Sábado, 17 de Outubro de 2009
PELA ROTA DA ÍNDIA – I

 

 
Ceuta - aqui se fundou o Império Português
 
Foi cedo na História que Portugal se sentiu esmagado pelo vizinho que não lhe reconhecia a autonomia política e logo percebeu que ou ganhava dimensão ou deixava de existir como Nação soberana. Por isso iniciou em 1415 a expansão para o Ultramar, senda na qual construiu um Império de dimensão suficiente para lhe garantir a existência.
 
Não cabendo aqui resumir o que foi o percurso imperial português, basta referir que foram três os valores que perenemente resultaram como distintivos dos povos colonizados: a religião, a língua e os genes.
 
E se a componente religiosa começou por se justificar no âmbito do apoio sanitário aos mareantes e nos 17 hospitais edificados entre Tavira e Goa, logo passou a constituir principal motivo oficial da expansão, pia cobertura do prosaico comércio de ouro e de outras cobiças nessas épocas hoje distantes. Estando então a sede do Direito Internacional Público localizada na Roma papal, foi a bênção obtida para protecção do negócio privado e assim alcançada a plena legitimidade do processo imperial.
 
Mas Portugal tinha escassa população à época do início dos descobrimentos e teve que se socorrer de estrangeiros não só em quantidade como sobretudo em qualidade. Mareantes de hierarquia variada e religiosos estrangeiros serviam sob as ordens dos Capitães – que a Coroa escolhia sempre que possível dentre os seus súbditos – e enquadravam tripulações remidas de cárceres ou apanhadas em descuido de tabernas. Ou seja, o primor da língua portuguesa não seria apanágio das tripulações das naus dos descobrimentos uma vez que parte substancial da hierarquia superior não era portuguesa e os nacionais embarcados eram de condição intelectual muito duvidosa.
 
Do fraco calibre intelectual resultou, contudo, uma particularidade portuguesa, inédita entre os demais povos colonizadores: a miscigenação. E da fraqueza se fez tal força que, tendo sido os primeiros a rumar por esses mares além, fomos os últimos a deles regressar.
 
Regressados à dimensão do território permitido, houve que assentar num modelo compatível com o padrão europeu e se não vem aqui à colação discutir alternativas às opções então tomadas, constatemos que Portugal se encontra neste início do século XXI numa situação equiparável àquela que em 1415 justificou que as naus zarpassem para esses mares ignotos.
 
(continua)
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
(in Boletim de 2009 da Academia Galega de Língua Portuguesa – pág. 123 e seg.)
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:38
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5 comentários:
De Luis Santiago a 17 de Outubro de 2009 às 18:23
Prezado Drº Henrique, Estamos a seis séculos de uma era de liderança. Demos um enorme contributo para o desenvolvimento da ciência náutica e da economia mundial. Perante a pressão internacional, fomos despojados de tudo, acusados de colonialistas e já no fim da monarquia ajoelhamo-nos perante o mapa cor-de-rosa (estranha cor esta muito significativa e que nos persegue). Somos um pequeno bastião da Europa que é a ponte de ligação marítima desta com o resto dos continentes. Há que regressar à nossa condição de povo de marinheiros e virarmo-nos para esta riqueza natural que é o Mar e fazermos valer a nossa posição geoestratégica para não sermos tratados como um enorme porto da Europa , particularmente, dos espanhóis. Não tenho sentimentos de perseguição em relação ao povo espanhol da nossa era, mas o passado serve-nos de experiência. O futuro da portugalidade depende do que os políticos que elegemos para cuidarem do nosso futuro. Pela amostra da descolonização exemplar, não vislumbro nada de bom, apesar eu ser um optimista. Chegámos a uma encruzilhada em que é urgente decidir e bem sobre nós e o que queremos para nós. Como diria Júlio César : "Alia jacta est ". Um abraço. Luís Santiago


De Henrique Salles da Fonseca a 17 de Outubro de 2009 às 19:15
RECEBIDO POR E-MAIL:

Não sei se os homens de hoje mostrariam idêntica disponibilidade para zarpar, a menos que fosse para navegar nas mesmas águas turvas a que andamos todos habituados. Mas os naufrágios não seriam menos previsíveis, além de que as rotas marítimas que fomos abrindo já estão ultrapassadas pelas rotas aéreas, e indiferentes e arrogantemente desdenhosos se mostrariam os povos onde deitámos alguma semente...
Berta Brás


De Luis Santiago a 17 de Outubro de 2009 às 23:14
Senhora Professora, Concordo e discordo. A ingratidão de que fomos alvo pelos povos por onde deixámos a nossa língua e a nossa cultura - e que agora são verdadeiramente explorados - é culpa do ambiente internacional que nos foi criado com a política do orgulhosamente sós. Não optámos por mudar de rumo no tempo certo e encalhámos na primavera marcelista. A mudança de política em relação ao ultramar português e a criação de uma comunidade ultramarina portuguesa, tinha sido o rumo certo para evitar muita coisa, como mortos, estropiados de guerra e refugiados do ultramar português (detesto a designação de retornados ) Isto deveu-se à falta de visão política futurista de quem nos governou e não se apercebeu das mudanças sociais, económicas e políticas que emergiram do pós-guerra. Quanto a zarparmos outra vez mar dentro, talvez não seja tão utópico como isso, se acreditarmos que a via aérea substitui com grandes vantagens a via marítima no transporte de pessoas, mas, já não poderemos afirmar que o problema do transporte de mercadorias esteja no mesmo nível. Poderíamos desenvolver esse mercado e abrirmos a passagem para oeste... Os meus respeitos.


De Henrique Salles da Fonseca a 20 de Outubro de 2009 às 08:53
RECEBIDO POR E-MAIL:

Mas para desenvolvermos um qualquer mercado não é necessário tê-lo? A nossa realidade - mau grado excepções na economia empresarial - circunscreve-se a uma panorâmica de dificuldade, mais intelectual que material (para não incluir a moral), e em termos de zarpagem, à fuga migratória à procura de sobrevivência, esgotadas as riquezas herdadas, destruídas as riquezas injectadas do exterior, num endividamento cada vez mais colossal.
Berta Brás


De Luis Santiago a 20 de Outubro de 2009 às 11:55
Senhora Professora, Não há mercado, segundo as suas palavras. Seja! Mas, como em tudo na vida, se não criarmos as oportunidades para... as coisas não acontecem e, não acontecendo não existem. É claro, do meu ponto de vista, que há mercado, ainda que em estado embrionário. É claro, do meu ponto de vista, que é uma opção que se não pode desprezar aproveitando os nossos escassos recursos da frota da marinha mercante portuguesa. Não podemos ficar parados no pessimismo. Na nossa génese está a energia, a luta, a vontade de vencer. Eu sei, e reconheço-o, que também tenho este discurso de desencanto em muitos dos meus textos, mas, citando as palavras do Prof. Doutor Diogo Freitas do Amaral, na 1ª Conferência “Portugal e o Alargamento das Comunidades Europeias” que teve lugar, há muitos anos na Fundação Calouste Gulbenkian, “Chegou a hora!”. Com os meus respeitos. Luís Santiago


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