Domingo, 4 de Outubro de 2009
O PERIGO DA ILUSÃO REALISTA

 

Todos se lembram de no Verão passado (2008) os jornais assegurarem com absoluta certeza que por esta altura estaríamos com graves carências alimentares mundiais e fome em largas regiões. Passaram poucos meses e a previsão falhou completamente. Não há faltas e os preços caíram para menos de metade. Ninguém parece estranhar a discrepância.

Previsões destas não vêm da realidade. Não resultam de análises científicas, que não existiam, nem sequer dos potenciais esfomeados, pois aos pobres ninguém ouve. Quem gritava eram organizações humanitárias internacionais que, preocupadas com os preços alimentares, usavam os medos da opinião pública para pressionar os governos a subir-lhes o orçamento. Com a descida posterior dos preços o cenário catastrófico pôde ser arquivado. Outros interesses passaram a ocupar os media.

Tantos se assustaram tanto, todos acusaram os responsáveis, para agora tais temores estarem esquecidos. Mas os críticos não se sentem aliviados. Limitaram-se a mudar de susto, baseados nas novas previsões de catástrofe que os mesmos jornais trazem. Aliás, até culpam os mesmos políticos pelos novos terrores antecipados.

O mais curioso é que, apesar de falharem redondamente, os meios informativos não perdem credibilidade. São as mesmas publicações, os mesmos especialistas e comentadores que agora assustam o mundo com novas antevisões de calamidade, granjeando a adesão e convencimento de sempre. O que quer que digam, a gente acredita. Quando a crise se mostrar menos grave que os pânicos apregoados, ninguém desconfiará de quem os divulgou e esperarão com ansiedade os novos oráculos.

Afirmamos viver na "era da informação" e é verdade. Mas seria bom considerar a relevância da comunicação. Pensando bem, sobre as coisas que realmente interessam, sabemos menos que os nossos antepassados. Antigamente vivia-se na aldeia e todos conheciam tudo sobre todos. As casas tinham portas abertas e paróquia, botica ou barbeiro eram excelentes meios noticiosos. Hoje, com o anonimato urbano e privacidade escrupulosa, o nosso conhecimento é mínimo sobre o que nos afecta directamente. Mas sabemos imenso sobre coisas irrelevantes. Guerras e eleições longínquas, intrigas e conspirações mirabolantes e vasto sortido de desastres e calamidades constituem a dieta informativa quotidiana. Pensando bem, essas coisas não valem mesmo nada para a nossa vida.

O presidente americano tem muito menos influência na nossa existência que o presidente da Junta de Freguesia, mas vibrámos meses com a eleição de Obama e ignoramos até o nome do autarca local. Depois inventamos ficções, como a tese da "aldeia global", para justificar a nossa preferência informativa.

O motivo deste enviezamento é óbvio: a campanha do outro lado do Atlântico é muito mais divertida que a rotina prosaica. O nosso interesse pela informação não vem da necessidade de conhecimento, mas de um desejo lúdico. A realidade é profundamente rotineira, exigente, complicada, maçadora. Por isso desde as origens da raça humana foi grande a popularidade de mitos, epopeias, aventuras e romances. Mas esses tinham o defeito de serem fictícios. A era da informação, globalizando o âmbito, resolveu o dilema. Há sempre qualquer coisa interessante a acontecer no mundo. Os noticiários são reais e ao mesmo tempo fascinantes, com emoção, seriedade e violência. Apesar de, em geral, serem totalmente irrelevantes para nós.

A notícia não é ilusão, mas também não constitui conhecimento útil, porque distante. Mas, ao discutir esses magnos problemas planetários, cada um sente-se sábio e importante. No nosso sofá parece-nos, de alguma maneira, participar nesses assuntos grandiosos e decisivos.

Isso leva a mal-entendidos. No Verão passado todos sentimos a discrepância entre o preço pago na bomba de gasolina e o que os jornais diziam sobre o custo do barril de brent. Muitos protestaram e acusaram, mas sem notar que o primeiro era um valor directo, real, influente, enquanto o outro era um índice remoto, abstracto, efectivamente irrelevante.
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 João César das Neves
In Diário de Notícias – 20090112

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:13
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3 comentários:
De Adriano Lima a 4 de Outubro de 2009 às 17:29
Muito boa reflexão, sim senhor, a pretender mostrar-nos, com argumentos convincentes, que a nossa felicidade passa pela conciliação entre o universo paroquial e um mundo global que em certa medida se torna um mundo abstracto. Penso que ainda não aprendemos a conviver, com as necessárias cautelas, com a informação global, a qual é apreendida sem contenção e numa estranha passividade. Tudo tem o seu tempo de aprendizagem e habituação, e é um facto que as mudanças tecnológicas aconteceram a uma velocidade tal que ainda não aprendemos a reagir e a relegar a sua tempestividade ao plano conveniente, diferindo os momentos de fruição, de adesão ou de rejeição. Isto acontecerá quando o impacto do que vemos e ouvimos começar a sofrer um gradual amortecimento nas nossas consciências, anestesiando-nos e arrumando convenientemente o nosso sentido de apreensão e de crítica.
É o que se passa com tudo o que é novidade. Há dezenas de anos, certo tipo de filmes suscitava curiosidade a alguns que nunca os tinham visto, proibidos que estavam entre nós. Hoje, têm a importância que merecem, perdendo mercado irremediavelmente. Recentemente, foi dado presenciar simultaneamente em todo o mundo uma imagem fotográfica dos deboches do primeiro-ministro italiano. Daqui a algum tempo, estaremos provavelmente habituados a não reagir a este tipo de escândalo, o que deixará sem emprego os paparazzi. Estaremos então a encarar com mais calejamento tudo o que os meios informativos nos fornecem. Entre a nossa exaltada aceitação e a nossa perigosa passividade, passará o meio-termo identificador da atitude mais conveniente face aos fenómenos do mundo global.


De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Outubro de 2009 às 19:57
RECEBIDO POR E-MAIL:

Eu também acho que a sociedade do mexerico se impôs nos noticiários, bem como nos nossos talk shows televisivos, por vezes até com interesse. Até nas escolas há uma superabundância de casos, que os directores de turma têm que acompanhar, como psicólogos ou sociólogos, vivendo os problemas dos alunos e famílias, indiscretamente, mesmo sem vocação. E as aulas perdem com isso. Às vezes acompanho os noticiários e o boletim meteorológico franceses, e confesso que os prefiro, pelo apoio dos mapas da "aldeia" que nos vão recordando onde ficam as terras do globo, além de serem muito mais enriquecidos iconograficamente. Para além da superabundância das notícias dos faits-divers nacionais deprimentes, pouco tempo é reservado aos outros países e quase nunca com mapas elucidativos, ao menos, da geografia. Mas penso que dantes, o que se conhecia através do barbeiro, da paróquia ou da botica se limitava também a pouco mais do que "o rumor das saias de Elvira", de "entre todos os rumores do universo", como já explicava Fradique Mendes. Quanto ao exagero do sensacionalismo originador de pânico e favorecedor das negociatas laboratoriais e farmacêuticas, concordo em absoluto. De resto, prestam-se a mais noticiários infantilóides, com as perguntinhas aos meninos e meninas e velhotes, o que é preciso fazer para se resguardarem da gripe A. Um espanto! Para não dizer "Um horror!"
Berta Brás


De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Outubro de 2009 às 20:07
Karl Popper, o filósofo, considerava imprescindível que se constituisse uma Ordem dos Jornalistas com poderes punitivos sobre os membros que não cumprissem um Código Ético produzido por essa mesma Ordem. Quem não cumprisse com os deveres éticos poderia ter cassada a respectiva Cédula Profissional.
Com a manipulação da comunicação a alcançar a dimensão actual, já não se vai a lado nenhum que não à força. Lastimo profundamente ser obrigado a concluir que a liberdade foi cilindrada pela libertinagem e que o direito à informação tenha sido substituido pelo perigo da desinformação.
Henrique Salles da Fonseca


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