condições sociais, como: regras laborais justas, melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice. A única alternativa será a de nivelar os salários e as condições sociais no ocidente pelas do oriente e é a isso que estamos a assistir neste momento, enquanto algumas empresas não resistem à concorrência e fecham as portas para sempre, outras estão a deslocar-se para a China ou para a Índia para assegurar a sua própria sobrevivência o que provocará o definhar da economia ocidental e obviamente o desemprego. Quanto aos trabalhadores, será que depois do razoável nível social que atingiram vão aceitar trabalhar a troco de um ou dois quilos de arroz por dia sem direito a descanso semanal, sem férias, sem reforma na velhice, etc...? Não! por isso o ocidente está já a iniciar um penoso caminhar em direcção ao caos: a indigência e o crime mais ou menos violentos irão crescer e atingir níveis inimagináveis apenas vistos em filmes de ficção que nos põem à beira do fim dos tempos como consta nos escritos bíblicos. Para icentivar a não deslocalização de empresas estão a ser-lhes dadas facilidades fiscais e de isenção de contribuições para a Segurança Social que será paga cada vez mais pelos assalariados e pelos pequenos comerciantes e industriais que não têm dimensão de de deslocalizar. Isso será insuficiente e a Segurança Social vai ter futuramente maiores dificuldades em responder às necessidades.
Quando tudo estabilizar o centro do mundo económico será nas novas economias do oriente e a época áurea do ocidente pertencerá ao passado. Em breve, as ruas encher-se-ão, por cá, de grupos de salteadores desesperados, sobrevivendo à custa do saque. Regressaremos a uma nova “Idade Média”, se é que poderei chamar assim: A classe média desaparecerá e existirão uns (poucos) muito ricos, alguns à custa do crime violento e/ou económico, e que habitarão autênticas fortalezas protegidas por todo o tipo de protecções, e que apenas sairão rodeados por guarda-costas dispostos a matar ou a morrer pelo seu “senhor”; haverá, em simultâneo, uma enorme mole de gente desesperada de mendigos e de salteadores que lutam pela sobrevivência a todo o custo e cuja protecção apenas poderá ser conseguida agrupando-se, pois as ruas serão dominadas pelos marginais, ficando as polícias confinadas aos seus espaços próprios e reservadas para reprimir as “explosões” sociais que possam surgir. Mais: A democracia só é viável com uma classe média apreciável, sem ela como esperam os políticos manter-se no poder? Como vão convencer os trabalhadores escravizados a votar neles? Será com o apoio de criminosos e outros marginais? Será que vão conseguir enganar a maioria dos trabalhadores e convencê-los de que a miséria é bom pra eles?
PS e PSD são os dois fiéis representantes em Portugal desta política de "Globalização", por isso não podem enjeitar os resultados que estão a surgir.


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