Sábado, 26 de Setembro de 2009
OCIDENTAL PRAIA LUSITANA

 

 

 

 

 

A Apoteose de Homero - Ingres, 1827
Museu do Louvre
Imagem de: Ministère de la Culture (France)

 

 

«La Guerre de Troie n’aura pas lieu»

É uma peça de teatro de Jean Giraudoux de 1935 que põe em cena personagens da Ilíada, em sofisticada intriga que as vai definindo segundo as características que já apontavam, não só na epopeia como na tragédia clássica, acrescidas da visão satírica do escritor Giraudoux, em antevisão de uma guerra mundial que teria lugar poucos anos depois.

Assim, contra a opinião receosa de uma Andrómaca, grávida de Astianax, de que a guerra de Tróia não aconteceria, a bela Cassandra, sua cunhada, por todos encarada cepticamente como profetiza da desgraça, segundo os poderes que lhe dera Apolo, decide afirmar que iria ter lugar, mordaz nas suas observações constantes, de um cinismo esclarecido sobre os homens e o mundo.

Nem Heitor, sensato e futuro pai, amante da sua casta Andrómaca, nem o marialva do Páris, seu irmão, não mais apaixonado por Helena, que ele raptara a Menelau, rei de Esparta, eram a favor de uma guerra, decidindo pois, a conselho do irmão, enviá-la de retorno à Grécia, para evitar o conflito.
Mas Helena a todos seduzira com a sua beleza, os velhos adoravam-na, o próprio Príamo, o rei de Tróia, pai daqueles filhos e de muitos mais, fora seduzido, concordando com a necessidade de uma guerra para criar heróis, contra as súplicas das mulheres...
Assim, entre os belicistas, contar-se-ão Demokos, como agente de provocação, de um lirismo banal e de um idealismo mais perverso e lúbrico do que sincero, defendendo a guerra em nome de abstracções – beleza, coragem, heroísmo – despidas de consistência. Príamo, senil, desejoso de uma vida sem entraves, apaixonado por Helena, embora casado com a velha Hécuba. Tornar-se-á oponente à guerra por submissão. O Geómetra mascara os seus sentimentos pessoais de lubricidade sob a demonstração exaltada do alcance da imagem de Helena, por meio de imagens do domínio da geometria, provocando o cómico de linguagem. A multidão, como personagem colectiva, igual a todas as multidões.
Dentre os pacifistas, contam-se Heitor, prudente, sensato, realista, honesto, responsável, com experiência da guerra e dos seus horrores. Hécuba, ciumenta, patriota, sensata, psicóloga, desdenhosa. Cassandra, irónica, agressiva, sem ilusões. Páris, cedendo por fraqueza, por cobardia, por aborrecimento contra o espírito de família, por indiferença de boémio que por nada se interessa, em realidade. Andrómaca, fraca, receosa, amorosa, defendendo a sua felicidade, o seu direito à estabilidade.
Dentre todos, sobressaindo Helena: astuta, jamais se comprometendo, por indiferença egoísta, também. Feminina, felina, aceita facilmente as homenagens, sem emoção nem interesse por nada nem ninguém, mas com observações de uma profundidade que traduz uma filosofia de vida e uma argúcia cheia de ironia, contrastando com a sua aparente futilidade.
Contra ventos e marés, em ondas sucessivas de hipóteses que apontam para a esperança da paz ou o receio da guerra, outras personagens actuando como mediadores (Ulisses) ou provocadores (Demokos, morto por Heitor, confessando, ao morrer, confirmado por Abnéos, ter sido o grego Oiax que o assassinara). Estava dado o rastilho, feita a declaração da guerra.
Elle aura lieu” disse Hector, desprendendo-se das mãos de Andrómaca, enquanto “as portas da guerra se abrem lentamente”. “La parole est au poète grec”, concluirá Cassandra.
E, no último canto da Ilíada – XXIV - poderemos ler, na excelente tradução de Frederico Lourenço, a referência a Cassandra, que só ela se apercebera da morte de Heitor:
“... porém Cassandra, semelhante à dourada Afrodite, / subira a Pérgamo e de lá avistou o pai amado / em pé no carro e o arauto, mensageiro da cidade. / Viu Heitor jazente num esquife, puxado pelas mulas. / Emitiu um grito ululante e disse a toda a cidade:   //  “Vede, Troianos e Troianas! Vinde e vede Heitor, / se alguma vez vos regozijastes ao vê-lo regressar vivo da batalha: / à cidade era ele uma grande felicidade, assim como a todo o povo.”
Esperança na construção, receio da destruição. Estamos todos contidos, na nossa campanha eleitoral, como personagens da comédia de Giraudoux. Também a nossa guerra vai ter lugar, com a morte de Heitor, com a destruição de Tróia.
Não a da ilha fronteira à serra da Arrábida, mas toda a “ocidental praia lusitana”.

 

Berta Brás

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:38
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 26 de Setembro de 2009 às 09:56
Um pedido de desculpas à Autora e aos Leitores pois não sou capaz de uniformizar o tamanho da letra em todo o texto. Depois de várias tentativas decidi que mais vale publicar já assim do que demorar mais na busca da perfeição gráfica.
Henrique Salles da Fonseca


De Adriano Lima a 26 de Setembro de 2009 às 14:13
Um aplauso a mais um contributo à cultura neste blogue.
Passaram-se milénios, mas a natureza humana parece inalterável, como se a evolução civilizacional entretanto sofrida pouco ou nada tivesse acrescentado à essencia do espírito humano. A ambição, a represália e o ressarcimento de afrontas, a sedução feminina, os ardis, as armadilhas e a explosão de paixões são as mesmas. E até podemos verificar que algumas guerras contemporâneas foram determinadas por razões bem mais mesquinhas. Em Tróia, uma questão de honra estava no centro do conflito, caso para sentirmos vergonha dos motivos que recentemente determinaram certos conflitos ainda vivos na nossa memória.


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