Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
CELEBRAÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

 

 
PORTUGAL AINDA À PROCURA DE SI MESMO
 
 
 
Se a comemoração nacional do dez de Junho se pode considerar uma festa de todos os portugueses já o mesmo não se poderá dizer do 5 de Outubro. Este é mais um feriado em que Portugal recalca o passado nacional *. A opinião pública e a escola passam sobre este capítulo como o gato sobre as brasas. Da implantação da República sabe-se a data e alguns botões de retórica oportuna, do Estado Novo conhece-se apenas a parte demoníaca de Salazar, e do 25 de Abril apenas a parte salvadora. Naturalmente que toda a realidade tem duas faces e cada um escolhe a que mais lhe serve! O problema coloca-se também para a esmagadora maioria dos que não podem escolher e para as vítimas da desinformação.
 
Festejos nacionais são geralmente brindes de revoluções resultantes de interesses duma parte da nação contra os interesses da outra parte, ordinariamente à margem da população. Na História vê-se sempre a mesma banda que passa, a dos que vivem à sombra do Estado com o povo sonhador a aplaudir.
 
A revolução de 5 de Outubro veio pôr fim à Monarquia e proclamou a República. Os ideais trazidos pelas invasões francesas frutificaram na classe dominante que atribuía os problemas de Portugal à Monarquia. Os governos democráticos formados depois da revolução, mais fruto da ideologia e de interesses particulares, trazendo embora a democracia, ainda aumentaram os problemas da Nação conduzindo-a à anarquia e à bancarrota.
 
A insegurança e insatisfação dos portugueses favoreceram a contra-revolução de 28 de Maio de 1928 chefiada pelo general Gomes da Costa que instalou a ditadura militar. Depois segue-se o regime do Estado Novo (1932).
 
Os governos republicanos deram barraca e com eles a democracia foi sol de pouca dura. A capacidade democrática do povo foi seriamente posta à prova por representantes que não estavam à altura da democracia. Isto já o tinha previsto a opinião pública francesa que, aquando das sublevações republicanas em Portugal, nos seus jornais lamentava o assassínio do rei D. Carlos, “um dos reis mais cultos da Europa”, por revolucionários duvidosos.
 
As mesmas forças ideológicas que se aproveitaram do argumento ultramarino para assassinarem o rei D. Carlos e depois depor seu filho D. Manuel II e instaurar a República servem-se em 1974 do argumento das colónias para derrubar o regime do Estado Novo e implantar a democracia representativa, instalando-se também eles no aparelho do Estado. Um mal passa a justificar o outro mal.
 
Revoluções e revolucionários não são bons exemplos para cidadãos porque se levantam em nome do povo para depois ocuparem os mesmos postos e adquirirem as regalias dos precedentes que saneiam.
 
A falsidade de toda a revolução é inerente à dinâmica revolucionária atendendo a que a última revolução pressupõe a preparação da próxima. Ela não prevê uma evolução contínua popular mas apenas a oportunidade para os grupos de interesses mais fortes. O povo fica sempre reduzido a cenário! Por detrás das revoluções encontra-se o egoísmo de alguns e não a solidariedade social nem a liberdade do povo. Os slogans igualdade, fraternidade e liberdade, em termos revolucionários, não passam de tiros para o ar, para espantar os pardais da ceara.
 
Os feriados nacionais teriam sentido se fossem utilizados para fazer o facit do estado do país em comparação com os ideais que motivaram tal festejo. Seria a ocasião para uma discussão entre conservadores e progressistas, entre esquerda e direita, sobre o fundamento espiritual do Estado e o bem comum. Seria oportuna uma reflexão pública baseada no padrão cultural ocidental na implementação da dignidade humana e do cidadão adulto nesta sua parcela portuguesa. Uma discussão que reduz os conservadores a patriotas e os progressistas a antipatriotas minoriza o legado português. Haverá que desideologizar Portugal e abandonar uma política cultural e escolar meramente experimental; de trabalhar mais no sentido da homogeneidade nacional e não viver apenas de créditos artificiais duma memória colectiva negadora do passado. Da formação depende o destino da nação. Uma cultura dum Portugal adulto pressupõe um discurso, para além dos costumados diálogos de clientelas, subentende um discurso que redija de novo o passado não com os óculos ideológicos mas com os olhos da Nação. Nele estará presente a culpa interna do passado e do presente, terá de ser redigida a injustiça e as omissões do Estado para com o País.
 
Portugal ainda não se encontrou a si mesmo. Um povo com tantas qualidades mas sempre disposto a ouvir tem andado sempre a toque de caixa de personalidades estranhas. As suas pegadas no sentido francês e russo só tem adiado Portugal.
 
Torna-se óbvio adubar a própria modernidade e progresso no esterco do país, na própria tradição aberta, como é específico da tradição ocidental. O esterco estranho só parece fomentar franganitos de engorda à disposição de galos, mais que galantes, galadores.
 
O País precisa duma discussão séria na procura da verdade e da Nação, para lá das veleidades partidárias. Sem verdade não haverá reconciliação. Portugal não pode continuar a dar-se ao luxo de, por um lado viver uma paz de cemitério e por outro, de viver ao som do alarido do jardim infantil político. Economicamente sempre os países mais pobres da Europa, com uma economia de calças na mão à custa da emigração e dos dinheiros da UE. Para continuarem na pobreza outros países pobres não precisaram de revoluções!
 
Festejos de revoluções são sempre festas retrógradas! São as festas dos vencedores sobre os vencidos. Nelas falta a consciência de que o mesmo povo é, ao mesmo tempo, vencedor e vencido!
 
Facto é que o Sol português esteve e está sempre do lado dos seus representantes, quer sejam de direita ou de esquerda e o povo continua sempre na sombra de embondeiros, continua sempre cada vez mais na mesma!
 
 António da Cunha Duarte Justo   
* Dado a parte positiva das revoluções ser continuamente sobrelevada pelos que delas se aproveitam (os actores do correspondente regime), pretendo com esta abordagem lembrar algum aspecto colocado na sombra.
 
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:05
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4 comentários:
De Ralf a 7 de Outubro de 2009 às 22:04
Conhece a maldição do Papa Pius X. contra Portugal do anno 1911: Iamdudum?
copy via meublog/nome
Ralf


De Adriano Lima a 7 de Outubro de 2009 às 22:48
Os regimes passam e o povo permanece imutável na sua essência mais lídima. As revoluções agitam momentaneamente os ânimos mas o repouso das consciências tão tarda a regressar, como a pedra que se lança ao charco e produz ondulações cujo término já está preconcebido pelas leis da física. O que hoje é verdade amanhã regressa ao arquivo das nossas falências, isto em sucessivas experiências humanas que vão demonstrando a inconsistência ou a insipiência da nossa racionalidade. E no entanto alguma coisa vamos evoluindo ao longo dos tempos, embora nunca a contento das esperanças mais apressadas.
Fica-se a pensar que é imitado o campo das experiências sociais e que o homem é uma criatura que talvez nunca venha a encontrar-se a si própria, por certo destinado a viver experiências de que ele próprio não tem nem o mandato nem a ciência suficiente. E é por isso que temos dificuldade em vislumbrar um único sistema político que até agora tenha realizado a felicidade humana no seu sentido absoluto. Basta ir aos confins remotos da História e chegar a estes nossos dias em que ficamos perplexos por não ter sido possível prever o descalabro de um sistema financeiro que mandou muitas famílias para a pobreza.
Em Portugal, não vivemos num éden mas não aceito que se endemonize este recanto luso ou se coloquem rótulos denegridores aos que o dirigem. Ainda recentemente questionei alguns colunistas de dois diários (Artur Ribeiro Ferreira e Baptista Bastos) por nos julgarem no pior dos mundos. O primeiro faz uso de linguagem que considero desnecessariamente abjecta. O segundo segue mais ou menos a mesma linha mas com discurso mais elegante e mais ornado literariamente. É que não somos assim muito diferentes dos outros.
Uma revelaçãozinha. Estou a aguardar a visita de um primo que vive na civilizada Suécia há 40 anos e para quem é um bálsamo de espírito vir a Portugal todos os anos. E esta, hem!
Que me desculpe o autor algum despropósito, mas neste blogue tento ajudar a moralizar a nação, ingenuidade à parte.


De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Outubro de 2009 às 09:28
RECEBIDO POR E-MAIL:

Serena e excelente análise sobre uma nação manipulável e sempre manietada pela desinformação, a quem, de repente, tiraram o tapete do seu equilíbrio e segurança, mas que se sente feliz por manter "os ideais de Abril", os quais aparentemente lhe deram poderes democráticos, pese embora uma maior ruína geral, e um maior enriquecimento oligárquico.
Berta Brás.


De Adriano Lima a 8 de Outubro de 2009 às 14:04
No meu comentário, queria escrever "incipiência da nossa racionalidade" e saiu "insipiência. Ambos os vocábulos existem mas têm significado diferente. As minudências complicadas da nossa língua!


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