Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
O FALSO DILEMA

 

 
Isto passou-se há mais de 50 anos em Nova York. Estava eu então impressionado (pessimamente) com a enormidade dos estragos, incómodos e até violência causados por uma greve nacional dos teamsters – motoristas de caminhão – quando, numa troca de impressões com um empresário (média empresa), lhe ouvi o seguinte comentário aos acontecimentos: “É o preço que temos que pagar pelo progresso. As greves  têm contribuído para elevar o nível de salários e este, por seu turno, alargou o mercado interno para as indústrias. Estragar para melhorar poderá parecer um processo absurdo, mas funciona”.
 
A verdade é que depois de ouvir a observação do meu interlocutor self-made man, alterei gradualmente a minha perspectiva sobre a questão social. Onde eu via um conflito irredutível passei a ver uma fonte de sinergias virtuosas. Adquiri uma certeza: embora o diagnóstico de Karl Marx estivesse correcto, o seu prognóstico era falacioso. A luta de classes existia mas não era preciso acabar com ela mediante eliminação de um dos antagonistas. Em 1989, em Berlim, tivemos a confirmação: suprimida uma classe e acabado o conflito, a sociedade comunista entrou em entropia e apagou-se. A ideologia “eterna” faleceu ali e então.
 
Já nos anos 90, quando estudei o fenómeno do desenvolvimento económico sul-coreano, constatei que os preconizadores do modelo tiveram o cuidado de provocar artificialmente uma  luta de classes. Foi criada uma classe capitalista, arrebanhando os especuladores que tinham conseguido fazer fortuna durante a Guerra de 1950. Exigiu-se-lhes  que criassem as indústrias constantes do programa oficial. Se o não fizessem, os seus bens ser-lhes-iam confiscados ao abrigo de uma lei do enriquecimento ilícito então promulgada. As greves e outros processos de luta pacíficos - ainda que por vezes violentos - foram consentidos; tais actividades não podiam contudo colidir ou reduzir o horário laboral (48 horas por semana). E assim, em 30 anos, a Coreia do Sul passou de um dos países mais pobres do mundo para um dos 10 países com mais elevado rendimento per capita.
 
Diria pois que até hoje, o dilema capital-trabalho foi um falso dilema. Os dois factores completaram-se e funcionaram como êmbolos alternados da mesma máquina: um empurrou, o outro puxou. Aliás já o Romanos da República tinham chegado a conclusão semelhante: duas vezes (471 e 419 a.C.,) a plebe encaminhou-se para as montanhas com o intuito de se eximir ao domínio opressor dos patrícios; duas vezes os patrícios lhe concederam regalias na condição de voltarem e duas vezes a plebe regressou a Roma. E a República durou mais 4 séculos.
 
+++
 
O ciclo virtuoso dá porém sinais de esgotamento. O grau de automatização e informatização atingido nos últimos anos dificulta, senão mesmo invalida, a conjugação dos opostos. A sede de lucro do burguês capitalista impõe hoje ao capital aplicações que já não servem para criar emprego e multiplicar as oportunidades de progressão oferecidas ao trabalhador. A economia pede cada vez menos mister e cada vez mais conhecimento. A empresa aproxima-se da universidade e afasta-se da escola industrial.
 
A isto tudo acresce o problema do ambiente. Poderemos continuar a produzir e consumir a este ritmo alucinante? Ao que dizem os entendidos, a resposta é negativa. Os frutos do sistema tornam-se pois menos acessíveis a crescente número de pessoas. Entramos assim no ciclo da exclusão.
 
+++
 
O “Clube de Roma” já tinha profetizado que, como resultado do desenvolvimento tecnológico acelerado, o mundo se tornaria caótico e assistiríamos a grandes perturbações de cunho político, económico e ambiental.
 
O que fazer em tais circunstâncias?   Desconfio que, de momento, ninguém tem respostas. Uma coisa contudo é certa: as soluções de ontem não servem. Vamos ter que tactear prudentemente em busca de novas saídas.
 
Estoril, 22 de Setembro de 2009
 
 Luís Soares de Oliveira
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:07
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4 comentários:
De joão horta a 23 de Setembro de 2009 às 16:02
Aprendi coisa semelhante por experiência própria de gestão internacional de operações em 6 países - para onde tinha sido mandado por nunca terem tido lucros anteriormente. Em 40 anos só tive 3 de prejuizos por factores externos impossíveis de controlar (era um grupo internacional de seguros...). Um dos segredos foi de aumentar salários - exigindo responsabilidade e resultados. Ou demissão. Não me lembro de ter demitido ninguém em 40 anos...
O facto de termos salários mínimos em Portugal substancialmente inferiores aos de Espanha, revela profunda estupidês (dos governantes que não dos empresários que vão comprando os seus "Ferrari's"). Aliás similarmente ao facto de continuarmos a manter preços de combustíveis, por exemplo, artificialmente superiores aos dos vizinhos. E taxas de IVA idem. Estamos alegremente a promover a economia dos outros. Será que é propositado? Porquê?


De Fulano a 23 de Setembro de 2009 às 18:16
Redução dos horários de trabalho!!! Não sei se resolve mas deve ajudar. Na minha, o dia de 8 horas, 5 vezes por semana é a atentatório dos direitos humanos. Isto , pelo menos, para tarefas rotineiras ou de dureza considerável. Disse.


De Henrique Salles da Fonseca a 24 de Setembro de 2009 às 09:25
RECEBIDO POR E-MAIL:

Um texto muito esclarecedor, o de Luís Soares de Oliveira, bem como os comentários que se seguiram, de experiências pessoais, um como empresário, outro como empregado. Porque os empresários, hoje, exploram os trabalhadores, em carga horária, sob a ameaça do despedimento. No fundo, o que falta sempre é equilíbrio e humanidade. Talvez maturidade, também. Porque se a Coreia do Norte conseguiu, porque não conseguimos nós nunca?
Berta Brás


De Adriano Lima a 24 de Setembro de 2009 às 22:41
Gostei imenso de ler este artigo. É um regalo de estilo e profundidade de pensamento.
Mas acho que, como aliás reconhece o autor, o “dilema capital-trabalho” e o “círculo virtuoso” são hoje reféns de uma complexidade que nada tem a ver com o passado de há décadas e muito menos com a lógica social das repúblicas romanas. Hoje, a política económica dos Estados está subordinada a imposições de um jogo global que pouca margem deixa a ensaios laboratoriais dentro dos sistemas internos. A aceleração do desenvolvimento tecnológico, os novos fenómenos do capitalismo, os problemas do ambiente e outros factores condicionantes do mundo actual requerem, ao que parece, a emergência de novas doutrinas filosóficas que regulem a vida deste homo sapiens. A evolução tecnológica foi rápida e desenfreada nas últimas décadas, mas o pensamento filosófico ficou léguas atrás.


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