Sábado, 3 de Outubro de 2009
TEXTO ANTIGO

Do livro “Prosas Alegres e Não”, publicado em 1973, pediu-me Henrique Salles da Fonseca o texto que segue, achando-o ainda actual.

Não é a minha opinião e sei que arrisco ser criticada, pelo sediço da questionação pedagógica. Além de que o livro que se lia a ocultas nas aulas foi substituído pelo telemóvel.
 Texto escrito no início dos anos setenta, em África, já nessa altura polémico, mas corajoso, ao expender teorias – de solução – mais inaceitáveis, naturalmente, hoje, em que a sociedade se encontra moldada segundo os parâmetros da igualdade e do bem-estar, que considera a escola não um lugar de valores cívicos e culturais, mas um jardim de infância permanente.  
Trata-se, pois, de uma curiosidade de museu, como “aviso à navegação” que não impediu o naufrágio do nosso ensino estilhaçado.
 
«Liceu Salazar», Lourenço Marques
 
«OH! AS CRIANÇAS!
Muito se tem escrito sobre métodos de orientação pedagógica, e geralmente exprobrando os antigos processos educacionais de castigos físicos mais ou menos violentos. Como reacção contra esse mito “pai ou professor fera” – e dizemos mito pois não acreditamos na realidade de tal ferocidade, salvo as excepções de ontem como de hoje, como sempre confirmativas da regra – surgiu o mito “criança vítima”, o que se tornou sinónimo de “criança a quem tudo é permitido”.
Quem lida de perto com a massa estudantil tem constantes ocasiões de observar a falta de compostura de raparigas e rapazes – a par da correspondente falta de nível intelectual.
O mascar chewing-gum é tão frequente que os próprios alunos da noite se não coíbem de o fazer – na convicção de que tudo se lhes permite, pois possuem o alto mérito de perder as suas noites frequentando aulas, após terem perdido o dia ganhando a vida nos seus empregos. Os professores deverão reconhecer o extraordinário esforço por eles despendido, e por consequência aceitar-lhes essas particularidades.
Também as conversas ruidosas se estenderam aos alunos adultos da noite, tantas vezes mais mal comportados que os de dia, a quem os castigos disciplinares controlam um pouco mais.
Outro processo de distracção acintosa é o do entretenimento nas aulas em leitura amena de alguma novela sentimental – possivelmente único sítio onde gastam o tempo em leituras dessas, talvez mais para chamar a atenção para a intelectualidade demonstrada nessa concentração espiritual do que por real interesse cultural. E quando o professor explica qualquer assunto, acompanhado com exemplos transcritos no quadro, é frequente o aluno cruzar os braços em atitude inteligentemente superior, de quem reconhece a inutilidade da lição ministrada e não precisa, por isso, de enfadar-se copiando notas.
As mais das vezes o professor abstém-se de utilizar, com os alunos da noite, os processos disciplinares usados com os de dia, limitando-se a uma descompostura, aliás de nenhum efeito sobre o aluno já adulto que assim se comporta deselegantemente, decerto por falta dos estímulos educacionais da infância.
O mesmo não sucede com o aluno de dia, a quem o professor considera como filho e, como tal, o repreende ou castiga, num interesse formativo não só do seu carácter como do seu espírito.
O recurso às faltas disciplinares não é, as mais das vezes, suficiente, pois as raparigas e os rapazes, assim expulsos da sala, saem com o mesmo sorriso desdenhoso com que se mantiveram durante a intervenção do professor.
Mas qualquer puxão de orelhas ou bofetada oportuna – e quantas vezes resultante do enervamento provocado pela falta de educação estudantil – hoje em dia levanta protestos dos próprios progenitores, armados de arrogante autoridade, intervindo mesmo superiormente, esquecidos de que o professor, ao punir o seu filho, tal como ele próprio, como pai, o faz, age no interesse fundamental da criança, cujo carácter e espírito estão em formação.
Perde mais, supomos, o aluno que apanhou a falta disciplinar e por isso deixou de assistir a uma lição, do que aquele a quem um castigo corporal não excessivo mas a propósito, envergonhou talvez – por vezes há casos perdidos.
Mas o papá zeloso não pensa em tal. Conhece, por ouvir dizer, dos “novos métodos pedagógicos” que baniram os puxões de orelhas ou as bofetadas oportunas do ensino secundário, e se o professor se atreve a utilizar justamente o processo, revolve terra, mar e céu, movendo as suas influências e mostrando as suas importâncias para o professor do filhinho receber também o respectivo puxão de orelhas.
Geralmente os filhos desses pais desde sempre se habituaram a desdenhar dos professores, porque sempre ouviram em casa criticá-los desprezativamente. Mas pobres desses pais que incutem nos filhos a ideia de desrespeito pelos seus mestres! Não tardarão a receber o reverso da medalha, pois os seus “rebentos” os não pouparão a eles também.
Porque o aluno que não respeita os seus professores não tem educação. Responde malcriadamente em casa, fuma desenvoltamente e frequenta os cafés, senta-se incorrectamente na carteira, tem risinhos provocantemente trocistas ou adopta uma seriedade manhosa, só prejudicando, em suma, os colegas que o aceitam e escutam.
Quanto mais belo e eficiente seria o tal pai inculcar antes no espírito do seu filho que o professor é um amigo que cumpre respeitar, pois tem os seus próprios problemas e canseiras familiares e cuja missão, difícil e extraordinariamente cansativa, explica tantas vezes uma menor paciência para aturar dislates ou ruídos, e, enfim, bom ou mau, mais ou menos cumpridor, vai contribuindo para a sua formação espiritual e moral.
“Professores feras” os que castigam? Oh! as crianças dos tempos actuais que, com excepções certamente, tanto merecem ser castigadas! »
Berta Brás
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:45
link do post | comentar | favorito
|

4 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Outubro de 2009 às 00:18
Muito Prezada Senhora Professora:
Então a Senhora teve a coragem de escrever e publicar o dito texto durante «a grande noite fascista» e tem hoje receio dos efeitos que ele possa provocar nos «sensíveis democratas»?
Como imagina, as aspas são expressão da minha ironia pois nem aqueles eram tempos fascistas nem estes sensíveis de agora são democratas.
A indiferença, espero, não será geral. Mesmo que não apareçam comentários, o texto será lido urbi et orbi como se pode diariamente verificar pelo contador das visitas do blog. E quem o ler vai por certo ficar a pensar. E é para isso que existimos: para pôr as pessoas a pensar mais do que para fazermos vingar imediatamente as nossas opiniões.
Tenhamos a coragem de afirmar inequivocamente que andamos por cá para tentarmos espalhar a palavra do bem e não a da conveniência.
Continuemos "até que a voz nos doa"...
Melhores cumprimentos,
Henrique Salles da Fonseca


De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Outubro de 2009 às 09:56
RECEBIDO POR E-MAIL E AQUI PUBLICADO A PEDIDO EXPRESSO DA AUTORA:

Como sempre, acerta em cheio, no que pensa e no que diz: "nem outrora foi... nem agora é..." De qualquer modo, nem sabe quanto me agrada ter um "companheiro" de aventura escrita, e outros mais que encontro no seu blog, com um pensamento tão recto. Na minha opinião, mas julgo que é uma opinião correcta. Um abraço.
Berta Brás


De Adriano Lima a 4 de Outubro de 2009 às 16:32
Eu também acho actualíssimo o texto e ele é utilíssimo para a nossa reflexão se enquadrarmos a denúncia que comporta numa evolução degenerativa que havia começado anos antes. Em 1973, a situação da degradação da disciplina nas escolas já apresentava sinais enequívocos, que quanto a mim começaram a despontar em força com o Maio de 1968 e a confusão ideológica que gerou nos espíritos europeus.
Infelizmente, em vez de se pensar seriamente nos antídotos que o fenómeno já recomendava, preferiu-se simplesmente copiar as modelos pedagógicos que são, irrefutavelmente, a causa da situação desastrosa a que haveríamos de chegar. Pergunto-me se tudo teria sido diferente se não tivesse havido o 25 de Abril. Creio que não.
Todos queremos o bem dos nossos filhos e um futuro melhor para o país, e isso passa por muito trabalho, disciplina e sacrifícios, que devem começar na escola.
Fez bem a doutora Berta Brás em inserir este texto.


De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Outubro de 2009 às 22:22
RECEBIDO POR E-MAIL:

Concordo inteiramente que o "Maio 68" foi decisivo na mudança, embora julgue que a mudança das metodologias e das pedagogias do ensino tenham tido papel fundamental, com a eliminação, por exemplo, da memorização de estruturas gramaticais, matemáticas, etc, substituída pelo apelo à compreensão, o abandono do ditado, da técnica da repetição para criação de automatismos, a pretexto de que isso leva ao psitacismo, não sendo factores de desenvolvimento mental... Mas o 25 de Abril foi o gerador fundamental da reviravolta, pela era de liberdade acéfala que introduziu, conduzindo ao laxismo, à indisciplina grosseira, ao vale-tudo, ao nivelamento nas relações entre docentes e discentes, ao caos permitido por todos os ministérios da Educação....Também a unificação do ensino, com o desaparecimento do ensino técnico, conduziu a uma massificação de efeito pernicioso. Mas nunca, como hoje, se desprezou tanto o factor Ensino. Por isso estamos na cauda. E assim continuaremos, sem que outro "Maio" ou "Abril" mais racionais surjam para nova reviravolta menos bestializada, mais humanizada.
Berta Brás


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


artigos recentes

PERU – 5

PERU – 4

PERU – 3

PERU – 2

PERU – 1

ESCRITORES ESQUECIDOS

LIDO COM INTERESSE - 19

LIDO COM INTERESSE – 73

ESTAREMOS TRAMADOS ENQUAN...

ÉTICA E INFINITO

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds