Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Recuerdos argentinos

 

em 3 capítulos !

- 1 -

 

 BUENOS AIRES_OBELISCO2

 

Aqui mesmo ao lado – quase 3 horas de vôo Rio-Buenos Aires – e só agora surgiu a oportunidade de fazer uma rápida visita!

Cidade bonita, bem traçada, muito bem arborizada, largas avenidas e enormes e bonitos parques, clima magnífico, uma gastronomia, sobretudo nas carnes, que não tem confronto, ótimas massas – pastas – e uma imensa e sempre excelente variedade de vinhos. Moral da história: valeu a pena! E não foi só Buenos Aires.

Pelo que se consegue acompanhar através do noticiário internacional, a Argentina atravessa uma crise difícil, não só econômica, mas talvez até de identidade. Um país que no começo do século XX tinha conseguido elevar-se ao nível internacional do primeiro mundo, sendo, de longe o carro chefe de toda a América Latina, atraindo milhares de imigrantes, com uma imensa e forte classe média, parece não saber agora encontrar uma saída para os seus problemas, com um “casal presidente” a enriquecer, a querer perpetuar-se no poder, e a sobrecarregar ferozmente de impostos a economia, debilitada.

Continua a ter como “carro chefe” da sua economia a produção de trigo, milho e soja, carne e lã, e os famosos vinhos. Sendo o 5° produtor vinícola mundial exporta somente 20% da sua produção, já que o argentino, e os turistas, como eu por exemplo, não dão trégua a “coisa boa”!

Para compreender qualquer povo há que saber um pouco da sua história. Por hábito, nas minhas viagens sempre procuro comprar alguns livros de história do país. Sobretudo dos países dos “novos mundos” que ainda há relativamente poucos anos não tinham qualquer estrutura, saíram de colónias e tiveram que se fazer, Deus sabe com que lutas e sacrifícios.

Não se pode resumir a meia dúzia de linhas a história de quem quer que seja, mas alguns aspectos são importantes para traçar as linhas mestras.

Buenos Aires começa com um punhado de náufragos, no princípio do séc. XVI, ali abandonados, miseráveis, quase sem comida, sofrendo a pressão dos aborígenes, e onde só raramente passava algum navio que lhes pudesse aliviar o sofrimento. Ao fim de um, dois e até cinco anos lá vinha uma vela, uma “esmola”. Foram os portugueses do Brasil os que começaram a aparecer para com eles fazerem algumas trocas!

Sair daquele improvisado “refúgio” e penetrar nas pampas à procura de comida, de algum animal, era uma aventura difícil e perigosíssima: a planície, imensa, a perder de vista, não tinha pontos de referência. O regresso era uma lotaria! Um dia um grupo de aventureiros encontrou um manancial que parecia inesgotável: manadas de gado vacum, aos milhares, bravos, abandonados a si próprios, que naquelas terras ricas tinham encontrado comida abundante e excelentes condições de reprodução! Mas era impossível aproveitar a sua carne; não havia como transportá-la para a dividir com os outros, menos ainda como conservá-la. Os “pamperos” limitavam-se a abater as rezes, tirar-lhes o couro e deixar a carne para os ratos e outros animais da planície. Começa com couros a “moeda” dessa gente.

Aos espanhóis o que lhes interessava, depois da pilhagem do ouro dos incas, maias, aztecas, etc. era a prata de Potosi. Isso continuava a enriquecer a corte espanhola, mas a um custo elevado: toda a mercadoria enviada da “corte” para abastecer Lima e o Alto Peru, viajava em galeões até ao Panamá, atravessava aquele istmo no dorso de mulas, voltava a ser embarcada em navios no Pacífico até Lima, novamente carregada em mulas para atingir as minas, onde viviam uns quantos milionários e uma imensidão de trabalhadores, escravos e livres. A prata das minas fazia de volta o mesmo quase interminável, e caro, caminho.

Sonhava o vice-rei do Peru com uma saída para o Atlântico, que tornasse as viagens mais rápidas e baratas. Através do Brasil, era difícil porque os portugueses haviam de querer “direitos” de passagem e alfândega. Para o sul, Montevideo não existia e em Buenos Aires a coroa havia estabelecido um “virrey”, fora da jurisdição do “virreynado del Peru”! E por aqui começa o tráfego para o Alto Peru e o crescer do porto de Buenos Aires. A rota seguia por Córdova, Santiago del Estero, Tucuman e Jujuy, e pelo caminho se algum lucro ficava, era sobretudo para os “porteños”. Todos os colonos dependiam de um ou outro “virrey” mas o que os crioulos – espanhóis nascidos nas colónias, como no Brasil que separavam os brasileiros dos reinóis – procuravam era a independência financeira, já que política não lhes dizia respeito.

Com a invasão da Espanha por Napoleão, e da vergonha que reinava naquele país, que chegou a ter um irmão de Bonaparte como rei, os povoadores dos “virreynados” das Américas entenderam que nada deviam à nova majestade, trataram de despejar o “virrey” e montar uma junta governativa. Mas à boa moda espanhola, cada um por si! Buenos Aires tinha o porto de entrada das mercadorias e ficava com a totalidade das receitas da “aduana”, e as outras regiões da actual Argentina, o interior, que se...

Para se tornarem autênticos argentinos, sendo praticamente todos filhos ou descendentes de espanhóis, criaram contra estes uma guerra absurda: filhos contra pais e avós, chegando ao ponto de correrem da cidade com os espanhóis solteiros e alguns comerciantes já endinheirados que aproveitaram para espoliar! No interior os governantes sucediam-se, a maioria em situação de pouco mais do que penúria, e com a rapidez com que uma faca corta um pescoço! Era o método mais usual para troca de governo!

Entretanto Buenos Aires crescia, fomentava a criação de carneiros e organizava a de bovinos, em meados do século XIX sobrava-lhe dinheiro e, muito inteligentemente, planificou uma magnífica cidade, importou espécies arborícolas sobretudo da Europa, lançou linhas de caminhos de ferro para todo o lado (ainda hoje a rede ferroviária é superior ao somatório de todas as linhas dos restantes países da América do Sul, Brasil incluído) fomentou a educação criando a obrigatoriedade do ensino primário e estabelecendo a gratuidade no secundário e nas universidades (três delas fundadas no século XVI). O interior... pedia esmola!

Um dia os argentinos descobrem no seu país (ainda 1/3 do território era terra dos índios) as famosas terras roxas, talvez as melhores do mundo para agricultura, enchem os celeiros de trigo e milho, desenvolvem a vinha nas “orillas” dos Andes, e quando finalmente conseguem uma máquina para fazer frio, as suas imensas manadas de gado logo vão abastecer a Europa, sobretudo a Inglaterra.

Mas, e os índios? Os índios... atrapalhavam os “assentamentos cristãos”, e “houve que” lhes dar caça! Chegaram a pagar a caçadores de índios pelas orelhas que traziam! Mas história vergonhosa e triste não interessa.

Até aos anos 30 do século XX Buenos Aires desenvolveu-se muito e já não tratava o interior como bastardos! A Argentina atraiu imigrantes sobretudo para a agricultura e pecuária, cresceu, o povo alfabetizado, a classe média forte, mas as ideias socialistas e anarquistas fizeram também a sua aparição! E com eles a chegada dos militares ao poder, e do maior apoio das oligarquias tradicionais! Vem a 2ª. Guerra Mundial e as exportações de alimentos tornam-se mais difíceis, apesar do enorme aumento do valor dos produtos. Em 46 assume Perón, ditador sem experiência nem ideias, pactuando e desarticulando à esquerda e à direita, a Evita a querer ajudar os mais desafortunados, e o inevitável golpe militar que culmina com o desespero da Guerra das Malvinas para ver se calavam a opinião pública que clamava não só pela situação económica, mas pelas centenas de milhares de activistas e estudantes que o poder das armas havia feito desaparecer. Até hoje! Centenas de milhares.

Voltam os civis e depois disso só um governo poderia ter dado certo não fosse a mesma herança castellana “si hay gobierno, yo soy contra”: Alfonsin. A saga prossegue, e talvez sobretudo agora, porque os momentos que atravessamos são sempre os mais percebidos, sente-se um descontentamento geral, uma insegurança face às atitudes do “casal presidente”, e assiste-se até à imigração de argentinos para qualquer lugar onde se sintam mais seguros!

Com tanto desgoverno algumas universidades estaduais perderam a hegemonia e qualidade propiciando a abertura de outras privadas.

De qualquer modo a Argentina é um país que vale muito a pena... tudo!

No próximo capítulo vamos falar até de tango, e como não podia deixar de ser, do imortal Carlos Gardel! Quem não gosta?

 

Rio de Janeiro, 16 de Setembro de 2009

 Francisco Gomes de Amorim

 


tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:03
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 19 de Setembro de 2009 às 10:15
RECEBIDO POR E-MAIL:

Eu gosto. E também gostei muito deste, tão humanamente esclarecedor, a abrir o apetite para os que se seguirão, a mostrar-nos quanto foi dura a marcha no tempo, e quanto o homem progrediu, também à custa dos primeiros, é certo. Mas trabalham e desenvolvem-se, com erros, certamente, mas com inteligência também. E a Evita Perón, e a canção "Don't cry for me, Argentina", e o Maradona são marcas simpáticas e tristes da sua história do nosso tempo. Também lembro a Guerra das Malvinas, que passou por nós. E tanto há para saber!
Berta Brás


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
18
19

21
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

LIDO COM INTERESSE – 11 A

ADESÃO DA GUINÉ-EQUATORIA...

«GRANA PADANO»

17 HOSPITAIS NA ROTA DA Í...

LIDO COM INTERESSE - 11

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

arquivos

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds